FAIVRE (AFPN) – OETINGER, A ALMA E A ELETRICIDADE METEOROLÓGICA
AFPN
A última parte do tratado de Fricker é dedicada à “*eletricidade meteorológica*”. É um fato digno de reflexão, ele estima, que os *seres viventes* ou *querubins* de que Ezequiel fala nos capítulos I e X nunca descansam (cf. também Apoc., IV), surgem de um *relâmpago de fogo* todo brilhante chamado “*chasmal*”, em um turbilhão no meio de uma grande nuvem cercada por um brilho. Tradutores deram a este brilho “*o mais interior*”, a esta fonte mais pura que é a de todos os seres vivos, animados e organizados, o nome de *Species electri*; sem dúvida deve-se concluir que o fogo elétrico realmente representa o *princípio sutil e ígneo*, a fonte de vida das coisas e que ele exerce sua ação particular nas nuvens, nas tempestades e nos relâmpagos (p. 100). Esta passagem da exposição de Fricker reflete, com toda evidência, a discussão que havia ocorrido pouco antes entre Divish e Œtinger e da qual uma correspondência em latim, trocada entre os dois homens, revela o essencial. Excelente especialista nas teorias da *Cabala* relativas às *sephiroth*, reflexos, emanações ou energias de Deus, Œtinger havia se expressado sobre este assunto, em 27 de fevereiro de 1755:
*A propósito das questões III e IV vejo que não admites nenhuma conexão da alma com o fogo elétrico. Não sou eu, certamente, que faria a natureza passar antes da teologia ou da Escritura. Mas é esta Escritura mesma, sobretudo Ezequiel!, que me incita a relacionar analogicamente a natureza da alma com os fenômenos elétricos. Deixo de lado Hipócrates cujos princípios são extraídos da Tradição; reduzo a uma só coisa os quatro zoa de Ezequiel e do Apocalipse que são completamente imateriais (quer que eu te demonstre?). O relâmpago nasce primeiro no turbilhão do vento, o relâmpago é concentrado em uma intensa fulguração Chamada Chasmal. Deste Chasmal surgem quatro zoa [= animais], almas, inteligências; esses zoa mesmos são descritos interiormente cheios de olhos, e Ezequiel descreve olhos dispostos ao redor das rodas enquanto no Apocalipse eles são interiores e constituem as rodas desses seres viventes. Por isso, se essas ideias não me fossem fornecidas pela Santa Escritura eu não seria tão temerário a ponto de imaginá-las. Ninguém viu Deus de frente, isto é, em sua vida oculta pelas criaturas; mas foi de trás, isto é, em sua manifestação exterior, que Moisés o viu, assim como 70 Anciãos e profetas. Por isso observo, contra Leibniz, que a alma não é uma coruscação da Divindade, não é uma mônada, como se participasse da essência divina, mas ela é constituída livremente por Deus, in fieri, à imagem de Deus. O fogo elétrico, e outra coisa que poderia ser análoga, pareceu-me até agora ser o veículo da alma, mas não é a alma ela mesma.*
