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RAZÃO

DERMENGHEM. Joseph de Maistre Mystique. Texto Original

  • A combinação harmoniosa de catolicismo rigorosamente ortodoxo e teosofia que Joseph de Maistre realizou, aprofundando o dogma por uma tradição metafísica e buscando contato mais estreito com o indizível, confere ao seu pensamento religioso um caráter particularmente original.
    • Sem a experiência maçônica de quase quarenta anos, a adesão às doutrinas martinistas, a frequência às sessões mágicas dos teurges lioneses e a cópia manuscrita dos tratados esotéricos do Filósofo Desconhecido — Louis-Claude de Saint-Martin —, a obra de Maistre não teria assumido a forma que assumiu.
    • Willermoz, cujas instruções secretas Maistre estudou com ardor crítico, e o senador Tamara, interlocutor místico que exerceu sobre ele influência sedutora, figuram entre as referências formativas decisivas.
    • A leitura da abundante literatura hermética, o estudo das iniciações da Grécia e do Egito e dos arcanos do Cristianismo nascente alimentaram uma apologética ao mesmo tempo nova para o seu tempo e capaz de prestar grandes serviços quando bem compreendida.
  • Maistre tomou consciência da importância e do valor futuro da atitude intelectual a que havia chegado, provavelmente após sua estada em Lausanne, quando concebeu uma obra em que o sistema católico seria examinado sob um ponto de vista novo.
    • A nota breve do Diário inédito de Maistre revela a emoção contida diante da descoberta de sua vocação.
    • Goethe, ao escrever de Itália a seus amigos distantes na Alemanha — “Começo a distinguir o que me é próprio do que me é estranho; trabalho muito e cresço interiormente” —, oferece paralelo preciso para a tomada de consciência de Maistre no exílio.
    • Maistre formula sua intenção nos seguintes termos: “Não empreenderia escrever sobre um assunto tão frequentemente tratado se não esperasse poder apresentá-lo sob um novo ponto de vista e com novos argumentos.”
  • A intenção declarada é demonstrar até que ponto essa formação de espírito permanece válida e fecunda, examinando do ponto de vista filosófico e teológico as diferentes ordens de ideias em que se manifestam os caracteres essenciais do pensamento religioso de Maistre.
    • Após a exposição geral e histórica dos grandes traços da religião de Joseph de Maistre, passa-se ao exame dos problemas que tal formação permite iluminar e eventualmente resolver de modo mais perfeito.
  • A teoria maistriana do Conhecimento serve de base às especulações mais ousadas e às conclusões religiosas últimas, dominada pela grande ideia de são Paulo — “o mundo é um conjunto de coisas invisíveis, manifestadas visivelmente.”
    • O percurso analítico exige primeiro examinar as considerações que conduzem a essa fórmula paulina, para depois descer o outro versante e examinar as consequências de tal ponto de vista.
  • Maistre, cujo tradicionalismo difere sensivelmente do tradicionalismo contemporâneo e não se limita a seguir as pegadas dos mortos ou a integrar o indivíduo numa raça, prefere à fórmula de Maurice Barrès — “não há pensamentos pessoais” — a proposição: “toda ideia universal é natural”, isto é, verdadeira.
    • A diferença entre as duas formulações marca a distância entre um nacionalismo cultural e uma metafísica da universalidade.
  • Combatendo no terreno intelectual o princípio do livre exame, que afirma a autonomia absoluta da razão pessoal, Maistre sustenta que o interesse desta mesma razão é apoiar-se nas luzes da tradição, pois, entregue a si mesma, ela não dispõe senão de forças ilusórias.
    • A Razão, enquanto faculdade de emitir juízos abstratos e universais, deve expressar-se coletivamente pelo “senso comum.”
    • O princípio do consenso universal é formulado nos seguintes termos: o que é verdadeiro é o que foi crido sempre, em todo lugar e por todos — válido não apenas no domínio da revelação religiosa, mas em toda a ordem lógica.
