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Cântico dos Cânticos

Resumo feito a partir da consagrada edição das Sources Chrétiennes, “Homélies sur le Cantique des Cantiques”, com Introdução, tradução e notas de D. Olivier Rousseau (1966).

Homilias sobre o Cântico dos Cânticos

  • Primeira parte
    • O canto do Cântico
    • A escada dos Cânticos
    • As personagens do Drama
    • Aplicação espiritual dos personagens
    • Cenário do Epitálomo
    • Os beijos dos Esposos
    • Os perfumes do Esposa
    • O Amor espiritual
    • Os seios do Esposo
    • Aplicação à alma
    • O nome de Jesus
    • A chegada das jovens
    • O cortejo e o trajeto
    • O apartamento do Rei
    • A negritude da Esposa
    • Aplicação à alma. A etiopiana
    • Aplicação à Igreja
    • A Rainha de Sabá
    • Os Inimigos
    • Desaparecimento do Esposo
    • O repouso do meio-dia
    • A fidelidade da Esposa
    • As ovelhas e os bodes
    • Os carros do Faraó
    • Descrição da Esposa
    • O repouso do Rei
  • Segunda parte
    • Os dois amores
    • Os realces de prata e de ouro
    • A pecadora e a santa
    • O buquê de mirra
    • Os seios da Esposa
    • O ramalhete de hena
    • As vinhas de Engedi
    • Beleza do Esposo e da Esposa
    • Os olhos e as pombas
    • O leito sombreado
    • As traves de cedro
    • O lis e seu perfume
    • A maçã e seu sabor
    • O celeiro da Esposa
    • A ordem da caridade
    • O ferimento de amor
    • O abraço
    • Segundo repouso do Esposo
    • O Bem-Amado reaparece
    • O cervo e a gazela
    • A Casa de Deus
    • O apelo do Esposo
    • As fendas das penhas

