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HYPEREPHANIA

CAPÍTULOS SOBRE O DISCERNIMENTO — A VANGLÓRIA

De todos os pensamentos, o da vanglória é o que se compõe de mais elementos. Com efeito, abrange quase toda a terra e abre as portas a todos os demônios, tal como o faria algum malvado traidor em uma cidade. Portanto, humilha o intelecto do solitário, enchendo-o de discursos e objetos e corrompendo as preces com as quais ele tenta curar todas as feridas de sua alma.

Todos os demônios, uma vez vencidos, fazem crescer este pensamento e, por seu intermédio, encontram um novo acesso às almas. E é assim que fazem com que a última situação das almas seja pior que a precedente. Daqui nasce também o pensamento da soberba. Isto é o que fez desabar dos céus sobre a terra o selo da semelhança, a coroa da beleza. Rejeita-a, pois, não tardes, porque pode suceder que entreguemos a outrem nossa vida, e nossa Riqueza a quem não tem misericórdia. Este demônio é afugentado pela oração contínua e por não fazer nem dizer nada do que se realiza pela maldita vanglória.

Mal o intelecto dos solitários alcança uma certa impassibilidade, eis que adquire o cavalo da vanglória e em seguida corre pelas cidades, enchendo-se sem medida de louvores à sua glória. Mas, se por uma disposição da providência, encontra-se com o espírito da fornicação, ficando assim encerrado em um chiqueiro, isto lhe ensinará a não deixar mais o leito antes de haver obtido uma perfeita saúde, e a não imitar os enfermos indisciplinados os quais, arrastando os rastros de sua enfermidade, se entregam abusivamente às viagens e aos banhos, tendo assim recaídas. Portanto, permaneçamos sentados, cuidemos de nós mesmos, de tal modo que, avançando em nossa virtude, não permitamos que o mal ressurja, e que, ao retomar o conhecimento, nos atordoe uma multidão de meditações. E depois novamente, ao levantarmo-nos, veremos quanto mais clara é a luz de nosso Senhor.

Não posso escrever sobre todas as astúcias dos demônios; sinto pudor ao repassar todas as suas maquinações, temendo pelos leitores mais simples. Escuta, contudo, as astúcias do demônio da fornicação.

Quando alguém logra tornar-se impassível a respeito de sua concupiscência, e seus maus pensamentos tendem a esfriar, é então que este demônio introduz imagens de homens e mulheres que se entretêm entre si, convertendo-o em solitário espectador de coisas e atitudes. Mas não é esta uma tentação que dure por muito tempo. A oração contínua e um regime austero, a vigília e o exercício de meditações espirituais dissipam a tentação como a uma nuvem sem água. Por momentos, este malvado faz da carne sua presa, forçando-a a sentir um ardor irracional, e se aferra a milhares de outras coisas, às quais não é necessário referir-se publicamente nem pôr por escrito.

Contra pensamentos deste tipo somos ajudados pelo ferver da cólera que se move contra o demônio. Este teme muitíssimo esta cólera, que se agita contra os pensamentos e destrói seus raciocínios. E este é o pensamento da Palavra: Irritai-vos e não pequeis. Esta cólera é uma medicina útil oferecida à alma durante as tentações. Às vezes sucede que o demônio da ira imita o outro demônio, e esboça a forma de algum filho, ou amigo, ou parente, no momento de ser ultrajado por gente indigna, excitando assim a cólera do solitário, para que diga ou faça algo mau contra as imagens que se movem em seu pensamento. É necessário atender por um instante a estas imagens, cuidando de arrancar logo nossa mente delas, a fim de não a deter muito tempo, para que não se inflame secretamente no tempo da oração. Nestas tentações caem fundamentalmente os coléricos e os que se deixam arrastar facilmente por seus impulsos. Estes estão afastados da prece pura e do conhecimento de nosso Salvador, Jesus Cristo.

