Escrituras
Jacobo Gaffarel. Los Misterios Ocultos de la Divina Cábala, defendidos de los sofismas de los Filósofos. Tradução em espanhol de Juli Peradejordi
DE todos os benefícios, inclusive os maiores, que Deus, sumamente bom e todo-poderoso, concedeu aos homens, estima-se que nada há de mais precioso que o conhecimento dos meios seguros, provados e imutáveis, que permitem chegar à Pátria celeste, objeto de nossos desejos.
Graças a eles, ardendo de amor divino, languescendo de amor, dir-se-ia com a esposa, chega-se, por uma feliz evolução, até esse amor bendito, eterno, que não é senão o próprio Deus.
Por essa razão, os apóstolos afirmam que a Santa Escritura, inspirada por Deus, foi transmitida como o caminho seguro, como o caminho direto que pode conduzir à salvação.
Graças a ela, discerne-se claramente a vontade divina imutável. Discernindo-a, observa-se; observando-a, ama-se; e, amando-a, assegura-se a felicidade.
Ó beatitude invejável! Ó amor delicioso! Ó feliz submissão! Ó diviníssima Escritura! Convertes-nos em servidores de Deus, em herdeiros do Pai eterno, em coerdeiros de Cristo, em comensais dos Santos! Consagrais-nos cidadãos da Jerusalém Celeste! Assegurais nossa felicidade pela Eternidade!
Tu, neste vale de lágrimas onde, submetidos a todo tipo de fadigas, condenados à dor, nos arrastamos em uma vida que é mais uma morte lenta que uma breve existência, tu nos consolas com a esperança da Eternidade.
Tu, que elevas tantos justos, tantos santos, a tão alta virtude que se tornam comparáveis aos Anjos. Tu que, segundo São Bernardo, és o ensinamento mais elevado que possuem, fazes com que alcancem os céus, fazes com que se assemelhem aos Anjos, aos quais igualam em pureza.
Tu, em meio às solidões mais inacessíveis, nas cavernas, nas grutas, nos antros mais horrorosos, tu os inundas com uma alegria indizível, os recompensas e os sustentas com a esperança de uma felicidade eterna.
E, indo mais longe, foste tu também, assegurando-lhes o advento do Messias, o consolo dos Antepassados que, após a mancha original legada por nosso primeiro pai, não cessavam de chorar e de repetir em meio às suas lágrimas:
“Ó céus, derramai sobre nós vosso orvalho, e que o justo desça das nuvens, como uma chuva benfazeja! Que a terra se abra e dê à luz o Salvador!”
E todos esses generosos, esses invencíveis atletas de Cristo; essas Virgens tímidas que, sem desfalecer, com coragem sobre-humana, enfrentavam a fogueira, as espadas rubras pelo fogo, a roda, o cavalete, o machado do verdugo, assim como todos os outros suplícios empregados pela tirania, e tudo isso para conquistar a palma da glória celeste. Não eras tu, enfim, quem tão feliz e poderosamente sustentava sua generosa resolução?
Mas, se nos tempos de miséria que se atravessam não há outro meio melhor para assegurar a tranquilidade da vida, a paz do espírito, que seguir escrupulosamente os ensinamentos da Santa Escritura, a única verdadeira quando se retorna às fontes mais puras, nada é, ao contrário, mais pernicioso para o espírito, isto é, nada pode alterar mais profundamente a alma, que essa Escritura, regra da vida, quando foi alterada, corrompida, e já não é possível segui-la, observá-la, sem cair na contradição e no erro.
Isso ocorreu, dizem, pouco depois da Paixão de Cristo, nosso Salvador. Obcecados, os judeus, em sua ignorância, desnaturaram a tal ponto esse texto sagrado que quase todas as passagens nas quais os mistérios de nossa Redenção estavam expostos com clareza se tornaram obscuras e incompreensíveis.
