TRATADO
Jacopone da Todi
ZOLLA, Elémire. I mistici dell’Occidente. 1. In: Gli Adelphi. Nuova edizione riveduta, quarto edizione ed. Milano: Adelphi edizioni, 2013.
dal TRATTATO
[13] Quando a alma está assim tomada e repleta do amor divino, o que acontece imediatamente quando Deus a vê vazia de todo outro amor, mesmo de si mesma, então começa a ser iluminada pela própria verdade, que é Deus. [14] E nessa verdade vê a verdade de todas as criaturas e reconhece as coisas vis como vis e as preciosas como preciosas. [15] E nessa luz vê a vileza de todas as criaturas e coisas terrenas e o dano que pode receber de amá-las, de modo que não se deixa enganar por elas, ainda que as veja ir atrás delas; do mesmo modo que, se alguém visse com certeza o veneno no alimento que lhe é posto diante, ainda que muitos não comessem e lhe dissessem: «Come, que o alimento é bom», não comeria, mas diria: «Estou certo de que há veneno no alimento, por isso não como. Vós sois tolos, que comeis, porque vos procurais a morte». [16] Similarmente, se alguém visse uma torre próxima a ruir, por mais que pudessem dizer-lhe: «Entra nela e habita com confiança, porque nós também fazemos o mesmo», não entraria, mas ridicularizaria aqueles. [17] Diretamente, pois, desse lume, não só não se amam as coisas terrenas, mas até mesmo se as despreza e as odeia, como aquelas que trazem morte: de fato, envenenando a alma e sendo seguramente destinadas a ruir, arrastam consigo a alma que se apega a elas numa mesma ruína. [18] E se porventura parece que se apresente alguma vantagem temporal, por esse lume todavia se é ensinado a desprezá-la, porque tende a maiores ganhos; do mesmo modo que, se alguém dissesse ao imperador: «Quero vender-vos um pedaço de ótima terra perto de Assis por sessenta liras, embora valha bem setenta, de modo que ganhareis bem dez liras», certamente ele o desprezaria e se recusaria até a ouvi-lo, porque está atento à aquisição de cidades e castelos e a outros grandes feitos; assim a alma, atenta aos ganhos celestiais, se recusaria a atender às vantagens temporais e terrenas.
[19] Nessa luz é dada à alma também a perfeição de todas as virtudes. De fato, o que é a humildade, a não ser luz de verdade, a caridade, a paciência, a obediência, todas as outras virtudes, senão luz de verdade? [20] Vem então a alma dirigida por essa luz a discernir e amar a força e a eficácia das próprias virtudes e a abraçar o seu exercício e desse modo a aprendê-las e possuí-las.
[21] E ao contrário, nessa mesma luz aborrece e detesta todos os vícios; de modo que, se diante dele se pusessem as cem mais belas mulheres do mundo, as teria a tédio, iluminado por essa luz, e não se moveria nem um pouco à luxúria. [22] Também a gula não só não o seguiria, mas até com pena e tédio iria comer. [23] Assim a alma aborrece todos os vícios, considerada e reconhecida a sua malícia por meio dessa luz.
[24] É geralmente a alma por essa luz dirigida nas coisas singulares particulares a fazer, porque vem iluminada por aquele de quem está plena a considerar em todas as coisas o honra de Deus e a vontade dele. [25] De fato, só a ele elege, só a ele preelige, onde atende à honra e à vontade sua em todas as coisas. [26] E isso faz no exemplo de Cristo, que na oração que fez no tempo da paixão, observou essas duas coisas: de fato, inclinando-se em oração como um qualquer homenzinho, honrou o Pai, e dizendo: «Não a minha vontade, mas a tua seja feita», pediu a sua vontade. [27] Assim a alma, mediante essa luz, segue o exemplo de Cristo. [28] E se vê que o que acontece é conforme à honra de Deus e à vontade dele, o executa e o cumpre; se vê em vez que isso é contra alguma das coisas ditas, o despreza e não o faria por nenhuma causa ou pessoa, de modo que também evita as palavras ociosas e os maus pensamentos e todas as coisas viciosas, evidentemente porque por essa luz de verdade vem mais plenamente ensinada que essas coisas são contra a honra de Deus e a vontade sua.
[29] E quando a alma está avezada e fortalecida nessa via por esse lume pelas boas ocupações, quando certo se apresente uma prelazia ou o cuidado de pregar ou de atender a outra utilidade do próximo. [30] De fato, como alguém, tendo diante dos olhos um muro um tanto distante, vê o próprio muro e todas as coisas intermediárias com o mesmo olhar, assim a alma iluminada por esse lume vê Deus e todas as coisas a fazer, nem pelas ocupações preditas é desviada da via pela qual se pôs, ainda que a contemplação venha de vez em quando interrompida.
[31] Nessa luz a alma conhece também a verdade da sua vileza; e quanto mais se une a Deus, tanto mais se estima vil, porque se vê mais claramente. [32] E porque não reserva nada a si e não se apropria de nada do que recebe de Deus ou faz por seu dom, mas tudo atribui a ele e reconhece dele, como recebido da sua benignidade sem méritos, por isso não se exalta, nem por sua ingratidão dela é privada. [33] Antes Deus, vendo que não lhe subtrai nada, mas lhe devolve tudo, abundantemente repõe nela os seus tesouros e lhe concede mais do que pede ou deseja.
