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4 Criaturas
LECLERC, Eloi. Le cantique des créatures ou le symbole de l'union. Paris: Fayard, 1970
- Após a doxologia inicial, o verso “Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas” introduz a louvação cósmica propriamente dita e desloca o cântico para a mediação das criaturas.
- O verso de transição marca uma virada decisiva, pois Francisco reconhece a indignidade humana de nomear o Altíssimo e passa a louvar o inacessível por meio das coisas deste mundo, fazendo das criaturas o caminho de sua louvação.
- A louvação do Altíssimo torna-se também louvação das criaturas, pois ao movimento ascensional da alma para Deus sucede um amplo movimento de abertura ao mundo criado.
- A expressão “com todas as tuas criaturas” significa que a alma aceita sua condição criatural diante do Altíssimo inacessível, sem ressentimento contra sua pobreza essencial e sem desprezo pela matéria.
- A expressão “com todas as tuas criaturas” indica também uma busca de mediação, pois Francisco espera que as criaturas o ajudem a louvar o Altíssimo, a dizer o Sagrado e a orientar-se para Deus.
- A atitude de Francisco diante das criaturas difere da relação moderna de conquista e posse, pois se desenvolve sob o signo da simpatia e não da dominação científica ou utilitária das coisas.
- A simpatia franciscana pelas criaturas não permanece superficial, mas penetra até o íntimo de cada ser, como se Francisco participasse antecipadamente da liberdade gloriosa dos filhos de Deus.
- A mediação procurada por Francisco nas criaturas exige uma comunhão profunda com elas, e a expressão “com todas as tuas criaturas” traduz uma fusão afetiva cósmica que Max Scheler considera original na história do cristianismo ocidental.
- A análise de Scheler enraíza a comunhão cósmica de Francisco num Eros purificado e cristianizado, no qual a emoção provençal se liberta do apego carnal, desprende-se da mulher como objeto primitivo e se estende a toda a natureza como chave psíquica de seus mistérios.
- A fusão afetiva cósmica de Francisco une Eros purificado e Ágape, revelando que as criaturas lhe falam pelas profundezas do ser e pelas forças primeiras da alma, de modo que a comunhão com as coisas se torna encontro com o Sagrado.
- A menor realidade cósmica, quando acolhida e amada em profundidade, torna-se realidade preciosa, fascinante e sagrada.
- A experiência franciscana realiza uma comunhão com Deus pelas próprias coisas, e não apesar delas.
- Francisco reconcilia em si o impulso sobrenatural do cristianismo e o entusiasmo cósmico, louvando o Altíssimo com todas as criaturas e em comunhão intensa com o mundo que o sustenta.
- A expressão “com todas as tuas criaturas” possui sentido psíquico próprio, pois as criaturas são linguagem do Sagrado porque colocam a alma em relação consigo mesma, com suas forças primeiras e com sua totalidade.
- A maneira como as criaturas são nomeadas, qualificadas e celebradas confirma que elas não designam apenas realidades cósmicas, mas funcionam como linguagem simbólica das energias inconscientes e como espelho das forças primeiras da alma.
- A louvação franciscana não é a de um puro espírito, mas a de uma alma que consente em suas origens profundas, em seus vínculos inferiores e em sua integração humilde à mais alta visada espiritual.
- A expressão final “com grande humildade” responde de modo antitético à expressão inicial “Altíssimo” e revela que a louvação se move entre os dois polos da altura divina e do enraizamento humilde.
- A humildade não significa ressentimento diante das origens profundas, mas distensão interior pela qual a alma se acolhe em totalidade, tanto em sua aspiração mais alta quanto em seus vínculos cósmicos e psíquicos mais inconscientes.
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