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PERI EUCHES
Orígenes — Peri Euches, Tratado da Oração, Tratado da Prece
Um dos dois tratados ascéticos (o outro é a Exortação ao Martírio), que ainda se tem no original grego. Este tratado classificado também como do gênero mistagógico, é onde Orígenes explica a prece (euche) em geral, e em seguida comenta o Pai Nosso.
- I. INTRODUÇÃO
- II. USOS BÍBLICOS DOS TERMOS GERAIS PARA A ORAÇÃO
- III. OBJEÇÕES À ORAÇÃO
- IV. RESPOSTA ÀS OBJEÇÕES: O LIVRE ARBÍTRIO DO HOMEM E A PRESCIÊNCIA DE DEUS
- V. RESPOSTA ÀS OBJEÇÕES: CONDIÇÕES NECESSÁRIAS PARA A ORAÇÃO
- VI. RESPOSTA ÀS OBJEÇÕES: AQUELE QUE ORA NÃO ORA SOZINHO
- VII. RESPOSTA ÀS OBJEÇÕES: O VERDADEIRO LUGAR DA ORAÇÃO NA VIDA DO HOMEM
- VIII. RESPOSTA ÀS OBJEÇÕES: EXEMPLOS NOTÁVEIS DE ORAÇÃO
- IX. O CONTEÚDO DA ORAÇÃO: SEUS QUATRO MODOS
- X. O DESTINATÁRIO DA ORAÇÃO EM SEUS QUATRO MODOS
- XI. OS OBJETOS DA ORAÇÃO
- XII. A ORAÇÃO DO SENHOR: O PREFÁCIO EM MATEUS
- XIII. A ORAÇÃO DO SENHOR — PAI NOSSO QUE ESTÁ NOS CÉUS
- XIV. SANTIFICADO SEJA O TEU NOME
- XV. VENHA O TEU REINO
- XVI. SEJA FEITA A TUA VONTADE, ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU
- XVII. DÁ-NOS HOJE O PÃO QUE NOS É NECESSÁRIO
- XVIII. E PERDOA-NOS AS NOSSAS DÍVIDAS, ASSIM COMO NÓS TAMBÉM PERDOAMOS AOS NOSSOS DEVEDORES
- XIX. E NÃO NOS DEIXES CAIR EM TENTAÇÃO, MAS LIVRA-NOS DO MAL
- XX. FORMALIDADES DA ORAÇÃO: CONCLUSÃO
1. Do impossível ao real
- O que é demasiado elevado para a natureza humana torna-se acessível pela bondade infinita de Deus, mediante os méritos de Jesus Cristo e a cooperação do Espírito.
- Davi afirma: “Fizeste com sabedoria todas as tuas obras” (Sal 104, 24)
- A sabedoria daquele por quem tudo foi feito ultrapassa a capacidade da natureza racional e perecível do homem
- Paulo identifica Cristo como aquele “a quem Deus fez para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção” (1 Cor 1, 30)
- O Livro da Sabedoria interroga: “Qual homem poderá conhecer a vontade de Deus? Quem poderá imaginar o que o Senhor quer? Os pensamentos dos mortais são tímidos e incertas as ideias que formamos, pois o corpo corruptível torna pesada a alma e esta tenda de terra aprisiona o espírito fecundo em pensamentos. Com esforço conjecturamos o que há sobre a terra e com fadiga encontramos o que está ao nosso alcance. Quem pôde rastrear quanto contêm os céus?” (Sab 9, 13—16)
- A impossibilidade de descobrir o que há no céu é superada pela graça sobreabundante de Deus (2 Cor 9, 14)
- Paulo — arrebatado ao terceiro céu — “ouviu palavras inefáveis que o homem não pode pronunciar” (2 Cor 12, 4)
- O conhecimento dos desígnios do Senhor, igualmente impossível ao homem por si mesmo, é concedido por Deus por meio de Cristo, que transforma a relação de servidão em amizade.
- Paulo indaga: “Qual homem conhece o íntimo do homem senão o espírito do homem que está nele? Do mesmo modo, ninguém conhece o íntimo de Deus senão o Espírito de Deus” (1 Cor 2, 11)
- Se apenas o Espírito de Deus conhece os pensamentos de Deus, o acesso do homem a esses pensamentos só se torna possível pelo dom do mesmo Espírito.
- Paulo esclarece: “Nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para conhecer as graças que Deus nos outorgou, das quais também falamos, não com palavras aprendidas da sabedoria humana, mas do próprio Espírito” (1 Cor 2, 12—13)
2. Objeto e modo da oração. Com a graça de Deus
- A exposição sobre a oração exige reconhecer que tanto o objeto quanto o modo de orar ultrapassam as capacidades humanas e dependem da graça divina.
- Ambrósio — a quem o texto se dirige como piedosíssimo e muito laborioso — e Taciana — descrita como honradíssima e varonil, liberta das fraquezas femininas como Sara (Gn 18, 11) — são convocados como interlocutores
- Paulo, mesmo diante da grandeza de suas revelações, temia que “alguém forme de mim uma ideia superior ao que em mim vê ou ouve de mim” (2 Cor 12, 6)
- Paulo confessa: “Nós não sabemos orar como convém” (Rm 8, 26)
- Orar sem saber o que pedir ou sem fazê-lo como é devido torna o esforço deficiente em ambas as dimensões
- O objeto da oração — o que se deve pedir — é determinado por ensinamentos evangélicos que orientam o conteúdo das súplicas.