  • As expressões que retornam constantemente sob a pena de Maistre ao enunciar alguma verdade importante são: “a crença geral, a razão geral, o instinto natural, a experiência e o consentimento universal das nações.”
    • Esse critério guia Maistre através das especulações mais delicadas.
  • O pensamento não funciona no absoluto nem, por assim dizer, no vazio — assim como o cristão que age conhece o valor do sacrifício e busca a liberdade moral pela submissão ao infinito, o homem que pensa deve sacrificar o orgulho da razão pessoal e submeter sua inteligência a tudo o que reconhecer superior a ela.
    • Santo Agostinho reabsorve sublime mente no amor tanto o fim do conhecimento perfeito quanto o da atividade voluntária.
    • Há uma relação misteriosa entre universalidade e verdade, assim como entre verdade e utilidade.
  • As noções de universalidade, verdade e utilidade devem ser tomadas em sentido transcendente — Maistre aplaudiria a palavra de Ibsen, “as maiorias têm sempre errado”, e ao mesmo tempo a teoria das ideias universais recupera, em certo sentido, o antigo adágio “Vox populi, vox Dei.”
    • A oposição entre as duas formulações é apenas superficial: não é necessariamente a maioria que encarna ou exprime a alma coletiva.
    • Para Maistre, o povo é sempre quase juridicamente menor, “pois é sempre criança, sempre louco, sempre ausente”; sua vontade é inexistente, sem valor e inexprimível.
    • A multidão, ao somar apenas incompetências, não será senão um monstro amorfo e poderoso apenas para o mal.
  • Tudo muda se uma hierarquia normal vivifica o organismo coletivo ou se a evolução espontânea da história o enquadra em instituições providencialmente consagradas — e muda igualmente se se escuta a “voz do povo” nas tradições universais, que são como a consciência espontânea do gênero humano.
    • Nem o mal, nem o erro — que é o mal intelectual — possuem as promessas da vida eterna e os caracteres sobre-humanos da universalidade.
    • Maistre formula em lógica a seguinte regra: toda crença constantemente universal é verdadeira, e sempre que, separando de uma crença qualquer os artigos particulares a diferentes nações, resta algo comum a todas, esse resto é uma verdade.
  • É indispensável distinguir entre vulgar e geral, entre a opinião da multidão e o senso comum — as filosofias tomista e bergsoniana se orgulham por vezes de reconhecer o valor deste último e de tê-lo aprofundado, justificado e sistematizado.
    • Um teólogo conhecido escreveu: “Para que um espírito pense bem, é preciso e basta que pense naturalmente, isto é, não ao acaso, mas conforme os princípios de seu ser, que se ligam aos princípios do ser.”
    • Não se trata de condenação absoluta, mas de subordinação da razão individual.
    • Certos tradicionalistas e os fideístas sacrificarão quase integralmente a razão individual, mas a filosofia cristã não pode negar a origem divina dessa faculdade, que, por sua participação na grandeza de Deus, é uma espécie de espelho do mundo.
  • Maistre afirma que “o homem que é filho da verdade está tão bem feito para a verdade que só pode ser enganado pela verdade mal interpretada ou corrompida” — o que equivale a dizer que o erro não possui, a rigor, força positiva.
    • A razão é um instrumento admirável quando manejado segundo a lei, mas, manejada pelo indivíduo revoltado e recolhido sobre si mesmo, não pode senão conduzir ao erro.
    • É nesse sentido, e somente nesse sentido, que se deve admitir a palavra conhecida de Bossuet: “O herege é aquele que tem ideias pessoais.”
    • Maistre declara: “No mundo moral… é a razão geral que segura o cetro… e a filosofia, isto é, a razão individual, torna-se nociva e portanto culpada se ousa contradizer ou pôr em questão as leis sagradas dessa soberana, ou seja, os dogmas nacionais.”
  • A expressão “dogmas nacionais” poderia parecer ambígua e o ponto de vista ali exposto excessivo — mas Maistre tinha em grande desprezo o “orgulho nacional” e os “preconceitos nacionais.”
