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Homilia 11
ORIGENES et al. Homilies on Numbers. Downers Grove, Ill: IVP Academic, 2009.
Homilia 11 — Números 18:8-32
Sobre a oferta das primícias
- A lei ordena que as primícias de toda a colheita e de todos os animais sejam oferecidas aos sacerdotes, de modo que ninguém pode licitamente desfrutar dos frutos da terra ou dos animais antes de oferecer a Deus as primícias por meio dos sacerdotes.
- Referência a Números 18:8-19 como base do preceito.
- Todo possuidor de campo, vinha, oliveira ou jardim, bem como todo criador de gado, está sujeito à obrigação.
- O que é dado aos sacerdotes é considerado oferecido a Deus.
- Há necessidade de observar essa lei também segundo a letra, pois alguns preceitos do Novo Testamento mantêm obrigações já presentes na lei mosaica, enquanto outros devem ser compreendidos apenas espiritualmente.
- Surge a objeção de que, se alguma coisa deve ser observada segundo a letra, então tudo deveria sê-lo — e inversamente, se tudo é espiritual, nada deveria ser observado literalmente.
- A proposta é estabelecer, pela autoridade das Escrituras divinas, quais regras devem reger a interpretação de cada tipo de lei.
- O Salmo 18 distingue termos como lei, testemunho, preceito, temor, justiças e juízos do Senhor, o que demonstra que cada categoria possui significado próprio e não pode ser confundida com as demais.
- Citação do Salmo 19:7-10: “A lei do Senhor é irrepreensível, convertendo as almas; o testemunho do Senhor é fiel, dando sabedoria aos pequenos; o preceito do Senhor é claro, iluminando os olhos; o temor do Senhor é puro, permanecendo pelos séculos dos séculos; as justiças do Senhor são retas, alegrando os corações; os juízos do Senhor são verdadeiros, justificados em si mesmos, mais desejáveis do que o ouro e a pedra preciosa, mais doces do que o mel e o favo.”
- Referência a Números 36:13: “Esta é a lei e os mandamentos e as justificações e os preceitos e os testemunhos e os juízos que o Senhor ordenou a Moisés.”
- A distinção interna à própria lei impede que o que é designado como mandamento seja imediatamente recebido como lei, e vice-versa.
- A distinção entre lei, mandamento, justificações, testemunhos e juízos exige que, ao ler as Escrituras, cada categoria seja reconhecida segundo sua denominação específica, sem confundi-la com as demais.
- Quando algo é escrito como mandamento, não deve ser imediatamente recebido como lei.
- Quando algo é escrito como justificações, não deve ser confundido com lei nem com mandamento.
- O mesmo vale para testemunhos e juízos — cada um difere dos demais.
- Somente a lei, e não o mandamento, as justiças ou os juízos, contém a sombra dos bens futuros, de modo que o alcance tipológico do texto sagrado se restringe ao que é expressamente designado como lei.
- Referência a Hebreus 10:1: “a lei contém a sombra dos bens futuros.”
- Exemplo: não está escrito que o Êxodo é o mandamento da Páscoa, mas “esta é a lei da Páscoa” — Êxodo 12:43 — e, portanto, a Páscoa é sombra dos bens futuros.
- O mandamento “não matarás, não adulterarás, não furtarás” — Romanos 13:9 — não é designado como lei, mas como mandamento, e por isso não é abolido para os discípulos do Evangelho.
- O cordeiro pascal, sendo prescrito sob a designação de lei, deve ser compreendido como sombra do bem vindouro, razão pela qual o Cristo é reconhecido como a verdadeira Páscoa imolada.
- Citação de 1Coríntios 5:7: “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado.”
- O pão ázimo, igualmente prescrito como lei, aponta para o pão espiritual dos bens futuros.
- Citação de 1Coríntios 5:8: “Celebremos a festa não com o velho fermento nem com o fermento da maldade e da perversidade, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade.”
- A circuncisão, por estar também inserida sob a designação de lei, é sombra dos bens futuros, cabendo indagar qual sombra ela contém — de outro modo, Paulo não poderia afirmar que Cristo não aproveita a quem se circuncida.
