LITURGIA
João de Kronstadt — Reflexões sobre a Liturgia da Igreja Ortodoxa
Excertos de seu livro Réflexions sur la Liturgie de l’Eglise Orthodoxe
A obra de Deus que se realiza na missa supera em grandeza todas as outras obras de Deus realizadas no mundo, e até mesmo a própria criação do universo. É, de fato, o culto celestial e divino na terra; assistir a ela com piedosa atenção é bem-aventurança, paz e alegria para a alma! Esse ato litúrgico alimenta o espírito, alegra o coração, traz lágrimas aos olhos — lágrimas de ternura, de veneração, de gratidão. Ele nos leva a esforços generosos de caridade, misericórdia e compaixão para com todos os homens. Une todos os fiéis em uma união fraterna.
Ele une o céu à terra e associa os anjos aos homens. Ele nos alegra a todos com a esperança da ressurreição e da imortalidade…
Que ninguém se escandalize com a uniformidade do serviço divino, ou seja, da missa, onde “é sempre a mesma coisa”. Que cada cristão ortodoxo receba com os ouvidos e com o coração e aprofunde o conteúdo da missa. Que ele perceba a altura, a profundidade, a largura e a extensão do amor divino, manifestado ao mundo pecador que está perecendo em seus pecados. Que ele reflita sobre o sacrifício infinitamente grande, oferecido por Jesus Cristo em sua Pessoa ao Pai celestial pelos pecados do mundo. Que ele sinta o quanto Deus amou o mundo, dando-lhe seu Filho único. Que ele admire o milagre da Encarnação do Filho de Deus e da nossa divinização, assegurada por Ele. Que ele permaneça eternamente grato ao Senhor e que responda ao amor com um amor ardente e forte, como fizeram os apóstolos, os santos bispos, os mártires, os piedosos ascetas…
Todos nós amamos a vida. Mas não há em nós vida verdadeira sem a fonte da vida, Jesus Cristo. A missa é o tesouro, a fonte da vida verdadeira, pois nela o próprio Senhor, o senhor da vida, se entrega como alimento e bebida àqueles que acreditam nele. Ele concede vida em abundância àqueles que comungam, como ele mesmo disse. …Mas o responsável pelo pecado e pela morte, o diabo, procura, por meio de todo tipo de artimanhas infernais, desviar os cristãos do cálice da vida. Ele lhes inspira dúvidas sobre a fé, frieza e indiferença em relação a esse mistério, o maior da fé cristã, porque quer manter os homens nas amarras do pecado e da morte. É preciso reavivar constantemente no coração a fé em Jesus Cristo, em seu amor infinito; meditar com mais frequência sobre os atos admiráveis de sua Providência; ler com mais frequência o santo Evangelho, aprofundando o que se lê; entrar em si mesmo, perceber a própria indigência espiritual, a impiedade, a cegueira e a miséria moral. É preciso ter fome e sede da verdade e da justiça (praoda), ou seja, da correção e da retidão; sem isso, não se pode comungar sinceramente, com grande amor e de maneira frutífera. É preciso libertar-se dos apegos aos prazeres terrenos, que constituem um grande obstáculo ao amor celestial…
O que há de mais importante, de mais grandioso, de mais prodigioso (causa de milagres), de mais luminoso, de mais divino e de mais comovente do que a missa? Mas muitos cristãos estão mortos e surdos diante dela; assistem-na em pé, sem vontade, friamente, deixando seus pensamentos e seu olhar vagarem. De onde vem isso? Da falta de fé neste sacramento e, sobretudo, da falta de meditação sobre sua grandeza, sua santidade, sua força vivificante e sobre seus frutos — a regeneração espiritual e a vida eterna…
É na missa que está nossa força contra inimigos poderosos, nossa vitória sobre eles, que muitas vezes se tornam nossos senhores por meio de nossas paixões. A missa é nossa purificação, a luz de nossas almas, nosso santuário, nossa glória, nossa esperança, nosso fortalecimento…
Se o mundo não tivesse o Corpo puríssimo e o Sangue do Senhor, não teria o bem principal, o bem da vida verdadeira; teria apenas uma aparência de vida; não teria o dom da santificação; em suma, não teria o conjunto de todos os bens. É esse fermento vivificante que a mulher da parábola, a Igreja, mistura em três medidas de farinha, para fazer crescer toda a massa (Mateus, XIII, 33). Sim, é o verdadeiro fermento da vida espiritual, da vida celestial e luminosa, espalhado pela humanidade.
A ideia da missa consiste nisto: que todos sejam um em Cristo. É preciso levar todos os homens no coração, é preciso rezar sinceramente por todos… A missa é um milagre contínuo. Devemos sempre assistir a ela com alegria e reverência, com amor a Deus e caridade mútua. Na missa, os espíritos celestiais sempre cumprem seu ministério.
