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Homilia 27 — Números 33:1-49

Sobre as etapas dos filhos de Israel

  • Ao fundar o mundo, Deus criou inúmeros tipos diferentes de alimentos em razão da diversidade existente tanto nos desejos humanos quanto na natureza dos animais.
    • Cada espécie conhece seu próprio alimento: o leão, o cervo, o boi e as aves alimentam-se de coisas distintas
    • Entre os seres humanos há igualmente diferenças: o saudável e robusto precisa de alimento forte e “acredita e tem confiança para comer todas as coisas” (Romanos 14:2)
    • O fraco contenta-se com vegetais; o infante não busca outro sustento senão o leite
    • Cada indivíduo, segundo a idade, a força ou a saúde do corpo, deseja o alimento que lhe corresponde
  • Toda natureza racional necessita ser nutrida por alimentos que lhe sejam próprios, sendo a Palavra de Deus o verdadeiro alimento dessa natureza.
    • Assim como no corpo há diversidade de alimentos, também na natureza racional há graus distintos de nutrição espiritual
    • O alimento de alguns na Palavra de Deus é o leite (cf. 1 Coríntios 3:2), ou seja, a doutrina mais clara e simples
    • Esse leite consiste habitualmente na instrução moral oferecida aos que iniciam os estudos divinos e recebem os primeiros elementos de uma educação racional
    • Lat. sermo e Lat. verbum distinguem dois sentidos do termo Palavra no original latino
  • Quando se lê algum livro bíblico que não apresenta obscuridade aparente, tal leitura é acolhida com alegria; mas ao deparar-se com o livro do Levítico, a mente tropeça e o recusa como alimento impróprio.
    • Livros facilmente recebidos: Ester, Judite, Tobias e os preceitos do livro da Sabedoria
    • O livro do Levítico trata de sacrifícios e ritos de imolação, o que perturba quem veio aprender a adorar a Deus e receber mandamentos sobre a justiça e a piedade
    • Recusar tal alimento é reação natural de quem ainda não tem capacidade de recebê-lo
  • Quando os Evangelhos, o apóstolo ou os Salmos são lidos, alguém os acolhe com alegria como remédio para sua fraqueza; mas o livro dos Números, especialmente a passagem em questão, é rejeitado como alimento pesado e inadequado para uma alma enferma.
    • A comparação retorna ao mundo físico: se ao leão fosse dado entendimento, não censuraria a abundância de ervas criadas pelo Criador só porque ele mesmo se alimenta de carne crua
    • Tampouco o ser humano deveria culpar Deus por criar serpentes ou outros animais que servem de alimento a outros
    • O boi e a ovelha não deveriam censurar o fato de que a carne foi dada a outros animais, quando para eles a erva basta
  • Não se deve rejeitar imediatamente uma Escritura que pareça difícil ou obscura, ou que contenha coisas inacessíveis ao iniciante e ao fraco; antes, convém considerar que a própria diversidade da criação divina aponta para o louvor e a glória do Criador.
    • Referência a Hebreus 5:13 (iniciante) e Romanos 14:2 (o fraco)
    • A criação de Deus abrange serpentes, ovelhas, seres humanos e palha, e cada uma dessas criaturas recebe seu alimento de modo conveniente
    • Cada indivíduo, na medida em que se percebe saudável e forte, acolhe as palavras de Deus, nas quais há alimento diferente segundo a capacidade das almas
  • Se ao examinar o Evangelho ou a instrução apostólica com atenção surgem tantas coisas que escapam ao olhar, é porque o aparentemente obscuro e difícil, quando rejeitado de imediato, revelaria igual obscuridade até nos textos considerados seguros.
    • Textos que parecem claros também contêm passagens obscuras e difíceis para quem os examina com rigor
    • Há muito nos escritos considerados seguros que edifica até os ouvintes de inteligência limitada, se abordado com atenção
    • A rejeição precipitada de passagens difíceis obrigaria, pela mesma lógica, a abandonar também os textos favoritos
  • Tudo isso é dito como prefácio para despertar as mentes diante de uma leitura difícil de entender e que parece supérflua, pois nada do que foi escrito pelo Espírito Santo é inútil ou supérfluo.
    • O necessário não é rejeitar a passagem, mas voltar os olhos da mente para aquele que ordenou que fosse escrita
    • Deve-se pedir entendimento a Deus: “aquele que sara todas as suas enfermidades” (Salmos 103:3) pode sarar a fraqueza da alma
    • Se há limitação de inteligência, o Senhor pode estar presente, guardar seus filhos e nutri-los até a “medida da idade” (Efésios 4:13)
    • Cabe à alma pedir; a Deus cabe “dar aos que pedem e abrir aos que batem” (Mateus 7:7)
  • Passando ao início da leitura proclamada, busca-se, com o auxílio do Senhor, resumir os pontos principais e explicar seu sentido, ainda que sem clareza total.
    • O texto diz: “Estas são as etapas dos filhos de Israel, desde quando saíram do Egito com seu poder pela mão de Moisés e Aarão. E Moisés escreveu os seus pontos de partida e as etapas pela Palavra do Senhor” (Números 33:1-2)
    • A pergunta é levantada: por que o Senhor quis que essas coisas fossem escritas — para que essa passagem nos beneficiasse de algum modo?
    • Lat. mansiones traduz o termo etapas/moradas
  • Negar que o que foi escrito “pela Palavra de Deus” seja útil e contribua para a salvação constitui uma opinião ímpia e estranha à fé católica.