    • O abade Rey, amigo de Maistre, escreveu-lhe a propósito do galicanismo: “Que diz o senhor de um dogma nacional? Para mim, só conheço dogmas católicos, e desde que seja nacional, não é mais dogma.”
    • Não está no sentido geral da filosofia de Maistre sustentar a abdicação do espírito diante das organizações terrestres, e ele sabe que é melhor obedecer a Deus do que aos homens.
    • O que está em questão nessa teoria do Conhecimento é limitar o abuso da razão pessoal, formular contra o cientismo e o método cartesiano um ceticismo criterioso e mostrar um critério do verdadeiro na consciência universal da humanidade — dotada, em virtude de suas origens divinas, de uma espécie de memória coletiva inconsciente que a faz participar da essência mais profunda do Cosmos.
  • No fundo dessa desconfiança contra o valor da razão individual, sobretudo no domínio moral e religioso, há, por um lado, a ideia mística da unidade e da solidariedade humanas — o pensamento não pode ser senão fragmentário quando dissociado na multiplicidade dos indivíduos e dos tempos.
    • Maistre mostra mais entusiasmo no trecho em que faz o Senador das Soirées descrever o deslumbramento causado pela descoberta do sistema da visão em Deus — comentário das palavras de são Paulo: “É nEle que temos a Vida, o Movimento e o Ser.”
    • O Senador exclama: “Os homens disseram poucas coisas tão belas quanto a célebre palavra de Malebranche: Deus é o lugar dos espíritos como o espaço é o lugar dos corpos.”
    • Dessa unidade em Deus resulta a solidariedade, que se impõe não apenas no domínio da metafísica e da moral, mas também no da lógica.
    • Maistre proclama: “Tudo o que há entre os homens de grande, de bom, de amável, de verdadeiro, de duradouro, prende-se à Existência, fonte de todas as existências. Fora dela, não há senão erro, putrefação e nada.”
    • Lamennais formula de modo análogo: “O homem não pode por suas forças assegurar-se plenamente de nenhuma verdade porque não pode, por suas forças sozinhas, dar-se nem conservar o ser.”
  • No fundo dessa desconfiança contra a razão individual há, por outro lado, um certo relativismo que, sem chegar ao ceticismo, coloca em dúvida a possibilidade de atingir a certeza pelo simples raciocínio.
    • O raciocínio valerá enquanto não sair de sua esfera — que Maistre define como “o círculo das ciências naturais” — pois “no mundo moral a filosofia humana deve lembrar que não está em seu terreno.”
    • O que justifica o valor da razão geral é que ela só pode apoiar-se no que há de essencial na natureza humana: ou se duvida de tudo, ou se considera como certo o que os homens em todos os tempos creem de modo certo e invencível.
    • Lamennais empreenderá combater “o sentido privado dos filósofos, dos deístas e dos ateus pelo senso comum dos homens ou pela autoridade do gênero humano”, assim como o catolicismo combate “o sentido privado dos hereges pelo senso comum dos cristãos, ou pela autoridade da Igreja.”
    • O critério do senso comum se confunde, afinal, com o da autoridade — e Lamennais, como Maistre, ataca a razão individual independente por ver nela um verdadeiro “protestantismo filosófico.”
  • Às inúmeras e variadamente diversas doutrinas errôneas que a história oferece como espetáculo, opõe-se um resíduo — “um fundo comum de verdades inalteráveis, perpetuamente conhecidas e proclamadas pela razão universal” —, que constitui a verdade atingida pela razão geral e que é também o conteúdo essencial da Revelação religiosa.
    • A Revelação se degrada desde Adão até as extremas perversões do paganismo e do fetichismo, mas se restaura progressivamente ampliada de Abraão a Moisés, de Moisés a Jesus Cristo e deste à nova efusão do Espírito.
    • Maistre não quer sacrificar completamente a razão, cujo defeito maior censura ser a insubmissão e a presunção — é o estado de decadência oriundo do pecado original que limitou assim a potência da inteligência humana.