- Referência à Gálatas 5:2: “Se vos circuncidardes, Cristo não vos aproveitará.”
- Citação de Romanos 2:28-29: “A circuncisão não é a que aparece na carne; nem é judeu o que o é exteriormente; mas é judeu o que o é interiormente, e a circuncisão é a do coração, no espírito, não na letra, cujo louvor não vem dos homens, mas de Deus.”
- Paulo encontra designadas como lei nas escrituras de Moisés quase todas essas coisas particulares, mas declara que absolutamente não devem ser observadas segundo a letra.
- O mandamento “não matarás, não adulterarás, não furtarás” não é chamado de lei, mas de mandamento, e por isso não é abolido para os discípulos do Evangelho, devendo ser observado segundo a letra.
- Referência a Mateus 5:17: Cristo “veio não para destruir a lei, mas para cumpri-la.”
- Referência a Romanos 13:10: “a plenitude da lei é o amor.”
- Referência a 1 Timóteo 6:11: “segue a justiça.”
- A passagem sobre o matrimônio — “por isso o homem deixará o pai e a mãe e se unirá à sua esposa, e os dois serão uma só carne” — é prescrita como lei, contendo alegorias místicas, mas deve ser observada também segundo a letra.
- Paulo, ao citar o exemplo em sua epístola, declara: “Este é um grande mistério; mas falo de Cristo e da Igreja” — Efésios 5:32.
- O próprio Senhor confirma a observância literal ao dizer: “o que Deus uniu, o homem não separe” — Mateus 19:6.
- Os dois filhos de Abraão — um da escrava e outro da livre — são historicamente certos quanto à letra, mas Paulo os converte em alegoria das duas Alianças, sem eliminar a verdade histórica.
- Referência a Gálatas 4:22: “Abraão teve dois filhos, um da escrava e um da livre.”
- Referência a Gálatas 4:24: “Estas coisas são alegóricas.”
- Isaac, filho de Sara, representa os filhos da Nova Aliança, gerados em liberdade; Ismael, filho de Agar, representa os filhos da Jerusalém terrena, gerados para a escravidão.
- Há, portanto, pela autoridade das Escrituras, três categorias de preceitos: os que devem ser absolutamente evitados quanto à letra pelos discípulos do Evangelho; os que devem ser retidos em todo caso tal como estão escritos; e os que, tendo verdade própria segundo a letra, contêm também um significado alegórico.
- A distinção se fundamenta na autoridade das próprias Escrituras divinas, não em arbítrio interpretativo.
- A terceira categoria comporta que o sentido histórico permaneça mesmo enquanto o sentido místico é introduzido de modo conveniente e apropriado.
- O escriba sábio, instruído sobre o reino de Deus, sabe rejeitar completamente a letra que mata e buscar o espírito que vivifica, ou confirmar a letra como útil e necessária, ou introduzir o sentido místico sem suprimir o histórico.
- Referência a Mateus 13:52: o escriba “instruído sobre o reino de Deus sabe tirar do seu tesouro coisas novas e antigas.”
- Referência a 2 Coríntios 3:6: “a letra mata, mas o espírito vivifica.”
- A oferta das primícias aos sacerdotes do Evangelho é conveniente e útil, pois o Senhor estabeleceu que os pregadores do Evangelho vivam do Evangelho e os ministros do altar participem do altar.
- Referência a 1Coríntios 9:13-14: “os que servem ao altar participam do altar; assim também o Senhor ordenou que os que anunciam o Evangelho vivam do Evangelho.”
- Referência a Mateus 5:45: a colheita que Deus concede por meio do sol e das chuvas.
- Quem usufrui da colheita como se ela nada tivesse a ver com Deus demonstra não ter lembrado de Deus nem crido que Ele a concedeu.
- A palavra do próprio Senhor nos Evangelhos confirma que mesmo as prescrições literais da lei — como o dízimo de ervas — não devem ser omitidas, embora o mais importante da lei deva ser feito com prioridade.
- Citação de Mateus 23:23: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo de hortelã, endro e cominho, e negligenciais o que é mais importante na lei; hipócritas, estas coisas deviam ser feitas sem omitir aquelas.”