- Jesus instrui: “Pedi coisas grandes e as pequenas vos serão dadas por acréscimo; pedi pelos que vos maltratam” (Lc 6, 28)
- Jesus instrui: “Rogai ao Senhor da messe que envie operários para o seu campo” (Mt 9, 38; Lc 10, 2)
- Jesus instrui: “Orai para não cairdes em tentação” (Lc 22, 40; Mt 26, 41; Mc 14, 38)
- Jesus instrui: “Orai para que a vossa fuga não seja no inverno nem no dia de sábado” (Mt 24, 20; Mc 13, 8)
- Jesus adverte: “Ao orar, não fiqueis a tagarelar muito como os gentios, que imaginam ser ouvidos por causa de sua palavrório” (Mt 6, 7)
- O modo da oração — como se deve orar — é igualmente determinado por ensinamentos que regulam a disposição interior e exterior do orante.
- Paulo prescreve: “Quero que os homens orem em todo lugar erguendo ao céu mãos piedosas, sem ira nem discussões; do mesmo modo as mulheres: que se vistam decorosamente, preparadas com pudor e sobriedade, não com tranças nem com ouro ou pérolas ou vestes custosas, mas com boas obras, como convém a mulheres que fazem profissão de piedade” (1 Tm 2, 8—10)
- Jesus ensina: “Se ao apresentar tua oferta no altar te lembrares de que teu irmão tem algo a reprovar-te, deixa tua oferta ali diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão. Depois volta e apresenta a oferta” (Mt 5, 23—24)
- Paulo indica que a continência conjugal temporária serve à oração: “Não vos recuseis um ao outro, senão de comum acordo por algum tempo, para vos dardes à oração; depois voltai a estar juntos, para que Satanás não vos tente pela vossa incontinência” (1 Cor 7, 5)
- Marcos registra: “Quando vos puserdes de pé para orar, perdoai, se tendes algo contra alguém” (Mc 11, 25)
- Paulo determina: “Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça, e toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça” (1 Cor 11, 4—5)
- Paulo — conhecedor da lei, dos profetas e da plenitude do evangelho — reconhece com humildade a insuficiência humana tanto no objeto quanto no modo da oração, apontando o Espírito como aquele que supre essa ignorância.
- Paulo declara: “O Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza. Pois nós não sabemos pedir como convém, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis, e aquele que sonda os corações conhece qual é a aspiração do Espírito, e que a sua intercessão em favor dos santos é segundo Deus” (Rm 8, 26—27)
- No coração dos eleitos, o Espírito clama: “Abba, Pai” (Gl 4, 6)
- O Espírito vê “nossa alma mergulhada no pó” (Sal 44, 26) e prisioneira neste “mísero corpo” (Fl 3, 21)
- A intercessão do Espírito não se faz com súplicas comuns, mas com “gemidos inefáveis que o homem não pode pronunciar” (2 Cor 12, 4)
- Paulo afirma: “Em tudo saímos vencedores graças àquele que nos amou” (Rm 8, 37)
- A oração com o espírito e com a mente constitui uma cooperação entre a capacidade humana e a ação do Espírito, sem a qual nenhuma louvação perfeita ao Pai seria possível.
- Paulo declara: “Orarei com o espírito, mas orarei também com a mente; cantarei salmos com o espírito, mas também os cantarei com a mente” (1 Cor 14, 15)
- O Espírito “que tudo sonda, até as profundidades de Deus” (1 Cor 2, 10) louva e canta antes de que a mente humana possa fazê-lo com perfeito ritmo, melodia, medida e harmonia
- O discípulo, educado na lei e familiarizado com as palavras dos profetas, percebeu ao ver Jesus orar que seu modo habitual de orar era insuficiente
- João Batista — descrito como mais que um profeta (Mt 11, 9) — havia ensinado sobre a oração a seus discípulos, distintos daqueles que iam a ele de Jerusalém, da Judeia e das regiões vizinhas para ser batizados (Mt 3, 5—6)
- As orações dos santos, por serem verdadeiramente espirituais — pois o Espírito orava no coração deles —, foram registradas cheias de ensinamentos secretos e admiráveis.
- Ana prolongava sua oração diante do Senhor falando “em seu coração” (1 Sm 1, 11—13), e nem toda a sua oração foi posta por escrito
- Acerca do conteúdo dessas orações pode-se dizer com Oseias: “Compreenda estas coisas o sábio, o inteligente as entenda” (Os 14, 10)
- Elaborar um tratado sobre a oração é tarefa tão nobre que exige a iluminação do Pai, o ensinamento do Filho primogênito e a capacitação do Espírito para que se possa tratar com retidão de tema tão elevado.
- Quem redige tal tratado, reconhecendo-se simples homem sem luzes particulares sobre a oração, julga justo invocar o Espírito antes de iniciar, a fim de que lhe seja dado pleno entendimento das orações contidas nos Evangelhos
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