GRAÇA
François Chenique
Citando Paul Vulliaud, Chenique lembra que HEN em hebraico significa “graça”; os YODE HEN são os “adeptos da graça” (lit.: os conhecedores da graça) mas são também aqueles que conhecem a Sabedoria secreta, (HOKMAH NISTARAH) cujas iniciais HN formam precisamente a palavra “graça” (HEN).
René Guénon: APRECIAÇÕES SOBRE A INICIAÇÃO
Disso resulta que, no concernente à iniciação, a simples comunicação com os estados superiores não pode ser considerada como um fim, mas tão somente como um ponto de partida: se esta comunicação deve ser estabelecida primeiro pela ação de uma influência espiritual, é para permitir depois tomar a posse efetiva desses estados, e não simplesmente, como na ordem religiosa, para fazer descender sobre o ser uma «graça» que o liga a eles de uma certa maneira, mas sem lhe fazer penetrar neles. Para expressá-lo de uma maneira que será talvez mais facilmente compreensível, diremos que se, por exemplo, alguém pode entrar em relação com os anjos, sem deixar por isso de estar encerrado em sua condição de indivíduo humano, por isso não estará mais avançado do ponto de vista iniciático ; aqui não se trata de comunicar com outros seres que estão em um estado «angélico», mas sim de alcançar e de realizar a própria pessoa tal estado supra-individual, não, bem entendido, enquanto indivíduo humano, o que seria evidentemente absurdo, excetuando que o ser que se manifesta como indivíduo humano em certo estado, tem também nele as possibilidades de todos outros estados. Por conseguinte, toda realização iniciática é essencial e puramente «interior», ao contrário dessa «saída de si» que constitui o «êxtase» no sentido próprio e etimológico desta palavra ; e essa não é certamente a única diferença, mas ao menos uma das grandes diferenças que existem entre os estados místicos, que pertencem inteiramente ao domínio religioso, e os estados iniciáticos. De fato, é a isso ao qual é necessário voltar sempre em definitivo, já que a confusão do ponto de vista iniciático com o ponto de vista místico, cujo caráter particularmente insidioso tivemos que sublinhar do começo, tem a natureza de confundir alguns espíritos que não se deixariam apanhar nas deformações mais grosseiras das pseudo-iniciações modernas, e que inclusive poderiam talvez chegar a compreender sem muita dificuldade o que é verdadeiramente a iniciação, se não encontrassem em seu caminho estes enganos sutis que bem parecem estar postos aí expressamente para lhes desviar de tal compreensão.
Frithjof Schuon: O ESOTERISMO COMO PRINCÍPIO E COMO VIA
* O homem que perdeu a graça divina, portanto o homem comum, é como que envenenado pelo elemento passional de maneira rude ou sutil; daí resultando uma obscuração do Intelecto e a necessidade de uma Revelação oriunda do exterior. Retirem o elemento passional da alma e da inteligência — retirem “a ferrugem do espelho” ou do “coração” — e o Intelecto ficará liberto; ele revelará, do interior, o que a religião revela do exterior.
* A “solidão” mística, khalwah, cuja expressão ritual é o refúgio espiritual, corresponde à “abstração” metafísica; a “semelhança” propicia a graça da “resplandecência”, jalwah, cuja expressão ritual é a invocação de Deus praticada em comum.
* A árvore do meio ambiente é, simbolicamente, idêntica ao véu que separa a criação do criador. O pecado do primeiro casal humano foi ter levantado o véu, e a consequência foi o seu exílio atrás de um novo véu, mais exterior, separando-o da intimidade com Deus. De queda em queda, o homem criou para si novos véus separativos; assim, todo pecado é para o indivíduo um véu que o separa de uma graça anterior. Ao contrário, toda volta a Deus produz a queda de um véu e a recuperação de um Paraíso perdido.
* A Igreja russa celebra uma “festa do Véu” como lembrança de uma aparição de Maria em Constantinopla, durante a qual a Virgem levantou seu véu luminoso e o manteve, de forma miraculosa, acima da assistência. A palavra russa pokrof significa ao mesmo tempo “véu” e “intercessão”: a Maya que dissimula a Essência é simultaneamente a que comunica as graças.
