NICÉFORO O SOLITÁRIO
Seleção de Jean Gouillard
Sobre a sobriedade, a vigilância e a guarda do coração
- Da vida de nosso padre Santo Antão
- Da vida de São Teodósio o Cenobiárquico
- Da vida de Santo Arsênio
- Da vida de São Paulo de Latros
- Da vida de São Sabbas
- Da vida do Abade Agathon
- Do abade Marcos a Nicolau
- De São João Clímaco
- Do abade Isaías
- De Macário o Grande
- De Diádoco
- De João Karpathos
Tratado da sobriedade e da guarda do coração (kardia)
Vós que estais ansiosos por obter a grandiosa e divina “fotofania” de Nosso Salvador Jesus Cristo; vós que quereis captar sensivelmente no coração (kardia) o fogo mais que celeste; vós que vos esforçais por obter a experiência sentida do perdão de Deus; vós que deixastes todos os bens deste mundo, para descobrir e possuir o tesouro escondido no campo de vosso coração (kardia); vós que quereis, já nesta terra, abrasar-vos alegremente com as tochas da alma (psyche) e, para isso, renunciastes a todas as coisas presentes; vós que quereis conhecer e apreender com conhecimento experimental o reino de Deus presente dentro de vós — vinde, que eu vos exponho a ciência, ou melhor, o método da Vida Eterna, ou melhor, celeste, que introduz, sem fadiga nem suor, no porto da apatheia, aquele que o pratica. Não há que temer a sedução nem o terror que vem dos demônios (diabolos). Essa queda só ameaça aquele cujos passos a desobediência conduz para longe da vida que vos exponho, como aconteceu a Adão. Por ter desprezado o preceito Divino, por se ter ligado com a serpente, por ter confiado nela e se ter deixado inebriar por ela com o fruto enganador, precipitou-se deploravelmente, e com ele sua posteridade, no abismo da morte, das trevas e da corrupção.
Retornai, pois — para sermos mais exatos, voltemos a nós mesmos — meus irmãos, rejeitando com o maior desprezo o conselho da serpente e toda ligação com o que rasteja. Porque só há um meio de chegar ao perdão e à familiaridade com Deus: antes de tudo, retornar, tanto quanto possível, a nós mesmos, ou antes — por um paradoxo — tornar a entrar em nós mesmos, defendendo-nos da relação com o mundo e das preocupações vãs, para nos entregarmos indefectivelmente ao “Reino dos céus que está dentro de nós”. Se a vida monástica recebeu o nome de “ciência das ciências e Arte das artes”, porque seus efeitos nada têm de comum com as vantagens corruptíveis deste mundo, que desviam nosso espírito da melhor parte, para nos sepultar sob o seu aluvião. Ela nos promete bens maravilhosos e inefáveis “como os olhos nunca viram, os ouvidos nunca ouviram e nunca o coração (kardia) do homem percebeu” ( 1Cor 2,9 ). Assim, “não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas contra as dominações, os poderosos os príncipes das trevas deste século” ( Ef 6,12 ). Uma vez que o século presente não passa de trevas, fujamos dele; fujamos dele, mesmo em pensamento. Que não haja nada de comum entre nós e o inimigo de Deus, pois “aquele que quer ser seu amigo, constitui-se inimigo de Deus” ( Tg 4,4 ). E quem poderá ainda vir socorrer aquele que se tornou inimigo de Deus?
Imitemos, pois, os nossos pais e, seguindo-os, procuremos o tesouro escondido no coração (kardia); tendo-o descoberto, conservemo-lo com todas as nossas forças, para guardá-lo e ao mesmo tempo valorizá-lo. Para isso é que fomos originariamente destinados. Se algum novo Nicodemos tiver a ousadia de chicanear sobre isso: “Como se pode entrar no próprio coração (kardia), para nele viver e trabalhar?”, merecerá a resposta que deu o Salvador à objeção de primeiro Nicodemos ( “Como se pode entrar de novo no ventre da mãe e nascer quando se é velho?” ): “o Espírito sopra onde quer”, de uma imagem emprestada do vento material. Se partilhamos tal dúvida em relação às obras da vida ativa, como nos sobrevirão as da contemplação (theoria), se é verdade que “a vida ativa é a via de acesso à contemplação (theoria)”? Como é impossível convencer um espírito tão incrédulo sem provas escritas, vou apresentar neste tratado, para proveito de todos, as vidas dos santos e seus escritos. Convencido, ele afastará então qualquer dúvida. Começaremos por nosso Pai, santo Antão, o Grande, continuando com sua posteridade; e escolheremos, da melhor maneira possível, nas palavras e na conduta desses santos, provas convincentes.