- Citação de Mateus 5:20: “Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus.”
- O que Cristo quer que os fariseus façam, deseja que os discípulos o cumpram em medida muito maior e com mais abundância.
- O modo como Cristo quer que os discípulos superem os fariseus fica claro nos antíteses do Sermão do Monte, que interiorizam e aprofundam os preceitos literais.
- Citação de Mateus 5:21-22: “Foi dito aos antigos: não matarás; mas eu vos digo que quem se irar com seu irmão será réu do juízo.”
- Referência a Mateus 5:28: para os discípulos, a justiça deve superar a dos fariseus a ponto de não olhar para uma mulher com desejo.
- Quem é diligente no estudo das Escrituras pode, a partir dos poucos exemplos apresentados, facilmente reunir distinções semelhantes em outros textos, avançando ao exame capítulo por capítulo de toda a lei.
- Citação de Sirácida 21:15: “se um homem sábio ouve, não apenas louvará a palavra, mas a ela acrescentará.”
- O sábio vai investigar e penetrar em cada capítulo da lei para determinar quando a letra deve ser evitada, quando deve ser abraçada, e quando a narrativa histórica concorda com a explicação mística.
- Referência a Gálatas 3:13: “Cristo nos remiu da maldição da lei” — não da maldição do mandamento, nem do testemunho, nem dos juízos, mas da maldição da lei, que inclui a circuncisão da carne, a observância dos sábados e coisas semelhantes.
- A questão sobre como a justiça dos discípulos pode superar a dos fariseus se eles não ousam tocar a colheita antes de oferecer as primícias e separar o dízimo para os levitas, enquanto nada disso se faz, é posta como exame de consciência.
- Referência a Mateus 5:20 como parâmetro de julgamento da conduta dos fiéis.
- A colheita é usufruída de tal modo que o sacerdote nada sabe, o levita ignora, e o altar divino não percebe nada.
- Cabe advertir que a lei é empregada em sentido duplo: em sentido geral, como designação de tudo que está escrito na lei — mandamentos, justificações, preceitos, testemunhos e juízos —; e em sentido estrito e próprio, como nos casos específicos discutidos acima.
- Em sentido geral, a lei é significada quando se diz que o Salvador “veio não para destruir a lei, mas para cumpri-la” — Mateus 5:17.
- Em sentido geral, também: “a plenitude da lei é o amor” — Romanos 13:10.
- O mandamento sobre as primícias das colheitas e dos rebanhos deve ser mantido mesmo segundo a letra, como se esclarece pelo argumento dos parágrafos anteriores.
- Ao examinar o sentido alegórico ou espiritual, verifica-se que as primícias são mencionadas em outras passagens das Escrituras além do texto de Números 18:12, o que aponta para a necessidade de identificar o sumo sacerdote a quem elas pertencem.
- Referência a Números 18:12: “Todas as primícias do azeite, do vinho e do trigo, as primícias de todas estas coisas que foram oferecidas a Deus, eu as dei a ti.”
- A questão que se impõe é: se todas as primícias pertencem ao sumo sacerdote, então um sumo sacerdote deve ser encontrado também para as primícias descobertas em outros textos das Escrituras.
- O próprio Cristo é chamado de “primícias dos mortos”, tornando-se ele mesmo primícias em certo sentido, e Paulo fala de alguns crentes como “primícias da Ásia” e “primícias da Acaia”.
- Referência a 1Coríntios 15:20: Cristo é “as primícias dos que dormiram.”
- Referência a Romanos 16:5: Epêneto é “as primícias da Ásia para Cristo.”
- Referência a 1Coríntios 16:15: a casa de Estéfanas é “as primícias da Acaia.”
- Cornélio é considerado primícias da igreja de Cesareia e, possivelmente, de todos os gentios — Atos 10:1-48.
- Cornélio foi o primeiro a “crer dentre os gentios” — Atos 21:25 — e o primeiro a ser “cheio do Espírito Santo” — Atos 10:44; Lucas 1:67.
- O anjo que preparou Cornélio antes mesmo de Pedro lhe conferir instrução e o batismo pode ser entendido como aquele por meio do qual Cornélio foi oferecido a Deus como primícias.
