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5 Sol

LECLERC, Eloi. Le cantique des créatures ou le symbole de l'union. Paris: Fayard, 1970

  1. A celebração de “messire irmão Sol” apresenta o sol como aquele que faz o dia, ilumina, é belo, radiante e simboliza o Altíssimo por sua grande esplendor.
  2. A filosofia de Platão aspira ao puro inteligível, mas permanece atravessada pela matéria, enquanto a matéria, sonhada e imaginada, pode tornar-se uma linguagem secreta do espírito.
  3. A imagem, o símbolo e o mito pertencem à substância da vida espiritual, pois mostram aquilo que permanece refratário ao conceito e tornam possível uma exploração simbólica das profundezas humanas.
  4. A primeira imagem do Cântico das Criaturas é a de “messire irmão Sol”, cuja importância é decisiva porque abre a louvação cósmica e coloca toda a obra sob seu signo.
  5. A interpretação das imagens do Cântico exige que cada realidade cósmica seja compreendida dentro da celebração poética que a envolve, sem reduzi-la a descrição empírica, alegoria conceitual ou simples revestimento sensível de uma ideia.
    • A imagem poética possui ser próprio, irredutível e criado em seu devaneio imaginário.
    • A compreensão da imagem exige penetrar seu núcleo onírico, onde ela fala para além do conceito.
    • O sentido pleno das imagens depende de sua relação com as demais imagens e de sua posição na estrutura total do poema.
  6. A celebração franciscana do sol exprime maravilhamento diante da coisa esplêndida, pois a alegria inocente e profunda de Francisco diante da luz transforma o cosmos numa epifania luminosa em que o sol desempenha papel primordial.
  7. O sol celebrado por Francisco é um jorro puro de luz que suscita reconhecimento visual, como fonte do dia e da iluminação, e desperta uma gratidão semelhante àquela que transforma a visão em louvor.
  8. Mesmo depois da grave doença nos olhos contraída no Oriente, Francisco conserva até o fim da vida o entusiasmo pelo brilho do sol, contemplando interiormente a imagem esplêndida com o mesmo espanto e a mesma gratidão.
  9. O “irmão Sol” não é apenas um objeto visível, mas uma imagem que sobe das profundezas da alma e dirige o olhar para outra coisa, cujo sentido exige entrar na intimidade do elemento e no coração onírico da imagem.
  10. O sol é saudado como fonte de luz, magnificência, esplendor e profusão, e seu título singular de “messire” lhe confere uma personalidade nobre, generosa e senhorial.
  11. A imagem do “Senhor Sol” reencontra inconscientemente uma estrutura arcaica, pois sua posição eminente no Cântico o torna imagem masculina dominante que abre a série cósmica e se contrapõe à imagem feminina e materna da Terra.
    • Os elementos do poema formam pares fraternos sucessivos: irmão Sol e irmã Lua, irmão Vento e irmã Água, irmão Fogo e irmã Terra.
    • O par cósmico Sol-Terra envolve toda a criação como estrutura imaginária fundamental.
    • Antigos cultos solares concebiam o Senhor Sol como esposo da Terra, de cuja união nasce o mundo.
  12. Francisco não retoma conscientemente crenças míticas solares, mas sua imagem do sol atualiza uma estrutura imaginativa arquetípica em que o sol aparece como fonte de luz, vida, fecundidade, paternidade, poder criador e generosidade.
  13. A imagem do sol deixa de falar apenas aos olhos e passa a falar à alma, pois sua esplendorosa generosidade simboliza a realidade soberana do Altíssimo e manifesta Aquele que a alma se julga indigna de nomear, mas ao qual não deixa de aspirar.
  14. A função hierofânica do sol pode surpreender cristãos modernos porque o sacramentalismo cósmico foi obscurecido pela centralidade de Cristo, mas os símbolos naturais conservam valor quando são cumpridos e transfigurados no mistério cristão.
  15. Em Francisco, Cristo permanece o grande sacramento de Deus e a revelação incomparável do amor do Pai, mas essa centralidade não destrói as significações pré-cristãs das coisas, antes as reforça e lhes acrescenta novo valor sagrado.
  16. A experiência franciscana do sol é cósmica e sagrada, mas sua profundidade não se separa da exploração do sagrado na própria alma, onde a fraternidade com o sol revela um parentesco íntimo entre a alma e sua totalidade luminosa.
  17. A relação íntima entre a alma do poeta e o elemento cósmico introduz no coração da imagem uma dinâmica própria, pois a comunhão imaginativa com o foco solar de luz recebe seus benefícios iluminadores e purificadores nas profundezas do ser.