Da vida de santo Agatão ( Padres do Deserto )
Um irmão perguntou ao abade Agatão: “Abade, dize-me o que é melhor: o penoso trabalho do corpo (soma) ou a guarda do seu interior?” Agatão respondeu: “O homem é semelhante a uma árvore: o trabalho do corpo (soma), são as folhas; a guarda do seu interior é o fruto. Está escrito: 'Toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo'. Daí se conclui claramente que todo o nosso esforço deve ter por objeto os frutos, ou seja, a guarda do espírito. Mas também são necessários a sombra e o adorno das folhas, isto é, o trabalho do corpo (soma)”. Admirai como nosso santo se expressa a respeito dos que não têm a guarda do espírito. Àqueles que só se podem orgulhar da vida ativa, diz ele: “toda árvore que não dá fruto”, ou seja, a guarda do intelecto (nous), mas que tem apenas folhas, isto é, a vida ativa, será cortada e lançada ao fogo. Terrível sentença, meu Pai!
Trecho da vida de nosso pai Santo Antão
“Um dia, dois irmãos saíram pela estrada para procurar o santo abade Antão. No caminho, aconteceu de ficarem sem água: um morreu e ao outro pouco tempo restava de vida; sem forças para andar, ficou estendido no chão, esperando a morte. Antão, que estava sentado no alto da montanha, chamou dois monges que se encontravam por ali e apressando-os, disse: “Tomai uma moringa d'água e ide correndo para a estrada que leva ao Egito Dois irmãos vinham para cá: um acaba de morrei e o outro vai morrer logo, se não vos apressardes isso me foi manifestado enquanto eu orava” Os monges, tendo-se posto a caminho, encontraram o morto e o enterraram. Dando água ao outro reanimaram-no e o conduziram ao ancião, pois havia um dia de caminhada. Alguém poderia ousar perguntar por que Antão nada tinha dito antes da morte do primeiro: pergunta fora de propósito Não cabia a Antão decidir sobre a morte, mas sim a Deus, que resolveu deixar morrer um e revelar o que aconteceu com o segundo. O que há de maravilhoso da parte de Antão é que, sentado no alto da montanha, tinha o coração (kardia) sóbrio e o Senhor lhe revelou acontecimentos distantes. Estais vendo, por esse fato, que Antão, graças à sobriedade do coração (kardia), foi gratificado pela visão divina e pela visão à distância. Pois “Deus, diz João Climacus, manifesta-se ao espírito no coração (kardia); no princípio, para purificar aquele que o ama, e depois, como uma luz que faz resplandecer o espírito e o torna deiforme”.
Da vida de santo Arsênio ( padre do deserto )
O admirável Arsênio se tinha imposto uma regra: nunca tratar nada por escrito, bem como não escrever nenhuma carta. Não que fosse incapaz de fazê-lo. Longe disso. Para ele era tão fácil ser eloquente, como a um outro falar com simplicidade. Não; era apenas hábito ao silêncio e repugnância pela ostentação. Pelo mesmo motivo, tinha grande cuidado, por ocasião das sinaxes, para não olhar para ninguém e nem ser visto: permanecia atrás de um pilar ou de qualquer outro obstáculo, para esconder-se dos outros assistentes. Queria, assim, vigiar-se, recolher em si mesmo o espírito e elevar-se facilmente para Deus. Outro exemplo de um santo homem, verdadeiro anjo sobre a terra, que recolhe em si o espírito para elevar-se a Deus sem dificuldade.
João de Kárpatos
“Nossas orações exigem muitas lutas penosas, antes de descobrirem para nós o estado impassível do espírito, esse segundo céu do coração (kardia), no qual Cristo habita. Escutai o Apóstolo: Não sabeis que Cristo está em vós? A menos que não sejais aprovados no exame' ( 2Cor 13,5 ).