    • A última carta que Maistre escreveu em seu leito de morte é para aconselhar prudência ao autor do Ensaio sobre a indiferença — Lamennais —, cujo segundo volume acabara de aparecer: “Tome cuidado, senhor abade, vamos devagar; tenho medo e é tudo o que posso dizer.”
  • O que Maistre reprova sobretudo a Bacon, nos dois volumes em que se mediu com o ex-chanceler da Inglaterra, é precisamente separar demais a razão e a fé, o que retira toda a força à revelação — pois esta necessita, qualquer que seja sua transcendência, da razão bem dirigida, que “não fez senão retirar o véu fatal que não permitia ao homem ler no homem.”
    • O homem decaído deve esforçar-se por reparar intelectualmente, tanto quanto moralmente, as consequências da queda.
    • O papel da razão nas especulações metafísicas e religiosas será o de preparar para a fé, depois combater por ela, fornecer-lhe argumentos, refutar objeções.
    • A fé não é, afinal, senão um conhecimento sumário das verdades indispensáveis — e se pode conceber uma alta ciência que, baseada nela, a complete e aprofunde, e que será, por assim dizer, o papel de Maistre como filósofo religioso.
  • Maistre, assim como Saint-Martin — o Filósofo Desconhecido —, não é partidário de uma fé cega; deseja basear a fé no pensamento, apoiando a razão pessoal na razão geral, e não vê na religião nada a temer da verdadeira ciência.
    • Maistre pensa, e isso lhe foi censurado por alguns, que da união entre ciência e fé poderá nascer um conhecimento mais perfeito e mais elevado.
    • Interrogado sobre se o estado presente da filosofia moderna permite esperar que ela corrobore os princípios das Escrituras Sagradas — sobre os atributos de Deus, a imortalidade da alma e a Redenção —, Maistre responde afirmativamente.
    • Desde 1797, Maistre considera adquirido que não se pode tomar o início do Gênesis “no sentido dos sentidos”, mas que é preciso tomar ao figurado as palavras dias, céu e terra — e que, compreendida essa ideia, “os maiores progressos poderão ser feitos em apologética como em cosmologia.”
    • Maistre conta com o futuro para renovar inteiramente a questão: “Certamente aparecerá um dia alguma obra singular onde a grande questão será encarada sob esse ponto de vista totalmente novo.”
  • A ciência é comparável a uma espécie de ácido que dissolve todos os metais exceto o ouro — um vento quente que derruba o edifício não divinamente construído sobre a pedra angular, mas do qual não tem nada a temer a cidade das almas solidamente cimentada pela unidade.
    • Maistre proclama corajosamente “a afinidade natural” da verdadeira ciência e da verdadeira religião, e aguarda o homem de gênio que as reunirá ambas em sua cabeça — conforme as Soirées, 11º encontro.
    • “Já mesmo a força das coisas constrangeu alguns sábios da escola material a fazer concessões que os aproximam do espírito.”
    • Os serviços que a verdadeira ciência presta à verdadeira religião, os perigos da ciência para as religiões imperfeitas, os perigos da falsa ciência revoltada para a religião e os serviços que a verdadeira religião presta à verdadeira ciência — tais são os elementos que a análise descobre no pensamento maistriano.
  • Maistre está longe de sacrificar completamente a razão aos dogmas revelados — e, ao mesmo tempo, não sacrifica à ciência a fé e a revelação tradicional.
    • Se admite que a razão particular pode consolidar os dogmas uma vez conhecidos, e mesmo chegar ao conhecimento de algumas verdades, e pensa, como Bacon, que a “teologia natural” chega a refutar o ateu, não crê que ela seja capaz de estabelecer as verdades propriamente religiosas.
    • “Ninguém jamais rezou a Deus senão em virtude de uma religião revelada; e o que é verdadeiro da oração é ainda mais da caridade divina, da qual o cristianismo sozinho pôde fazer um preceito” — Soirées, 9º encontro.
