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ISAQUE o Sírio — Tratados Místicos
Traduzidos para o inglês por A. J. Wensinck, publicada em 1923
XXX SOBRE O PODER E A AÇÃO MALÉFICA DO PECADO, E SOBRE AQUELES EM QUEM ELE SE MANTÉM E AQUELES EM QUEM É ANIQUILADO
Um homem não se liberta das seduções do pecado em seu coração até que odeie, do fundo do coração e com sinceridade, a causa do pecado. Isso dá origem à veemência da luta que se opõe ao homem em sua essência e na qual sua liberdade se manifesta por meio da pureza de seu amor pelas virtudes.
Esse é o poder chamado sedução, cujo aroma derrota a alma fraca devido à sua poderosa atração. Este é o forte poder do pecado, pelo qual ele perturba a serenidade dos castos e domina as emoções puras por meio de coisas cujo conhecimento eles nunca experimentaram. Aqui temos que demonstrar nossa resistência, meus amados.
Este é o tempo do martírio invisível, no qual se diz que a ordem dos solitários se destaca em todos os momentos. Pelo choque dessa guerra, a mente do firme fica perturbada e abalada, se não estiver extremamente vigilante. Nosso Senhor, que possuis poder todo-poderoso, fonte de todo auxílio, sustenta, nestes tempos de martírio, as almas que alegremente se desposaram contigo, noivo celestial, e que te deram a promessa de santidade, com total pureza de sentimentos, sem hesitação. Enche-as com a força que subjuga a resistência das fortalezas e das alturas que se erguem contra a santidade, para que não sejam afastadas do objetivo que se propuseram pela insuportável pressão deste tempo em que a luta sangrenta se enfurece.
Nem sempre essa severa contenda ocorre na luta pela castidade. Pode haver uma trégua para que uma prova seja aplicada. Ai do fraco que é submetido à prova nessa contenda decisiva. Ela possui grande força e mantém seu poder habitual contra aqueles que se entregaram totalmente, mesmo que apenas uma vez, à derrota, ao submeterem suas deliberações a ela.
Estejam atentos contra a ociosidade, meus amados; nela se esconde a morte velada. Sem ela, é impossível que o solitário caia nas mãos daqueles que desejam cativá-lo. Não que Deus vá nos julgar naquele dia com base nos Salmos que recitamos ou se, ocasionalmente, passamos os momentos de culto na ociosidade; mas, ao negligenciá-los, os demônios ganham acesso. E quando encontram uma oportunidade de entrar e fecham nossos quartos, realizam em nós, tirânicamente, coisas que necessariamente levarão seus autores ao julgamento divino, tendo em vista o severo castigo que lhes está reservado. Assim, tornamo-nos escravos por negligência em pequenas questões que os prudentes tratam com esmero, por amor a Cristo. Como já foi dito: quem não submete sua vontade a Deus, torna-se escravo de seu inimigo. Devemos, portanto, considerar como muralhas contra aqueles que desejam nos cativar aquelas coisas que são consideradas de natureza humilde e que são realizadas na cela — coisas que, por aqueles que mantêm as normas rigorosas da Igreja, foram estabelecidas com prudência e em espírito de revelação, para a preservação de nossa vida; cuja negligência é considerada insignificante pelos imprudentes, mas cujo dano, no entanto, eles não levam em conta. O início e o meio de seu caminho são a liberdade desenfreada, que é a mãe dos erros. Preocupar-se com o cuidado das pequenas coisas é melhor do que dar oportunidade para o pecado por negligência em relação a elas. Essa é a liberdade na hora errada; cujo fim é a escravidão opressiva.
Enquanto teus sentidos estiverem sensíveis ao choque de cada acidente, tua alma deve ser considerada morta. Pois, nesse caso, as chamas do pecado nunca se afastarão de teus membros, quaisquer que sejam teus estados, e nenhuma paz poderá se estabelecer em tua alma. Se algum dos solitários prometer em seu coração estar vigilante em tal estado, ele não deseja estar ciente do castigo. Quando um homem engana seu companheiro, ele merece a maldição prevista pela lei. Quando, porém, um homem engana a si mesmo, ele não merece tais castigos; pois, estando consciente, ele se tornou inconsciente, porque lhe é exigido que erradique a causa de seu coração. Mas isso é difícil aos seus olhos; e, por essa razão, embora consciente, ele deseja estar inconsciente. Oh, quão doce é a causa dos afetos! Ele os cortará às vezes e se alegrará em afastá-los. Muitas vezes se regozija por eles terem sido apaziguados; para erradicar sua causa, porém, não é nossa vontade, e ficamos angustiados pelos afetos, embora gostemos que suas causas sejam fortes em nós.
Não desejamos os pecados; recebemos, porém, com prazer seus motivadores; assim, as razões secundárias tornam-se uma causa poderosa das primárias. Pois aquele que deseja as causas dos afetos está sujeito a elas, embora não por sua vontade.
