Níveis de Realidade
NICOLESCU, Basarab. La science, le sens et l’évolution: essai sur Jacob Boehme suivi d’un choix de textes. Paris: Ed. du Félin, 1988.
VII Complexidade e níveis de Realidade
A formulação de uma epistemologia da complexidade é uma urgência atual, indo além de uma simples tentativa de ordenação da complexidade.
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O mundo parece invadido pela complexidade, tornando-se cada vez mais incompreensível para o homem contemporâneo submetido ao pensamento analítico.
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O sonho de uma “física universal” que explicaria tudo a partir de poucas leis gerais se desvaneceu com os avanços da própria ciência contemporânea.
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A nova visão de mundo fundada no conceito de níveis de Realidade, emergente da cosmologia de Jakob Boehme, é muito vasta e geral para aplicar-se diretamente aos resultados da ciência moderna, exigindo uma acepção mais restrita e próxima do ensino científico.
Para a definição do conceito restrito de níveis de Realidade, realidade significa o “algo” chamado Natureza que resiste às representações e experiências, uma realidade de interação ou participação.
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Um nível (ou escala) de Realidade pode ser descrito como o conjunto de sistemas que permanece invariante sob a ação de certas transformações.
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Para que haja verdadeiramente um nível diferente de Realidade, é necessária uma ruptura de linguagem, de lógica e de conceitos fundamentais (como a causalidade).
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O nível quântico é reconhecido como um nível de Realidade diferente do nível macroscópico, devido a características como a não separabilidade constitutiva, a causalidade global e o papel crucial da descontinuidade.
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A tradução de um nível de Realidade a outro se impõe como uma necessidade imperiosa, estando o problema da tradução intimamente ligado à compreensão da natureza da complexidade.
Distinguem-se dois tipos de complexidade: a que se refere a um único nível de Realidade (estruturável pela noção de nível de integração) e a que faz intervir vários níveis de Realidade (exigindo novas ferramentas conceituais).
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A relação de contradição simplicidade-complexidade se esclarece: o que é complicado em um nível pode ser simples em outro nível de Realidade.
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Cada nível de Realidade pode corresponder a um espaço-tempo específico, sendo o espaço-tempo contínuo de quatro dimensões uma aproximação ou “seção” de um espaço-tempo mais rico.
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A fonte do surgimento da contradição é a tradução entre níveis: o que aparece como uno em um nível pode aparecer como paradoxal em outro nível (os chamados “paradoxos quânticos” são, na verdade, “paradoxos macrofísicos”).
É natural definir os diferentes níveis de Realidade em relação ao próprio nível humano, experimentado pelo corpo e pelos órgãos dos sentidos.
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O ser humano não é o centro dessa sucessão de níveis, mas o sistema natural de referência, dotado da capacidade de tradução.
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A capacidade de tradução associada ao estudo científico permite superar a ilusão moderna de um único nível de Realidade, ilusão originada da absolutização da informação dos sentidos.
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A estrutura em níveis de Realidade permite compreender a ressurreição do sentido na física moderna, onde o sentido surge da relação contraditória entre uma presença (em um nível) e uma ausência (nos outros níveis).
A abertura da ciência para o sentido e para o ser pode ocorrer se a noção de níveis de Realidade estiver presente, permitindo a integração do sujeito como explorador desses níveis.
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A ciência moderna chegou aos confins onde deve retomar um diálogo ativo e frutífero com outras formas de conhecimento.
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Existem leis de isomorfismo que atravessam vários níveis de Realidade, manifestando-se de forma diferente conforme a escala, mas permanecendo as mesmas.
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A descoberta dessas leis de isomorfismo se fará por meio de uma nova abordagem científica e cultural: a transdisciplinaridade.
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A transdisciplinaridade é o estudo dos isomorfismos entre os diferentes domínios do conhecimento, visando descobrir a natureza e as características de um fluxo de informação que circula entre eles.
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A transdisciplinaridade distingue-se da pluridisciplinaridade, multidisciplinaridade e interdisciplinaridade, exigindo a elaboração de uma nova linguagem, lógica e conceitos.
Há três atitudes possíveis diante do problema da complexidade: a posição cientista (um único tipo de conhecimento detém a verdade), o relativismo neorreducionista (incomensurabilidade e ausência de pontes entre modos de conhecimento) e o relativismo transdisciplinar.
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O relativismo transdisciplinar reconhece a autonomia e as diferenças essenciais entre os modos de conhecimento, mas afirma que nenhum deles pode abarcar a Realidade inteira.
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O relativismo transdisciplinar, rigorosamente conduzido, não leva a um discurso globalizante ou a um sistema fechado, evitando tanto o fantasma da totalidade quanto o fantasma da separação.
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A cosmologia quântica (unidade entre as escalas quântica e cosmológica) é um exemplo de pesquisa transdisciplinar, prefigurando uma dinâmica de tipo bootstrap entre os diferentes níveis de Realidade.
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A transdisciplinaridade poderá se revelar, nas décadas vindouras, o meio privilegiado para a elaboração da epistemologia da complexidade e para a formulação de uma nova Filosofia da Natureza.
