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Homilia 12
ORIGENES et al. Homilies on Numbers. Downers Grove, Ill: IVP Academic, 2009.
A leitura do Livro dos Números sobre o poço e o cântico que Israel cantou junto dele está repleta de mistérios espirituais que vão além do sentido histórico literal.
- O relato de que o Senhor deu ordem especial a Moisés para reunir o povo a fim de dar-lhe água de um poço não tem muito sentido se interpretado apenas pela letra, pois o povo se reuniria por si mesmo para beber.
- A ordem divina é entendida como um chamado da lei (Moisés) para que o povo se reúna no poço, que é a fé em Cristo, para beber água e cantar um cântico.
- A investigação do significado espiritual do poço é enriquecida pela comparação com outras passagens das Escrituras, como os Provérbios, que falam de beber água da própria cisterna e da fonte dos próprios poços.
- Cada pessoa possui dentro de si não um, mas muitos poços e cisternas, conforme a descrição que diz: “Bebe água da tua própria cisterna e da fonte dos teus próprios poços”.
- Os patriarcas, como Abraão, Isaque e Jacó, possuíam poços, e essa imagem percorre toda a Escritura até os Evangelhos, onde se encontra o poço sobre o qual o Salvador se sentou e descansou.
- A designação de “poço” e “fonte” para a Palavra de Deus indica que ela cobre um mistério profundo e que flui abundantemente para o povo.
- A sabedoria nos Provérbios menciona a “fonte dos teus próprios poços”, indicando que os poços, em número plural, se referem ao conhecimento das três pessoas da Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), enquanto a fonte, em número singular, refere-se à única substância e natureza da Trindade.
- O conhecimento das coisas criadas, como a substância do mundo, os elementos, as estações e a natureza dos seres vivos, também constitui poços profundos que, quando revelados por Deus, tornam-se fontes e rios que saciam os crentes.
- Esses conhecimentos estavam “ocultos desde os séculos e gerações”, mas Deus os revelou aos crentes pelo seu Espírito, transformando-os em fontes e rios de água viva.
- Os poços que existem na alma humana necessitam ser cavados, purificados e limpos de toda terra, para que os canais do pensamento racional produzam correntes puras e imaculadas.
- Assim como os servos de Abraão cavaram poços que os filisteus entulharam com terra, é preciso remover a terra dos filisteus para que as águas vivas da Palavra de Deus fluam.
- As virtudes da alma, como a paciência (Rebeca) e a sabedoria, são encontradas junto aos poços, sendo necessário frequentá-los para conquistá-las como esposa.
- Rebeca, Raquel e Zípora foram encontradas junto aos poços, indicando que as virtudes da alma habitam junto às “águas vivas”, ou seja, às correntes da Palavra viva.
- O poço mencionado na passagem atual é mais eminente porque não foi cavado por homens comuns, mas por “príncipes” e “reis”, e por isso um hino é cantado a Deus junto a ele.
- Moisés, que representa a lei, convoca o povo para ir a esse poço, que é Jesus Cristo, o Filho de Deus, existente em sua própria substância, com o Pai e o Espírito Santo nomeados como a única fonte da Divindade.
- O cântico entoado junto ao poço começa com a afirmação de que o poço é o princípio de todas as coisas, e que os “príncipes” e “reis” o cavaram e esculpiram.
- Os “príncipes” são entendidos como os profetas, que cavaram o sentido profético sobre Cristo na profundidade da letra, enquanto os “reis” são os apóstolos, que esculpiram o poço na rocha, penetrando os segredos mais profundos e difíceis do conhecimento de Deus.
- A distinção entre cavar (para os príncipes, que penetram na terra macia) e esculpir (para os reis, que penetram na dureza da rocha) reflete a capacidade dos apóstolos de perscrutar as coisas profundas de Deus pelo Espírito Santo.
- Os apóstolos são chamados de “reis” porque são capazes de perscrutar, pelo Espírito, as profundezas de Deus e penetrar os mistérios profundos do poço, sendo eles que criam outros reis ao governarem as igrejas.
- Todos aqueles que são “reis e príncipes” verdadeiros, por terem expulsado o domínio do pecado de seus corpos e preparado um reino para a justiça, são capazes de remover a terra da letra e produzir sentidos espirituais do poço das Escrituras.
- Para ensinar os outros, é necessário que primeiro se pratique o que se ensina, pois “aquele que fizer e ensinar assim aos homens, será chamado grande no reino dos céus”, e ser “grande no reino” é ser rei.
- A jornada a partir do poço, passando por Mataná (que significa “seus dons”), Naaliel (“de Deus”), Bamote (“vinda da morte”) e até o bosque no campo de Moabe, representa os estágios de progresso da alma em direção à perfeição.
- Após beber do poço, chega-se a Mataná para oferecer dons a Deus, que são a fé e o amor; de Mataná, passa-se a Naaliel, para receber os dons do Espírito Santo que vêm de Deus; e de Naaliel, a Bamote, que é a “vinda da morte” pela qual se morre com Cristo para viver com ele.
- Sihom, rei dos amorreus, cujo nome se traduz como “árvore infrutífera” ou “orgulhoso”, contém uma figura do diabo, que é o príncipe deste mundo e que se opõe à passagem de Israel para a terra santa.
- Israel envia mensageiros a Sihom com palavras pacíficas, prometendo não se desviar para seus campos ou vinhedos, nem beber de sua cisterna, mas seguir pelo “caminho real”, que é o próprio Cristo.
- A promessa de não beber da cisterna de Sihom e de não se desviar para seus campos ou vinhedos corresponde à renúncia ao diabo, à sua pompa e às suas obras, feita pelos fiéis no batismo.
- O fiel não bebe mais da doutrina do diabo, da astrologia, da magia ou de qualquer ensinamento contrário à piedade, mas bebe das fontes de Israel e das fontes da salvação.
- A recusa de Sihom em deixar Israel passar e sua convocação de todo o seu povo para guerrear contra Israel figuram as perseguições incitadas pelo diabo contra o povo de Deus.
- Israel, ao chegar a Issaar (“cumprimento do mandamento”), vence a Sihom, pois cumprir os mandamentos de Deus é a maneira de vencer o diabo e todo o seu exército.
- A vitória sobre Sihom, que caiu “pelo fio da espada”, é interpretada espiritualmente como a vitória sobre o diabo pela espada do Espírito, que é a Palavra de Deus.
- O apóstolo Paulo diz que a “palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes”, e que a “espada do Espírito” é a “palavra de Deus”.
- A posse da terra de Sihom, desde Arnom (“suas maldições”) até Jaboque (“luta”), simboliza a posse do domínio sobre toda a região terrestre por Cristo e sua igreja, após vencerem a luta contra o diabo.
- O início do reino de Sihom é marcado por maldições, e o fim é a luta, sendo necessário que todo aquele que deseja sair do reino do diabo enfrente uma luta contra seus ministros, mas a vitória é garantida pelo cumprimento dos mandamentos de Cristo.
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