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AMADOU

AMADOU, Robert. De la Langue Hébraïque Restituée à l’Ésotérisme de la Genèse. Paris: CARISCRIPT, 1987

  • A Língua Hebraica Restituída, e o Verdadeiro Sentido das Palavras Hebraicas Restabelecido e Comprovado por sua Análise Radical*. Obra na qual se encontram reunidos:

1° Uma dissertação introdutória sobre a origem da Palavra, o estudo das línguas que a ela podem conduzir e o objetivo que o Autor se propôs;

2° Uma gramática hebraica, fundada sobre novos princípios e tornada útil ao estudo das línguas em geral;

3° Uma série de raízes hebraicas, consideradas sob novas relações e destinadas a facilitar a inteligência da linguagem e da ciência etimológica;

4° Um Discurso Preliminar;

5° Uma tradução em francês dos dez primeiros capítulos do Sépher, contendo a Cosmogonia de Moisés. Esta tradução, destinada a servir de prova aos princípios estabelecidos na gramática e no dicionário, é precedida de uma versão literal em francês e inglês, feita sobre o texto hebraico apresentado em original com uma transcrição em caracteres modernos, e acompanhada de notas gramaticais e críticas, nas quais a interpretação dada a cada palavra é comprovada por sua análise radical e sua confrontação com o termo análogo samaritano, caldeu, siríaco, árabe ou grego. Por Fabre d’Olivet.

Fabre gostava de explicar e comentar suas explicações e comentários. Mas eis que aqui o subtítulo faz o mesmo? A nota está feita.

De 1805 a 1811, o livro ocupa Fabre, que, até exausto, lhe sacrifica, em 1810, sem nostalgia, um posto de burocrata. O manuscrito autógrafo é conservado na biblioteca da Société de l’Histoire du Protestantisme Français.

  • A “Língua Hebraica Restituída” — por quê e como?

Para traçar a história do universo — que se tornará uma epopeia em prosa, com referências um tanto obsessivas —, Fabre se interroga sobre a origem do homem, e esta supõe elucidada a origem da palavra. Ao filosofismo sobre esta última instância, que apaixonou o século XVIII, responde Antoine Court de Gébelin, esse eluhim coën desconhecido. Fabre deve ao autor de Le Monde Primitif (1773-1782) a iniciativa de estudar, em seu próprio ponto de partida, as línguas mais que o linguagem; sua fé na origem divina da palavra iluminará assim uma atitude científica que acabará por demonstrá-la.

Três línguas podem contribuir para reconstituir a língua primitiva: o chinês, o sânscrito e o hebraico; cada uma tem seu livro-mestre: respectivamente, o Yi-King, os Vedas, o Sépher Béraeshit (ou simplesmente Sépher). Fabre escolhe prioritariamente o hebraico — que estudara no fim do Diretório — porque, no campo do saber infinito, o homem só dispõe de uma vida breve, e seus princípios gerais correspondem melhor à solução buscada.

Sobre a língua hebraica, portanto, exercer-se-á o método que Cellier chama, com graça, de “alquimia literal”. Os sinais — original seria o sinal, e original a intuição que Fabre dele tem — devem ser considerados sob o aspecto das ideias primitivas que exprimem e pelas quais se tornam sinais representativos dessas mesmas ideias. Esse é o progresso de Fabre sobre Court: o sinal não é mais apenas uma pintura simbólica, mas a expressão de uma ideia. (Porém, para exprimir a ideia, é preciso eleger, na natureza elementar, objetos materiais que o homem espiritualiza, por assim dizer, transferindo-os, por meio da metáfora e do hieróglifo, de uma região a outra.) O sinal manifestado exteriormente torna-se o nome; o nome caracterizado pelo tipo figurado torna-se o sinal. Nem a palavra escrita nem a pronunciada são arbitrárias. Remontar às origens da linguagem, da Palavra, é meditar sobre o sinal: voz, gesto e, preferencialmente, caracteres sagrados.

Passemos ao Gênesis, ao Sépher. Apesar de o livro passar por inspirado, repele a inteligência. Uma razão basta: a tradução é falsa; e, se todas as traduções do Gênesis são falsas, é porque a língua hebraica está perdida e, consequentemente, nenhum intérprete tem como escapar do erro. Programa: restituir a língua hebraica.

Dados concretos estabelecem o quadro da criptografia. Eles se encadeiam:

  • Moisés é o autor do Sépher;
  • Moisés foi iniciado nos mistérios do Egito;
  • O hebraico é o idioma puro dos antigos egípcios;
  • A língua hebraica foi esquecida na Babilônia, e todas as traduções reputadas do hebraico reproduzem, na verdade, a versão dos helenistas (ou seja, o hebraico, composto originalmente de expressões intelectuais, metafísicas e universais, tornou-se insensivelmente de natureza grosseira, porque essa língua foi restrita a expressões materiais, literais e particulares, das quais a Septuaginta se contenta, no fim das contas);
  • Moisés, em sua previsão, confiara, porém, oralmente o segredo da língua hebraica, que não teria chegado, como se crê vulgarmente, aos cabalistas, mas aos essênios. Ora, esse segredo, Fabre o teria violado por seu gênio.