    • Tal negação pertence apenas aos que recusam que o único e sábio Deus da Lei e dos Evangelhos seja o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo — afirmação dirigida contra Marcion (cf. Romanos 15:4.6)
    • Propõe-se investigar de modo sumário o que uma interpretação fiel deve compreender nessas etapas
  • No sentido espiritual, é possível reconhecer um duplo êxodo do Egito: seja quando se abandona a vida pagã para chegar ao conhecimento da lei divina, seja quando a alma deixa sua morada no corpo.
    • As etapas que Moisés descreve “pela Palavra do Senhor” têm ambos os sentidos em vista
    • Referência à Homilia 26.4.1-2 onde o mesmo tema foi tratado anteriormente
    • Lat. profectio designa a partida/êxodo
  • As etapas nas quais a alma, despojada do corpo ou novamente revestida dele, habitará são aquelas a que o Senhor se refere no Evangelho ao dizer: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (João 14:2).
    • Essas são as muitas moradas que conduzem ao Pai
    • O sentido de cada etapa, o proveito que a alma obtém ao permanecer nela e a instrução que nela recebe são conhecidos somente pelo Pai do século futuro (cf. Isaías 9:6)
    • O Senhor diz de si mesmo: “Eu sou a porta” (João 10:9) e “Ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6)
    • Cristo poderá tornar-se a porta para cada alma em cada etapa diferente, de modo que ela entre por ele, saia por ele, encontre pasto (cf. João 10:9), passe a outra etapa e assim sucessivamente até chegar ao próprio Pai
  • Os filhos de Israel estavam no Egito, sendo oprimidos com argamassa e tijolos para as obras do Faraó, até gemer e clamar ao Senhor, que ouviu seu gemido e enviou sua Palavra por Moisés para conduzi-los para fora.
    • O Egito representa os erros deste mundo e as trevas da ignorância, onde se realizam as obras do diabo nas concupiscências e prazeres da carne (cf. Êxodo 1:14; 2,23; 3,7)
    • O Senhor teve piedade da aflição e enviou a Palavra, seu Filho unigênito (cf. 1 João 4:9), para arrancar das trevas do erro à luz da lei divina
  • Há quarenta e duas etapas na saída dos filhos de Israel do Egito, e a vinda do Senhor e Salvador ao mundo é traçada através de quarenta e duas gerações.
    • O evangelista Mateus registra: “De Abraão ao rei Davi, catorze gerações; de Davi até a deportação para a Babilônia, catorze gerações; e da deportação para a Babilônia até Cristo, catorze gerações” (Mateus 1:17)
    • Os que sobem do Egito percorrem quarenta e duas etapas, o mesmo número das quarenta e duas gerações que Cristo percorreu ao descer ao Egito deste mundo
    • Moisés registrou com cuidado: “Os filhos de Israel subiram com seu poder” (Números 33:1); esse poder é o próprio Cristo, que é “o poder de Deus” (1 Coríntios 1:24)
    • Quem sobe, sobe com aquele que desceu, para alcançar o lugar de onde esse desceu, não por compulsão, mas por dignidade, cumprindo-se: “Aquele que desceu é o mesmo que subiu” (cf. Efésios 4:8-10)
  • Os filhos de Israel, por quarenta e duas etapas, chegam ao início da tomada da herança, cujo início ocorreu quando Rúben, Gad e a meia tribo de Manassés receberam a terra de Gileade.
    • O número da descendência de Cristo segundo a carne é estabelecido por quarenta e dois pais, assim como as quarenta e duas etapas de quem desce até nós (cf. Josué 17:5-6)
    • A subida dos filhos de Israel até o início da herança prometida é estabelecida pelo mesmo número de etapas
  • Compreendido o mistério desse número, convém começar a subir pelos degraus pelos quais Cristo desceu, fazendo como primeira etapa aquela que ele fez por último — ao nascer da Virgem — e deixando aí a adoração aos ídolos e o culto aos demônios.
    • Depois do primeiro degrau, prossegue-se subindo um a um cada um dos degraus (Lat. gradus) da fé e das virtudes
    • Ao permanecer neles por longo tempo até chegar à perfeição, diz-se ter feito uma etapa em cada degrau das virtudes
    • Quando se alcança a altura da instrução e o cume do progresso, a herança prometida se cumpre
    • Referência a João 1:1.9.14 e à Palavra feita carne
  • Quando a alma parte do Egito desta vida rumo à Terra Prometida, necessariamente percorre certos caminhos e realiza etapas fixas guiada pela providência de Deus para algum proveito.
    • Referência ao salmo: “Affligi-te e alimentei-te com maná no deserto, que teus pais não conheciam, para que o que está em teu coração se tornasse conhecido” (Deuteronômio 8:2-3)
    • Essas são as etapas pelas quais se faz a jornada da terra ao céu
  • Diante da grandeza dos segredos divinos, nenhum intérprete seria capaz de descrever as etapas da jornada e da subida da alma, explicitando os trabalhos e os lugares de repouso de cada estação.
    • Como explicar que após a primeira, segunda e terceira etapa o Faraó ainda persegue, e que os egípcios, mesmo afogados, continuaram a perseguir?
    • Como expressar que o povo de Deus, salvo após poucas etapas, cantou primeiro o cântico: “Cantemos ao Senhor, pois foi gloriosamente honrado; lançou o cavalo e o cavaleiro no mar” (Êxodo 15:1)?
    • Ninguém saberia explicar as etapas uma a uma nem fazer conjecturas sobre seus caracteres a partir de seus nomes, ignorando-se se o entendimento do pregador é adequado ao peso dos mistérios ou se o ouvido dos ouvintes é capaz de compreender
  • Como explicar o combate com os amalequitas, as diversas tentações e os que “caíram no deserto” (Números 14:32; 1 Coríntios 10:5), sendo que não todos os filhos de Israel, mas os filhos dos filhos de Israel puderam chegar à terra santa.