- O campo cultivado pelos anjos são os corações humanos — os que “vivem sob tutores e administradores” — Gálatas 4:2 — e ainda não chegaram à perfeição.
- Quando os corações são cuidadosamente cultivados e conduzidos à perfeição, são oferecidos como primícias ao grande sumo sacerdote.
- Pedro e Paulo, por sua vez, oferecem as primícias dos que creram por meio deles, sendo a missão de Paulo a de cultivar campos novos onde Cristo ainda não havia sido anunciado.
- Referência a Romanos 15:19-20: Paulo havia “completado o Evangelho de Cristo desde Jerusalém até o Ilírico”, pregando onde Cristo ainda não havia sido nomeado, “para não edificar sobre fundamento alheio.”
- Referência a Romanos 1:13: “desejo ir ter convosco para colher algum fruto também entre vós, como entre os demais gentios.”
- Paulo escolhe primícias de cada uma das igrejas e as oferece a Deus; aqueles que são inferiores às primícias e aos primogênitos são considerados os “dízimos.”
- Todo mestre cultiva o campo da igreja em que ensina, isto é, os corações dos crentes, encontrando entre a colheita os que oferece como primícias, os que oferece como primogênitos, e os que oferece como dízimos.
- Os “primogênitos” podem ser aqueles de quem está escrito em Apocalipse 14:4: “não se contaminaram com mulheres, pois permaneceram virgens.”
- As virgens da Igreja podem ser compreendidas como primícias.
- Os que viveram castamente após o casamento podem ser compreendidos como os dízimos.
- A virgindade e a viuvez celibatária eram estados de vida reconhecidos no tempo em que a homilia foi composta, voluntários e de alto valor na escala de mérito, ainda não oficialmente organizados pela Igreja.
- O ponto de partida da discussão foram as primícias dos anjos, dali passou-se aos apóstolos e depois a cada mestre; retomando o fio inicial, cada anjo comparecerá ao juízo do fim dos tempos trazendo consigo os que estiveram sob seu cuidado.
- Referência a Mateus 18:10: os anjos dos pequenos “sempre contemplam o rosto do Pai que está nos céus.”
- No juízo haverá uma investigação para determinar se o anjo falhou no cultivo de seu povo ou se a negligência humana deve responder por não ter correspondido ao cultivo angélico.
- Referência a Hebreus 1:14: os anjos são “espíritos ministros enviados para servir em favor dos que hão de herdar a salvação.”
- Haverá um julgamento de Deus também entre anjos e homens: talvez alguns vindos da multidão dos fiéis sejam julgados junto com Paulo e comparados com seus trabalhos e frutos, podendo ser encontrados superiores a alguns anjos.
- Referência a 1Coríntios 6:3: “não sabeis que havemos de julgar os anjos?”
- Referência a 1 Pedro 1:12: “coisas nas quais os próprios anjos desejam penetrar.”
- Os próprios apóstolos se servem dos anjos que lhes assistem para cumprir a missão da pregação — Atos 12:13-15 menciona o anjo de Pedro que bateu à porta.
- Os anjos devem ter as primeiras porções mesmo das almas que conduziram, trazendo-as ao celeiro do Senhor junto com aqueles por meio de quem o realizaram, de modo que na colheita final haverá os escolhidos como primícias e primogênitos de cada igreja.
- O que se prefigura no Israel “segundo a carne” — 1Coríntios 10:18 — se cumpre nos verdadeiros e celestiais israelitas.
- O nome Israel chegou até as ordens angélicas, pois elas são chamadas Israel de modo ainda mais verdadeiro, na medida em que são “mente que vê a Deus” — Israel significa isso quando traduzido.
- Gênesis 32:30 e 35:10 são a base etimológica: anêr horon theon — “homem que vê a Deus.”
- As nações mencionadas nas Escrituras sob nomes de reis ímpios — como Faraó, rei do Egito, e Nabucodonosor, o babilônio ou assírio — devem ser referidas a anjos de poder maligno, e reciprocamente os santos e as nações santas devem ser referidos aos anjos e ministros das potências boas.