O Senhor confiou os conceitos deste século ao homem, como as ovelhas a um bom pastor. Escrito está: A cada homem pôs um conceito em seu coração, e uniu a ele, a modo de ajuda, a concupiscência e a ira. Por meio da ira deve pôr em fuga os pensamentos dos lobos e, mediante a concupiscência, deve amar as ovelhas, ainda quando se encontre encurralado pelas chuvas e pelos ventos. A tudo isto o Senhor agregou também a lei, para que alimente as ovelhas; e um lugar verde, água que reconforta, e o saltério, a cítara, a vara e o bastão. E assim, deste rebanho, o pastor obterá sua nutrição, se vestirá e recolherá o feno dos montes. Foi dito: Qual é o pastor que apazigua o gado e não se nutre de seu leite? Deverá o solitário custodiar de dia e de noite seu rebanho para que não seja devorado pelas feras ou caia nas mãos dos ladrões. Mas se, em um lugar selvagem, algo parecido sucedesse, em seguida deverá este arrancar a presa da boca do leão ou do urso. Por exemplo, o conceito de irmão é devorado por nós se o alimentamos com vil concupiscência; o do dinheiro e o do ouro, se o abrigamos unido à avidez; e assim em tudo o que se refere aos pensamentos relativos aos santos carismas, se os alimentamos em nossa mente junto à vanglória. Do mesmo modo sucede a respeito de todos os outros conceitos, se se tornam presa das paixões. E não basta velar durante o dia, devemos estar vigilantes também de noite. Pode suceder que percamos o que é nosso, mesmo com fantasias turvas ou malvadas. Vede o que diz São Jacó: Não te trouxe ovelhas devoradas pelas feras: ressarci os furtos do dia e da noite, e fui devorado pelo calor do dia e pelo gelo da noite. O sono se afastou de meus olhos.

Se posteriormente o grande cansaço gerasse em nós preguiça, subiremos um pouco mais pela pedra do conhecimento e tomaremos o saltério, fazendo vibrar suas cordas mediante o conhecimento das virtudes. E novamente levaremos nossos rebanhos pelo monte Sinai, para que o Deus de nossos Padres se dirija a nós de entre os arbustos e nos presenteie com essas palavras que operam sinais e prodígios.

A natureza racional, condenada à morte pela malícia, foi ressuscitada por Cristo mediante la contemplação de todos os séculos. E o Pai ressuscita a alma que morreu da morte de Cristo, mediante seu conhecimento. E é isto o que diz Paulo: Se estamos mortos com Cristo, creiamos que também viveremos com Ele.

Quando o intelecto se despojou do homem velho, reveste-se do que provém da graça, e é então que, no tempo da oração, verá sua própria estrutura, semelhante, de algum modo, à safira ou à superfície celeste. Coisas estas que as Escrituras indicam como o lugar de Deus, visto pelos anciãos no monte Sinai.

De entre os demônios impuros, alguns tentam o homem enquanto homem, outros o atordoam como a um animal que perdeu a razão. Os primeiros, ao aproximar-se, insinuam em nós pensamentos de vanglória, de soberba, de inveja ou de acusação: coisas estas que não perturbam nenhum ser irracional. Os outros, contudo, aproximam-se excitando a cólera ou a concupiscência contra a natureza. E é que estas paixões nós as temos em comum com os seres irracionais, embora estejam escondidas pela natureza racional. É por este motivo que o Espírito Santo, quando se refere aos pensamentos que acodem aos homens, diz: Eu disse: deuses sois, e filhos todos do Altíssimo; mas como homens morrereis, e caireis como cai qualquer príncipe. E o que diz àqueles que se movem de modo irracional? Diz-nos: Não sejais como o cavalo e como o mulo que não têm entendimento: que hão de ser domados com freio e rédeas para que obedeçam. E se a alma que peca morrerá, é evidente que os homens morrem como homens e pelos homens são sepultados. Mas os animais sem razão, se morrem ou caem, são devorados pelas aves de rapina ou pelos corvos. Disto se disse que as crias de uns invocam o Senhor, e as de outros banham-se em sangue. O que tenha ouvidos para ouvir, que ouça.

Quando algum inimigo se aproximar de ti, te ferir e tu quiseres dirigir tua espada ao seu coração, tal como está escrito, faze como te dizemos. Analisa em ti mesmo o pensamento que te foi posto. Olha que coisa é, de que elementos se compõe e o que precisamente aflige mais a tua mente. Quero dizer-te isto: trouxe-te o inimigo o amor pelo dinheiro? Tu fazes uma distinção entre o intelecto que recebeu o pensamento do ouro, o pensamento mesmo do ouro e o ouro em si mesmo, e a paixão que nos leva a amar o dinheiro. Pergunta-te a seguir: De entre tudo isto, que coisa é pecado? Porventura o intelecto? E como, então, é a imagem de Deus? E então, como se vincula ao conceito do ouro? Ninguém que tenha intelecto poderia jamais afirmá-lo. É porventura pecado o ouro em si mesmo? Por que então foi criado? Concluiremos, pois, que a causa do pecado é a quarta. Não é um objeto que tenha uma existência em si mesmo, nem o conceito de um objeto, mas sim que é um prazer inimigo do homem, gerado por nossa própria e livre vontade, e que força o intelecto a servir-se mal das criaturas de Deus. E é à lei de Deus a quem fora confiado rescindir este prazer.