    • Todo o povo antigo, cuja vida estava entre os egípcios, caiu; somente um povo novo que não conhecia os egípcios chegou ao reino, com exceção dos sacerdotes e levitas
    • Quem encontrar lugar na ordem dos sacerdotes e levitas, não tendo porção nas terras mas somente o próprio Senhor, não “cai no deserto”, mas chega à Terra Prometida
    • A subida do Egito à Terra Prometida ensina misteriosamente a subida da alma ao céu e o mistério (Lat. sacramentum) da ressurreição dos mortos
  • Os nomes são registrados para as etapas porque não seria conveniente que todos os outros lugares sob o céu — montes, vales e campos — tivessem nomes, mas que a subida pela qual a alma sobe ao reino de Deus não os tivesse.
    • Os nomes das etapas foram adaptados aos temas misteriosos
    • O guia dessa subida não é Moisés — que não sabia para onde ia (cf. Hebreus 11:8) — mas a coluna de fogo e a nuvem (cf. Êxodo 13:21), isto é, o Filho de Deus e o Espírito Santo
    • O profeta diz: “O próprio Senhor os conduzia” (Salmos 78:14; cf. Deuteronômio 1:32-33)
    • A alma bem-aventurada, passando por cada etapa — as “muitas moradas” (cf. João 14:2) que estão junto ao Pai — será cada vez mais iluminada, ganhando sempre maior aumento de esplendor, até habituar-se a contemplar a “verdadeira luz que ilumina todo homem” (cf. João 1:9)
  • As etapas apontam também para o progresso da alma colocada nesta vida que, após sua conversão da vida pagã, segue não tanto Moisés quanto a lei de Deus, e não tanto Aarão quanto o sacerdote que permanece para sempre.
    • Antes de chegar à perfeição, a alma habita no deserto, onde é treinada nos mandamentos do Senhor e sua fé é provada pelas tentações (cf. Hebreus 6:20)
    • Ao vencer uma tentação, passa a outra, como de uma etapa para outra, avançando de virtude em virtude (Salmos 84:7) até alcançar o fim último e cruzar o rio de Deus recebendo a herança prometida
  • Usando um duplo modo de explicação, convém considerar toda essa sequência de etapas proclamada em voz alta, de modo que o progresso venha à alma sob os dois aspectos.
    • O primeiro aspecto ensina como esta vida, convertida do erro, deve ser conduzida segundo a lei de Deus
    • O segundo mostra a grandeza da esperança futura prometida com base na ressurreição (cf. 1 Pd 1,3)
    • Uma interpretação digna das leis do Espírito Santo pode ser ensinada quanto ao que se lê
    • De que serve conhecer o local no deserto onde os filhos de Israel acampavam, se não há progresso espiritual para quem medita “na lei de Deus dia e noite” (Salmos 1:2)?
    • A descrição foi inserida pela segunda vez nas leis divinas, repetida duas vezes para mostrar dois caminhos para a alma: o da alma colocada na carne que se treina nas virtudes e sobe por degraus de progressão “de virtude em virtude”, e o da alma que, ao subir ao céu após a ressurreição, é conduzida através de “muitas moradas” (cf. João 14:2) sendo iluminada etapa por etapa
  • Os filhos de Israel saíram “com seu poder” (Números 33:1; Lat. virtus); e esse poder estava com eles quando se disse: “Descerei contigo ao Egito” (cf. Gênesis 46:4), razão pela qual o profeta afirma: “E não havia ninguém fraco entre suas tribos” (Salmos 105:37).
    • A saída se deu “pela mão de Moisés e Aarão” (Números 33:1): uma só mão, não duas, pois há uma única obra para cada mão e um único cumprimento da perfeição
    • Moisés representa o conhecimento da lei; Aarão, a habilidade nos sacrifícios e imolações a Deus
    • Ao sair do Egito, é necessário ter não apenas o conhecimento da lei e da fé, mas também obras pelas quais se agrada a Deus
    • A “mão” significa obras: ao converter-se a Deus e afastar o orgulho, sacrifica-se um touro ao Senhor pela mão de Aarão; ao destruir paixões agressivas, mata-se um bode; ao vencer a luxúria, um bezerro; ao vencer a tolice, uma ovelha
    • Ambas as mãos são necessárias para que se encontre não apenas a perfeição da fé e do conhecimento, mas também a das obras
  • Moisés escreveu os pontos de partida e as etapas “pela Palavra do Senhor” (Números 33:2) para que, ao lê-los, se possa ver quantos pontos de partida e etapas estão adiante na jornada que conduz ao reino, preparando-se para esse caminho e não permitindo que o tempo de vida seja desperdiçado em preguiça e negligência.
    • Se se demora nas vaidades deste mundo e se delicia em cada uma das sensações que chegam pela vista, pelo ouvido, pelo tato, pelo olfato e pelo gosto, os dias passam e não se encontra oportunidade para completar a jornada
    • Pode-se desfalece a meio caminho, tornando-se como os que “caíram no deserto” (Hebreus 3:17; 1 Coríntios 10:5)
    • A razão de ter vindo a este mundo é passar “de virtude em virtude” (Salmos 84:7), não permanecer para as coisas da terra
    • Exemplo negativo: o homem que disse “Derrubarei meus celeiros, construirei outros maiores, e direi à minha alma: Alma, tens muitos bens guardados para muitos anos, come, bebe, alegra-te” (Lucas 12:18-19)
    • O Senhor lhe disse: “Insensato! Esta noite te será tirada a tua alma” (Lucas 18:20) — não “este dia”, mas “esta noite”, pois ele é destruído à noite como o primogênito dos egípcios (cf. Êxodo 12:29), como quem “amou o mundo” (cf. 1 João 2:15) e pertencia “aos príncipes das trevas deste mundo” (cf. Efésios 6:14)
    • Este mundo é chamado trevas e noite por causa dos que vivem na ignorância e não aceitam a luz da verdade; esses não partem “de Ramsés” nem passam “a Sucote” (cf. Números 33:3.5)
  • Os filhos de Israel partiram de Ramsés no décimo quinto dia do primeiro mês (Números 33:3), ou seja, no dia seguinte à Páscoa celebrada no décimo quarto dia (cf. Êxodo 12:6.18), que era o primeiro dia dos ázimos.
