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Homilia 14

ORIGENES et al. Homilies on Numbers. Downers Grove, Ill: IVP Academic, 2009.

A narrativa sobre Balaão e sua jumenta, repleta de dificuldades interpretativas, exige um esforço para além do sentido histórico, buscando compreender como Deus utiliza tanto o bem quanto o mal para seus propósitos.

  • A dificuldade em entender como Deus “veio a Balaão” e lhe perguntou “quem eram aqueles homens” é agravada pela distinção, na literatura hebraica, entre a escrita do nome do verdadeiro Deus (o tetragrama) e a de deuses em geral, sendo que, neste relato, Deus não é registrado pelo tetragrama.
    • A Escritura mostra que o Deus de Israel é escrito com um símbolo determinado de letras, chamado tetragrama, enquanto outras formas de escrita indicam a possibilidade de se referir a deuses que não são o Criador.
  • A pergunta de Deus a Balaão sobre a identidade dos homens e a ordem para não amaldiçoar o povo, pois ele é bendito, levantam questões sobre a aparente ignorância divina e o sentido da proibição.
    • Indaga-se por que Deus parece ignorar quem são os mensageiros e se a afirmação “não amaldiçoes o povo, porque ele é bendito” pode ser entendida como “não maldições o meu povo”.

A providência divina dispõe as coisas de modo que o mal, embora não tenha sido criado por Deus, é utilizado para fins necessários, tornando as virtudes manifestas e provadas.

  • Se o mal fosse destruído, não haveria oposição às virtudes, e elas não se tornariam mais brilhantes ou provadas, como se vê no exemplo de José, cujo sofrimento causado pela inveja de seus irmãos resultou na salvação de todo o Egito e das nações vizinhas.
    • A remoção do mal dos irmãos de José eliminaria a interpretação do sonho de Faraó, o armazenamento de grãos no Egito, a sobrevivência do próprio Israel e, consequentemente, todo o êxodo e a dádiva da lei.
  • Da mesma forma, o mal de Balaque, ao convidar Balaão para amaldiçoar o povo, serviu ao plano de Deus, pois resultou nas profecias que beneficiaram Israel e as nações.
    • Se o mal de Balaque fosse removido, as profecias anunciadas pela boca de Balaão não teriam ocorrido, e os mistérios de Cristo não teriam sido anunciados aos gentios.
  • O mal de Judas, ao trair Jesus, foi usado para a realização da cruz, da morte e da ressurreição de Cristo, que são a base da esperança da ressurreição para todos.
    • Se a traição de Judas fosse eliminada, não haveria cruz, nem despojamento dos principados e potestades, nem ressurreição, e nem esperança de ressurreição para a humanidade.

Deus não apenas usa as coisas boas, mas também as más para uma boa obra, dispondo de vasos de honra e de desonra em sua grande casa, que é o mundo.

  • Os vasos de honra e de desonra são entendidos como dotados de razão e livre arbítrio, e cada um se torna um ou outro por sua própria escolha, não por acaso ou vontade do Criador.
    • Aquele que se oferece de modo a merecer ser escolhido torna-se um vaso de eleição e de honra, mas aquele que vive por pensamentos indignos forma-se a si mesmo como um “vaso de desonra”.
  • Deus não fez o mal, mas, uma vez que este foi encontrado na intenção daqueles que se desviaram, ele não o elimina completamente, pois o utiliza para o benefício daqueles contra quem é exercido, como acontece com os trabalhadores que realizam tarefas essenciais nas grandes cidades.
    • Assim como nas grandes cidades os menos dignos são condenados a tarefas difíceis, mas necessárias para o conforto da cidade, Deus usa o mal para o avanço e vantagem daqueles para quem as coisas boas são preparadas.
  • A existência de anjos sobre as bestas, sobre as práticas terrenas e sobre as coisas santas mostra que não há nada inútil com Deus, e cada pessoa, por suas obras, se oferece para ser formada como um vaso de eleição ou como um vaso de desonra na providência divina.
    • Se alguém leva uma vida bestial, será colocado entre os anjos que presidem as bestas; mas se persevera na oração, será recebido na sociedade do anjo Miguel, que oferece as orações dos santos a Deus.

Balaão, um adivinho que invocava demônios, é usado por Deus para que as profecias sobre Cristo chegassem aos gentios, que não tinham acesso às Escrituras de Israel.

  • Balaão, que era tido como divino por todos os do Oriente, é procurado por Balaque para amaldiçoar Israel, mas Deus aparece a ele e lhe proíbe a jornada, embora depois lhe conceda permissão para ir, colocando sua palavra em sua boca, não em seu coração.
    • A palavra de Deus é posta na boca de Balaão, e não em seu coração, porque o desejo da recompensa estava em seu coração, e ele era ganancioso por dinheiro.
  • A sabedoria de Deus faz com que este “vaso preparado para desonra” sirva para o benefício de quase todo o mundo, pois por meio dele, que era confiado por todas as nações, os mistérios secretos de Cristo se tornaram conhecidos também entre os gentios.
    • As profecias de Balaão, como a de que “uma estrela sairá de Jacó, e um homem se levantará de Israel”, foram preservadas entre os mágicos do Oriente e levaram os magos a reconhecerem o nascimento de Jesus.

Alegoricamente, Balaão, cujo nome significa “povo vão”, representa o caráter dos escribas e fariseus, enquanto Balaque, que significa “exclusão” ou “devorador”, representa as potências adversas que buscam excluir e devorar o Israel espiritual.

  • Os escribas e fariseus, assim como Balaão, fingem ter zelo por Deus, mas suas ações são movidas por recompensas e pela oposição a Cristo, como quando dizem: “Temos uma lei, e segundo a lei ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus”.
    • Eles parecem ter zelo por Deus, mas é fingido, assim como Balaão, que se refere a Deus, mas na verdade busca recompensas e age movido pela ganância.
  • A jumenta sobre a qual Balaão montava representa a porção dos fiéis que são comparados a animais por sua simplicidade ou inocência, e que são libertos por Cristo, não por ele mesmo, mas por seus discípulos.
    • Assim como no Evangelho os discípulos são enviados para desatar a jumenta e seu jumentinho, também aqui não é por Deus, mas pelo anjo, que “a boca da jumenta é aberta”, e aqueles que eram mudos convencem aqueles que têm fala.
  • A profecia de Balaão sobre Cristo, assim como a de Caifás, não deve ser motivo de orgulho para ninguém, pois o que permanece é a fé, a esperança e o amor, sendo o amor o maior de todos.
    • O apóstolo Paulo ensina que as profecias serão aniquiladas, as línguas cessarão e o conhecimento será destruído, mas a fé, a esperança e o amor permanecem, e o maior destes é o amor, que nunca falha.
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