- Referência a Isaías 10:12-13: Isaías fala de Nabucodonosor como se fosse o regente de uma nação, mas as palavras exprimem arrogância sobrenatural — “agi com meu poder e com a sabedoria da minha mente destruí os limites das nações.”
- Referência a Isaías 14:12: “Como caíste do céu, ó Lúcifer, que nascias pela manhã?” — falando como se fosse o governante de uma nação.
- A consequência lógica é que o que está escrito sobre bons governantes ou nações deve ser referido aos anjos e ministros das potências boas.
- A passagem do Gênesis em que Deus diz aos anjos “vinde, confundamos as suas línguas” indica que foram os anjos os responsáveis pelas diferentes línguas e dialetos dos povos, sendo possivelmente os próprios príncipes das nações.
- Referência a Gênesis 11:7: “vinde, confundamos as suas línguas.”
- A língua dada originalmente por meio de Adão — que em opinião do texto era o hebraico — permaneceu naquela parte da humanidade que nunca se tornou porção de nenhum anjo ou governante, mas continuou sendo a porção de Deus.
- Referência a Deuteronômio 32:9 como base da ideia de que Israel é a “porção do Senhor.”
- Os anjos oferecem as primícias de cada nação e de cada igreja que lhes foi confiada administrar, conforme o Apocalipse indica ao dirigir cartas ao “anjo da igreja dos Efésios”, ao “anjo dos Esmirnienses” e ao “anjo dos Laodicenses”.
- Referência a Apocalipse 2:1 — anjo da Igreja de Éfeso.
- Referência a Apocalipse 2:8 — anjo da Igreja de Esmirna.
- Referência a Apocalipse 3:14 — anjo da Igreja de Laodiceia.
- Possivelmente os anjos santos se tornarão no futuro os próprios governantes dos povos que reuniram das diversas nações, de modo que Cristo seria chamado não tanto rei quanto “Rei dos reis” e não tanto Senhor quanto “Senhor dos senhores” — Apocalipse 19:16.
- Na colheita final, quando todo o harvest for reunido na eira, haverá uma porção do verdadeiro sumo sacerdote — Cristo —, outra dos levitas — destinada aos anjos ou às potências celestiais —, e ainda uma porção dos homens que foram fiéis administradores de Deus nesta vida.
- Referência a Lucas 19:17: “tens autoridade sobre dez cidades”, dito àquele a quem foram confiadas cinco minas e que as multiplicou em dez.
- Referência a Lucas 19:19: “tens autoridade sobre cinco cidades”, dito àquele que de uma mina fez cinco.
- Com Deus tudo acontece segundo a razão e o juízo, não gratuitamente — por mérito alguém é designado para governar muitos, outro para ser sujeito ao senhorio alheio.
- A digressão sobre as primícias foi necessária porque as Escrituras divinas contêm o termo de honra tão grande que até Cristo é chamado de “primícias” e “primícias dos que dormem”, e ele será consistentemente chamado de “primícias das primícias”.
- Referência a 1Coríntios 15:23: Cristo é “as primícias.”
- Referência a 1Coríntios 15:20: “primícias dos que dormiram.”
- Cristo é também “Rei dos reis” — 1 Timóteo 6:15; Apocalipse 19:16 —, “Senhor dos senhores”, “pastor dos pastores” — 1 Pedro 5:4 —, e “sumo sacerdote dos sumos sacerdotes” — Hebreus 4:15.
- As primícias de Cristo não são mais oferecidas ao sumo sacerdote, mas a Deus — Efésios 5:2: “ofereceu-se a si mesmo como sacrifício a Deus” — e, ressuscitando dos mortos, “assentou-se à direita de Deus” — Colossenses 3:1.
- Cristo é chamado “primícias” e “primogênito de toda a criação” — Colossenses 1:15.
- Os anjos oferecem as primícias de cada um de nós cultivando nossos corações e convertendo-nos a Deus de nossos erros, sendo cada pessoa a porção ou o encargo de um determinado anjo.
- Referência a Deuteronômio 32:8: “quando o Altíssimo dispersou os filhos de Adão, estabeleceu os limites das nações segundo o número dos anjos de Deus.”