Tais foram os fatos, embora alguns Padres protestem em seus escritos contra essa afirmação. Foi o primeiro ataque do mal e, desde então, graças à ambiguidade das palavras, cada qual começou a interpretar à sua maneira a santíssima palavra de Deus. Houve tantas versões quantas traduções e, o que é mais deplorável, a fé variou segundo os indivíduos, e a doutrina, segundo os usos de cada povo. As coisas chegaram a um ponto em que, com direito e razão, Santo Hilário irrompeu em santos gemidos sobre a miséria de sua época.
Deus imortal! Que remédio radical e divino se impunha para sanar um mal como este?
Tendo sido necessário que a Igreja, inspirada e dirigida pelo Espírito, houvesse garantido a autenticidade das Escrituras, teria sido necessário, do mesmo modo, que a Igreja não tivesse deixado subsistir nenhuma dúvida no que concerne à interpretação das Escrituras.
Mas não se sabe que potestades infernais enviadas por Satanás vieram obscurecer o céu, até então sem nuvens, da Igreja. Fazendo cair um véu enganoso sobre esses ensinamentos, provocaram uma deplorável divisão, origem de todos os males. Abandonado o caminho reto seguido até então, animadas por um espírito ímpio, ressoando como a trombeta do Anticristo, suscitaram cismas espantosos que desolaram o mundo inteiro.
Tendo perdido a tradição, os mestres daquela época, semelhantes a um membro atacado pela gangrena, arrancado de seu tronco, não propagaram senão uma doutrina malsã e corrompida. Entregaram-se às mulheres, às crianças, aos ignorantes, os textos mais ocultos dos livros santos, sobre os quais jamais caíra um olhar indiscreto.
Em razão de um novo modo não apenas de ler, mas também de interpretar a Escritura, chegou-se a um ponto em que qualquer ignorante inventava heresias.
São Jerônimo traçou, gemendo, um quadro magistral dessa corrupção dos textos sagrados:
“Não há senão uma ciência das Escrituras, exclama cada qual, e eu a possuo. Qualquer velha tagarela, qualquer ancião de cérebro enfraquecido, qualquer orador empolado, qualquer um, em suma, reivindica para si só a verdade, desnaturando os textos, ensinando-os antes de ter aprendido a conhecê-los. Outros, grandiloquentes e majestosos, dissertam entre as mulheres sobre os livros santos. Outros, enfim, aprendem das mulheres o que ensinam aos homens. E, como se isso não bastasse, outros, dotados de certa loquacidade e de audácia ainda maior, pretendem ensinar aos demais aquilo que eles mesmos ignoram.”
A maioria dos Padres, com espírito íntegro, tentou voltar a buscar o sentido das Escrituras na tradição dos apóstolos; os hereges decretaram que era preciso separar-se deles e, cúmulo da imprudência, acusaram seus discípulos de falsificar e corromper os textos, declarando que, para remediar tão grande mal, era necessário remontar até a própria origem da escritura hebraica e afastar-se totalmente, segundo sua expressão, dos arroios tão turvos da interpretação e da tradição.
Isso se reconhece junto de São Jerônimo, a quem esses inventores de fábulas quiseram dar uma lição e de quem a Igreja católica recebeu a maior parte da tradução dos textos sagrados. Mas a eles, os críticos de São Jerônimo, cumpre evitar, pois estão endurecidos em seu erro, como Faraó.
E, se fosse permitido expor uma opinião em um debate dessa importância, demonstrar-se-ia com mais clareza que o sol ao meio-dia, apoiando-se no testemunho dos Rabinos, que a versão de São Jerônimo está em conformidade com o texto original.
Com efeito, os relatos bíblicos tomados dessa fonte original são quase idênticos nos comentários rabínicos e nos escritos desse grande doutor.
A gente sensata que ataca o verdadeiro sentido das Escrituras, caso conserve ainda algum bom grão de sensatez no seio de sua desrazão, avaliará se convém ou não rejeitar completamente as fontes hebraicas.