* …as qualidades de “Servidor” e de “Enviado” concernem à natureza humana de Maomé: o homem “avatárico” é totalmente submisso a Deus e, por isso mesmo, serve de instrumento para Deus; a Revelação do divino pressupõe a extinção do humano. A essas duas qualidades ou funções se superpõem dois dons divinos, um que confere ao “Servidor” as graças equilibrantes, harmoniosas e tranquilizantes, e um outro que confere ao “Enviado” as graças fulgurantes, iluminadoras e vivificantes, isto é, precisamente a “Paz” e a “Bênção”.
* Tendo a alma abandonado em seu movimento deífugo a contemplação do Uno, consequentemente, os quatro elementos corporais deixaram por sua vez sua unidade primordial, a quinta essentia ou o Éter. Dissociaram-se e opuseram-se um ao outro, para acabar reunindo-se num plano inferior e compor o corpo corruptível do homem que perdeu a graça divina, conservando desde então seu corpo incorruptível como uma virtualidade pura.
* A consequência mais grave da queda não é a degradação da matéria primordial e, por conseguinte, seu caráter simultaneamente contraditório e corruptível, mas o fechamento do “olho do Coração” ou a perda da Revelação interior, portanto, da integridade do Intelecto. Daí também a perda do “estado de graça” e a corrupção da alma.
* A inteligência humana é essencialmente objetiva e, portanto, total: com a ajuda da graça, ela é capaz de julgamento desinteressado, de raciocínio, de meditação assimilante e deificante.
* Se nos perguntassem — em oposição à evidência das coisas — o que vem fazer a virtude nas questões de realização espiritual, portanto, de técnica rigorosa e extra-individual, responderíamos o seguinte, colocando-nos do mesmo ponto de vista estritamente prático: a realização espiritual impõe à alma uma imensa desproporção, porque introduz a presença do sagrado nas trevas da imperfeição humana. Isso fatalmente provoca reações desequilibradoras que, em princípio, comportam o risco de uma queda irremediável, reações que a beleza moral, combinada com as graças que atrai por sua própria natureza, pode generosamente prevenir ou atenuar.
* …quando a alma se vê como que suspensa entre dois mundos, um já perdido e o outro ainda não atingido, apenas uma virtude inata e a graça podem salvá-la da vertigem, e somente essa virtude a imuniza de imediato contra as tentações e os desvios.
* Fala-se do coração que queima de amor e também daquele que se dissolve; dissolve-se bebendo o vinho da graça e, dissolvendo-se, ele mesmo é o vinho bebido pelo Bem-Amado.
* …só é bestial a paixão cega do homem que perdeu a graça divina e não a sexualidade inocente dos animais.
* Certamente, a carne foi amaldiçoada em virtude da perda da graça divina, mas apenas de um determinado ponto de vista, o da descontinuidade existencial e formal e não do ponto de vista da continuidade espiritual e essencial.
André-Jean Festugière
FESTUGIÈRE, A. J. Hermétisme et mystique païenne. Paris: Aubier-Montaigne, 1967.
- Se o mundo, regido por Heimarmene, é mau, tudo aquilo que, no homem, é do mundo, é mau, pelo menos manchado de mal. Ora a parte cósmica do homem não é somente o corpo, hílico por definição, mas também sua alma ligada ao corpo, e nesta alma, a razão raciocinante, a qual é bem capaz de conhecer aquilo que está no interior do mundo, mas não se elevar, acima do mundo, até a apreensão do verdadeiro Deus hipercósmico. O pessimismo a respeito do mundo conduz assim a um pessimismo, mais ou menos radical, a respeito da razão humana. O homem não pode portanto se salvar apenas pelas forças da razão: lhe é necessário uma ajuda estrangeira, uma graça divina.
a. Esta graça divina manifesta-se em primeiro lugar na ordem do conhecimento. Uma vez que a razão humana é incapaz de alcançar Deus, Deus só será conhecido se revelar-se. O conhecimento de Deus sai portanto aqui do plano lógico ou intelectual e de uma mística que, indo além deste plano, o prolonga sobre uma mesma linha, para entrar no domínio da gnose (essencialmente gnosis neou), que é un conhecimento de fé: crê-se na revelação ou recusa-se de nela crer.
b. A graça divina manifesta-se em segundo lugar na ordem da ação. Aqueles que creram nele, Deus os protege durante suas vidas, em lhes concedendo um daimon paredros, em lhes ajudando a bem agir.
c. Ela se manifesta em fim, e é seu benefício maior, na ordem dos fins últimos. Uma vez morto, o crente fiel remonta em direção a Deus Salvador, atravessa todo o espaço do mundo abaixo e acima da lua para atingir, na região hipercósmica, o Deus escondido.
