DESCIDA FILHO
Orígenes — Contra Celso
Descida do Filho
O nobíssimo Celso foi buscar inspiração em algum lugar para nos confundir, como se disséssemos que «o próprio Deus Pai desce pessoalmente aos homens». Daí conclui que «Ele abandona o seu trono». Ele ignora, na verdade, a virtude de Deus e como “o Espírito do Senhor encheu a terra e o que mantém unidas todas as coisas possui o conhecimento de tudo o que profere” (Sab 1,7). Incapaz de compreender aquilo (Jeremias 23:24): «Não encho eu o céu e a terra?, diz o Senhor», e de ver que, segundo a doutrina dos cristãos, todos (Atos 17:28) «vivemos, nos movemos e estamos n’Ele», como também ensinava Paulo no discurso aos atenienses. Mesmo quando o Senhor do universo desce com Jesus, sua própria virtude, à vida (terrena) dos homens; e mesmo que o logos «que estava no princípio» (cf. João 1:1) — também ele deus — venha a nós, não perde seu trono nem abandona seu assento como quem deixa um espaço vazio e ocupa outro que não possuía antes. A virtude e a divindade de Deus vêm habitar por meio daquele que quer e em quem encontram espaço, sem mudar de lugar nem deixar vazio um posto para preencher outro. Ao dizer, de fato, que (alguém) abandona um lugar e ocupa outro, não estamos explicando isso em sentido espacial. Assim também costumamos dizer que a alma do tolo e do que se entrega ao vício está desamparada por Deus, enquanto a daquele que deseja viver segundo a virtude, progride e já vive de acordo com ela, está cheia ou participa do Espírito Divino. Não há, portanto, necessidade alguma de que, para a descida de Cristo ou para a conversão de Deus para com os homens, se abandone um lugar mais elevado e se alterem as coisas terrenas, como acredita Celso ao dizer: «Porque, se você for mudar uma única das coisas daqui, por menor que seja, todas ficarão desordenadas».
Celso levanta objeções à descida de Deus aos homens. Ele raciocina com base em duas premissas igualmente falsas: a) não há em Deus distinção entre o Pai (que não se faz homem) e o Logos, feito homem. Negada a descida do Deus desconhecido ao mundo para se tornar homem, fica ipso facto negada qualquer outra descida divina;
b) a descida de Deus ou é local (= espacial), ou não é. Negar a Deus um movimento local ou espacial — “de loco in locum” — equivale a recusar-lhe toda descida.
Orígenes responde à segunda dificuldade. Responde também, de forma implícita, à primeira. Deus ignora o movimento local, mas não o virtual. O que em essência não pode fazer pessoalmente, pode fazê-lo por meio do Logos, em quem, como em um «lugar divino», se torna presente. Onde quer que o Filho se faça sentir, ali está o Pai.
O Logos, enquanto tal, não se move “localmente”. Nem tem por que abandonar o seio do Pai para viver pessoalmente também no mundo. Sua natureza espiritual o impede disso. Ao dizerem que o Filho de Deus desceu a este mundo, os cristãos querem dizer uma coisa muito simples.
