primal:evagrio:guillaumont:praktikos:pratica
Prática
ANTOINE E CLAIRE GUILLAUMONT
- A doutrina espiritual de Evágrio é composta por três partes – prática, física e teologia –, sendo que as duas últimas constituem a ciência gnóstica, de modo que o esquema tripartite pode ser reduzido a dois termos: o ensino prático e o ensino gnóstico.
- A prática é definida como o método espiritual que purifica a parte passional da alma, tendo como fim a imperturbabilidade, a qual, por sua vez, é condição para a ciência espiritual e via de acesso à gnóstica.
- A divisão bipartida entre ensino prático e ensino gnóstico também é tradicional, remontando a Aristóteles e aos peripatéticos, que dividiam a filosofia em teoria e prática.
- A análise da história do termo “prática” mostra que ele sofreu uma progressiva elevação na hierarquia das atividades e formas de vida, até adquirir o sentido técnico específico que Evágrio lhe conferiu.
- O par “prática-gnóstica” remonta a Platão, que dividia as ciências em prática (relativa às artes manuais) e gnóstica (relativa à atividade do espírito), oposição que se encontra também em Filon de Alexandria.
- Em Filon, a oposição entre prático e teórico aparece na distinção entre artes teóricas (como geometria e astronomia) e artes práticas (como arquitetura e artes manuais), bem como na oposição entre o “belo a ver” e o “bom a comer”.
- Nos filósofos gregos, o termo “prático” sempre se referiu a uma atividade de caráter profano – manual em Platão, ação em geral em Aristóteles, ação política e social nos estoicos –, sendo em Filon que, pela primeira vez, ele parece designar uma atividade especificamente moral e religiosa.
- Entre os estoicos, a atividade política faz parte das obrigações do sábio, que deve ser ao mesmo tempo ativo e contemplativo, ideal resumido no termo “lógico”.
- Em Filon, a “vida prática” designa a ascese praticada por Jacó antes de se tornar Israel, ou seja, aquele que vê Deus, e consiste em não negligenciar os assuntos humanos nem fugir do esforço em vista da verdade.
- No início do De vita contemplativa, Filon opõe aos essênios, que levam a “vida prática”, os terapeutas, que se dedicam à contemplação, estabelecendo uma gradação entre os dois gêneros de vida.
- Entre os autores cristãos, os usos do termo “prático” dividem-se em duas vertentes: uma que prolonga o sentido aristotélico-estoico, opondo vida ativa e contemplativa, e outra que desenvolve o sentido filoniano de etapa da vida espiritual.
- Orígenes, o primeiro a ver em Marta e Maria os símbolos da vida ativa e contemplativa, pensa que essas duas vidas, longe de se excluírem, devem estar unidas.
- Em Orígenes, encontra-se já a ideia de que o “prático” constitui uma primeira etapa no caminho da salvação, subordinada e ordenada ao “teórico”, sendo definido como retidão das ações que precede e condiciona a contemplação.
- Em outro texto de Orígenes, o vínculo entre o “prático”, definido como retidão das ações, e a contemplação, da qual é condição, é ainda mais fortemente marcado.
- Em Gregório de Nazianzo e Gregório de Nyssa, a oposição entre ação e contemplação é retomada, mas os termos recebem significação mais precisa com o surgimento da vida monástica.
- Gregório de Nazianzo, no Elogio de Basílio, chama de “filosofia prática” uma atividade que tende à aplicação e difusão das verdades cristãs, recebendo o termo uma promoção em relação ao uso dos filósofos.
- Gregório de Nazianzo descreve dois estados de vida que opõe frequentemente – a vida monástica e a vida dos clérigos “misturados” ao mundo – e louva Basílio por tê-los conciliado.
- Para Gregório de Nazianzo, os “práticos” são os clérigos e bispos que, em oposição aos monges solitários dedicados à contemplação, se põem a serviço dos outros e aceitam encargos, sentido fundamentalmente diverso do que Evágrio lhes dará.
- Gregório de Nazianzo, em seu Poema sobre si mesmo, apresenta a hesitação entre a vida prática (clerical) e a vida contemplativa (monástica), resolvendo-se por um gênero de vida misto.
- Evágrio, ao chamar de “prático” o monge anacoreta que vive na hesiquia e se retirou do mundo, renunciando inclusive a funções ativas na Igreja, confere ao termo uma significação paradoxal em relação aos usos anteriores.
- A prática evagriana, entendida como primeira das duas grandes etapas da vida espiritual cujo termo é a ciência de Deus, desenvolve uma tradição já atestada em Filon e sobretudo em Orígenes, mas inova ao dar-lhe um conteúdo essencialmente ascético e adaptado à vida anacorética, definindo-a em relação ao seu fim, a imperturbabilidade.
- A evolução do termo “prático” até Evágrio resume-se assim: Platão o aplicava à atividade manual; Aristóteles, à ação em geral; os estoicos, à atividade política e social; Gregório de Nazianzo, aos clérigos e bispos da vida ativa; Evágrio, ao monge anacoreta na hesiquia.
- Em Evágrio, a imperturbabilidade não é o fim último, mas apenas a condição para a ciência espiritual, sendo a verdadeira fim a ciência de Deus, à qual se acede pela contemplação espiritual das naturezas visíveis e invisíveis.
- O termo “prática” assume em Evágrio todos os caracteres de um termo técnico, sendo usado sobretudo como adjetivo feminino substantivado (ἡ πρακτική), em oposição a “gnóstico”, tanto para designar o ensino quanto a pessoa que o pratica.
