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FRANÇOIS SECRET

François Secret. Kabbalistes chrétiens de la Renaissance

Introdução à edição italiana

A introdução à edição italiana do texto “Os Cabalistas Cristãos do Renascimento” reconhece seu caráter pioneiro e fundador no campo de estudos da cabala cristã.

  • A obra é considerada uma referência indispensável, tendo renovado o campo de estudos por meio de sua contribuição erudita, aproximadamente trinta e cinco anos após sua primeira publicação.
  • O objetivo declarado do livro é destacar os principais autores e textos da cabala cristã por meio do exame conjunto das fontes e do contexto histórico.
  • A estrutura da obra combina um itinerário diacrônico pelos expoentes da corrente na Europa com capítulos temáticos sobre reações religiosas, influência na “filosofia oculta” e desdobramentos até o século XVII.
  • A análise é caracterizada pela extrema precisão, condensando temas essenciais em poucas linhas, ainda que isso possa tornar a leitura menos didática para não iniciados.
  • A obra não se propõe a ser uma síntese definitiva, mas sim uma panorâmica da idade de ouro da cabala cristã para traçar perspectivas de trabalho, dependente de estudos monográficos preliminares.

A opção metodológica da obra foi validada pela pesquisa posterior, que continua a produzir monografias, edições e artigos sobre aspectos definidos.

  • Não houve, até o momento do comentário, uma tentativa de avaliação global da corrente multifacetada da cabala cristã.
  • Os estudos posteriores concentram-se em monografias sobre autores específicos, edições ou traduções de textos e coletâneas sobre temas delimitados.
  • Deseja-se que o campo de estudos, após multiplicar pesquisas de detalhe, desemboque em perspectivas mais amplas e sustentadas por trabalhos de conjunto sólidos.

Aponta-se a necessidade de caracterizar a natureza das relações entre o surgimento da cabala cristã e as novas formas da “filosofia interior” no contexto da pré-Reforma católica.

  • Busca-se relacionar o movimento da cabala cristã com o que hoje se considera “esoterismo cristão”.
  • Duas facetas principais do contexto de manifestação da cabala cristã são destacadas: o ambiente intelectual e humanista e o clima mais especificamente espiritual.

A comparsa da cabala cristã está ligada à atmosfera erudita agitada pelo advento do Humanismo na Europa.

  • A difusão do aprendizado da língua hebraica no mundo cristão, inerente ao “século dos Políglotas e dos colégios trilingues”, conduziu a uma modificação sensível nas relações entre cristianismo e judaísmo.
  • O aprendizado linguístico do hebraico, estendido a outros idiomas semíticos e difundido pela imprensa, transformou o temor cristão em relação à língua veterotestamentária.
  • A língua hebraica passou a ser considerada um instrumento filológico indispensável e um veículo privilegiado de significações espirituais misteriosas, relacionadas à linguagem “paradisíaca” de Adão.

A problemática da origem divina da mensagem escriturística se complica com a confrontação a outros discursos religiosos no âmbito da prisça theologia.

  • Uma das principais consequências dessa noção foi a elevação de toda uma literatura “sapiencial” ao posto de doutrina religiosa autônoma.
  • A equiparação da “Lei oral” com a cabala levou muitos cristãos a desconhecer o papel do intermediário halácico e a confundir esoterismo judaico com o que não lhe diz respeito.
  • Os cristãos aplicaram uma hermenêutica espiritual diretamente ao texto literal da Escritura, sem considerar suficientemente os diferentes níveis de significado presentes nas fontes judaicas.
  • A incompreensão da interpretação “legal” do texto sagrado constitui um problema distinto da questão dos múltiplos níveis de significado da Escritura.

O contexto intelectual e humanista favoreceu o contato com eruditos judeus e a leitura de tratados cabalísticos em latim ou em tradução.

  • Mencionam-se os contatos pessoais com eruditos judeus, convertidos ou não, que atuavam como copistas ou tradutores.
  • Cita-se o exemplo das compilações traduzidas em latim para Pico della Mirandola e daquelas utilizadas principalmente por Johannes Reuchlin.
  • Os cabalistas cristãos tiveram acesso essencialmente a compilações de autores como Menahem Recanati, Bahya ben Asher e Moisés ben Nahman.
  • Esse contexto assistiu, em um clima neoplatônico, à magia, astrologia e doutrinas herméticas adquirindo um estatuto intelectual sem precedentes, em concorrência com a teologia católica.
  • Destaca-se a interação entre preocupações mágicas e cabalísticas, como perfeitamente evidenciado no caso de Pico della Mirandola.
  • Elementos mágicos e neoplatônicos estão longe de estar ausentes das perspectivas do próprio judaísmo, conforme mostrado por Moshe Idel e Charles Mopsik.
  • Moshe Idel sublinhou o importante influxo neoplatônico sobre a cabala judaica, principalmente a italiana, e sobre “somas” como a de Menahem Recanati, que marcaram suas conexões com os cristãos.

