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Evangelho de Lucas
Orígenes — Homilias sobre o Evangelho de Lucas (Ed. Paulus)
Das 574 homilias pronunciadas em Cesareia, nos resta apenas 21 em grego e 240 em tradução latina. Dentre estas encontram-se as Homilias sobre o Evangelho de Lucas.
- As Homilias sobre o Evangelho de Lucas, de Orígenes, compostas originalmente em grego no século III d.C., chegam ao conhecimento posterior pela tradução latina de Jerônimo, datada do século IV d.C.
- O título em latim da obra é Homiliae in Lucam.
- A transmissão da obra depende inteiramente da versão latina, pois o original grego não foi preservado de forma completa.
- A obra carrega a marca do caráter polêmico próprio do cristianismo primitivo, refletindo disputas sobre a natureza de Cristo que envolvem ceticismo acerca de seu nascimento, da concepção virginal no ventre de Maria, de sua corporalidade e da origem de sua incomparável sabedoria.
- O prólogo da edição francesa da coleção Sources Chrétiennes enumera as diversas visões em conflito sobre a natureza de Cristo.
- O texto das homilias dirige-se a cristãos recém-convertidos, acostumados com os padrões e cânones literários da época clássica, da herança da filosofia grega antiga e da era helenística.
- A novidade do cristianismo era avaliada segundo o crivo crítico dessa herança e frequentemente não assimilava a complexidade da natureza de Cristo, de seu contexto histórico e cultural.
- No contexto do pós-classicismo grego e romano, as primeiras tentativas de abordagem compreensiva da Escritura resultaram em interpretações destoantes da ortodoxia católica, tornando-se alvo dos homens doutos e estudiosos da Bíblia preocupados com a retidão doutrinária entre os novos cristãos oriundos da cultura clássica greco-latina.
- Os hereges são os alvos permanentes da ortodoxia e a ela se rebelam continuamente.
- A ortodoxia desse período ainda não dispõe do aparato judicial que terá no futuro, mas já se observa certa virulência potencial nas investidas do autor.
- A tradução de Jerônimo compreende trinta e nove homilias em latim que tecem reflexões sobre fragmentos do Evangelho de Lucas, e após a explicação esmiuçada de cada passagem — incluindo respostas a doutrinas heréticas — o autor volta-se ao leitor para incutir-lhe uma reflexão resultante da exposição.
- A admoestação proposta ao leitor orienta sua busca de Cristo, o crescimento na devoção ao mistério cristão, o culto a Maria e tudo o que se refere à vida cristã de modo geral.
- As homilias revelam um conteúdo parenético que se desdobra sobre uma primeira parênese que é o próprio texto evangélico, o qual busca ensinar a verdade sobre Cristo.
- A homilia e o sermo qualificam uma composição oratória, uma peça destinada a ser proclamada, distinguindo-se da conversa espiritual, da consolatio ou do colloquium, de sabor ascético e místico, sendo que no nível semântico e filológico essas distinções não devem ser generalizadas nem estabelecidas de modo rígido.
- A definição citada é de DIBERARDINO, 2002, p. 692.
- A homilia, como peça oratória, está calcada nas injunções retóricas da arte retórica presentes nas composições diatríbicas.
- A parênese cristã de Orígenes seleciona caracteres essenciais da diatribe — que não constitui um gênero, mas uma tendência, um elenco de gêneros literários — entre os quais o predomínio do conteúdo moralizante popular, o ataque à doutrina dos adversários, o diálogo com um interlocutor fictício, as hipérboles, as metáforas, os paralelismos de frases, a estruturação em perguntas e respostas e as oposições verbais como virtude e vício, bem e mal, pecado e graça.
- A diatribe é caracterizada como tendência predominante em um elenco de gêneros literários, não como gênero em si.
- No texto de Orígenes, os heresiarcas aparecem como terceira pessoa, enquanto o orador trava diálogo com uma segunda pessoa interpelada diretamente.
- As Homilias sobre Lucas datam de uma época primitiva da história do cristianismo, quando o contexto ainda era o da disseminação do ideal cristão de vida em contraste com a herança helenística — que oferecia resistência cultural à nova religião — e com o contexto da Roma imperial, mergulhada em um vazio de ideais e de sentido para a existência.
- A resistência cultural helenística e o esvaziamento da grande literatura romana formam o pano de fundo histórico das homilias.
- A Homilia 17 discorre, entre outras questões, sobre o sinal de contradição mencionado em Lucas 2,34, com reflexão nos parágrafos 4 e 5 da edição das Sources Chrétiennes, onde Orígenes menciona os marcionitas, os ebionitas, os docetistas e Metódio de Olimpo.
- Os ebionitas — partidários de um suposto fundador chamado Ebião — creem que Jesus é um simples homem, nascido de homem e mulher, e rejeitam a novidade do cristianismo pregada por Paulo, vivendo segundo as antigas leis judaicas.
- Os docetistas rejeitavam a verdadeira humanidade de Jesus com base na filosofia platônica.
- O texto latino da Homilia 17 expõe que Cristo foi estabelecido para a queda e o soerguimento de muitos em Israel e para o sinal de contradição, sendo que tudo o que a história narra sobre o Salvador é contradito — a maternidade virginal, o corpo humano e a ressurreição.
