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ESTADO DE SONO

René Guénon: ESTADO DE SONO

No estado de sonho, a “alma viva” individual (jivatma) “é para si mesma a sua própria luz” e produz, exclusivamente pelo efeito do seu desejo (Kâma), um mundo que provém inteiramente de si mesma e cujos objetos consistem exclusivamente em concepções mentais, ou seja, em combinações de ideias revestidas de formas sutis, que dependem substancialmente da forma sutil do próprio indivíduo, da qual esses objetos ideais não são, em suma, mais do que tantas outras modificações acidentais e secundárias. Essa produção, aliás, tem sempre algo de incompleto e de descoordenado; por isso é considerada ilusória (mayamaya) ou como tendo apenas uma existência aparente (prâtibhâsika), enquanto que, no mundo sensível onde se situa o estado de vigília, a mesma “alma viva” tem a faculdade de agir no sentido de uma produção “prática” (vyâvahârika), ilusória também, sem dúvida, no que diz respeito à realidade absoluta (paramârtha), e transitória como toda manifestação, mas que possui, no entanto, uma realidade relativa e uma estabilidade suficientes para atender às necessidades da vida comum e “profana” (laukika, palavra derivada de loka, o “mundo”, que deve ser entendida aqui em um sentido completamente comparável ao que habitualmente tem no Evangelho). No entanto, convém destacar que essa diferença, no que diz respeito à orientação respectiva da atividade do ser nos dois estados, não implica uma superioridade efetiva do estado de vigília sobre o estado de sonho quando se considera cada estado em si mesmo; pelo menos, uma superioridade que só vale do ponto de vista “profano” não pode ser considerada, metafisicamente, como uma verdadeira superioridade; e, inclusive, sob outro aspecto, as possibilidades do estado de sono são mais amplas do que as do estado de vigília, e permitem ao indivíduo escapar, em certa medida, de algumas das condições limitantes a que está sujeito em sua modalidade corporal. Seja como for, o que é absolutamente real (pârâmârthika) é exclusivamente o “Si mesmo” (atman); é isso que não pode ser alcançado de forma alguma por toda concepção que, sob qualquer forma que seja, se limite à consideração dos objetos externos e internos, cujo conhecimento constitui, respectivamente, o estado de vigília e o estado de sonho, e que, assim, ao não ir além do conjunto desses dois estados, permanece inteiramente dentro dos limites da manifestação formal e da individualidade humana.

Em razão de sua natureza “mental”, o domínio da manifestação sutil pode ser designado como um mundo ideal, a fim de distingui-lo assim do mundo sensível, que é o domínio da manifestação grosseira; mas seria necessário não tomar essa designação no sentido do “mundo inteligível” de Platão, já que as “ideias” deste são as possibilidades no estado principial, que devem referir-se ao domínio informal; no estado sutil, não pode tratar-se ainda mais do que de ideias revestidas de formas, uma vez que as possibilidades que ele comporta não ultrapassam a existência individual. O estado sutil é propriamente o domínio da . Acima de tudo, seria necessário não pensar aqui em uma oposição como aquela que alguns filósofos modernos gostam de estabelecer entre “ideal” e “real”, oposição que não tem para nós qualquer significado: tudo o que é, sob qualquer modo que seja, é real por isso mesmo, e possui precisamente o gênero e o grau de realidade que convêm à sua própria natureza; o que consiste em ideias (esse é todo o sentido que damos à palavra “ideal”) não é nem mais nem menos real por isso do que o que consiste em outra coisa, uma vez que toda possibilidade encontra necessariamente lugar no lugar que sua própria determinação lhe atribui hierarquicamente no Universo.

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