    • A Páscoa foi celebrada no Egito matando um cordeiro no dia anterior à partida; os que ainda estavam no Egito realizaram como que um início da festa
    • “Quem é sábio e compreenderá estas coisas? Ou prudente e as conhecerá?” (Oséias 14:9)
    • O apóstolo diz: “Pois conhecemos em parte e profetizamos em parte” (1 Coríntios 13:9)
    • “Que ninguém vos julgue em parte por uma festa, ou neomênia, ou sábado” (Colossenses 2:16)
    • Toda festa celebrada na terra pelos seres humanos é celebrada “em parte”, não completamente; mas ao sair daquele Egito haverá a festa perfeita, o “pão ázimo da sinceridade e da verdade” (1 Coríntios 5:8) na perfeição, o dia de Pentecostes no deserto, o alimento celestial do maná e cada uma das festas comentadas anteriormente nas Homilias 23 e 24
  • Após a Páscoa do Egito, a Páscoa foi celebrada apenas uma vez no deserto, quando a lei foi dada, e outra vez em Números (cf. Números 9:1-2); depois disso, nunca mais foi realizada exceto na Terra Prometida.
    • Os filhos de Israel saíram de Ramsés “com mão elevada, aos olhos de todos os egípcios” (Números 33:3)
    • O que é a “mão elevada”? “Que a tua mão seja levantada” (Salmos 10:12) — onde não há obra humana ou terrena, mas divina, encontra-se o termo “mão elevada”
    • “Com mão elevada aos olhos de todos os egípcios, eles partiram”
  • “E os egípcios estavam enterrando os seus mortos” (Números 33:4): os mortos enterravam seus próprios mortos (cf. Mateus 8:22), mas os vivos seguiam o Senhor seu Deus; depois disso, “o Senhor fez vingança sobre os seus deuses” (Números 33:4).
    • No Êxodo diz-se: “E sobre todos os deuses dos egípcios o Senhor fará vingança” (Êxodo 12:12)
    • “Há alguns que são chamados deuses, seja no céu ou na terra” (1 Coríntios 8:5) — são os demônios que habitam nos ídolos
    • Salmos 96:5: “Todos os deuses das nações são demônios”
    • A vingança se dá quando alguém enganado a adorar ídolos é convertido pela Palavra do Senhor: o demônio que enganou recebe punição pela própria conversão
    • Do mesmo modo, se alguém convertido à pureza chora seu erro, o demônio é chamuscado pelas lágrimas do arrependimento
    • Se alguém passa da arrogância à humildade, da luxúria à sobriedade, cada ato açoita os demônios que o enganavam
    • Grande tormento para os demônios é ver alguém que “vende tudo o que possui e dá aos pobres” (cf. Mateus 19:21) e “toma sua cruz e segue” Cristo (cf. Mateus 16:24)
    • O maior tormento é ver alguém empenhado no estudo da Palavra de Deus e na busca do conhecimento dos mistérios das Escrituras, pois assim as trevas da ignorância são dissipadas
  • Os demônios possuem todos os que vivem na ignorância; não apenas os que ainda estão nela, mas frequentemente vão também aos que conheceram a Deus para tentar neles obras de ignorância.
    • Nenhum pecado se realiza sem eles: o adultério, a ira excessiva, o roubo dos bens alheios, a calúnia contra o próximo (cf. Salmos 101:5), o escândalo ao irmão (cf. Salmos 50:20; Romanos 14:13) — nada disso ocorre sem um demônio
    • É necessário ser vigilante para não reanimar o primogênito dos egípcios ou seus deuses que o Senhor abateu e destruiu, dando-lhes oportunidade de agir no que Deus odeia
    • Se nos mantemos afastados de tudo isso, “o Senhor inflinge vingança sobre todos os deuses dos egípcios” e eles recebem punição por nossa emenda e conversão
  • A sequência da partida e a distinção das etapas são necessárias e devem ser observadas pelos que seguem a Deus e se voltam para o progresso nas virtudes; sendo a primeira partida “de Ramsés”, que em nossa língua significa “agitação confusa” ou “agitação do verme”.
    • Referência a Filon de Alexandria (Sobre os Sonhos 77; Sobre a Posteridade de Caim 56) e a Jerônimo (Epístola 78.3) para a etimologia de Ramsés
    • Tudo neste mundo está estabelecido em agitações e desordens, e também na corrupção — o que o verme indica
    • Não é conveniente que a alma permaneça nessas coisas; deve partir e chegar a Sucote (Lat. Sochoth), que significa “tendas/tabernáculos”
    • A primeira progressão da alma é ser retirada da agitação terrena e perceber que deve habitar em tendas como peregrino e como quem está em jornada, pronto para o combate
  • Da primeira etapa, a alma parte de Sucote e acampa em Butã (Números 33:6; RSV Etã), que significa “vale”, pois a virtude só se adquire pelo treino e pelo esforço, e é mais provada na adversidade do que na prosperidade.