Aborda-se a questão do hiato entre teologia e vida espiritual, buscado pela cabala cristã para ser preenchido.

  • A partir do século XIII e de Tomás de Aquino, a maior “emancipação” da pessoa humana individual reforçou a separação entre teologia e “sabedoria”.
  • Consequência disso é um hiato entre a teologia e a vida espiritual, gerando um déficit intelectual nesta última, que gradualmente se distancia do discurso teológico.
  • Abordagens como a da cabala cristã buscarão colmatar esse déficit na vida espiritual.

O aspecto “mítico” é tão importante quanto o racional, especialmente por ser onde a desafecção das perspectivas cristãs se faz mais sentir.

  • O aspecto mítico é essencial como “substrato” da vida espiritual e da busca individualizada da sabedoria.
  • Guillaume Postel é citado como o cabalista cristão mais introduzido no imaginário do Zohar e um dos mais engajados na busca sapiencial vivida segundo os critérios evangélicos.
  • A dimensão “mítica” em Postel envolve temas do messias feminino e do “papa angélico”, vividos como tensão existencial concreta e indissociável de suas ilusões e reivindicações messiânicas.
  • A associação íntima entre espiritualidade e intentos reformadores é uma marca de época, que define Paracelso como “o Lutero da medicina” e produzirá Giordano Bruno.
  • Figuras como Ficino e Tritêmio preconizaram uma reforma da magia para dispor de um instrumento adequado para a restauração da própria religião cristã.

O problema central da época é o da linguagem e de suas virtualidades para-semânticas, sendo essa uma das maiores preocupações do Renascimento.

  • A época lida com o instrumento polivalente da linguagem, suscetível de ornar, seduzir, enganar, traduzir e confrontar-se com a realidade.
  • Na corrente da cabala cristã, a polissemia da linguagem não é arbitrária e pode pretender esgotar o real mediante múltiplos níveis de significado.
  • O linguagem é o agente duplo por excelência da colusão entre o ontológico e o inteligível, revelando suas engrenagens e arcanos.
  • A língua hebraica e o texto sagrado ocupam uma dimensão central, pois é com esse idioma que Deus se nomeia e se revelou ao homem.
  • Um Reuchlin buscou na língua hebraica a “restituição” do supremo Nome divino, assimilado ao de Jesus e operador de toda maravilha.

A ambiguidade constitutiva entre linguagem escrita e oral e seus complexos intercâmbios de preeminência simbólica emergem da importância dos nomes divinos e angelicais.

  • Os cabalistas cristãos buscam meios eficazes para a transformação espiritual do homem, meios esses extraídos do judaísmo devido ao problemático relacionamento do cristianismo com sua própria tradição mística.
  • Observa-se um afastamento gradual do universo bíblico propriamente dito, tornado objeto exterior de erudição, em favor de uma ratio teológica e filosófica estrinseca.
  • O corpus da cabala cristã inclui principalmente comentários ao Zohar, ao Sefer Yetzirah (considerado obra cabalística), ao Sefer ha-Bahir e ao Talmude, especialmente para temas cristológicos.
  • A obra de Guillaume Postel é considerada uma exceção considerável no que tange ao tratamento mais amplo de aspectos cosmológicos, angelológicos e demonológicos.

As especulações de tipo “mágico” ou “teúrgico” foram aquelas a receber maior atenção por parte dos cabalistas cristãos.

  • Esse interesse se aproxima da “reformulação” contemporânea do “esoterismo”, em contraste com perspectivas que se concentram apenas na hermenêutica textual.
  • A busca pela transformação do homem está ligada ao poder dos nomes divinos, considerados extensões da divindade e veículos de sua energia.
  • A Escritura é considerada um “tecido” desses nomes divinos, cujas “derivações” angélicas ilustram a dependência ontológica dessas entidades para com a divindade.
  • Na ordem da linguagem oral, o emprego invocatório dos nomes dá lugar a uma liturgia interna pela qual o cabalista cristão interioriza a “escala” ontológico-inteligível.
  • Mediante a oração associada à meditação do texto sagrado, os nomes se transformam em estágios da subida interior rumo ao divino, tornando-se intermediários ativos de um conhecimento espiritual intuitivo de função salvífica.
  • A tonalidade essencial desse processo é a simplicidade ritual, que favorece um despojamento subordinado à intelectualidade entendida como conhecimento transformador suprarracional.

Conclui-se que essa ascese intelectual sobre fundamento erudito foi o canal privilegiado de assimilação dos dados do esoterismo judaico em âmbito cristão.

  • A cabala cristã conduziu esse processo cognitivo e místico a um ponto de desenvolvimento eloquente, na busca de uma interioridade evangélica renovada pela meditação das fontes hebraicas.
  • O autor da introdução afirma que o leitor não dispõe, no estado atual, de uma apresentação mais completa, brilhante e bem informada sobre os representantes da cabala cristã do que “Os Cabalistas Cristãos do Renascimento”.
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