Evolução do Homem
NICOLESCU, Basarab. La science, le sens et l’évolution: essai sur Jacob Boehme suivi d’un choix de textes. Paris: Ed. du Félin, 1988.
VI Jakob Boehme e a evolução do homem
a) O gesto luciferiano: ressonâncias contemporâneas
A doutrina boehmiana do bem e do mal é uma das partes mais importantes de sua obra, fundada na lógica do contraditório e na unidade dos contraditórios.
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Citação: “Pois o Deus do mundo santo e o Deus do mundo tenebroso não são dois Deuses: há um único Deus; ele é para si mesmo todo ser, ele é o bem e o mal, o céu e o inferno, a luz e as trevas, a eternidade e o tempo, o começo e o fim.”
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A unidade de todos os ciclos septenários está além do bem e do mal, que aparecem quando há disfunção de um ciclo ou da interação entre os diferentes ciclos.
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O mal é definido com clareza lógica como tudo o que se opõe ao desenvolvimento de um ciclo septenário ou à interação entre os diferentes ciclos (tudo o que se opõe ao nascimento de Deus).
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O mal tem um lado positivo como resistência que condiciona o movimento e proteção contra o fogo incomparável da fonte mágica da Realidade.
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O bem e o mal são duas qualidades unidas como se fossem uma só, presentes em todos os pontos do universo, estrelas, elementos e criaturas.
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A “cólera” é uma “raiz de vida”, mas sem luz não é Deus, e sim fogo infernal; o “inferno” é a primeira tríade do ciclo septenário quando respeita sua função de “chama da cólera”.
O mal se metamorfoseia em catástrofe ontológica quando muda de função, transformando a resistência em oposição absoluta ao desenvolvimento do ciclo.
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A primeira tríade se fecha sobre si mesma no mundo das trevas, fechando-se a toda penetração da luz, tornando-se verdadeiramente infernal.
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No nível de Realidade humano, a liberdade do homem implica um escolha difícil e probante, onde a vontade humana desempenha um papel crucial.
A catástrofe ontológica do mal é simbolizada pela queda de Lúcifer, que nasceu como ser de luz, mas regrediu e inverteu o curso do ciclo septenário.
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O crime de Lúcifer foi olhar para trás, para a fonte mágica da Realidade, num gesto insensato que inverteu a orientação do ciclo septenário.
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Lúcifer é o criador de um septenário invertido que gera a “casa das trevas” e a “casa da morte”, onde a morte vive e cujo rei é Lúcifer tornado Satanás.
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Citação: “Lá há apenas lamentação, dores, uivos e gritos, e nenhuma libertação… O amor é uma inimizade… O som é apenas um ruído rude…”
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A ideia do perigo do olhar para trás atravessa os textos de todos os tempos (mulher de Lot, Orfeu).
O mundo contemporâneo, visto através da grade de leitura boehmiana, situa-se claramente na primeira tríade do ciclo septenário.
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Não é por acaso que a ciência é a linguagem dominante da época, pois ela explora precisamente essa primeira tríade.
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Não é por acaso que o homem deu a si mesmo os meios de destruir completamente sua própria espécie, despertando uma energia fabulosa escondida nas profundezas da Natureza.
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Não é por acaso que o homem deu a si mesmo os meios de modificar o homem por mudanças em seu programa genético, aproximando-se da fronteira com a fonte mágica da Realidade.
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Não é por acaso que este século viu guerras monstruosas, a violência cotidiana e totalitarismos que destroem o ser de povos inteiros.
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Citação: “Por que os filhos das trevas são mais astutos do que os da luz? Por quê? É que se manifestou neles a raiz de todos os seres.”
O mundo está na roda da angústia, mas a primeira tríade ainda não se fechou sobre si mesma; a humanidade está em um ponto de bifurcação entre a autodestruição e a evolução.
b) O homem, a humanidade e o ciclo septenário
A ideia de uma evolução possível do homem, para além de qualquer aspecto físico ou biológico, domina todo o pensamento de Jakob Boehme.
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A evolução é indissociável do cumprimento do ciclo septenário com sua orientação natural da primeira para a última qualidade, exigindo o salto descontínuo entre a primeira tríade e as outras quatro qualidades.
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As qualidades da roda da angústia escapam à vontade do homem (condicionam a passagem à manifestação), enquanto as outras quatro qualidades demandam a participação da vontade e da consciência humanas.
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O homem natural está entre duas portas (“homem duplo”): pode se fechar na roda da angústia (morte na morte) ou evoluir para o mundo da luz.
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A primeira tríade corresponde ao corpo físico-químico do homem, e a primeira descontinuidade o introduz no mundo da vida, onde pode começar sua auto-evolução.
A evolução consciente do homem é um processo difícil, fundado na auto-observação, na atenção e em um grande trabalho.
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O “espírito das estrelas” (próximo da fonte mágica da criação) empurra o homem sem cessar para a roda da angústia, e dele se desprender significa restaurar a orientação do ciclo septenário para o corpo de luz.
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O corpo exterior não tem potência para mover o mundo da luz, que permanece no homem como oculto.
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Como Deus morre para nascer, o homem deve morrer nesta vida para nascer, num auto-nascimento (nascimento do alto) que implica a morte para si mesmo.
A responsabilidade do homem é imensa, pois o não cumprimento de seu ciclo septenário conduz a uma catástrofe cósmica.
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As menores ações ou pensamentos têm uma dimensão cósmica: o que for semeado em espírito tornar-se-á a morada eterna.
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É preciso distinguir claramente a evolução do homem individual da evolução da humanidade, cujos ciclos septenários são diferentes e estão em perpétua interação, com ritmos de desenvolvimento assimétricos.
A hipótese de um ciclo septenário da humanidade, com sua ideia subjacente de uma unidade da humanidade, encontra ressonância na pesquisa contemporânea da história das crenças e ideias religiosas (Mircea Eliade).
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O sagrado não é um estágio na história da consciência, mas um elemento na estrutura dessa consciência.
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Um primeiro sinal da justeza dessa hipótese seria o aparecimento de uma civilização planetária onde toda violência entre os homens fosse abolida.
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A humanidade encontra-se na primeira tríade do ciclo septenário (roda da angústia), precisamente na fronteira da segunda tríade, onde uma primeira descontinuidade deve ocorrer para assegurar a passagem para a vida.
O evento capital que domina este século é a descoberta, pela ciência fundamental, dos confins onde ela pode começar o diálogo com a sabedoria de todos os tempos e com outras formas de conhecimento (arte, Tradição, ciências humanas).
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A ciência moderna, imersa no estudo da roda da angústia, demanda hoje a superação dessa roda, mas não pode operar por si mesma tal superação.
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O diálogo transdisciplinar entre todas as formas de conhecimento poderia ajudar a efetuar essa superação, contribuindo para o estabelecimento de um verdadeiro diálogo planetário, condição da auto-evolução humana.
