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3 Louvor
LECLERC, Eloi. Le cantique des créatures ou le symbole de l'union. Paris: Fayard, 1970
- A primeira estrofe do Cântico do Sol apresenta a louvação inacessível ao Altíssimo, todo-poderoso e bom Senhor, a quem pertencem louvor, glória, honra e bênção, embora nenhum ser humano seja digno de nomeá-lo.
- A primeira estrofe, inspirada numa doxologia do Apocalipse de São João, constitui um canto à transcendência divina inteiramente dominado pela imagem do Altíssimo.
- O Altíssimo, também chamado todo-poderoso e bom Senhor, aparece como o polo supremo da alma, mobilizando e orientando todas as energias de adoração e louvor para o Bem total e absoluto.
- Essa visão é familiar nos escritos de Francisco, especialmente nas Laudes recitadas nas horas canônicas, nas quais Deus é reconhecido como digno de honra, louvor e glória, soberano bem e único bem.
- A homenagem à transcendência divina manifesta o interesse fundamental da alma pelo Altíssimo, isto é, por aquele Bem único ao qual ela aspira e em direção ao qual deseja chegar.
- A primeira estrofe do Cântico do Sol traduz o movimento ascensional da alma de Francisco em direção ao objeto supremo de seu desejo, mas esse impulso encontra imediatamente a consciência profunda de que nenhum ser humano é digno de nomear o mistério de Deus.
- O verso final da primeira estrofe exprime uma limite absoluto, vivido e aceito, pois Deus permanece como mistério próprio que escapa ao ser humano e não pode ser situado no mesmo plano da existência humana.
- A alma experimenta uma espécie de flutuação entre céu e terra, pois não pode renunciar ao desejo de alcançar o Altíssimo, mas também não pode pretender realizá-lo por posse, nomeação ou apropriação.
- A aparente contradição entre o impulso da alma para Deus e a consciência da inacessibilidade divina desaparece quando se percebe que Francisco recusa a tentação espiritual de identificar-se com Deus ou apropriar-se do divino.
- A vontade de possuir ultrapassa os bens materiais e exteriores, alcançando também o desejo íntimo de apropriação espiritual, no qual a alma pode transformar a busca do Altíssimo em vontade luciferina de autocriar-se e ser como Deus.
- O pecado de origem é interpretado como apropriação da própria vontade e orgulho do bem realizado.
- A tentação de ser como Deus consiste em depender apenas de si mesmo e escapar da condição criatural.
- A apropriação do divino transforma a aspiração mais alta em projeção do próprio eu.
- A invocação de Nietzsche ao céu profundo revela a profundidade ambígua dessa tentação de altura.
- Francisco percebeu que até o ser humano religioso pode ser conduzido pela paixão de possuir o infinito sob a aparência do ideal mais puro e elevado.
- Nos escritos de Francisco, a luta contra a possessão espiritual aparece no apelo constante para que os irmãos não se apropriem do bem realizado por Deus neles, mas devolvam toda honra ao Altíssimo como fonte de tudo.
- Francisco conhecia a força inconsciente da vontade possessiva e procurou desmascará-la em seus irmãos, indicando como sinais seguros dela a perturbação, a irritação, a impaciência e a agressividade diante das contrariedades.
- A análise franciscana revela ao mesmo tempo grande acuidade espiritual e preocupação essencial com a purificação radical da aspiração humana ao divino, pois o Deus nomeado pela vontade de posse pode ser apenas outro nome do próprio desejo de poder.
- Francisco abriu-se a uma purificação cada vez mais profunda do desejo do divino, pois sua aspiração juvenil à grandeza e à glória foi transformada progressivamente numa relação com Deus cada vez menos possessiva.
- A pobreza espiritual de Francisco consistiu em renunciar não ao chamado do Altíssimo, mas à posse do Altíssimo, permanecendo disponível ao céu mais alto e reconhecendo-se indigno de nomear Deus.
- A primeira estrofe do Cântico do Sol concentra todo o desejo ascensional da alma em louvação única, mas esse desejo aparece purificado de ambiguidade e de vontade possessiva pela pobreza radical diante de Deus.
- A mais alta visada da alma e a consciência mais viva da inacessibilidade divina coexistem serenamente na primeira estrofe, pois o louvor ao Altíssimo nasce justamente da aceitação de que somente a ele pertencem louvor, glória e honra, enquanto nenhum ser humano é digno de nomeá-lo.
- O consentimento profundo à transcendência de Deus governa todo o Cântico do Sol e abre o caminho da louvação das criaturas como caminho de humildade e encarnação, à imitação do Filho altíssimo de Deus.
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