[34] E todas essas coisas consegue a alma por essa expropriação, porque, postas em fuga as más paixões e ambições e afetos desordenados e afastados todos os impedimentos criados que fazem trevas à alma, vem à tona a luz divina e a enche e ilumina e ensina como se disse.
[35] Não só por essa expropriação a alma consegue a dita graça do lume de verdade, mas também a graça da paz e da estabilidade, e então verdadeiramente Deus habita nela, porque não está jamais senão em morada de paz. [36] Onde ela em todas as tribulações, males, ofensas e dificuldades conserva a tranquilidade e a paciência e é estável e forte; [37] seja porque se entregou completamente a Deus e se conforma à vontade dele; e por isso, considerando que essas coisas acontecem por vontade de Deus, concorda com ele e não só com paciência, mas até voluntariamente suporta tudo; [38] seja também porque se lançou totalmente em Deus e aí mora: onde as palavras injuriosas e os males temporais e todas as outras coisas desse gênero e até o próprio mundo não chegam a ela, porque não podem subir a Deus, onde a alma repôs a sua herança; e muito menos a tocam, porque não está misturada a eles, nem a encontram onde costumava estar; [39] do mesmo modo que, se alguém, querendo encontrar-me, procurasse em todos os lugares onde costumo morar e ainda por todo o mundo, fora do lugar onde estou, não poderia encontrar-me; [40] e similarmente, se a casa de alguém pegasse fogo e ele estivesse presente, a defenderia e se oporia ao fogo; se em vez disso estivesse ausente, não a defenderia, nem dela se cuidaria; [41] assim a alma, que se lançou plenamente em Deus, está ausente de todas as coisas mundanas e não cuida de nada do que aconteça, por quanto pareça danoso ou nocivo temporalmente; [42] seja também, em terceiro lugar, porque é tornada vigorosa e forte pelo exemplo de Cristo, que habitou nela, que suportou por ela tão grandes e tão graves penas: onde mais fortemente arde de imitá-lo nas tribulações e goza delas e de quase nada se perturba.
[43] Consegue também a alma por isso a estabilidade dos sentidos do corpo, porque, desde quando por amor de Cristo afastou todas as criaturas, não vaga nelas com os sentidos ilicitamente, mas os regula e torna estáveis, recomendando-os ao Senhor com confiança e dizendo, quando parte da oração: «Senhor, mantém-me ligado a ti e regula os meus sentidos e não permitas que eu vague fora de ti».
[44] E geralmente consegue a alma por essa expropriação a tal ponto o domínio do seu corpo, e tanta paz e acordo há entre eles, que não discordam em nada. [45] E voluntariamente o corpo se submete à alma e a segue em todas as coisas que quer operar, tanto na humilhação, aspereza, abstinência e vigílias, quanto também em todas as fadigas e moléstias. [46] De fato o corpo, quando se recorda das angústias e das fadigas graves que costumava sofrer pela impaciência, a ira, a inveja, a ambição e os embaraços das coisas temporais, e agora se vê estabelecido em tão grande paz, voluntariamente suporta todas as fadigas da penitência para evitar aquelas fadigas infrutíferas, danosas e mais aflitivas. [47] Do mesmo modo que, se alguém soubesse com certeza que por cada cem dinheiros lhe seriam dados mil, não lhe seria grave dar cem, antes voluntariamente daria duzentos; [48] assim o corpo, como aquele que tira grande ganho, suporta alegremente essas fadigas, e voluntariamente segue a alma, antes se esforça de precedê-la e antecipá-la.
[49] Portanto é utilíssimo e soberanamente salutar que rejeitemos todos os impedimentos e nos expropriademos e morramos a todas as coisas criadas e totalmente desesperemos de nós e de todas as criaturas e nos lançamos com confiança em Deus, que benignamente nos acolherá, amorosamente nos guiará e nos conduzirá a fim bem-aventurado. [50] Se de fato vemos que os mercadores por ganhos temporais se arriscam e se lançam a empresas desesperadas, expondo-se aos inumeráveis perigos das vias e do mar, e os soldados pela honra mundana fazem o mesmo, expondo-se às espadas e às guerras e à morte, e todavia frequentemente nem aqueles conseguem o ganho, nem estes a honra como desejam, e se a conseguem, são aqueles que a perderão, quanto mais nós por ganho e honra espiritual e por prêmios verdadeiros e certos e destinados a durar em perpétuo devemos fazer isso, tanto mais que não nos expomos a nenhum perigo. [51] Antes com certeza, se alguém fizesse a dita expropriação bem e com fé e pureza, em breve tempo e dentro de poucos dias começaria a sentir do que se disse e a saborear a doçura divina. [52] E perseverando na mesma expropriação, provaria por experimento certíssimo que todas as coisas ditas antes são verdadeiras, de modo que, partindo da oração, com vivacidade e amor abraçaria as sós coisas divinas, olhando esse mundo com uma tal ansiedade e estupor, como se estivesse atônito e alienado ou tornado um outro; e, quase como se viesse de um outro mundo, desprezando totalmente esse mundo, sofreria a custo e com fadiga de vê-lo, por ter afastado dele o ânimo e pela alegríssima união com Deus.