- Os marcionitas afirmam com insistência que Cristo não nasceu de uma mulher; os ebionitas dizem que nasceu de homem e mulher como qualquer ser humano.
- Uns dizem que o corpo de Cristo veio do céu; outros, que teve um corpo igual ao humano para redimir os corpos do pecado e dar a esperança da ressurreição.
- A controvérsia sobre a ressurreição é infinita: uns afirmam que Cristo mostrou a chaga dos cravos nas mãos a Tomé; outros objetam que, se retomou o mesmo corpo, como entrou com as portas fechadas e se achou lá de pé.
- Vários hereges afirmam que Cristo não foi de modo algum anunciado pelos profetas.
- A conclusão do trecho é: tudo o que a história narra sobre Cristo é sinal de contradição — não para os que creem nele, pois estes sabem que o que foi escrito é verdadeiro —, mas para os incrédulos, tudo o que sobre ele foi escrito é sinal de contradição.
- O homiliasta debate com os hereges tratados como terceira pessoa e contrapõe a eles sua pregação sobre o Evangelho, instaurando uma leitura corretiva do lugar que Cristo representa no mundo, de sua natureza, vida, ação entre os homens, paixão, morte e ressurreição.
- A interpelação do pronome tu — segunda pessoa, sujeito de vides, “tu vês” — dirige-se ao interlocutor das homilias, lembrando-lhe que o mundo está repleto de interpretações que desviam o foco da verdadeira ação de Cristo.
- Crer corretamente equivale a olhar com devida atenção para aquele que interpela os homens à prática do bem e ao afastamento dos vícios da civilização pagã, assim como Jesus denunciava o afastamento do espírito da Lei e a degradação dos filhos de Israel na cultura judaica helenizada de seu tempo.
- Na mesma homilia, a profecia de Ana — que se casou uma única vez — é posta em evidência como sinal de contradição em oposição franca aos costumes liberais das civilizações pagãs, sendo que a perfeição da vida cristã requer uma única união, para que segunda ou terceira não soe como satisfação dos desejos carnais.
- O trecho latino afirma: “Eu penso, com efeito, que aquele que se casou apenas uma vez, o que permaneceu virgem e o que perseverou na castidade, faz parte da Igreja de Deus; mas o que se casou duas vezes, ainda que tenha tido boa conduta e se exceda em outras virtudes, não faz parte, porém, da Igreja e do número que não tem nem ruga nem mancha, nem nenhum defeito desse tipo, mas ele é colocado na segunda posição e dentre aqueles que invocam o nome do Senhor, e que são evidentemente salvos em nome de Jesus Cristo, sem serem, entretanto, coroados por ele — a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém.”
- Na composição da homilia, a repetição do verbo contradicere e da expressão signum est cui contradicitur — traduzida como “é sinal de contradição” — opera como procedimento de persuasão do discurso parenético, incutindo na mente do leitor uma evidência que se quer demonstrada e assimilada.
- A enumeração dos exemplos e a reiteração da expressão destacada são recursos do elemento persuasivo que induz o leitor à virtude da vida de Cristo narrada por Lucas e representada na homilia de Orígenes.
- As homilias de Orígenes são peças de oratória sacra em que abundam os aspectos da parênese — a exortação à virtude —, integrando as definições de diatribe propostas por André Oltramare e apresentando os aspectos retóricos característicos dessa forma: o diálogo com o leitor, a condenação das heresias de época e a reiteração como procedimento de persuasão, sem contemplar, diferentemente da diatribe pagã, a mescla do sério e do jocoso.
- André Oltramare é o autor da obra em que são propostas as definições de diatribe aqui referenciadas.
- O texto é rico em camadas de discurso parenético, a começar pela própria vida de Jesus — de singularíssimo lugar na história da humanidade —, cujas ações e ensinamentos tiveram testemunhas oculares e documentais que reiteram sua virtude e o ensinamento perfeito da virtude pelo amor.
- O Evangelho de Lucas — narrado por um dos companheiros de Paulo, médico de ofício que conheceu proximamente Maria, a pessoa que mais sabia sobre a vida de Cristo — retrata fielmente as fontes da vida de Jesus, e sobre ele Orígenes, segundo a tradução de Jerônimo, faz refletir sobre a virtude de Jesus e seus ensinamentos seguindo o roteiro lucano.
- Lucas é identificado como médico de ofício e companheiro de Paulo.
- Maria é apresentada como a fonte mais próxima e fidedigna sobre a vida de Cristo.
- As trinta e nove homilias percorrem, com suas reflexões, o itinerário da vida de Cristo a partir de suas origens, sendo a obra instigante pelo desvendamento dos sentidos intrincados do texto bíblico e pela possibilidade de imersão no universo da Sagrada Escritura com a iniciação a seus mistérios desvelados pelo verbo e pela ciência de Orígenes, mediados pela tradução de Jerônimo.
- A introdução aponta apenas alguns aspectos mais relevantes do pensamento de Orígenes em suas relações com o momento histórico e cultural e no embate com as heresias de seu tempo.
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