  18. Aquele que imagina o sol em grande profundidade sente a coisa esplêndida circular em seu ser, iluminando e elevando a matéria obscura do desejo até uma região de pureza, doação e luz.
  19. O sol que Francisco descobre como irmão radia desde o centro da alma e profetiza sua plena realização, pois traduz a transfiguração das forças afetivas primeiras em forças de luz, dom e participação na mais alta visada espiritual.
  20. As religiões antigas conhecem múltiplas formas de parentesco entre o deus solar e certas pessoas eleitas, soberanos, heróis, iniciados e filósofos, sempre vinculadas à consciência de vocação, eleição ou destino superior.
  21. Francisco também possui consciência de uma vocação superior, mas ela assume nele forma própria, pois se declara arauto do grande Rei e pode olhar o astro esplêndido como irmão.
  22. A celebração franciscana do sol deve ser recolocada em seu contexto psicológico e espiritual, pois surge após uma crise profunda em que Francisco, esgotado por sofrimentos e tribulações, recebe a certeza interior de uma alegria prometida e de um tesouro precioso.
  23. As grandes imagens primitivas, como a terra transformada em ouro e o tesouro imenso, arrancam a consciência do isolamento e a recolocam em contato com uma plenitude de vida que a transcende.
  24. A composição da nova Lauda do Senhor nasce depois de uma experiência de plenitude e exaltação interior, na qual a luz do dia que se levanta brilha para Francisco como a própria manhã do mundo e lhe oferece a imagem fraterna e esplêndida do sol.
  25. A experiência de Francisco pode ser comparada à noite de Pascal, pois ambos são tomados por uma grande imagem hierofânica — fogo em Pascal, sol em Francisco — que irrompe das profundezas da alma e exprime uma plenitude interior.
  26. A imagem solar franciscana é sagrada, íntima e fraterna, pois simboliza a própria transfiguração da alma de Francisco no Reino, reconciliando forças inferiores e obscuras da vida e da matéria com a consciência de sua destinação mais alta.
  27. A imagem franciscana do sol não é aterradora nem esmagadora, pois sua força transcendente não provoca angústia, mas alegria fraterna e irradiação interior.
  28. A ambivalência mítica do sol, capaz de simbolizar vida e morte, geração e devoração, desaparece na imagem franciscana, onde o sol torna-se apenas jorro de luz e símbolo da riqueza total e transcendente da alma.
  29. O arquétipo que fala na imagem franciscana do sol é o si, entendido não como ego individual, mas como totalidade psíquica aberta à plenitude do ser e ligada ao centro profundo da personalidade.
  30. O sol é um símbolo unificador e iluminador do si, pois sua aparição na consciência indica maturação espiritual, nova iluminação e prefiguração de uma personalidade total e resplandecente.
  31. A imagem de “irmão Sol” simboliza o tesouro de glória prometido a Francisco, isto é, sua própria alma salva, integrada em todas as suas energias e marcada pela luz do Altíssimo.
  32. A interpretação psicológica do sol não reduz sua significação religiosa ou cósmica, pois as dimensões psíquica, cósmica e religiosa são inseparáveis na experiência do si como comunhão com o mundo, consigo mesmo e com Deus.
    • O si é uma fonte íntima de energia que supera infinitamente o indivíduo e o relaciona com a totalidade do ser.
    • A experiência do si é necessariamente cósmica, porque a pessoa só se sente em casa na comunhão fraterna com todas as criaturas.
    • A experiência do si é religiosa, porque a manifestação simbólica do si possui caráter teofânico.
    • O si não ocupa o lugar de Deus, mas pode tornar-se receptáculo da graça divina e lugar onde se manifesta a glória do Altíssimo.
  33. O sol simboliza ao mesmo tempo o si e o Altíssimo porque a imagem divina e o si são psicologicamente íntimos, e a exploração do sagrado no mundo corresponde à exploração do sagrado na alma.
  34. A aparição inicial da imagem solar no Cântico não contradiz a ideia de um processo de metamorfose da alma, pois Francisco compõe a obra no termo de um itinerário espiritual em que a totalidade já foi vivida e retomada como ponto de partida de nova ascensão.
  35. O Cântico do Sol merece seu nome porque todas as imagens cósmicas sucessivas remetem à realidade primeira da alma de Francisco em sua plenitude radiante, enquanto o “irmão Sol” permanece como profecia de um devir total orientado para o coração luminoso do Ser.
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