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IGREJA
Hermas. Le Pasteur. Tr. Robert Joly. Paris:Cerf, 1958
- A Igreja, para Hermas, não é uma simples reunião de fiéis, mas uma realidade transcendente e metafísica, criada antes de todas as coisas e para a qual Deus criou tudo, ideia que possui antecedentes judaicos e que também aparece em outros escritos cristãos e gnósticos.
- A figura da Igreja aparece a Hermas três vezes, sob a forma de uma mulher idosa que progressivamente se rejuvenesc e se embeleza, sendo a velhice inicial interpretada como símbolo do relaxamento moral, que diminui à medida que os fiéis se santificam.
- A dimensão transcendente da Igreja como criação primeira e anterior a tudo coexiste com a sua realidade terrena e material, simbolizada pela torre em construção, um tema central que revela o pensamento profundo do autor.
- A comunidade cristã de Roma, no tempo de Hermas, era numerosa e populosa, composta por pessoas de diferentes classes sociais, com muitos pobres e também muitos ricos, sendo notável a ausência de admoestações específicas aos escravos, que provavelmente estavam diluídos na massa.
- O comportamento moral dos cristãos romanos apresentava um grande relaxamento, com a existência de lapsos, blasfemadores, hereges, ricos absorvidos pelos negócios, indecisos na fé, gnósticos, maledicentes, rancorosos, pecadores desesperados, hipócritas, diáconos prevaricadores e eclesiásticos ambiciosos, ao lado de fiéis fortes na fé, caritativos, pacíficos, diáconos íntegros, bispos hospitaleiros, mártires e inocentes.
- Hermas conhecia e combatia formas de gnosticismo presentes em Roma, especialmente a crença na perecibilidade da carne e na irrelevância dos pecados carnais, bem como as doutrinas que impediam a penitência, embora ele próprio compartilhe, sem consciência, algumas concepções gnósticas, como a criação da Igreja antes de todas as coisas.
- As alusões aos gnósticos no Pastor são vagas e pouco frequentes, o que torna temerário utilizá-las como critério cronológico preciso para datar a obra, como a ligação com a chegada de Valentino, Cerdon e Marcion a Roma.
- A época das quatro primeiras Visões parece ser marcada por uma perseguição recente e pela expectativa de uma nova e grande provação iminente, enquanto no Pastor propriamente dito desenvolve-se o tema do cristão como estrangeiro na terra, com sua cidade no céu.
- As reações dos cristãos à perseguição foram diversas, incluindo o martírio sem hesitação, o martírio após hesitação, a prisão e os açoites, a apostasia para evitar os suplícios e a traição de familiares, sendo que a menção à perseguição “pelo nome” indica a jurisdição semelhante à que aparece na correspondência de Plínio e Trajano.
- As funções eclesiásticas atestadas no Pastor incluem missionários itinerantes, doutores e profetas, sendo que Hermas dedica atenção especial à distinção entre o verdadeiro e o falso profeta, baseada em critérios morais, e ele não contesta a autoridade da hierarquia local, com a qual colabora plenamente.
- Hermas deplora as fraquezas do clero, incluindo a inveja entre os diáconos, a ambição dos presbíteros e a negligência dos bispos em sua missão de acolher os necessitados, mas ele não tem a intenção de atacar a instituição eclesiástica em si mesma, e sim de corrigir os seus membros.
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