- Houve uma nação escolhida, Israel, que era “a porção do Senhor” e “a herança de sua linha” — Deuteronômio 32:9.
- No fim deste mundo e no início do mundo futuro, o Altíssimo poderá novamente “dividir os filhos de Adão” — os que não forem capazes de ser puros de coração a ponto de “ver a Deus” — Mateus 5:8 — poderão ao menos ver os santos anjos.
- É desejável progredir de tal modo que cada um mereça ser escolhido entre as primícias ou os primogênitos e ser oferecido a Deus como “a porção do Senhor”; caso contrário, ao menos merecer ser porção dos santos anjos.
- O perigo oposto é ser encontrado entre aqueles de quem está escrito em Salmos 63:9-10: “entrarão nas profundezas da terra, serão entregues à espada, serão as porções das raposas.”
- No tempo da ressurreição, quando o Altíssimo começar a “dividir as nações” e a “dispersar os filhos de Adão” segundo seus méritos, haverá os que entram nas profundezas da terra e se tornam porções das raposas, isto é, porções dos demônios.
- Referência a Cântico dos Cânticos 2:15: as raposas são “as que arruínam as vinhas.”
- Herodes é citado como exemplo dessas raposas, com base em Lucas 13:32: “ide dizer àquela raposa.”
- É necessário fugir das obras e da compreensão terrenas para não se tornar porção das raposas, pois entram nas profundezas da terra os que recebem a lei de Deus com interpretação terrena e não conduzem as almas dos ouvintes à esperança das coisas celestiais.
- Referência a Colossenses 3:1-2: “Se fostes ressuscitados com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus, não as coisas da terra.”
- Paulo falava àqueles que, com observância terrena, diziam: “não toques, não proves, não pegues” — Colossenses 2:21.
- Referência a Colossenses 2:22: “todas estas coisas se corrompem pelo próprio uso, segundo os mandamentos e doutrinas dos homens.”
- A expressão “guardar as primícias” — presente em Números 18:8 — não pode aplicar-se à lei da letra, pois os sacerdotes recebiam as primícias para consumi-las, não para conservá-las; ela se aplica à lei do Espírito.
- Referência a Números 18:8: “Eis que te concedi guardar as primícias.”
- Referência a Romanos 8:2: lei do Espírito versus lei da letra.
- Se segundo Paulo Cristo é as primícias — 1Coríntios 15:20 —, então é verdadeiro que essas primícias foram dadas para ser guardadas.
- Que alma é mais bem-aventurada do que a que sempre guarda Cristo, que recebeu, tendo-o sempre habitando em si mesma?
- As primícias oferecidas na lei eram consumidas como alimento e, “tendo entrado no ventre, eram digeridas e lançadas no esgoto” — Mateus 15:17 —, mas quem come as primícias espirituais e prova “o pão que desceu do céu” não morrerá, mas permanece para a vida eterna.
- Referência a João 6:51.58: “o pão que desceu do céu.”
- O pão espiritual, embora sempre consumido, sempre permanece — ou antes, sempre aumenta.
- Referência a 1Coríntios 10:3: “alimento espiritual” — quanto mais é consumido, mais cresce; quanto mais se toma a palavra de Deus, mais ela abundará.
- Não sem mistério está escrito “de todas as coisas que me são santificadas pelos filhos de Israel” — Números 18:8 —, pois Deus não quer receber primícias senão das coisas santificadas de Israel, excluindo até os prosélitos da oferta de primícias segundo a letra da lei.
- Entre os gentios podem ser encontradas algumas obras dignas de Deus, e certas virtudes da alma foram cultivadas em alguns deles; mas Deus não quer que essas coisas sejam oferecidas como primícias.
- Deus quer aceitar as boas obras daqueles cuja mente vê a Deus — este é o significado de Israel, conforme nota da Homilia 11.4.3 — e que são santificados a Deus pela fé.
- O pagão, mesmo que pareça moralmente reto, não tem essa retidão santificada, porque não a atribui à virtude de sua alma a Deus, mas a si mesmo.
- Alguém pode ser chamado israelita em virtude de lhe ser permitido entrar na Igreja de Deus, pois está escrito que o idumeu e o egípcio, desde que gerem filhos até a terceira geração, entrarão na assembleia do Senhor.