    • Nos vales e lugares baixos ocorre a luta contra o diabo e os poderes contrários
    • Abraão combateu contra os reis bárbaros no Vale do Sal (cf. Gênesis 14:10) e ali obteve a vitória
    • O peregrino desce aos que estão nos lugares profundos e baixos não para ali permanecer, mas para ali vencer
  • De Butã partem e acampam na “boca de Irote” (Números 33:7; RSV Pi-hairote), que traduz “aldeia”: ainda não se chega à cidade, nem se possui o que é perfeito, mas primeiro se capturam pequenas coisas, pois o progresso consiste em chegar às grandes coisas a partir das pequenas.
    • Chega-se à “boca”, isto é, à primeira entrada de uma aldeia, que indica um modo de vida (Lat. conversatio) e uma abstinência moderada
    • Um grau de abstinência excessivo e desmedido é perigoso nos estágios iniciais
    • Irote está situada em frente a “Beelsefon e em frente a Magdalum” (Números 33:7; RSV Baal-Zefon, Migdol)
    • Beelsefon traduz-se como “a subida da torre de vigia ou cidadela”: a alma sobe das pequenas coisas para as grandes, ainda não colocada na torre de vigia em si, mas “em frente” a ela, na sua vista
    • Ali começa a vigiar e a contemplar a esperança futura e a altura das progressões, sendo mais nutrida pela esperança do que fatigada pelos trabalhos
    • Magdalum significa “magnificência”: a alma, tendo em vista a subida da torre e a magnificência das coisas vindouras, é nutrida por grandes esperanças — está nas partidas, não na perfeição
  • Depois partem de Irote e “passam pelo meio do Mar Vermelho” e acampam “na amargura” (Números 33:8; RSV Mará), pois o tempo das progressões é um tempo de perigos, e atravessar o meio do mar é uma tentação muito difícil.
    • Se se segue Moisés, isto é, a lei de Deus, as águas se tornam “muro à direita e à esquerda” e se caminha em “terra seca no meio do mar” (cf. Êxodo 14:22)
    • A jornada celestial pode ter também suas águas: uma parte das águas está “acima do céu” e outra “abaixo do céu” (cf. Gênesis 1:7), e por enquanto se suportam as ondas e os turbilhões das águas que estão “abaixo do céu”
    • Ao chegar à travessia do mar, não se deve temer ao ver o Faraó e os egípcios em perseguição, mas crer no “único Deus verdadeiro e em seu Filho Jesus Cristo, a quem enviou” (João 17:3; cf. Êxodo 14:31)
    • “O povo creu em Deus e em seu servo Moisés” (Êxodo 14:31) — crer em Moisés é crer na lei de Deus e nos profetas
    • “Em breve vereis os egípcios caídos na praia” (cf. Êxodo 14:30): ao vê-los, cantar ao Senhor e louvar “aquele que afundou o cavalo e o cavaleiro no Mar Vermelho” (cf. Êxodo 15:1)
  • “Acamparam na amargura” (Números 33:8): não se deve temer ou ficar atemorizado ao ouvir “amargura”, pois o apóstolo ensina que “nenhuma disciplina parece doce no momento, mas amarga; porém depois produz o fruto pacífico da justiça para os que foram treinados por ela” (Hebreus 12:11).
    • O pão ázimo é mandado comer com ervas amargas (cf. Êxodo 12:8), e não é possível chegar à Terra Prometida sem passar pela amargura
    • Assim como os médicos colocam substâncias amargas nos medicamentos para a saúde dos doentes, também o médico das almas quis que se suporte a amargura desta vida nas diversas tentações
    • O fim da amargura obtém a doçura da salvação; o fim da doçura dos prazeres físicos produz o amargo fim no inferno dos castigos, como mostra o exemplo do rico (cf. Lucas 16:19-25)
    • Quem entra na jornada das virtudes não deve voltar atrás ao acampar na “amargura”
  • “Partiram da amargura e chegaram a Elim” (Números 33:9), onde há doze fontes de água e setenta palmeiras (cf. Números 33:9): após a amargura, após as durezas das tentações, chegam-se a lugares agradáveis.
    • Elim traduz-se como “carneiros” — líderes dos rebanhos; os líderes do rebanho de Cristo são os apóstolos, que são também as doze fontes
    • O Senhor e Salvador escolheu não apenas aqueles doze (cf. Marcos 3:14; João 6:70) mas também setenta outros (cf. Lucas 10:1), por isso há não apenas doze fontes mas também setenta palmeiras
    • Paulo, ao explicar a ressurreição do Salvador, diz: “Apareceu àqueles Doze, depois a todos os apóstolos” (1 Coríntios 15:5.7), mostrando que há outros apóstolos além dos doze
    • Essa amenidade espera após a amargura, esse repouso após o trabalho, essa graça após a tentação
  • “Partiram de Elim e acamparam junto ao Mar Vermelho” (Números 33:10): não entram no Mar Vermelho — basta tê-lo atravessado uma vez; agora “acampam junto ao mar” para vê-lo e contemplar suas ondas, sem temer seus movimentos e ataques.
