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Cântico dos Cânticos

BOON, N. M. Au coeur de l’Ecriture: méditations d’un prêtre catholique. Paris: Dervy-livres, 1987.

COMENTÁRIOS SOBRE O CÂNTICO DOS CÂNTICOS

  • Os quatro primeiros versículos do Cântico dos Cânticos já cantam o cumprimento que se encontra no final da obra.
    • O começo e o fim constituem uma mesma coisa, sendo o percurso entre ambos marcado por distanciamento, descida, união e subida, com seus respectivos obstáculos, sofrimentos, hesitações e impulsos.
    • Essas variações são denominadas danças, conforme a expressão uma dança dos dois acampamentos presente no primeiro versículo do capítulo 7.
    • A definição do Cântico como o Cântico de Amor do Esposo e da Esposa é insuficiente, dado que esse Amor se manifesta em níveis muito distintos.
  • A diferença profunda entre os quatro primeiros versículos e o que se inicia no quinto versículo, que roga para ser beijada com os beijos de sua boca, ilustra a variação dos níveis do Amor.
    • O beijo une a Glória à Sabedoria por intermédio de Chesed, denominado Tov.
    • Trata-se da união da Glória com a Schekinah, ou da Schekinah revestida de Glória, configurando a realidade associada ao cumprimento.
    • Segundo Ezra de Gerona, o beijo simboliza a deleitação originada da conjunção da alma com a Fonte de Vida e do acréscimo do Espírito Santo.
    • A utilização da preposição mi, que significa a partir de, indica que cada causa recebe influxo e acréscimo a partir da deliciosa luz e do esplendor fulgurante.
    • A luz deliciosa representa a Sabedoria, simbolizada pelo Vinho.
    • A preposição com sentido de a partir de refere-se a Binah, assim como o Beijo se refere a Chesed.

NO CORAÇÃO DA ESCRITURA

  • O termo associado a Binah possui duplo sentido, podendo significar quem? ou assumir o sentido abstrativo de a partir de a Sabedoria, Chokmah, pois Binah decorre de Chokmah, assim como Chesed decorre de Binah e também de Chokmah.
    • A expressão tobim miyayin decorre dessa articulação cosmológica.
    • Nas palavras citadas, encontram-se representados os termos Tov, Chesed, Binah e Chokmah.
    • O plural expresso em tobim funciona como o espelho onde a deliciosa luz se reflete em Chesed.
    • A primeira parte do versículo se expressa na terceira pessoa, indicando um instante ontológico em que a Face ainda não olhava para a Face.
    • A segunda parte do versículo apresenta a Face olhando para a Face.
    • A tradução habitual teu amor — ou tuas carícias — melhor que o vinho significa que as caícias são iluminação emana da Sabedoria.
  • A tradução por caícias é preferível a amores tanto porque o plural enfraquece o sentido profundo da noção de amor quanto porque o termo caícias visa a uma concretização do amor por meio da experiência.
    • As caícias são realizadas pela mão, palavra representada por yad.
    • O ato de conhecer vincula-se ao mesmo termo, ao qual se adiciona outra raiz para formar yada, conhecer.
    • O termo ain significa simultaneamente olho e fonte, reiterando que as caícias são iluminação da Sabedoria.
  • O emprego do verbo yada, conhecer, na Bíblia serve para designar a união do homem e da mulher pelo ato conjugal.
    • O uso do verbo não decorre de um pudor para ocultar um ato vergonhoso, mas sim de uma forma de significar o sentido profundo do próprio ato.
    • Há grande confusão nessa área interpretativa.
    • Os órgãos referidos comumente como partes vergonhosas do corpo humano, devido a uma má compreensão do termo pudenda, designam na realidade uma função sagrada.
    • O ocultamento desses órgãos corresponde precisamente à noção de segredo, que está firmemente ligada à noção de sagrado.
  • A noção de sagrado manifesta-se no episódio de Noé e seus filhos em Gênesis 9, 18, no qual Noé, como cultivador, planta uma vinha, bebe do vinho, embriaga-se e se recolhe no meio de sua tenda.
    • Cham viu a nudez de seu pai e foi contar aos seus dois irmãos do lado de fora.
    • Sem e Jafé tomaram o manto, colocaram-no sobre os ombros e, andando de costas, cobriram a nudez do pai sem a ver, pois estavam com os rostos virados.
  • A embriaguez de Noé representa um estado supraindividual equivalente ao termo entusiasmo, cujo significado original é estar em Deus.
    • O estado é evidenciado pelo fato de Noé deitar-se no meio de sua tenda.
    • A tenda constitui um santuário, e o meio representa o centro desse santuário.
    • O pecado de Cham não consiste no ato de ver a nudez, mas sim no fato de anunciá-la fora, o que configura uma profanação ou um sacrilégio.
    • O entendimento do erro exige sublinhar a palavra fora.
    • A ação de Cham exterioriza o que deve permanecer interior, tornando público um segredo.
    • Tomando o vinho como símbolo da Sabedoria, o ato de beber situa Noé em Chokmah.
    • Os ombros de Sem e de Jafé correspondem a Chesed e Geburah, enquanto a maldição de Cham corresponde ao exílio.
    • Aponta-se frequentemente Cham como o ancestral da raça negra.
  • As caícias constituem uma iluminação oriunda da Sabedoria, cujas luzes fontes são uma só em Chokmah.
    • A iluminação sai pela boca de Adam Kadmon, a partir da qual se espalha em todas as direções.
    • A boca de Adam Kadmon atua como um canal para essas luzes que, originadas do Único oculto em Chokmah, também são chamadas de vasos.
    • A natureza desses canais explica a opção de tradução de alguns por que ele me dessedente com seus beijos.
    • O termo para beijo é neshek, ao passo que dessedentar ou fazer beber éshaqah.
    • Essa relação justifica o fato de a Vulgata traduzir a expressão por ubera tua, ou seja, teus seios, os quais se reportam aos vasos de luz.
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