- Referência a Deuteronômio 23:7-8: “não abominarás o idumeu, pois é teu irmão; nem o egípcio, pois foste estrangeiro em sua terra; os filhos que nascerem deles entrarão na terceira geração na assembleia de Deus.”
- Referência a Deuteronômio 23:8: “entrarão na Igreja do Senhor.”
- É a geração de filhos — não o convertido em primeira geração — que possibilita a entrada na assembleia do Senhor.
- A atenção ao fato de que a Escritura diz “se lhes nascerem filhos” — e não “filhos ou filhas” — aponta para um sentido espiritual ligado à distinção entre a alma masculina e a feminina, não à distinção de sexo.
- Os patriarcas que receberam testemunho divino de preferência não geraram filhas: Abraão não gerou filhas, tampouco Isaque; Jacó gerou uma, e ela foi motivo de desonra para seus irmãos e pais — Gênesis 34; Dina foi violentada por Hamor, filho de Siquém.
- Referência a Êxodo 23:17: “todo macho aparecerá diante do Senhor três vezes por ano”; a fêmea não é convocada a comparecer diante do Senhor.
- Segundo a compreensão espiritual, a distinção não diz respeito ao sexo, mas à distinção das almas.
- A expressão “a ti e a teus filhos depois de ti, como formalidade legal eterna” — Números 18:8 — não pode referir-se a Aarão, pois as coisas visíveis são temporais; ela deve ser compreendida como dirigida a Cristo, o verdadeiro sumo sacerdote, e a seus filhos, os apóstolos e mestres das igrejas.
- Referência a 2 Coríntios 4:18: “as coisas que se veem são temporais; as que não se veem são eternas.”
- A circuncisão visível, o pão ázimo visível e a Páscoa visível são necessariamente não eternos, mas temporais.
- A circuncisão invisível, “que é em segredo” — Romanos 2:29 —, é eterna; o “pão ázimo da sinceridade e da verdade” — 1Coríntios 5:8 — é eterno, por ser das coisas que não se veem.
- As “formalidades legais eternas” são ditas ao que “é judeu em segredo” e guarda a lei “no espírito, não na letra” — Romanos 2:28-29 — e “segundo o homem interior” — Romanos 7:22.
- A expressão “coisas santas santificadas” — hagia hêgiasmenôn — distingue aquilo que foi santificado por participação do que é santo por natureza própria, de modo que a santidade da Trindade não recebeu sua santificação do exterior, mas sua própria natureza é santa.
- Referência a Sobre os Primeiros Princípios 1.8.3 para a doutrina da santidade intrínseca da Trindade.
- O Espírito Santo é tão santo que não foi santificado — nenhuma santificação lhe veio de fora; sua santidade não teve início.
- Toda criatura será chamada “coisas santas santificadas” pelo privilégio do Espírito Santo ou por razão de seus méritos.
- Referência a Levítico 20:7: “sede santos, porque eu sou santo, diz o Senhor Deus.”
- Em grego, onde se lê “sede santos”, o verbo exprime antes “tornai-vos santos” — hêgiasthesesthe —; os tradutores registraram indiferentemente “sede” em lugar de “tornai-vos.”
- A observação filológica remete a Orígenes e a uma variante da Septuaginta preservada na Hexapla, conforme nota de Doutreleau, SC 442:60 n. 1.
- Cada pessoa se torna santa a partir do momento em que se aproxima do temor de Deus e se entrega a Ele de coração.
- Paulo, escrevendo aos Hebreus, fornece a distinção precisa: o que santifica é Cristo, sempre santo; os que são santificados são os crentes em Cristo, e por isso devem ser chamados não simplesmente santos mas “santos santificados”.
- Referência a Hebreus 2:11: “o que santifica e os que são santificados são todos de um.”
- A palavra de Cristo em João 10:36 — “aquele que o Pai santificou e enviou ao mundo” — não contradiz essa interpretação, pois ali Cristo é santificado segundo a carne, não segundo o espírito.