    • Maistre não pode crer que Sêneca e Plutarco, tão superiores em sua filosofia religiosa, tenham chegado a essas altas verdades sem algum conhecimento dos dogmas mosaicos ou cristãos.
  • A ciência é um dissolvante perigoso para toda religião que não seja a verdadeira e solidamente apoiada no princípio de unidade — a Igreja católica, depositária do patrimônio humano das verdades em todo lugar e sempre reconhecidas, não tem nada a temer da ciência.
    • As igrejas separadas do tronco vivo evoluem segundo a lei do movimento acelerado: do luteranismo ao calvinismo, ao socinianismo e enfim ao deísmo.
    • As igrejas ortodoxas, ou melhor “fotianas” — grega e russa —, são descritas como “cadáveres gelados” que vangloriados de sua “fé encadernada em pergaminho”, conservadas apenas pelo “frio da ignorância.”
    • A verdadeira religião “não tem nada em comum com a invariabilidade dos dogmas escritos, das fórmulas nacionais, dos trajes, das mitras, dos cajados, das genuflexões” — ao contrário, “é a que muda o homem, o exalta tornando-o suscetível de um grau mais elevado de virtude, de civilização e de ciência.”
    • Se a ciência for importada de repente em um país inculto como a Rússia, a religião imperfeita ali entrará “em estado de verdadeira dissolução” à espera do “aniquilamento absoluto.”
    • “O liame da unidade sendo rompido, tudo se reduz ao julgamento particular e à supremacia civil.”
  • Se as falsas religiões têm tudo a temer da verdadeira ciência, a verdadeira religião pode no entanto sofrer da falsa ciência ou, mais exatamente, do cientismo e de todos os abusos da razão desencadeada.
    • “Envieis a uma nação nova acadêmicos antes de lhes ter enviado missionários e vereis o resultado” — Soirées, 10º encontro.
    • A obra de Maistre contém uma crítica do cientismo que não estaria ultrapassada um século depois, após Berthelot, Taine, Renan e Le Dantec.
    • Um dos químicos mais notórios de seu tempo — G. Urbain — escreveu que o tempo lhe parecia muito distante quando entrava no laboratório como o padre sobe ao altar, e declarou que a ciência não tem por objetivo explicar, mas constatar e prever: “Podemos apenas nos familiarizar com os fenômenos e prever seu retorno com uma probabilidade mais ou menos grande.”
    • A religião, a filosofia e a moral têm ainda sua palavra a dizer — “a ciência renuncia a substituí-las como a ser o único fim, o único guia, o único esperança e o único salvador do gênero humano.”
  • Maistre se eleva também contra os “pretendidos sábios” que, em vez de permanecer em seu lugar — que é o segundo, conforme as Soirées, 8º encontro —, pretendem dogmatizar sobre a metafísica, a política e a moral.
    • Sobre os cientistas que se orgulham de suas “descobertas infantis” sem jamais se perguntar o que são e qual é o seu lugar no universo: “Tudo é importante para eles, exceto a única coisa importante” — Mémoire à Brunswick.
    • “Quanto mais a razão individual é instruída, mais facilmente ela pode tornar-se culpada” — Soirées, 10º encontro.
    • Quando a razão pretende voar com suas próprias asas e dispensar a revelação, ela se assemelha a “uma criança que bate em sua ama de leite.”
    • O governo dos técnicos ou o reino renaniano dos sábios é antecipadamente denunciado por Maistre.
    • Bonald, cujo pensamento é em certos pontos próximo ao de Maistre, resumiu antecipadamente todas as críticas futuras à nova ordem social: “Nos estados modernos, a administração das coisas se aperfeiçoou em detrimento da dos homens… O país onde há mais fortunas colossais é também aquele onde há mais pobres… A Sociedade na Europa encontra-se em um estado violento.”
  • A inteligência não pode ser satisfeita pelo cientismo estreito, que não pode dar nem uma fé às almas, nem uma resposta às questões importantes colocadas pelo espírito, nem render conta de todos os fenômenos, nem realizar a harmonia na cidade — não há verdadeiro progresso sem o aperfeiçoamento do homem interior.