Manlio Simonetti

  • Jerônimo, conhecedor aguçado da Escritura, considerava o Comentário ao Cântico como a obra máxima de Orígenes, superando todas as demais, e inclusive ao próprio autor em relação às suas outras produções, por permitir a aplicação de princípios hermenêuticos com singular acerto a serviço de um ímpeto místico que representou novidade profunda nas letras cristãs do período.
    • Jerônimo observava que, com as demais obras, Orígenes superava todos os outros, mas com o Comentário ao Cântico superava a si mesmo
    • O impulso místico presente na obra representou uma novidade destinada a vida exuberante na literatura cristã da época
    • A explicação reside no fato de que o Cântico dos Cânticos é o livro da Sagrada Escritura que mais exige, em sentido cristão, uma interpretação de tipo alegórico
    • Considerado apenas pelo ponto de apoio literal do texto, o canto de amor dos dois esposos reais nada apresenta que pudesse autorizar sua inserção entre os livros divinamente inspirados
    • Teodoro de Mopsuéstia, antioqueno do início do século V, único exegeta antigo a impugnar a exegese alegórica, viu-se forçado a negar também o caráter inspirado do Cântico
  • Os judeus, que atribuíam o Cântico a Salomão junto com os Provérbios e o Eclesiastes, já o interpretavam como o canto de amor mútuo entre o esposo Javé e a esposa Israel, e os cristãos, ao adaptar essa interpretação, identificaram o esposo com Cristo e a esposa com a Igreja, numa tradição em que Orígenes se insere com complexidade e amplitude muito superiores.
    • A imagem paulina de Ef. 5, 31ss. — “por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua esposa, e os dois serão uma só carne” — foi valorizada pelos cristãos para fundamentar essa identificação
    • O comentário cristão mais antigo ao Cântico é o de Hipólito, alguns anos anterior ao de Orígenes, inteiramente fundado na tipologia esposo-Cristo e esposa-Igreja, sem nenhum indício de interpretação literal
    • O comentário de Hipólito era em grande parte tributário de uma exegese já tradicional na época
    • Orígenes se situa nessa linha, porém com grau de complexidade e amplitude muito diferente
  • O interesse de Orígenes pelo Cântico concretizou-se numa série de homilias e, sobretudo, numa extensa coleção de dez livros composta por volta do ano 240, precedida de um prefácio particularmente desenvolvido, e que chegou até os dias atuais por meio de traduções e excertos realizados por intermediários distintos.
    • Jerônimo traduziu para o latim as duas primeiras homilias da coleção
    • Rufino de Aquileia traduziu, nos primeiros anos do século V, a parte preliminar do comentário até a interpretação de Cant. 2,15, distribuindo-a em quatro livros e antepondo a tradução do extenso e importante prólogo
    • A Filocalia — antologia de passagens origenianas organizada por Basílio de Cesareia e Gregório Nazianzeno — conservou uma passagem do comentário original relativa à interpretação de Cant. 1,5
    • Procópio de Gaza utilizou amplamente o comentário origeniano, reproduzindo passagens relativas à interpretação de versículos do Cântico, do início ao fim da obra, com muitas soluções de continuidade
    • Procópio abreviou muito o texto origeniano, mas o reproduziu de modo ao menos satisfatório
  • Os textos extraídos da Filocalia e de Procópio permitem controlar em certa medida a fidelidade da tradução de Rufino, que, seguindo os cânones tradicionais da tradução literária, fez uso de grande liberdade, podando drasticamente o aparato erudito origeniano e suprimindo a consideração sistemática das variantes textuais gregas.
    • Rufino não se limitou a dar razão do texto origeniano ad sensum — expressão latina para “segundo o sentido” — mas eliminou o aparato erudito que Jerônimo tanto admirava
    • Orígenes, embora fundamentado no texto grego dos Setenta, considerava de modo bastante sistemático as variantes fornecidas por outras traduções gregas — Áquila, Símaco e Teodocion — comentando as expressões em que divergiam notavelmente dos Setenta
    • Nada disso permaneceu em Rufino, que se limitou a citar aqui e ali algumas variantes do texto latino disponível — perda considerada muito grave
  • Em compensação, Rufino acrescentou algumas aclarações próprias, raramente doutrinárias e na maioria das vezes meramente explicativas, para esclarecer pontos do texto grego que pudessem resultar obscuros ou equívocos para o leitor latino, sem com isso falsear o sentido do discurso origeniano.
    • Um exemplo é a fraseologia latina que explica a terminologia filosófica grega citada em primeiro lugar por seu tecnicismo — página 53
    • Outro exemplo é a aclaração de que é preferível traduzir melo com o grecismo melum em vez do latim normal malum, pois, dado o contexto, alguém poderia equivocar-se e interpretar malum como male em vez de como melo — página 200
    • Tais indicações evidenciam a liberdade da tradução rufiniana, que, no entanto, preservou o sentido do discurso origeniano de modo satisfatório
  • Além do aparato erudito, Orígenes aportou à já tradicional interpretação do Cântico novidades de grande peso que se evidenciam numa breve descrição dos caracteres do comentário.
    • A alusão à tradução de Rufino serve de ponto de partida para destacar essas novidades
    • Uma descrição breve dos caracteres do comentário origeniano basta para ressaltá-las
  • A interpretação de cada versículo ou grupo de versículos inicia-se com um breve comentário de caráter literal — sendo Orígenes o primeiro exegeta cristão a cuidar também desse aspecto para o Cântico —, e nela o caráter dramático do canto é descrito de modo minucioso, servindo de base propedêutica indispensável para encaminhar justamente a alegoria.
    • Orígenes destaca desde o início o caráter dramático do canto, no qual os personagens se alternam continuamente — ora fala a esposa, ora o esposo, ora ambos se dirigem a outros interlocutores, os companheiros da esposa e do esposo
    • A interpretação literal é considerada exclusivamente propedêutica — termo que designa aquilo que prepara o caminho para conhecimento posterior
    • Comparado a outros autores contemporâneos ou um pouco anteriores, como Hipólito, Orígenes presta atenção cuidadosa a cada versículo em particular, fazendo-o objeto de esmerada interpretação espiritual
    • Em alguns casos — páginas 227 e seguintes — toma em consideração, sob o aspecto literal, amplos trechos do texto conjuntamente, para melhor estabelecer as particularidades que num comentário fragmentário poderiam passar inadvertidas