- Referência a João 17:19: “eu me santifico por eles” — Cristo que santifica é entendido segundo o espírito; Cristo que é santificado por seus discípulos é entendido segundo a carne.
- É um único e mesmo Cristo que ao mesmo tempo santifica no espírito e é santificado na carne.
- As primícias “santas santificadas” que devem ser oferecidas ao sacerdote espiritual provêm dos frutos do Espírito enumerados por Paulo, começando pelo amor, cuja primícia é amar o Senhor com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente.
- Referência a Gálatas 5:22: “o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência” e assim por diante.
- Referência a Mateus 22:37: “amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente” — estas são as primícias do amor.
- Referência a Mateus 19:19: “amarás o teu próximo como a ti mesmo” — estas são as primícias do amor que ficam em segundo lugar, deixadas para uso próprio.
- Referência a Mateus 5:44: “amareis os vossos inimigos” — este é o terceiro nível do fruto do amor que deve ser considerado.
- A alegria é o segundo fruto do Espírito, e suas primícias são oferecer a Deus o verdadeiro sumo sacerdote as alegrias genuínas — regozijar-se no Senhor, regozijar-se na esperança, suportar tribulações com alegria — enquanto as alegrias seculares, de honras ou riquezas, são alegrias vãs provenientes das “vaidades das vaidades”.
- Referência a Filipenses 4:4: “regozijai-vos no Senhor.”
- Referência a Romanos 15:13: “regozijai-vos na esperança.”
- Referência a 1 Timóteo 5:12: “regozijai-vos quando sofreis maltrato pelo nome do Senhor.”
- Referência a Hebreus 10:34: “aceitastes com alegria o roubo dos vossos bens.”
- Referência a Eclesiastes 1:2: as vaidades das vaidades como fonte das falsas alegrias.
- Referência a Isaías 57:21: “não há alegria para os ímpios, diz o Senhor.”
- Regozijar-se na palavra de Deus, nos mistérios de Deus, no ter abandonado todas as coisas do mundo — não só as inúteis, mas também as úteis — e ter-se entregue à palavra de Deus: estas são primícias suficientes de alegria que serão oferecidas a Deus.
- A expressão “e de todos os seus dons” — Números 18:9 — indica que quem ofereceu um dom a Deus deve novamente oferecer as primícias desse dom ao sumo sacerdote, o que se explica alegoricamente pela distinção entre o dom externo e a disposição interior de misericórdia que o acompanha.
- Se alguém distribui aos necessitados ou faz uma boa obra, ofereceu um dom a Deus em razão do mandamento.
- Mas as primícias desse dom só são oferecidas se, além do alimento ou do dinheiro, há também o afeto de misericórdia e o exercício da compaixão.
- É o que Deus requer de uma pessoa: que a própria mente seja preenchida e formada por sentimentos piedosos e misericordiosos.
- A oferta espiritual — “de todas as suas oblações” — Números 18:9 — é louvar a Deus e cumprir os votos de oração; as primícias dessa oblação são oferecidas pelo sumo sacerdote quando se ora não só com palavras e voz, mas também com a mente e o coração.
- Referência a Salmos 50:14: “oferece a Deus sacrifício de louvor e paga os teus votos ao Altíssimo.”
- Referência a 1Coríntios 14:15: “orarei com o espírito, orarei também com a mente; salmearei com o espírito, salmearei também com a mente.”
- Os anjos de Deus, como lavradores e cultivadores de nossos corações, assistem e procuram ver se há em algum de nós uma mente diligente e atenta que recebeu a palavra de Deus como semente divina, de modo que, ao elevar-se em oração, reúna os pensamentos sem que a mente divague.
- Quem sente que seu pedido está direcionado e focado, e compreende quem o assiste nessas visões de Deus, e ali, nessa luz inefável, derrama “orações e súplicas e pedidos e ações de graças” — 1 Timóteo 2:1 — sem ser perturbado por imagens externas, esse sabe, por meio do anjo que o assiste, que as primícias de sua oferta foram levadas ao grande e verdadeiro sumo sacerdote.
- Encerramento doxológico: “Cristo Jesus, nosso Senhor, a quem seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém” — Gálatas 1:5; 1 Pedro 4:11.
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