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MACÁRIO

QUISPEL, GILLES. MAKARIUS, DAS THOMASEVANGELIUM UND DAS LIED VON DER PERLE. LEIDEN: BRILL, 1967.

I. Introdução

  1. A história da mística cristã pode ser resumida sob dois nomes: Makarius e Dionísio Areopagita — sendo que Dionísio influenciou no Ocidente apenas o catolicismo medieval, foi rejeitado pelos reformadores e permaneceu estranho ao protestantismo, enquanto Makarius foi acolhido pelo pietismo e se tornou, por meio de Gottfried Arnold, Johann Arndt e John Wesley, o grande santo do movimento pietista, cuja noção moderna de personalidade — individualismo, subjetividade e interioridade — pressupõe valores que o pietismo cultivou e que já se encontravam em Makarius.
  2. Quem lê as cinquenta homilias de Makarius compreende por que esses escritos exerceram tamanha influência nos círculos pietistas, pois eles se aproximam muito da literatura pietista — inclusive da holandesa, como a de Voetius —, enfatizando não tanto a doutrina mas a experiência religiosa, a ação do Espírito na alma do indivíduo, o reconhecimento do mal abissal na própria interioridade e a alegre certeza da iluminação e libertação, o que levou Gottfried Arnold a crer ter reencontrado nessas homilias o autêntico cristianismo primitivo.
  3. Durante longo tempo presumiu-se que o Makarius indicado como autor das homilias seria idêntico ao pai do deserto egípcio Makarius, mas no século XX estabeleceu-se que esses escritos estão ligados à seita síria dos messalianos — os “orantes” — do século IV, chegando Dörries a atribuir a autoria real das homilias a Simeão de Mesopotâmia, um dos líderes dos messalianos.
  4. A descoberta científica da origem mesaliana não foi recebida com entusiasmo, pois Makarius influenciou profundamente a mística da Igreja greco-ortodoxa: Diadoco de Fótica dialogou com ele já no século V; por volta do ano 1000 ele influenciou Simeão, o Novo Teólogo; e monges gregos ainda hoje são obrigados a lê-lo antes da ordenação — mas, desde o Sínodo de Side (por volta de 390), a Igreja condenou os messalianos repetidamente como hereges, o que levaria à conclusão paradoxal de que um herege moldou profundamente a espiritualidade da Ortodoxia.
  5. Werner Jaeger contestou essa conclusão ao descobrir a versão completa do tratado De Instituto Christiano de Gregório de Nissa e ao compará-lo com a Grande Carta de Makarius então inédita, encontrando concordâncias parcialmente literais que o levaram a concluir que Makarius dependia de Gregório — e não dos messalianos —, argumentando que o helenista Gregório havia exercido influência até sobre a Síria semítica.
  6. Jaeger enganou-se, pois o De Instituto Christiano de Gregório emprega citações escriturísticas muito divergentes que aparecem na Grande Carta e nos demais escritos de Makarius, mas não nas outras obras de Gregório; essas citações revelam origem síria ao surgirem também no Evangelho de Tomé, nas Pseudo-Clementinas e na Didascália — obras de ambiente sírio —, sendo inexplicáveis num helenista como Gregório, donde se conclui que foi Gregório de Nissa quem copiou amplamente a Grande Carta de Makarius, o que significa que essa carta foi escrita antes de 394, ano da morte de Gregório, datação extensível também às cinquenta Homilias e às vinte e oito Novas Homilias; quem conhece o Liber Graduum sírio-mesaliano e os relatos dos padres da Igreja sobre o messalianismo compilados por Kmosko não pode duvidar de que Makarius tinha vínculos com o messalianismo e de que suas obras foram consideradas pelos próprios messalianos como representativas de sua espiritualidade.
  7. A qualificação dogmática de Makarius como herege carece de valor histórico, pois em sua época os messalianos ainda não tinham sido condenados pela Igreja — condenação que só veio pelo Sínodo de Side, por iniciativa de alguns bispos gregos liderados por Anfíloco de Icônio, preocupados com a expansão mesaliana em suas dioceses sírias e mesopotâmicas —, ignorando-se se os messalianos foram condenados em Edessa, o centro permanente do cristianismo sírio; a categoria de heresia revela-se, assim, instrumento inútil para a pesquisa histórica, e só abstraindo dela se pode ver o que Makarius realmente foi: a testemunha impressionante de uma espiritualidade enraizada na Síria por séculos e desenvolvida de forma autônoma à margem do catolicismo.
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