Quem odeia seus pecados, abstém-se deles. Quem confessa suas faltas, recebe perdão. Não há como abster-se dos pecados habituais sem adquirir ódio, nem receber perdão sem confessar as faltas. Esta última é acompanhada por verdadeira humildade; a primeira, por pesar, por meio da vergonha que surge no coração. Enquanto não tivermos avançado até o ponto de odiar as coisas repreensíveis, não é possível perceber o odor fétido que elas espalham quando cometidas, nem seu cheiro repugnante, já que as carregamos, como fazemos, em nós mesmos. Enquanto não tiveres rejeitado o mal, não saberás que vergonha irás alimentar nem que castigo surgirá dela. Se vires nos outros aquilo de que és acusado, então conhecerás a vergonha com que estás revestido. Afasta-te do mal, e então saberás. Pois inalas o odor fétido como um perfume doce e (consideras) a nudez da tua vergonha como um manto glorioso.
Abençoado é aquele que se afastou das trevas e se viu a si mesmo; enquanto estiver nelas, a visão e o discernimento são impossíveis. Abençoado é aquele que saiu da vertigem do seu vinho e viu nos outros a desvergonha de sua embriaguez; então compreenderá sua própria vergonha. Enquanto ele próprio estiver sob a embriaguez dos pecados, tudo o que faz é belo aos seus olhos. Quando a natureza se desvia de sua ordem, é tudo a mesma coisa: estar embriagado pelo vinho ou pelos desejos; ambos os estados afastam o homem do que é próprio; ambos despertam em seu portador, o corpo, o mesmo calor; são diferentes quanto à ideia, mas iguais na aparência; e iguais na loucura. Não há igualdade em suas ideias causais; mas, em seus portadores, não há diversidade.
Todo descanso é seguido por aflição; e toda aflição, por descanso. Se tudo neste mundo está sujeito à mudança, o homem, no entanto, a enfrenta com uma atitude de oposição, seja aqui, seja ali, seja no momento da partida. Isso se aplica especialmente ao descanso da lascívia ou à aflição que a precede, no caminho da santidade. Isso é administrado por Deus com compaixão, de modo que o homem tem de provar esse tormento, seja em seu caminho, seja no fim dele; então ele falece. E, devido à riqueza da compaixão de Deus, Ele (usa) isso como um meio de remuneração, como um depósito; de modo que o salário do bem não diminui o capital; mas o salário do mal, sim.
Como já foi dito: Aquele que é castigado aqui diminui (seus tormentos no) Inferno.
Cuidado com a liberdade que precede a submissão; cuidado com o consolo que precede a contenda. Cuidado com o conhecimento mais antigo do que o choque das tentações; cuidado com ele, mais do que com o amor que precede a realização do arrependimento.
Se todos nós somos pecadores, e ninguém está acima de sua experiência, então nenhuma das virtudes precede o arrependimento. Lembre-se de que todo deleite é secundário à aversão e à amargura.
Cuidado também com a alegria, à qual não se une a variação sem causa. No que diz respeito a todas as coisas concedidas do alto, você encontrará a causa de sua variação inatingível ao conhecimento. Tema aquilo que se reputa estar unido à igualdade; diz-se que se encontra fora do caminho que é trilhado. Aquele que sabe conduzir o navio do mundo com prudência conectou a variação a tudo o que Lhe pertence. Diferente disso é a semelhança.
A distração dos pensamentos está ligada ao repouso dos membros; o desânimo, ao trabalho desmedido; a distração, ao desânimo. Há diferentes tipos de distração. A primeira é acompanhada pela luta contra a devassidão; a segunda, pela inclinação a deixar a cela e a (habitar) diversos lugares. O trabalho moderado, aliado à constância, é inestimável; onde ele falha, há desejo exuberante; onde prevalece, há espaço para a angústia.
Suporta a loucura da natureza que prevalece em teu corpo, ó irmão, pois estás destinado a possuir aquela sabedoria que detém a coroa eterna do governo. Não te perturbes com a agitação do corpo, (a herança) de Adão, que está destinado, assim que for revestido daquela imagem celestial que é o rei da paz, a habitar naquele deleite cujo conhecimento dominaria, neste mundo, as mentes daqueles que estão revestidos de carne.
Não te perturbes por causa das variações selvagens da natureza. Pois a curta duração do trabalho causado por elas é, para o açougueiro, como um som da boca, que basta para fazê-las fugir. Mas se te rebaixares a ter relações com elas, tu as tornarás leões fortes.
Despreza os prazeres mesquinhos, para que não te tornes submetido à força de seu ardor³). Um pouco de paciência em relação às pequenas coisas afasta o perigo da aproximação das grandes. Não é possível vencer grandes males sem uma pequena vitória sobre os insignificantes.
Lembra-te do caminho que irás trilhar, ó irmão; ali não há mais vida sustentada por substâncias químicas que impulsionam a mortalidade; nem calor de temperamento que excite a natureza jovem pela sedução de seu prazer. Suporta o trabalho da luta na qual (Ele) te introduziu a fim de te pôr à prova; então receberás a coroa e serás aprovado; pois, após um pouco de tempo, terás descanso deste mundo. Pensa nesse descanso sem fim, nessa vida sem seduções, nesse estado de perfeita maturidade, nesse curso de vida sem abalos, nessa força irresistível do amor divino reinando sobre a natureza.