A análise semiótica do escrito, do Sépher, pode então começar — e Fabre a levará a bom termo, tarefa gigantesca para um autodidata; ao menos assegura-se de que o conjunto concluído revela, de fato, a revelação cujo postulado confirma.

O texto de base é o da Poliglota, excetuando os pontos massoréticos; as notas de Fabre, que se limitam a justificar gramaticalmente o sentido dado, invocam as versões samaritana, targúmica, caldaica, além da Septuaginta e da Vulgata.

Os capítulos I a X do Gênesis formam um grupo coerente, onde todos os arcanos da natureza, todas as ciências foram encerrados por Moisés. Nascimento do universo e dos seres, depois sua história, que se desenrola — em especial a da Terra e de seus habitantes, o homem em primeiro plano. O Sépher, em seus dez primeiros capítulos, conserva uma cosmogonia; vê-se seu rumo. (Moisés conhecia também a teogonia — ou seja, a vida íntima dos deuses e de Deus —, mas julgava os hebreus incapazes de suportar seu peso.) Cada capítulo dessa cosmogonia (essa enciclopédia) corresponde ao simbolismo de seu número:

  • I: Participação (o poder, o germe).
  • II: Distinção (da potência ao ato).
  • III: Extração (surge a oposição).
  • IV: Multiplicação por divisão (o todo se divide em partes).
  • V: Compreensão facultativa.
  • VI: Medida proporcional.
  • VII: Consumação (da catástrofe ao renovamento).
  • VIII: Acumulação (as coisas divididas se reúnem, retornando a seus princípios).
  • IX: Restauração (do reafirmamento procede um novo movimento).
  • X: Energia agregativa e formativa (as forças naturais se desdobram e agem).
  • A Língua Hebraica Restituída* prepara, segundo o plano de Fabre, a Histoire philosophique du genre humain (a aparecer em 1822) , pois, graças a ela, o historiador deveria saber ler (e ele conhece o sentido do ato de ler ao mesmo tempo que o do texto lido). Os Versos Dourados de Pitágoras, anteriores de dois anos mas contemporâneos da redação, onde Fabre pretende desentranhar sua doutrina, não ficam isolados: “Pela primeira vez desde o dilúvio, um homem — eu, exclamará Fabre, que restituí a língua hebraica —, um homem se encontrou em situação suficientemente favorável para ensinar em sua plenitude a teodoxia universal.”

O que é a teodoxia universal? Justamente a doutrinasua doutrina, que Fabre, como René Guénon no século seguinte, identifica com a Tradição —, e a obra que leva essas duas palavras no título liga A Língua e a Histoire, ao mesmo tempo que envolve Pitágoras, pois é um comentário sobre a cosmogonia de Moisés, afirmando sua similitude com os sistemas de outras tradições particulares: a montante, a linguagem; a jusante, a humanidade.

Fabre não extrai todas as consequências políticas, mas — sonho eu? — parece entrever que a evolução do universo se reflete, homóloga, na marcha da humanidade, das civilizações… No estado atual, porém, La Théodoxie Universelle segue A Língua Hebraica e corrobora a Histoire philosophique, assim como os exames dos Versos Dourados.

Por causa de Napoleão, A Língua Hebraica Restituída aguardará o impressor até 1815-1816; o Journal de l’Imprimerie anuncia o primeiro volume (datado do ano anterior) em 27 de janeiro de 1816, e o segundo em 3 de julho seguinte — duas partes in-4°. Os editores são, em Paris, o autor, Barrois e Eberhart.

  • “Trabalho literário e não teológico”*, advertia Fabre (embora acrescentasse que certos teólogos pudessem dele beneficiar-se). Não obstante, em 26 de março de 1825, a Sacra Congregação do Índex inscreve A Língua Hebraica Restituída em seu catálogo. Um admirador, em 1869, sustentará a justiça do veredito: “Esse livro de Fabre d’Olivet era o golpe mais terrível que se podia desferir contra a religião cristã. Era a luz oposta, enfim, às trevas da mais crassa ignorância.”
  • Que horror!* Por falta de uma boa e orgulhosa teologia — que seria verdadeira teodoxia ou teosofia, inerente à verdadeira linguística sagrada (ou melhor, abraçando-a) —, Fabre produz uma vergonhosa e perversa. O ouro puro esperado do projeto transformou-se no chumbo vil do programa cumprido. Chauvet inverterá o resultado, restabelecê-lo-á, após retificar o procedimento — e vivificando-o.
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