    • A razão desse procedimento reside nos princípios exegéticos de Orígenes: fundamentar a interpretação alegórica sobre atenta consideração à letra do texto bíblico
  • Estabelecida a letra do texto, Orígenes introduz a interpretação espiritual pelo método alegórico, desenvolvida sistematicamente em duas linhas que se cruzam de muitos modos mas permanecem bem distintas — a tipológica, herdada da tradição, e a psicológica, novidade de grande alcance.
    • Na interpretação tipológica — primeiro filão —, a esposa e o esposo figuram a Igreja e Cristo respectivamente, e os demais personagens são interpretados a partir dessa identificação
    • Na interpretação psicológica — segundo filão, grande novidade —, Orígenes continua vendo no esposo a Cristo, mas vê na esposa a alma que tende a ele
    • A ordem em que as duas interpretações são introduzidas não é regular: às vezes vai à frente a tipológica, a seguir à literal; outras vezes, mais raramente, à literal segue a psicológica
    • A salvação e a perfeição de cada alma realizam-se na Igreja, embora Orígenes nem sempre consiga diferenciar nitidamente os dois tipos de interpretação
  • O tema fundamental da interpretação tipológica é o contraste entre Israel e a Igreja cristã, entre a velha herança do Antigo Testamento e a nova economia do Novo Testamento, em cujo contexto Orígenes situa a existência da Igreja desde o princípio do mundo e o significado da encarnação de Cristo como passagem da infância à maturidade.
    • Os amigos do esposo podem simbolizar facilmente os profetas; as filhas de Jerusalém, a quem a esposa por vezes se dirige, simbolizam o povo de Israel que não quis aceitar a mensagem de Cristo
    • O aroma e o peito do esposo são melhores do que os perfumes e o vinho da lei e dos profetas — páginas 79 e seguintes
    • O esposo oferece à esposa objetos de ouro, enquanto os profetas só podiam oferecer-lhe objetos de material semelhante ao ouro com bordados de prata — páginas 172 e seguintes
    • Para Orígenes, a Igreja não começou com Cristo e os apóstolos, mas existe desde sempre, desde o começo do mundo, e viveu sempre na espera de Cristo
    • A chegada de Cristo na carne e sua união com a Igreja significou a passagem da idade infantil à idade adulta, da imperfeição da lei à perfeição da graça
  • O tema fundamental da interpretação psicológica é a distinção entre os simples iniciantes e os perfeitos, introduzida não teoricamente mas para ressaltar o empenho de cada cristão em progredir continuamente rumo à união com Cristo, e dá lugar a aberturas místicas de grande poder de sugestão que alcançariam enorme êxito posterior.
    • Os temas dos sentidos espirituais, da ferida de amor e dos desponsórios místicos — união da alma com o Logos divino — são as grandes contribuições místicas desse filão interpretativo
    • As donzelas que cercam a esposa representam almas ainda imperfeitas que correm atrás do aroma do perfume do esposo mas ainda não conseguiram reunir-se com ele — páginas 92 e seguintes
    • As donzelas ainda estão na fase de adesão ao Cristo encarnado, enquanto a esposa já conseguiu aderir à divindade do Logos — página 101
    • A esposa simboliza um estádio de progresso muito mais avançado — a perfeição —, mas caracterizado por estado de tensão dinâmica e extrema mutabilidade
    • Mesmo a alma mais avançada pode perder seu estado privilegiado se não permanecer bem atenta e não chegar a conhecer-se a si mesma — referência a Cant. 1,8, páginas 147 e seguintes
    • A alma perfeita deve estar sempre disponível para o progresso das outras almas: a esposa corre atrás do perfume do esposo seja porque ela mesma talvez precise progredir, seja porque deve ajudar as donzelas — as almas menos perfeitas — em sua corrida — página 92
  • Os comentários escriturísticos de Orígenes, pela sua grande extensão habitual, são frequentemente dispersos e refletem a intenção de ensinamento com tudo o que isso comporta de improvisado e alternativo, pertencendo a um gênero literário sui generis — a literatura escolástica bíblica — com sua própria elocutio, e exibindo contínuas digressões, ampliações anômalas e repetições que evocam a viva voz do mestre na escola.
    • O termo elocutio — do latim, maneira de expressão — designa o estilo próprio de um gênero literário
    • As digressões e repetições características dos comentários origenianos revelam a intenção didática e o contato com o ambiente vivo do ensino
  • No Comentário ao Cântico, embora presentes as características dispersivas dos comentários origenianos, sobressaem contextos em que o exegeta se detém para desenvolver a fundo pontos particulares, como a interpretação da esposa negra e bela, as raposas pequenas e as compilações sobre as gradações do amor e o conhecimento de si mesmo.
    • Cant. 1,5 — “Sou negra e bela” — para o grego Orígenes os dois adjetivos entendidos literalmente não são conciliáveis, e por isso negro é explicado com particular atenção, trazendo à colação vários textos da Escritura em que se fala positivamente de homens e mulheres dessa cor — páginas 109 e seguintes
    • Cant. 2,15 — a interpretação das pequenas raposas recebe tratamento análogo — páginas 278 e seguintes
    • Cant. 2,4 — amplas compilações sobre as gradações do amor — páginas 209 e seguintes
    • Cant. 1,8 — compilações sobre o conhecimento de si mesmo — páginas 147 e seguintes
  • A estrutura geral do Comentário ao Cântico é, apesar das descompensações, fundamentalmente homogênea e orgânica, articulada sistematicamente sobre os dois grandes temas tipológico e psicológico, o que determina uma unidade de tom dificilmente reconhecível em outra obra, conferindo à espiritualidade mística que permeia o conjunto um caráter de altíssima espiritualidade.
    • A reiteração devidamente variada dos mesmos motivos ao longo de toda a obra acentua particularmente o componente místico
    • O êxito da obra foi imenso: todos os comentadores posteriores do Cântico a tiveram muito presente, alguns se inspiraram nela de modo fundamental
    • Teodoreto entre os gregos e Gregório de Elvira entre os latinos preferiram a tipologia tradicional, sem poder subtrair-se à influência da interpretação psicológica
    • Gregório de Nissa fundamentou inteiramente em ela seu comentário; Gregório Magno fundamentou nela grande parte do seu
    • Na Idade Média, Bernardo de Claraval representa o ponto de referência central dessa tradição
    • Para além do âmbito exegético específico, o Comentário ao Cântico de Orígenes marcou um ponto fundamental na história da mística ocidental, chegando até Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz
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