São João Climacus
“O hesicasta é aquele que — paradoxalmente — se esforça por conter o incorpóreo numa morada de carne” ( cap. 27 ). “O hesicasta é aquele que diz: durmo, porém, meu coração (kardia) vigia. Fecha a porta da tua cela ao corpo (soma); a porta da tua boca à palavra; tua porta interior aos espíritos” ( cap. 27 ). “Sentado num lugar elevado, observa, se fores capaz, e verás a maneira, o momento, a origem, a quantidade e a natureza dos ladrões que querem penetrar na tua vinha, para furtar os cachos de uva. O vigia está cansado; levanta-se para orar, depois torna a sentar-se e volta corajosamente à sua ocupação” ( cap. 27 ). “Uma coisa é a guarda dos pensamentos; coisa bem diferente é a guarda do espírito: há entre elas toda a distância do oriente ao ocidente, sendo a segunda bem mais difícil”. “Os ladrões que percebem, em algum lugar, as armas do rei, ali não se aventuram; assim também, quem ligou indissoluvelmente a oração (euche) ao coração (kardia), quase nunca corre o risco de ser despojado pelos ladrões espirituais” ( cap. 26 ). Estás vendo a ocupação admirável de nosso santo Pai. E dizer que caminhamos nas trevas, como num combate noturno; não prestamos atenção (epimeleia) às preciosas palavras do Espírito e, surdos voluntários, passamos de lado. Continuemos. Vejamos o que os Padres escrevem ainda, para nos convidar à sobriedade.
Diádoco de Fótico
“Aquele que habita incessantemente o próprio coração (kardia), emigra em definitivo das satisfações da vida. Caminhando segundo o espírito, não pode conhecer as cobiças da carne. Como ele vai e vem no castelo das virtudes (arete), que são, por assim dizer, os guardiães das portas, os planos dos demônios (diabolos) não têm efeito sobre ele”. O santo diz, cem sabedoria, que os planos do demônio não têm efeito sobre nós, quando vivemos nas profundezas do coração (kardia); isso acontece tanto mais, quanto mais ali permanecermos… Estou percebendo que não vou ter tempo para relatar, como era minha intenção, as palavras de todos os Padres. Mencionarei mais um ou dois e pensarei em terminar.
Isaac, o sírio
“Esforça-te por entrar no teu quarto interior e verás o quarto celeste. Pois são a mesma coisa; e a mesma porta se abre para a contemplação (theoria) de ambos. A escada desse reino está escondida dentro de ti, na tua alma (psyche). Lava-te, pois, do pecado e descobrirás os degraus pelos quais deves subir”.
Do abade Isaías
“Aquele que se separa do que está à esquerda ( o mal ), conhece então exatamente todos os pecados que cometeu contra Deus; pois, ninguém vê os próprios pecados, enquanto não se separar deles dolorosamente. Quem alcança esse degrau, encontra os gemidos, a oração (euche) e a vergonha diante de Deus, ao lembrar-se dos maus laços que mantinha com as paixões. Esforcemo-nos, pois, meus irmãos, o quanto pudermos, e Deus trabalhará conosco, segundo a abundância de sua misericórdia. Se não tivermos guardado o coração (kardia), a exemplo de nossos pais, pelo menos apliquemo-nos, conforme nossos meios, a guardar o corpo (soma) sem pecado, como Deus nos pede; e tenhamos fé que, na hora da privação, ele terá misericórdia de nós, como teve dos seus santos”. Aqui, com estas últimas palavras, nosso santo consola os fracos. Qual não será a compaixão e a indulgência de tão grande santo!
