MARGERY KEMPE
ASCETISMO E MISTICISMO — Margery Kempe (1373-1438)
Segundo Andrea Jenelle Dickens, The Female Mystic, Margery, que certa vez visitou Julian de Norwich buscando conselho espiritual, vivia uma vida de peregrinação, perturbou companheiros com seus arroubos violentos, com choros e gritos, desafiou as autoridades da igreja com seu desejo de vestir uma vestimenta penitencial, e foi acusada várias vezes de ser uma herege. Margery pode ser uma figura difícil de apreciar, porque muitos de seus comportamentos espirituais pode parecer melodramático, insincero ou falso. Frequentemente isto levou escolásticos a vê-la como auto confessa masoquista, geralmente histérica, ou minimamente, mentalmente instável. No entanto, esta não é a única leitura desta mística; ao invés, Dickens pensa que no livro de Margery tanto as tradições devocionais afetiva e meditativa combinam para ensinar as habilidades do mundo material para trazer o homem para Deus. Margery é longe de ser abstrata, especulativa ou alienada, mas ela é também longe de ser histérica, masoquista, oca ou meramente afetiva. O Livro de Margery Kempe documenta como ela trouxe tradição meditativa afetiva, metáforas teológica nupciais e outras práticas devocionais populares, tal como peregrinação, a se juntar com sua espiritualidade. No tempo de Margery, a vocação era sinônimo de posição social herdada e ocupação. O meio social de uma mulher medieval tendia a ser altamente regulado; assim, Margery ela mesma começa com seu papel herdado de esposa e mãe, mas eventualmente descobre um caminho para adicionar a estes papeis os papeis de peregrina e mística.
MARGERY KEMPE. Book of Margery Kempe Illustrated. Hastings: Delphi Publishing Ltd, 2024.
Margery Kempe
- Margery Kempe, considerada por alguns a autora da primeira autobiografia em inglês, nasceu por volta de 1373 em Bishop's Lynn, Norfolk, filha de um comerciante que foi prefeito da cidade e membro do Parlamento.
- Sem registros de educação formal, Kempe provavelmente não sabia ler, embora houvesse memorizado diversos textos religiosos que um sacerdote lhe lia em inglês; casou-se por volta dos vinte anos com John Kempe e teve ao menos quatorze filhos.
- Católica ortodoxa, Kempe acreditava ter sido chamada a uma intimidade maior com Cristo por meio de visões; após o nascimento do primeiro filho, atravessou uma crise de quase oito meses que pode ter sido um episódio de psicose pós-parto.
- Durante a doença, teve visões de demônios e do próprio Cristo, e afirmou ter conversado com Jesus, Maria e Deus, chegando a se ver como participante ativa no nascimento e na crucificação de Cristo; essas experiências afetavam seus sentidos físicos.
- Sem jamais ingressar em uma ordem religiosa, Kempe mantinha uma vida de devoção pública marcada por prantos e lamentos em voz alta, comportamento que assustava e irritava clérigos e leigos, chegando a ser presa e ameaçada de estupro.
- Na década de 1420, ditou seu livro, no qual descreveu suas visões, experiências místicas, tentações, viagens e julgamentos por heresia.
- Julgada por heresia em várias ocasiões sem jamais ser condenada, Kempe enfrentou acusações relacionadas à sua pregação pública, ao uso de branco como mulher casada e à crença em sua capacidade de interceder por almas e discernir a danação de pessoas.
- Ao longo da vida, visitou santuários em toda a Inglaterra e no exterior, incluindo a Terra Santa, Assis, Roma e Santiago; em 1413 consultou Juliana de Norwich, que confirmou a origem divina de suas visões, e após a morte do marido e do filho acompanhou a nora à Prússia, passando por Danzig e Aachen antes de retornar à Abadia de Syon.
- Em 1438, ano de conclusão do livro, uma provável Margery Kempe foi admitida na Trinity Guild de Lynn, associação mercantil de autoridade política preservada e sinônimo do grupo governante da cidade; a data e o local de sua morte são desconhecidos.
- Quase tudo o que se sabe de sua vida provém de sua autobiografia espiritual; na obra, descreve como o primeiro escriba, possivelmente seu filho mais velho, morreu antes de concluir o trabalho e deixou um texto ilegível, sendo a reescrita retomada por um sacerdote local a partir de 23 de julho de 1436, com uma seção adicional iniciada em 28 de abril de 1438.
- O Livro de Margery Kempe divide-se em duas partes: a primeira segue o formato de textos devocionais de mulheres místicas e narra a jornada espiritual de Kempe desde o parto e a loucura até suas primeiras visões e viagens; a segunda se assemelha a um diário de viagem, descrevendo a morte do marido e do filho e o retorno à Inglaterra.
- O manuscrito foi copiado provavelmente antes de 1450 pelo monge de Norwich Richard Salthouse, contém anotações de quatro mãos e inclui marcas de monges da prioria cartusiana de Mount Grace, em Yorkshire, além de uma receita acrescentada por leitor tardio que evidencia sua circulação.
- O livro ficou essencialmente perdido por séculos, sendo conhecido apenas por excertos publicados por volta de 1501 e em 1521, até que em 1934 o único manuscrito sobrevivente foi descoberto na biblioteca particular da família Butler-Bowdon e analisado pela medievalista Hope Emily Allen.
- A importância de Kempe reside sobretudo no caráter autobiográfico da obra, que oferece uma janela privilegiada para a vida de uma mulher da classe média na Idade Média; alguns estudiosos sugerem que o texto pode ter sido escrito como ficção para explorar a sociedade da época de forma crível, hipótese reforçada pelo fato de a autora referir-se a si mesma como esta criatura.
- O Livro de Margery Kempe apresenta o retrato singular de uma mulher de caráter notável, coragem extraordinária e crença piedosa, narrando com vivacidade e sem constrangimento a loucura após o parto, o fracasso de seu negócio de cervejaria, o chamado à vida espiritual, o voto de castidade e as peregrinações à Europa e à Terra Santa.