    • “E partiram do Mar Vermelho e acamparam no deserto de Sin” (Números 33:11)
    • Sin traduz-se como “sarça ardente” ou “tentação”
    • A esperança das coisas boas começa a sorrir: “O Senhor apareceu da sarça ardente” e deu respostas a Moisés (cf. Êxodo 3:2); esse foi o início da visitação do Senhor aos filhos de Israel
    • Sin traduz-se também como tentação porque as visões habitualmente envolvem tentação: às vezes um anjo da maldade “se transforma em anjo de luz” (2 Cor 11,14)
    • Josué, filho de Nun, ao ver uma visão, soube que havia uma tentação nela e imediatamente interrogou o que lhe aparecia: “És dos nossos ou dos adversários?” (Josué 5:13)
    • A alma chega ao lugar onde começa a discernir entre as visões; um dos dons espirituais concedidos pelo Espírito Santo é “o discernimento dos espíritos” (1 Coríntios 12:10)
  • “Partiram do deserto de Sin e chegaram a Rafacá” (Números 33:12; RSV Dofcá), que se traduz como “saúde”: quando a alma se torna espiritual e começa a ter visões celestiais, chega à saúde.
    • Referência ao Salmos 103:1: “Abençoa o Senhor, ó minha alma, e tudo o que está em mim abençoa seu santo nome”
    • “Aquele que sara todas as tuas enfermidades, que resgata a tua vida da destruição” (Salmos 103:3-4)
    • Há muitas enfermidades da alma: a avareza é a pior delas; a soberba, a ira, a vaidade, o medo, a inconstância, a timidez e semelhantes
    • Alcançar a etapa de Rafacá significa alcançar a cura dessas enfermidades
  • Seria demorado percorrer cada uma das etapas e explicar uma a uma o que é sugerido pela contemplação de seus nomes; faz-se, portanto, um percurso breve e sumário para oferecer oportunidades de compreensão.
    • Partem de Rafacá e chegam a Halus (Números 33:13; RSV Alus), que se traduz como “trabalhos”: após a saúde, não é surpreendente que venham os trabalhos, pois a alma recebe a saúde de Deus para aceitar os trabalhos com alegria — “Comerás os trabalhos do teu labor; és bem-aventurado e te irá bem” (Salmos 128:2)
    • Chegam depois a “Rafidim” (Números 33:14; RSV Refidim), que se traduz como “louvor do juízo”: a alma que julga e discerne corretamente torna-se digna de louvor, pois “julga todas as coisas espiritualmente e não é julgada por ninguém” (1 Coríntios 2:15)
    • “Chega ao deserto de Sina” (Números 33:15; RSV Sinai): Sina é o nome do monte naquele deserto; após a alma ter sido louvável no julgamento e ter começo de julgamento reto, Deus lhe dá a lei, pois ela começou a ser capaz de receber os segredos divinos e as visões celestiais
    • Dos “túmulos da concupiscência” (Números 33:16; RSV Quibrote-Hataavá) — Lat. monumenta — é onde as concupiscências estão enterradas e cobertas, onde todo desejo é saciado e a carne não mais “contende contra o espírito” (Gálatas 5:17) por ter sido morta pela morte de Cristo (cf. Romanos 6:2-4; 7,4)
    • Chegam a “Aserote” (Números 33:17; RSV Hazerote), que se traduz como “salões perfeitos” ou “bem-aventurança”: após enterrar e entregar à morte as concupiscências da carne, vem-se à amplitude dos salões e à bem-aventurança, pois bem-aventurada é a alma que não é mais assediada por nenhum vício da carne
  • De Aserote chega-se a “Ratmá” (Números 33:18; RSV Ritmá), que se traduz como “visão completa”; e Farã significa “face visível”: quando a alma cessa de ser assediada pelos incômodos da carne, tem visões completas e recebe uma compreensão perfeita das coisas, reconhecendo mais plenamente as causas da encarnação da Palavra de Deus (cf. João 1:14) e as razões de suas dispensações.
    • De lá chega-se a “Remmon Farés” (Números 33:19; RSV Rimom-Perez), que significa “corte elevado” — a separação e distinção das realidades grandes e celestiais em relação às terrenas e humildes
    • À medida que o entendimento da alma cresce, o conhecimento das coisas elevadas lhe é fornecido e ela recebe o juízo pelo qual sabe separar o eterno do temporal e o perecível do eterno
    • Chega-se a “Lebna” (Números 33:20; RSV Libná), que se traduz como “embranquecimento” — não no sentido condenável de “parede caiada” (Atos 23:3) ou “sepulcros caiados” (Mateus 23:27), mas no sentido do profeta: “Lavar-me-ás e serei mais branco que a neve” (Salmos 51:7) e de Isaías: “Se os vossos pecados forem como a escarlate, eu os embranquecerei como a neve, e os farei brilhar como a lã” (Isaías 1:18); também no Salmos 68:14 e Daniel 7:9
    • Esse embranquecimento provém do esplendor da verdadeira luz e desce do brilho das visões celestiais
  • A etapa seguinte é em “Ressa” (Números 33:21; RSV Rissá), que pode ser chamada “tentação visível” ou “tentação louvável”: por mais que a alma progrida, as tentações não lhe são retiradas, pois exercem sobre ela como que uma proteção e defesa.
    • Assim como a carne se corrompe se não for salgada, também a alma, se não for de algum modo salgada por tentações constantes, torna-se imediatamente negligente e dissoluta
    • “Todo sacrifício será salgado com sal” (Levítico 2:13)
    • Paulo disse: “E para que eu não me exaltasse pela grandeza das revelações, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás, para me esbofetear” (2 Cor 12,7)
  • De Ressa chega-se a “Macelate” (Números 33:22; RSV Queelata), que significa “principado” ou “cajado”: a alma progrediu a ponto de dominar o corpo e ter poder não apenas sobre ele mas sobre o mundo inteiro, pois “o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gálatas 6:14).