Macário, o grande
“A obra principal do atleta é entrar no próprio coração (kardia), desprezar Satã e começar o combate com ele; combatê-lo, lutando contra os pensamentos. Quem guarda o corpo (soma) visível, da corrupção e do adultério, mas comete internamente adultério em relação a Deus, prostituindo-se a seus pensamentos — de nada lhe adianta ter o corpo (soma) virgem. Pois está escrito: “Todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso, já cometeu adultério com ela em seu coração (kardia) ( Mt 5,28 ). Há um adultério que se consuma no corpo (soma) e há o adultério da alma (psyche) que se dá a Satã”. Poderia parecer que nosso Pai estivesse contradizendo as palavras citadas pelo abade Isaías; não é verdade. Pois Isaías nos prescreve “guardar o corpo (soma) como Deus o pede”; ora, Deus não pede apenas a pureza do corpo (soma), mas também a do espírito…
Do abade Marcos a Nicolaus
“Queres, meu Filho, possuir dentro de ti uma tocha de ciência espiritual, para caminhar sem obstáculo na noite profunda deste século? E que o 'Senhor dirija teus passos'? E queres desejar, com fé ardente, o caminho do Evangelho, isto é, comungar, através do desejo e da oração (euche), com os preceitos evangélicos da perfeição? Vou mostrar-te um maravilhoso método e invenção espiritual. Não exige nem cansaço, nem combate corporal, mas cansaço espiritual e atenção (epimeleia) do espírito, apoiada no temor e no amor de Deus; e, por esse meio, sem dificuldade, farás debandar a falange dos inimigos… Se, portanto, quiseres conseguir a vitória contra as paixões, com a oração (euche) e a ajuda de Deus, entra em ti mesmo, penetra nas profundezas de teu coração (kardia), persegue estes três gigantes poderosos: o esquecimento, a preguiça e a ignorância, que são o ponto de apoio dos invasores espirituais. É por causa deles que as outras paixões más se insinuam na alma (psyche), agem, vivem e prevalecem na alma (psyche) entregue aos prazeres… Uma grande atenção (epimeleia) e vigilância do espírito, unida à ajuda do alto, fará com que descubras o que permanece desconhecido a muitos; e poderás assim, com o auxílio de muita oração (euche) e atenção (epimeleia), libertar-te dos gigantes do mal. Com a colaboração poderosa da graça (kharis), esforça-te por fixar em teu coração (kardia) e nele guardar, com cuidado, o uníssono da verdadeira ciência, da lembrança da palavra de Deus e de uma boa intenção; assim, qualquer vestígio de esquecimento, ignorância e preguiça desaparecerá do teu coração (kardia)”. Vedes a unanimidade das palavras espirituais? E de que modo elas nos mostram claramente a ciência da atenção (epimeleia)? Ouçamos os que vêm a seguir.
Da vida de são Paulo de Latros ( + 955 )
São Paulo quase nunca se afastava das montanhas e dos lugares desertos. Os animais selvagens eram seus companheiros e Convidados. Um dia, teve vontade de descer para visitar os irmãos. Exortava-os, então, e lhes ensinava a se mostrarem corajosos, a não terem preguiça e a não se descuidarem dos labores penosos da virtude, mas a se dedicarem, com extrema atenção (epimeleia) e discrição, à vida evangélica e a combaterem valentemente os espíritos do mal. Além disso, expunha-lhes um método para reconhecer as sugestões da paixão e afastar as sementes clandestinas das paixões. Podeis imaginar nosso santo Pai ensinando, a seus discípulos ignorantes, um método para afastar as sugestões das paixões? Só se pode tratar da guarda do espírito, pois é essa a sua obra e a de nenhum outro. Continuemos.
Do próprio Nicéforo
Alguns santos deram à atenção (epimeleia) o nome de “guarda do espírito”, outros de “guarda do coração (kardia)”, outros de “sobriedade”, outros de “repouso do espírito” ou ainda nomes diferentes. Tantas expressões que vêm a ser a mesma coisa, como se se dissesse pão, pedaço de pão ou fatia de pão.
O que é a atenção (epimeleia)? Quais são suas propriedades? Escutai-me bem. A atenção (epimeleia) é o sinal da penitência cumprida; a atenção (epimeleia) é o chamado da alma (psyche) ( de volta do desregramento das paixões ), a abominação do mundo e a volta para Deus. A atenção (epimeleia) é a renúncia aos pecados, para revestir-se da virtude. A atenção (epimeleia) é a certeza indubitável do perdão de seus pecados. A atenção (epimeleia) é o princípio da contemplação (theoria), ou antes, sua base permanente. Graças a ela, Deus se inclina sobre o espírito para manifestar-se a ele. A atenção (epimeleia) é a ataraxia do espírito, sua fixação pela misericórdia de Deus concedida à alma (psyche). A atenção (epimeleia) é a purificação (katharsis) dos pensamentos, o templo da lembrança de Deus, o tesouro da aceitação das provações. A atenção (epimeleia) é o auxiliar da fé, da esperança e da caridade. Sem a fé, não se suportariam as provações que vêm de fora; quem não aceita com alegria as provações, não pode dizer ao Senhor: “Tu és meu refúgio e meu asilo” ( Sl 3,4 ). E, se não põe seu refúgio no Altíssimo, não possuirá o amor no fundo do coração (kardia) ”.
