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PREFÁCIO
Jacob Boehme, Mysterium Magnum. Tr. John Sparrow. London: John Watkins, 1965.
Prefácio do Autor
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O mundo visível, considerado em sua essência e na vida das criaturas, revela a semelhança do mundo espiritual invisível, oculto no visível tal como a alma no corpo, e permite perceber que o Deus escondido está próximo de tudo e por tudo, ainda que inteiramente velado à essência visível.
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O mundo espiritual invisível está contido no visível da mesma forma que a alma habita o corpo — relação estrutural, não meramente metafórica.
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O Deus oculto permeia toda a existência sem ser apreendido pela essência visível.
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A mente humana é um fogo invisível inclinado tanto para a luz quanto para a escuridão, isto é, para a alegria e para a tristeza, e contudo não é nenhuma dessas disposições em si mesma, sendo apenas sua causa — um fogo-fonte invisível e incompreensível cuja essência se encerra unicamente na vontade de vida.
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A mente não se identifica com alegria ou tristeza, mas é a origem de ambas.
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O termo fogo-fonte — sourcive fire no original — designa uma potência geradora anterior a qualquer determinação sensível.
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A vontade de vida é o único âmbito no qual a essência da mente encontra sua contenção.
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O corpo não pode compreender a mente, mas a mente compreende o corpo e o conduz ao amor ou à repulsa — do mesmo modo, a Palavra e o poder de Deus, ocultos aos elementos sensíveis visíveis, habitam e atuam através deles tal como a mente no corpo.
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A assimetria entre corpo e mente espelha a assimetria entre os elementos sensíveis e a Palavra divina.
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O poder de Deus não é percebido pelos sentidos, mas opera internamente através da vida e da essência sensível.
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As coisas visíveis e sensíveis são uma essência do invisível — do invisível e incompreensível procedem o visível e o compreensível, pois a essência visível emergiu da expressão ou espiração do poder invisível, e a Palavra espiritual invisível do poder divino age com e através da essência visível tal como a alma age com e através do corpo.
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Espiração — spiration — designa o ato pelo qual o poder invisível se exterioriza em forma sensível.
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A Palavra espiritual invisível é o princípio ativo que sustenta e atravessa toda essência visível.
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A alma espiritual interior do homem foi soprada na imagem visível pela in-fala, ou inspiração, da Palavra invisível do poder divino, e é nesse ato que reside o fundamento do conhecimento humano das essências visível e invisível.
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In-fala — in-speaking — refere-se ao ato criador pelo qual a Palavra divina se inscreve na imagem criada.
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A ciência e o conhecimento humanos têm sua raiz nessa inspiração originária, não em faculdades autônomas.
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O homem recebeu da Palavra invisível de Deus a capacidade de re-expressão — de re-exprimir a Palavra oculta da ciência divina em formação e separação à maneira das criaturas temporais, modelando-a segundo animais e vegetais, de modo que a sabedoria invisível de Deus é retratada e modelizada em formas distintas, e o entendimento humano exprime todos os poderes em sua propriedade e dá nomes a todas as coisas segundo a propriedade de cada coisa.
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Re-expressão — re-expression — é a capacidade humana de traduzir a Palavra divina oculta em formas criaturais distintas.
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A nomeação das coisas não é ato arbitrário, mas manifestação da sabedoria invisível de Deus tornada perceptível.
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A separação — severation — indica a individuação das formas a partir da unidade da Palavra divina.
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O Deus oculto se torna manifesto nas coisas visíveis para o deleite e jogo do Poder divino, de modo que o invisível jogue com o visível e nele se introduza na visão e no sentido de si mesmo.
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Assim como a mente se introduz com o corpo e pelo corpo nos sentidos e nos pensamentos, agindo sensivelmente para si mesma, também o mundo invisível age através do mundo visível e com ele, sendo possível ao homem investigar o que é o mundo divino oculto e qual é sua operação e essência, pois na essência visível da criação se vê uma figura da operação espiritual interna do mundo poderoso.
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A analogia mente-corpo serve de modelo epistêmico para a relação entre mundo invisível e mundo visível.
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A investigação do divino é legítima e possível porque o visível porta a figura do espiritual.
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Deus deve ser concebido como o fundamento mais interior de todas as essências, sem que possa ser compreendido por coisa alguma mediante o poder peculiar dessa coisa — assim como o sol introduz sua luz e seu poder nas coisas vivas sensíveis e age em todas as coisas, o mesmo deve ser entendido a respeito da Palavra divina em relação à vida das criaturas.
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Deus é fundamento imanente de todas as essências, não entidade exterior que age de fora.
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A analogia solar — o sol introduzindo-se nas coisas como luz e potência — ilumina o modo de ação da Palavra divina nas criaturas.
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O mundo visível é a Palavra expressa e formada segundo o amor e a ira de Deus, isto é, segundo o Grande Mistério da natureza espiritual eterna que está oculta no visível; a alma humana é uma centelha da Palavra eternamente falante da ciência e do poder divinos; e o corpo é um ens das estrelas e dos elementos, bem como, em seu fundamento interior, um ens do céu — do mundo oculto — razão pela qual o homem tem poder e capacidade de falar do Grande Mistério de onde todas as essências originalmente procedem.
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Grande Mistério — Grand Mystery — é o nome dado à natureza espiritual eterna que subjaz ao mundo visível.
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Ens designa o ser ou substância derivada de uma fonte determinada — estrelas, elementos, céu.
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A alma humana como centelha da Palavra divina fundamenta a aptidão cognitiva do homem para o conhecimento das origens.