    • De lá chega-se ao “Monte Separ” (Números 33:23; RSV Sefer), chamado “som de trombetas”: a trombeta é sinal de guerra; quando a alma se sente armada de tantas virtudes eminentes, necessariamente vai ao combate “contra os principados e poderes, e contra os príncipes deste mundo” (Efésios 6:12)
    • A trombeta também soa na Palavra de Deus, na palavra da pregação e do ensino, para dar “som significativo pela trombeta” de modo que “quem a ouve possa se preparar para a guerra” (1 Coríntios 14:8)
    • Chega-se a “Caradate” (Números 33:24; RSV Haradá), que significa “tornado competente”: “Ele nos tornou competentes para sermos ministros de uma nova aliança” (2 Cor 3,6)
  • De Caradatate faz-se uma etapa em “Macelote” (Números 33:25; RSV Machelote), que se traduz como “desde o princípio”: quem se esforça pela perfeição contempla o princípio das coisas, referindo tudo a “aquele que estava no princípio” (João 1:1) e nunca se separa desse princípio.
    • Faz-se uma etapa em “Cataate” (Números 33:26; RSV Taate), que é “encorajamento” ou “perseverança”: é necessário para quem quer ser útil aos outros suportar muitas coisas pacientemente — “Te mostrarei quanto ele deve suportar pelo meu nome” (Atos 9:16), disse-se de Paulo
    • Chega-se a “Tará” (Números 33:27; RSV Terá), compreendido como “contemplação de espanto”: o grego ekstasis não pode ser expresso com uma única palavra em latim — é quando a mente fica admirada por alguma grande realidade, o que significa um tempo em que a mente atônita se maravilha pelo conhecimento de coisas grandes e admiráveis
  • Chega-se a “Matecá” (Números 33:28; RSV Mitcá), que se traduz como “nova morte”: a nova morte é quando “morremos juntos com Cristo e somos sepultados juntos com Cristo, para que também vivamos juntos com ele” (2 Tm 2,11; cf. Romanos 6:4).
    • Chega-se a “Asemná” (Números 33:29; RSV Hasmona), que significa “boca” ou “ossos”: por meio dessas coisas revela-se a virtude e a força da perseverança
    • Faz-se uma etapa em “Mesorote” (Números 33:30; RSV Moserote), que significa “aquele que exclui”: excluem-se as sugestões malignas do espírito adversário dos próprios pensamentos — “Se o espírito daquele que tem poder se levantar contra ti, não abandones o teu lugar” (Eclesiastes 10:4) — o lugar deve ser mantido e o adversário excluído, para que não encontre lugar no coração, pois “não deis lugar ao diabo” (Efésios 4:27)
    • Chega-se a “Baneain” (Números 33:31; RSV Bene-Jaacã), que significa “fontes” ou “filtros”, onde se bebe e filtra as palavras divinas: a palavra “filtrar” (Lat. excolat) vem de colare (coar), não de colere (cultivar); assim, a pessoa filtra a palavra de Deus quando não passa sobre sequer “o menor mandamento”, nem considera supérfluo ao seu entendimento “um iota ou um ponto” da palavra de Deus (cf. Mateus 5:18-19)
  • Chega-se a “Galgade” (Números 33:32; RSV Hor-Haguidgade), que se traduz como “tentação” ou “algo compactado”: a tentação é um tipo de força e defesa para a alma, tão entrelaçada com as virtudes que nenhuma virtude parece conveniente ou completa sem ela.
    • Por isso há etapas variadas e frequentes envolvendo tentações para os que progridem na virtude
    • Acampa-se em “Tabatá” (Números 33:33; RSV Jotbatá), que se traduz como “coisas boas”: não se chega às coisas boas exceto após a experiência das tentações
    • “Acamparam em Ebrona” (Números 33:34; RSV Abrona), que é “passagem”: tudo deve ser passado, pois mesmo ao chegar às coisas boas é necessário passar para as melhores, até chegar ao bem em que se deve sempre permanecer
    • Chega-se a “Gasiongaber” (Números 33:35; RSV Eziom-Geber), que se traduz como “os conselhos de um homem”: ao cessar de ser criança no entendimento, chega-se aos conselhos de um homem — “Quando me tornei homem, pus de lado as coisas da infância” (1 Coríntios 13:11); “O conselho no coração de um homem é água profunda” (Provérbios 20:5)
  • Chega-se novamente a “Sin” (Números 33:36; RSV Zim), que é novamente “tentação”: não há outro modo de clarear o caminho para entrar nesta jornada, assim como o ourives que quer fazer um vaso necessário leva-o frequentemente ao fogo, bate-o repetidamente com seus martelos e alisa-o com facas para que se purifique mais e alcance a forma que procura.
    • Acampa-se em “Farancades” (Números 33:36; RSV Cades), que é “fecundidade santa”: a fecundidade santa segue os sulcos das tentações
    • Acampa-se no “Monte Or” (Números 33:37; RSV Monte Hor), que se traduz como “montanhês”: chega-se à montanha de Deus para tornar-se uma “montanha rica e túrgida” (Salmos 68:15; cf. Salmos 68:15 Lat. tumida) — ou deriva do fato de que quem sempre habita na montanha de Deus é chamado montanhês
  • A etapa em “Selmona” (Números 33:41; RSV Zalmona) segue após o Monte Or, traduzindo-se como “sombra da porção”: a sombra de que fala o profeta é “O Espírito de nossa face é Cristo Senhor, sob cuja sombra viveremos entre as nações” (Lamentações 4:20).