Esse efeito sublime acontece à maioria, para não dizer a todos, através do canal do ensino. É muito raro recebê-lo de Deus, sem necessidade de mestre, unicamente pela força da ação (praxis) e pelo fervor da fé. Ora, a exceção não faz a lei. É importante, pois, procurar um mestre infalível: suas lições mostrarão os nossos desvios para a direita ou para a esquerda, e também nossos excessos em matéria de atenção (epimeleia); sua experiência pessoal dessas provações vai esclarecer-nos a respeito delas e mostrai, sem qualquer dúvida, o caminho espiritual, que poderemos então percorrer sem dificuldade. Se não tens mestre, procura um, a qualquer custo. Se não o encontrares, invoca Deus, na contrição do espírito e nas lágrimas; Suplica-lhe no despojamento, e faz o que te digo.
Mas, em primeiro lugar, que tua vida seja tranquila, livre de qualquer preocupação, em paz com todos. Então, entra no teu quarto, isola-te e, sentado num canto, faz como vou dizer-te:
Sabes que nossa respiração, o ar que inspiramos, só o expiramos ( talvez: respiramos ) por causa do coração (kardia). Pois, o princípio da vida e do calor do corpo (soma) é o coração (kardia). Ele aspira o ar para expulsar seu próprio calor através da expiração e para obter, assim, uma temperatura ideal. O princípio dessa organização, ou melhor, seu instrumento, é o pulmão. Fabricado pelo Criador, de um tecido tênue, ele incessantemente introduz e expele o ar como se fosse um fole. Desse modo, o coração (kardia), aspirando de um lado o frio através da respiração e expulsando o calor, conserva inviolavelmente a função que lhe foi atribuída no equilíbrio dos vivos.
Quanto a ti, como te disse, senta-te, recolhe teu espírito, introduze-o — digo teu espírito — nas narinas; esse é o caminho que o ar faz para ir ao coração (kardia). Empurra-o, força-o a descer ao teu coração (kardia), ao mesmo tempo que o ar inspirado. Quando ele estiver ali, verás a alegria que vais sentir: não terás nada que lamentar. Assim como o homem que volta para casa, depois de um tempo de ausência, não consegue conter a alegria de poder rever a mulher e os filhos, também o espírito, tendo-se unido à alma (psyche), transborda de alegria e de delícias inefáveis.
Irmão, acostuma pois o teu espírito a não ter pressa de se separar da alma (psyche). No início, falta-lhe zelo — é o mínimo que se pode dizer — para essa reclusão e esse retraimento interior. Mas, uma vez adquirido o hábito, não sentirá mais nenhum prazer nos giros de fora. Pois “o reino de Deus está dentro de nós”, e a quem volta para ele o olhar e o busca por meio da oração (euche) pura, todo o mundo exterior se torna vil e desprezível.
Se, desde o princípio, penetras pelo espírito no lugar que te mostrei do coração (kardia), graças a Deus! Glorifica-o, exulta e consagra-te unicamente a esse exercício. Ele te ensinará o que ignoras. Fica sabendo também que, enquanto teu espírito se encontra lá, não deves nem calar-te, nem permanecer ocioso. Mas, não tenhas outra ocupação, nem meditação, além do grito de “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim!” Nenhuma trégua, a preço algum. Mantendo teu espírito ao abrigo das divagações, essa prática o torna inexpugnável e inacessível às sugestões do inimigo; e, cada dia, ela o eleva no amor e no desejo de Deus.