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Tendo os grandes Mistérios — o princípio e a origem de todas as coisas — sobrevindo por graça divina, de modo que seja possível compreendê-los em conhecimento real pelo fundamento da alma com a palavra inspirada da ciência divina, escreve-se aqui seu fundamento — na medida em que é permitido — como memorial e como exercício do conhecimento divino para o leitor.
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O conhecimento dos grandes Mistérios é recebido por graça, não conquistado por esforço humano isolado.
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O fundamento da alma é o órgão pelo qual o conhecimento real se torna acessível.
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A obra se dirige ao leitor como instrumento de exercício do conhecimento divino.
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A exposição abrangerá dez temas fundamentais: o centro e o fundamento de todas as essências; a manifestação divina pela fala da Palavra de Deus; a origem do mal e do bem a partir de um único fundamento — luz e trevas, vida e morte, alegria e tristeza — e a utilidade e necessidade de cada essência e fonte; o fundamento de todas as coisas a partir do Grande Mistério, isto é, da espiração do Uno eterno; a introdução do Uno eterno na sensação, percepção e separação para a ciência de si mesmo e o jogo do poder divino; o modo pelo qual o homem pode alcançar o verdadeiro conhecimento de Deus e o conhecimento da natureza eterna e temporal; a contemplação real do Ser de todos os seres; a criação do mundo e de todas as criaturas; a origem, queda e restauração do homem — o que ele é segundo o primeiro homem adâmico no reino da natureza e o que é no novo nascimento no reino da graça; e, por fim, o que são o Antigo e o Novo Testamento, cada um em sua compreensão.
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Os dez temas formam uma estrutura enciclopédica que vai da ontologia divina à antropologia espiritual e à hermenêutica bíblica.
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O homem adâmico — Adamical man — refere-se ao ser humano em sua condição original segundo o relato do Gênesis.
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O novo nascimento — new birth — é o processo de regeneração no reino da graça.
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A exposição se desdobrará por todos os capítulos do primeiro Livro de Moisés — o Gênesis — para mostrar como o Antigo Testamento é figura do Novo, o que deve ser entendido pelas obras dos santos patriarcas, por que o espírito de Deus as fez registrar em Moisés, e como o espírito de Deus aludia, nos filhos anteriores à era de Cristo, por meio de figuras ao reino de Cristo, representando sempre a sede da misericórdia — Cristo — por quem Deus apagaria sua ira e manifestaria sua graça.
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O primeiro Livro de Moisés refere-se ao Gênesis, primeiro livro do Pentateuco.
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Os santos patriarcas são as figuras do Antigo Testamento cujas ações são interpretadas tipologicamente.
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Cristo é identificado como sede da misericórdia — mercy-seat — ou trono da graça pelo qual a ira divina é apagada.
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Todo o tempo deste mundo está retratado e modelizado como em um mecanismo de relógio, indicando como deveria transcorrer no tempo, e o que são o mundo espiritual interior, o mundo material exterior, o homem espiritual interior e o homem externo da essência deste mundo, bem como de que modo o tempo e a eternidade estão um no outro e como o homem pode compreender tudo isso.
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A imagem do mecanismo de relógio — watch-work — figura a ordenação providencial do tempo histórico.
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A distinção entre homem espiritual interior e homem externo do mundo retoma a dualidade alma-corpo em escala antropológica e cosmológica.
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Tempo e eternidade coexistem mutuamente, não se excluem.
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Se ao ler estes escritos o leitor não compreender de imediato o fundamento — que tem sua plena fundação e concordância tanto com a Escritura quanto pela luz da natureza, que por longo tempo permaneceu muito obscuro e que contudo foi dado à simplicidade pura por graça divina —, que não o despreze nem o rejeite conforme o costume do mundo ímpio, mas que examine o fundamento prático nele intimado, se entregue a ele e ore a Deus por luz e entendimento, pois por fim compreenderá corretamente e o encontrará com grande amor e aceitação.
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A luz da natureza — light of nature — é o princípio cognoscitivo imanente às criaturas, distinto da revelação sobrenatural mas convergente com ela.
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A simplicidade pura — plain simplicity — é o modo pelo qual a graça divina torna acessível o que a razão ordinária não alcança.
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O leitor é convocado à prática e à oração, não apenas à leitura intelectual.
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Nada foi escrito para os arrogantes e presunçosos sabichões que julgam já saber o suficiente e contudo nada sabem — cujo ventre é seu Deus, que aderem à Besta da Meretriz Babilônica e bebem de seu veneno, querendo permanecer na cegueira e no laço do diabo — pois foi colocado pelo espírito do conhecimento um forte ferrolho diante do entendimento da insensatez, para que não apreenda o sentido, uma vez que servem voluntária e deliberadamente a Satanás e não são filhos de Deus.
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A Meretriz Babilônica — Babylonical Whore — é imagem bíblica do Apocalipse associada à corrupção espiritual e à apostasia.
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Satanás é evocado como o princípio que preside a servidão voluntária dos que recusam o conhecimento divino.
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O ferrolho posto pelo espírito do conhecimento indica que o texto possui uma opacidade protetora diante da leitura insensata.
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O desejo é ser compreendida clara e fundamentalmente pelos filhos de Deus, comunicando de bom grado o conhecimento recebido de Deus, pois o tempo de tal revelação nasceu — que cada um veja e atente à sentença e ao julgamento que profere, pois cada um receberá sua recompensa, sendo encomendado à graça do amor manso e terno de Jesus Cristo.
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Os filhos de Deus são o público destinatário legítimo da revelação contida na obra.
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Jesus Cristo é invocado ao final como o âmbito da graça no qual o leitor é encomendado.
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A data de encerramento do prefácio é 11 de setembro do ano de 1623.
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