    • “As ciências naturais não são e não devem ser o principal fim da inteligência.”
    • “É um erro deplorável crer que as ciências naturais são tudo.”
    • “As teorias materiais não contentam de modo algum a inteligência… os movimentos do universo não podem ser explicados por leis mecânicas” — Soirées, 11º encontro.
    • Maistre, que em certos aspectos se mostra tão próximo do pensamento de Auguste Comte, é aqui nas antípodas do positivismo — e estima que “não há ciência que não deva prestar contas à metafísica e responder às suas questões.”
    • “Os males que nos esperam são incalculáveis, seremos embrutecidos pela ciência e este é o último grau do embrutecimento.”
  • A união harmoniosa de ciência e fé pode produzir os frutos mais felizes — a tradição universal é a base natural e o apoio mais precioso da especulação e da observação, e a religião é a mãe da ciência.
    • “O cetro da ciência não pertence à Europa senão porque ela é cristã.”
    • Um mistério está na base de toda ciência: não se compreende o princípio do cálculo infinitesimal, não se sabe o que é a gravitação — “a biologia e a química reservam tais surpresas que não se ousa mais zombar dos alquimistas.”
    • “Tudo se reporta neste mundo que vemos a um outro que não vemos.”
    • A Alta Ciência, de que Maistre fala no Mémoire à Brunswick sob os nomes de “Ciência do Homem” e de “Cristianismo transcendente”, é como a síntese de uma tripla colaboração hierarquizada entre ciência positiva, metafísica e tradição religiosa.
    • O princípio do mundo sobrenatural como causa verdadeira do mundo material é um dos leitmotivs de todo esoterismo e em particular das obras de Saint-Martin.
  • O dogma revelado pode ainda servir à ciência humana ao ajudar a pressentir verdades insuspeitadas — os dois mundos se correspondendo, o conhecimento de um pode contribuir para descobrir certas regiões do outro.
    • Seria abusivo dizer que “cada descoberta deva sair imediatamente de um dogma como o pintainho sai do ovo”, mas do dogma podem se deduzir importantes verdades da ordem humana ou natural.
    • “Não se pode atacar uma verdade teológica sem atacar uma lei do mundo.”
    • O ateísmo e o ceticismo são verdadeiros inimigos do Conhecimento — por eles, o espírito humano torna-se “uma terra inculta que não produz nada ou que se cobre de plantas espontâneas inúteis ao homem”, e “essas plantas, entrelaçando suas raízes, endurecem o solo e formam uma barreira a mais entre o céu e a terra” — Soirées, 10º encontro.
  • Em geral, os inventores e todos os homens originais foram “homens religiosos e mesmo exaltados” — as “ciências divinas” fecundaram seu espírito.
    • Kepler chegou a suas incomparáveis descobertas graças ao seu caráter profundamente religioso — sua terceira lei, que define que o tempo empregado por um planeta para descrever uma porção de sua órbita é proporcional à superfície da área descrita nesse tempo por seu raio vetor, “tem algo tão extraordinário, tão independente de todo outro conhecimento preliminar, que não se pode deixar de reconhecer nela uma verdadeira inspiração.”
    • A lei de Kepler foi descoberta “seguindo não sei quais ideias místicas de números e de harmonia celeste que… não são para a fria razão senão puros sonhos.”
    • A religião não pode “criar o talento que não existe, mas o exalta sem medida em toda parte onde o encontra, sobretudo o talento das descobertas.”
    • Bacon formulou corretamente que a religião é “o aromático que impede a ciência de se corromper.”
    • A conclusão é que não as convém separar — “a ciência não deve sair de seu domínio; é seu interesse bem compreendido e seu dever. A religião tampouco deve, apesar de sua suserania de ordem geral e superior, sair de seu verdadeiro papel: ela sabe que é feita para orar e não para discutir, pois sabe com certeza tudo o que deve saber” — Soirées, 4º encontro.
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