Mas se, irmão, apesar de todos os esforços, não consegues penetrar nos lugares do coração (kardia), segundo as minhas indicações, faze como te digo e, com o auxílio de Deus, chegarás a teus fins. Sabes que a sede da razão do homem é o peito. É, de fato, no peito que, permanecendo mudos os nossos lábios, nós falamos, decidimos, compomos orações e Salmos, etc. Depois de banir dessa razão todo pensamento ( podes, é só querer ), dá-lhe o “Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim” e obriga o teu peito a gritar interiormente essas palavras, excluindo qualquer outro pensamento. Quando, com o tempo, te tiveres tornado mestre dessa prática, ela te abrirá a entrada do coração (kardia), como te disse, sem dúvida alguma. Eu mesmo fiz a experiência. Com a atenção (epimeleia), alegre e tão desejável, verás vir a ti todo o coro das virtudes (arete), o amor, a alegria, a paz e todo o resto. Graças a elas, todas as tuas súplicas serão atendidas em Nosso Senhor Jesus Cristo…
Da vida de são Sabás ( séc. VI )
Quando são Sabás notava que um iniciante já tinha aprendido bem a regra da vida monástica, e que já era capaz de guardar o espírito, de combater os pensamentos do inimigo — uma pessoa que tinha expulsado do coração (kardia) a lembrança do mundo — entregava-lhe uma cela no interior do mosteiro, se tivesse saúde delicada. Se fosse sadio e forte, permitia que construísse para si uma cela. Estais vendo que são Sabás exigia de seus discípulos a guarda do espírito e fazia dela a condição da vida na cela? Que faremos nós, nós outros que vivemos ociosamente na cela, sem nem mesmo saber que existe uma guarda do espírito?
Simeão, o novo teólogo
“Desde o dia em que a desobediência baniu o homem do paraíso e da relação com Deus, o diabo ( e seus demônios (diabolos) ) têm licença para agitar espiritualmente a alma (psyche) do homem, de dia e de noite, ora pouco, ora muito, às vezes muitíssimo. O único meio de se proteger é a lembrança constante de Deus: a lembrança de Deus, gravada no coração (kardia) pela virtude da cruz, fortifica inabalavelmente o espírito. Esse é o objeto do Combate Espiritual que o cristão deve travar no estádio da fé cristã e para o qual vestiu a armadura. Se não for assim, ele combate em vão. Esse combate é a única razão da ascese variada pela qual se maltrata o corpo (soma) por causa de Deus. É fazer cederem as entranhas do Deus de Bondade, recobrar a dignidade primitiva e imprimir Cristo na razão, como um timbre, conforme as palavras do Apóstolo: “Meus filhos, sofro as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós” ( Gl 4,19 ) ”.
Agora, meus irmãos, compreendeis que existe uma Arte, ou antes, um método espiritual, para levar rapidamente, à apatheia e à teopsia, aquele que o emprega. Estais convencidos de que a vida ativa, inteira, conta, diante de Deus, tanto quanto as folhas da árvore? E que a toda alma (psyche) que não possui a guarda do espírito, o fruto, aquela para nada lhe servirá? Façamos tudo para não morrer estéreis e não precisar sentir arrependimentos inúteis.
Pergunta: Vosso tratado contou-nos a conduta dos que agradaram ao Senhor; ensinou que existe uma ocupação que liberta prontamente a alma (psyche) de suas paixões; e que ela é necessária a todo cristão que se alista no exército de Cristo. Quanto a isso, não temos mais dúvida; estamos convencidos. Mas o que é a atenção (epimeleia)? Como alcançá-la? É o que gostaríamos de saber, pois não temos sobre isso a menor ideia.
Resposta: Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que disse: “Sem mim, nada podeis fazer” ( Jo 15,5 ), e depois de invocar seu socorro e seu concurso, vou tentar mostrar, o melhor que puder, o que é a atenção (epimeleia); e como, com a graça (kharis) de Deus, é possível atingi-la.
Da vida de são Teodósio, o cenobiarca ( séc. V-VI )
São Teodósio foi transpassado pela seta suave da caridade e foi prisioneiro de seus laços, a ponto de cumprir em suas obras o sublime e Divino mandamento: “Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração (kardia)…” ( Mt 12,37 ). Isso só lhe foi possível porque todas as potências naturais de sua alma (psyche) tendiam unicamente para o amor de seu Criador, excluídos todos os objetos deste mundo. Falo das atividades intelectuais da alma (psyche). Assim, ele inspirava reverência quando consolava, e por outro lado era a própria doçura e afabilidade quando repreendia. Quem foi, alguma vez, de trato mais útil com todos, sendo ao mesmo tempo capaz de recolher seus sentidos e dirigi-los para dentro de si mesmo, a ponto de fazer face, com maior tranquilidade, às dificuldades do mundo que às do deserto? Quem foi mais capaz de permanecer ele mesmo na multidão e na solidão? Foi assim que, recolhendo seus sentidos para introduzi-los em si mesmo, nosso grande Teodósio foi tocado pelo amor do Criador.