    • Semelhante a essa é a sombra sobre a qual se diz: “O Espírito do Senhor te cobrirá com sua sombra” (Lucas 1:35)
    • A sombra da porção, que oferece sombra contra todo o calor das tentações, é Cristo Senhor e o Espírito Santo
    • Chega-se a “Finon” (Números 33:42; RSV Punon), que se pensa traduzir como “brevidade da boca”: quem pode contemplar o mistério de Cristo e do Espírito Santo, mesmo que veja ou ouça coisas “que não é lícito aos homens falar” (2 Cor 12,4), terá necessariamente brevidade da boca, pois sabe a quem, quando e como deve falar dos mistérios divinos
  • Chega-se a “Obote” (Números 33:43), cujo nome não foi traduzido, mas não há dúvida de que também nele, como em todos os outros, preserva-se o sentido racional das progressões.
    • Segue-se a etapa chamada “Gaí” (Números 33:44-45; RSV Iye-Abarim ou Iyim), que se traduz como “abismo” (Lat. chaos)
    • Por meio dessas progressões aproxima-se do “seio de Abraão”, que diz aos que estão nos tormentos: “Entre nós e vós há um grande abismo fixado” (Lucas 16:26)
    • A alma repousa também no seu seio, como o bem-aventurado Lázaro
  • Chega-se a “Dibon-Gade” (Números 33:45), que significa “colmeia das tentações”: o viajante celeste está muito próximo da mais alta perfeição por uma sucessão de virtudes, e ainda assim as tentações não o abandonam.
    • A Escritura descreve a abelha como criatura louvável: reis e plebeus se servem de seus trabalhos para a saúde (cf. Provérbios 16:24)
    • Isso se entende devidamente das palavras dos profetas, dos apóstolos e de todos os que escreveram os livros sagrados — a colmeia é o cânon inteiro (ou “enumeração”) das Escrituras divinas
    • Mesmo nessa colmeia há tentação para os que se esforçam pela perfeição: “Vede, quando virdes o sol e a lua, não adoreis essas coisas, que o Senhor vosso Deus reservou para as nações” (Deuteronômio 4:19)
    • “Não blasfemarás os deuses” (Êxodo 22:28)
    • Na colmeia do Novo Testamento: “Por que quereis matar-me, a mim que vos disse a verdade?” (João 8:40)
    • “Por isso lhes falo em parábolas, para que vendo não vejam, e ouvindo não entendam, para que não se convertam e eu os cure” (Mateus 13:13-15)
    • “Neles o deus deste mundo cegou as mentes dos incrédulos” (2 Cor 4,4)
    • É necessário que cada um dos santos chegue a essa colmeia, para que mesmo por meio dessas coisas se saiba quão perfeitamente e religiosamente pensa sobre Deus
  • Chega-se a “Gelmon Deblathaim” (Números 33:46; RSV Almom-Diblatáim), que se traduz como “desprezo dos figos”: ali as coisas terrenas são completamente desprezadas e vilipendiadas, pois sem desprezar e tratar com desprezo o que parece deleitar na terra não se pode passar às coisas celestiais.
    • Segue-se a etapa em “Abarim em frente a Nabau” (Números 33:47; RSV Abarim, Nebo): a primeira palavra significa “passagem”, mas Nabau se traduz como “separação”
    • Quando a alma percorreu todas essas virtudes e subiu ao cume da perfeição, ela então “passa” do mundo e “se separa”
    • Isso é o que foi escrito de Enoque: “E não foi encontrado, porque Deus o havia transportado” (Gênesis 5:24)
    • Alguém assim, mesmo parecendo ainda estar no mundo e habitar na carne, não é “encontrado” em nenhuma atividade mundana, em nenhum assunto carnal, em nenhuma conversa inútil — Deus o “transportou” dessas coisas e o estabeleceu no reino das virtudes
  • A última etapa é “a leste de Moab, junto ao Jordão” (Números 33:48): o motivo por que essa corrida acontece é para que se possa alcançar o rio de Deus, habitar junto à sabedoria fluente e ser regado pelas ondas do conhecimento divino, sendo assim purificado para merecer entrar na Terra Prometida.
    • Essas são as coisas tocadas en passant sobre as etapas dos israelitas segundo um método de exposição
    • A exposição que se apoia no significado dos termos hebraicos pode parecer artificialmente forçada aos que não conhecem as convenções dessa língua
  • Há um jogo literário no qual os meninos recebem os primeiros elementos da educação e são chamados “abecedários”, “silabários”, “nominadores” e “contadores”; pelos nomes dos tópicos percebe-se o progresso de cada jovem nas artes liberais.
    • Da mesma forma, pelos nomes dos lugares nas etapas podem ser indicados graus de progresso para os que aprendem pelas instruções divinas
    • Assim como os estudantes parecem demorar em cada tópico diferente e fazer como que etapas neles, passando de um a outro, assim também os nomes das etapas e a progressão de um para outro indicam o progresso da mente e o crescimento das virtudes
  • A outra vertente da exposição é deixada para ser inferida e contemplada pelos prudentes, pois basta ter dado oportunidades aos sábios (cf. Provérbios 9:9), não sendo conveniente que as mentes dos ouvintes permaneçam completamente ociosas e preguiçosas.
    • “Deus não dá o Espírito por medida” (João 3:34) mas porque “o Senhor é Espírito” (2 Cor 3,17) “sopra onde quer” (João 3:8)
    • O desejo expresso é que o Senhor inspire também os ouvintes para que percebam coisas melhores e mais elevadas nas palavras do Senhor, ao fazerem sua jornada pelos lugares descritos segundo a mediocridade do pregador
    • Que o Senhor Jesus Cristo, que é “o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6), conduza até o Pai, “quando entregar o reino a Deus Pai” (cf. 1 Coríntios 15:24) e sujeitar todo principado e poder — “A ele seja a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém” (1 Pd 4,11)
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