- O termo “prático” é empregado por Evágrio também como adjetivo masculino substantivado (ὁ πρακτικός), formando par com “o gnóstico”, e frequentemente designa aquele que já alcançou a imperturbabilidade.
- O neutro plural substantivado (τὰ πρακτικά) aparece no prólogo do Traité pratique para designar o “ensino prático”, em oposição ao “ensino gnóstico”.
- O termo é usado também como adjetivo qualificativo em expressões como “vida prática”, “alma prática”, “homem prático” e “virtudes práticas”, e o superlativo πρακτικώτατος é aplicado a Macário, o Egípcio.
- O termo “prática”, no sentido técnico e muito particular que Evágrio lhe deu, é intraduzível, pois a tradução “ativo” ou “vida ativa” não convém, uma vez que é aplicado a monges que, por estado, são contemplativos.
- A dificuldade de tradução é atestada pelas hesitações dos tradutores antigos, especialmente os sírios, que oscilaram entre “obras da virtude”, “realização da virtude” e “prática dos mandamentos”, sem conseguir um equivalente satisfatório.
- Em que consiste a prática? Embora o tradutor sírio a tenha traduzido como “prática dos mandamentos”, Evágrio afirma que a prática se fundamenta na observância dos mandamentos, mas não se confunde com ela.
- A prática consiste, em certa medida, no exercício das virtudes, que Evágrio reduz a cinco virtudes fundamentais: fé, temor de Deus, abstinência, perseverança e esperança, as quais constituem uma cadeia que conduz à imperturbabilidade.
- No capítulo 81 do Traité pratique, o mesmo esquema das virtudes é dado em ordem inversa, correspondendo a prática mais especialmente a três dessas virtudes – abstinência, perseverança e esperança – que têm vínculo estreito com a hesiquia.
- Essa cadeia das virtudes, constante em Evágrio, aparece também em outros lugares de sua obra, como nas sentenças métricas “Aos monges”.
- A ideia de que as virtudes se engendram umas às outras é cara aos estoicos e provém de uma longa tradição, cujo esquema parece vir de Clemente de Alexandria.
- Clemente de Alexandria, para esse ensinamento, remete-se ao pseudo-Barnabé, mas é a Clemente, mais do que ao pseudo-Barnabé, que Evágrio teria emprestado sua cadeia de virtudes.
- Esse esquema, sob forma estereotipada, reaparece frequentemente depois de Evágrio, que, como um escolástico, deu formulação fixa e definitiva a um ensinamento tradicional que antes tinha forma ainda flutuante.
- O essencial da prática evagriana consiste na luta contra as “pensamentos” (logismoi), tomados em sentido pejorativo, pois, enquanto os demônios lutam contra os seculares usando preferencialmente os objetos, contra os monges usam as pensamentos.
- A prática é precisamente o que preenche o intervalo entre a hesiquia e a imperturbabilidade, sendo essencialmente combate contra as pensamentos, que são formados principalmente pela lembrança dos objetos outrora percebidos.
- Evágrio usa o termo “pensamento” (λογισμός) quase sempre em sentido pejorativo, embora nem todas as pensamentos sejam más, havendo também pensamentos angélicos e humanos.
- O vínculo entre a pensamento e o demônio que a inspira é tão estreito que Evágrio fala indiferentemente do “demônio” ou da “pensamento” de determinado vício, e às vezes diz “o espírito” de tal vício.
- Na Vida de Antônio, o termo “pensamentos” aparece ora acompanhado de adjetivo que lhe precisa o sentido pejorativo, ora sem adjetivo, e a “guarda do coração” consiste essencialmente em vigilância contra as pensamentos.
- Orígenes, nas Homélias sobre Josué, explicita que há diferentes espíritos que suscitam diferentes gêneros de pecado – espírito de fornicação, de cólera, de avareza, de orgulho –, e remete essa ideia ao “Testamento dos doze Patriarcas”.
- No Eclesiástico, o “yêṣer” aparece como algo concreto, quase pessoal, e nos Testamentos dos doze Patriarcas a noção se insere num sistema dualista de duas vias e dois “diaboulia” no coração.
- Os textos de Qumrã também fornecem testemunho dessa noção, com o termo “yêṣer” designando tendência ou pendor, geralmente mau, num sistema dualista de dois espíritos.
- Na literatura rabínica posterior, os vínculos entre o “yêṣer” e o espírito mau se estreitam, de modo que o termo acaba por designar o espírito mau, o Satanás que habita no homem.
- As traduções gregas do hebraico “yêṣer” são múltiplas – διαβούλιον, διάνοια, ἐνθύμημα, ἐννόημα, ἔννοια –, o que atesta a dificuldade da língua grega em encontrar um vocábulo relativo à vida intelectual que pudesse facilmente assumir sentido pejorativo.
- O termo “λογισμός”, designando a atividade intelectual por excelência, foi o mais refratário a assumir sentido pejorativo, mas certos empregos bíblicos com adjetivo o prepararam para receber tal acepção.
- O Novo Testamento oferece um exemplo de λογισμός sem adjetivo em sentido pejorativo (II Cor. 10,4) e numerosos exemplos de διαλογισμός tomado pejorativamente, especialmente o texto de Mateus 15,19 sobre as más pensamentos que vêm do coração.
primal/evagrio/guillaumont/praktikos/pratica.txt · Last modified: by 127.0.0.1