Quem jamais compreenderá a grandeza da bênção que nos é concedida por Nosso Senhor Jesus Cristo no sacramento da Eucaristia e na comunhão? Nem mesmo um espírito angelical o compreenderá plenamente, pois essa graça é ilimitada e infinita, como o próprio Deus, como sua bondade, sua sabedoria e sua onipotência. Que amor por nós, pecadores, se manifesta todos os dias na missa! Como Deus está próximo de nós ali! Aqui, no altar, Ele está essencialmente presente todos os dias. Com toda a sua divindade e humanidade, Ele é oferecido aos fiéis e consumido por eles, ou levado pelo sacerdote às casas dos fiéis e dado aos doentes. Que admirável união, que penetração da divindade em nossa humanidade decaída, languida, culpada, mas não no pecado, que o fogo da graça consome! Que felicidade, que bem-aventurança para nossa natureza, que recebe em seu íntimo a divindade e a humanidade de Cristo Deus e se une a ele! Receber assim Cristo em nós mesmos com fé é nossa purificação, nossa santificação, nossa libertação dos pecados e dos inimigos, nossa renovação, nossa força, o fortalecimento de nosso coração, nossa paz, nossa liberdade, nossa glória, vida e imortalidade…
Nas palavras: “Tomai, comei, isto é o meu Corpo; bebei todos, isto é o meu Sangue”, há um abismo de amor de Deus pela humanidade…
A missa, eis um espetáculo divino! Por toda parte vemos a caridade infinita, a sabedoria, a onipotência, a verdade, a santidade, e temos a sensação de uma infinita doçura, beleza, luz e bem-aventurança. Pois, para os homens sábios e piedosos, neste sacramento estão contidas a imensa doçura de Deus, sua beleza, sua luz, sua bem-aventurança, sua santidade, sua verdade eterna, sua onipotência, sua graça e sua sabedoria. Ao meditar sobre este sacramento do amor infinito de Deus pela humanidade em vias de perecer, a mente não se sacia o suficiente dessa visão doce e luminosa, e o coração se enche de admiração e felicidade…
Frequentem a igreja, acompanhem com profunda atenção o culto, os cânticos, os cânones, as lições, e vocês se acostumarão com o culto, com a igreja, e passarão a amá-la. Verão claramente quão abundantes são nela os sinais de vida, de paz e de consolo, quanta luz, força, santidade e verdade-justiça nela há. Ao entrar na igreja durante o culto, você entra como que em outro mundo; o tempo parece desaparecer para você, e a eternidade parece começar; muitas vezes você ouve os louvores ao Eterno, a Deus, e em cada uma de suas orações recitadas em voz baixa o padre dá glória ao Eterno.
O culto divino da missa e da comunhão é a fonte sobrenatural, por meio da qual a graça celestial derrama em abundância seus dons sobre aqueles que a guardam sinceramente: a misericórdia, a paz, o consolo, a purificação, a santificação, a cura, a renovação e, o que coroa as generosidades divinas, o dom da deificação. O templo e o culto divino são a personificação, a realização de todo o cristianismo. Aqui, por meio de palavras, pessoas e ações, é anunciada toda a economia da nossa salvação, toda a história sagrada e a história da Igreja, toda a bondade, sabedoria, fidelidade e imutabilidade de Deus, de suas obras e de suas promessas, sua verdade, justiça e santidade, seu poder eterno. É uma harmonia admirável, uma sequência lógica maravilhosa tanto no todo quanto nas partes. É a verdadeira sabedoria divina, acessível aos corações simples, crentes e amorosos, mas oculta àqueles que se dizem sábios.
As orações da Santa Igreja durante o culto são admiráveis. Foram compostas com sabedoria. Todas estão repletas de amor a Deus e à humanidade, à humanidade inteira. Elas respiram o espírito de união e de comunicação mútua. Essas orações são um belíssimo monumento à unanimidade e à caridade da antiga Igreja de Cristo, uma e indivisível. O próprio Espírito Santo inspirou santamente os apóstolos e os pastores da Igreja a criar essa admirável ordenação no culto divino, a transmitir-lhe esse espírito de caridade fraterna comum, de paz e de santidade.
Tudo na terra é imagem e sombra do que se realiza no céu. Assim, a forma litúrgica do culto divino na terra é uma imagem do culto divino no céu; a beleza das igrejas é uma imagem da beleza do templo celestial; a luz, uma imagem da glória inacessível de Deus no céu; o aroma agradável do incenso, uma imagem do perfume inefável da santidade; o canto daqui em baixo, um eco do canto inefável das louvores angelicais lá em cima.
Ó figura da cruz, desejável e admirável acima de tudo! Quem te santificou e te adornou tão bem, quem te tornou santa, belíssima e vivificante? O próprio Deus encarnado, quando se estendeu sobre ti! Desde então, tua imagem é maravilhosa, santa, salutar, criadora de vida, desejável. Antes disso, o que era a cruz? A madeira ignominiosa de uma morte desonrosa, da morte mais dolorosa. Glória à tua cruz, ó Deus, glória à força que lhe conferiste pela vitória sobre os inimigos da nossa salvação.
Todos os membros de Cristo são iguais diante de Deus: czar e soldado, rico e pobre, o grande senhor e o homem do povo. Deus não olha para o rosto, mas para o coração: esse coração é um só, é o homem. O que podemos obter de Deus com nossas forças unidas? Tudo.
A Santíssima Mãe de Deus é a benevolência de Deus para com os mortais; ela é a santa ousadia dos mortais para com Deus. Ela é a porta aberta do paraíso.
O tempo da oração, por exemplo, o tempo da missa, é o tempo de Deus: deve pertencer inteiramente a Deus e à alma. Por isso, é um grande pecado encurtar esse tempo por consideração aos homens ou por vantagens temporais. Durante o culto divino, o celebrante deve estar consciente de sua elevada e celestial dignidade, como servo de Deus e ministro dos mistérios supra-celestiais. Ele não deve rebaixar-se servilmente diante dos homens, por vaidade ou por interesses deste mundo; não deve temer o rosto do homem, essa erva hoje verdejante, amanhã murcha.
A forma exterior do culto público é uma conversa que expressa a comunicação mútua e a unanimidade do clero e dos leigos. Entre os primeiros cristãos, a multidão dos fiéis, pastores e ovelhas, tinha um só coração e uma só alma. Essa unanimidade se manifestava na vida — a caridade mútua, a comunhão de bens, os sofrimentos pela fé — assim como no culto divino.
Nosso ofício de sacerdote é um ofício celestial, o ofício da incorruptibilidade, da imortalidade, da vida eterna, da verdade e da justiça, do santuário. Por meio desse ofício, as almas humanas são regeneradas, purificadas, santificadas, renovadas, elevadas ao mais alto grau de perfeição possível ao homem com a ajuda de Deus, divinizadas. Que qualidades o sacerdote deve possuir! Como ele deve estar distante dos afetos terrenos, como deve ser celestial, manso, humilde, moderado, casto!
O apóstolo São Paulo prescreve que se façam orações por todos os homens. Trata-se de um mandamento inspirado; nele se baseia a ordenança das orações, das súplicas e das ações de graças da Igreja. Essas orações são muito sublimes. Elas ensinam continuamente a todos, não o egoísmo, mas a caridade universal. No mundo, só há egoísmo e mais egoísmo. Aqui, há comunhão, a eterna grandeza da oração e da caridade! Todos, do maior ao menor, podem alcançar, no tempo determinado, esse amor santo.
Querem ouvir o Espírito Santo orar por nós com gemidos inefáveis, para que todos nos corrijamos e alcancemos a salvação? Vão todos os dias à igreja, acompanhem a leitura e o canto sagrado, sobretudo as antífonas e os hinos de todo o ano, e estarão na presença dessa admirável e muito amorosa intercessão do Paráclito; ficarão cheios de uma esperança imensa na misericórdia de Deus e de um consolo inexprimível. Em todas as lições e todos os cânticos, que sabedoria divina, que calor, que ardor, que força, que pureza, que verdade e justiça divinas! Que coração de pedra não se comoveria com isso, que grande criminoso não se sentiria tocado e arrependido?
Que impureza pecaminosa não poderia ser purificada por essas súplicas penitenciais, tão sábias, tão ardentes? Pecadores, corram com mais frequência à igreja, como se fosse um hospital, e vocês serão curados, serão salvos!
Os santos Padres colocaram nessas orações toda a sua inteligência e todo o seu coração, pela virtude do Espírito Santo. Por que, tendo essas orações nos lábios, oramos sem sinceridade e sem compreensão? E como são belas essas orações! Elas retratam de maneira tão fiel toda a vida interior do homem, todos os seus estados de espírito, toda a sua culpa, sua corrupção, sua fraqueza, sua incapacidade, quando ele não se volta sinceramente para Deus! Elas nos ensinam, de maneira admirável, como nos arrepender, como agradecer a Deus por suas inúmeras bênçãos, dar glória às suas perfeições divinas e pedir socorro em nossas diversas necessidades. Sigamos, portanto, essas orações com sinceridade…
A oração é o maior e inestimável dom do Criador ao homem, sua criatura; graças a ela, este pode conversar com seu Criador como uma criança com seu pai.