Enquanto indagas deste modo, o pensamento será destruído, dissolvendo-se em sua própria contemplação. O demônio se afastará de ti, quando tua mente for levada ao alto por tal conhecimento. Se, pelo contrário, não queres servir-te de tua espada, mas queres lançar mão de tua funda, tira uma pedra de tua bolsa de pastor e considera o seguinte: Como é que os anjos e os demônios se aproximam de nosso mundo e nós não nos aproximamos de seus mundos? Nós não podemos, por certo, aproximar mais os anjos de Deus, se nos propomos fazer dos demônios seres ainda mais impuros. E mais ainda: como é que Lúcifer, que surge pela manhã, foi atirado à terra, e considera o mar como uma ampola e o mais profundo dos abismos como um prisioneiro de guerra? E tudo faz ferver como em uma panela acesa e fervente, porque a todos quer turbar com sua malícia e a todos dominar. A consideração de todas estas realidades fere verdadeiramente o demônio e põe em fuga a todo o seu exército. Mas isto o podem fazer todos aqueles que se purificaram e veem as razões das realidades criadas. Os que estão impuros não conhecem a contemplação de tais razões e, embora repetissem uma fórmula aprendida por outrem, não serão escutados, com motivo de toda a poeira e o tumulto causado pelas paixões durante a batalha. É absolutamente necessário, pois, que toda a turba de filisteus permaneça imóvel, para que só Golias enfrente o nosso David.

Da mesma maneira nos serviremos desta distinção entre as partes em guerra e a imagem que se nos apresenta contra todos os pensamentos impuros.

Quando suceder que algum pensamento impuro fuja com toda a rapidez, deveremos buscar a causa a fim de entender como isso se produziu? Em geral, isto sucede seja porque o objeto em questão falta, ou porque se trata de um elemento difícil de obter, ou porque estamos entrando na região da impassibilidade. Por estes motivos o inimigo não pode vencer-nos. Se, por exemplo, a algum solitário ocorre que lhe seja confiada a guia espiritual da cidade, é difícil que se detenha a fantasiar a propósito disso, pelos motivos que mencionáramos anteriormente. Mas se sucedesse que alguém se converte em guia espiritual de uma cidade qualquer, e seu pensamento não sofre alterações, isto significa que alcançou a bem-aventurança da impassibilidade.

Não é necessário saber destas coisas para ter prontidão e força; para que possamos ver se cruzamos o Jordão e estamos perto das palmeiras ou bem se estamos ainda no deserto e sob os golpes dos estrangeiros. Pois vejo, por exemplo, como o demônio do amor ao dinheiro é versátil e extraordinário em sua capacidade de engano. Muitas vezes, angustiado por nossa total renúncia, finge ser ecônomo e amante dos pobres, recebe livremente hóspedes que ainda não se aproximaram, dá esmolas aos que carecem de alguma coisa, visita as prisões da cidade, resgata os que foram vendidos, sugere-nos unirmo-nos a mulheres ricas… Talvez nos aconselhe aproximarmo-nos de outrem, daqueles que possuem uma bolsa bem abastecida! Deste modo, vai-se desviando a alma; pouco a pouco, a rodeia de pensamentos provenientes do amor ao dinheiro e a entrega ao demônio da vanglória. E isto introduz uma multidão de pensamentos que glorificam o Senhor por nossos negócios, e manipula alguns que, pouco a pouco, falam de sacerdócio em nosso lugar. Faz prognósticos sobre a morte do sacerdote encarregado, e prediz que não poderá salvar-se, devido a tudo o mal que praticou.

E assim este mísero intelecto, apanhado por tais pensamentos, entra mentalmente em luta com aqueles que se lhe opõem, pronto a oferecer dons àqueles que o aceitam e aprovam seus bons sentimentos. Inclusive imagina entregar os que se lhe sublevam em mãos dos magistrados e lançá-los da cidade! Finalmente, posto que leva dentro de si estes pensamentos e lhes dá voltas, faz com que em seguida se apresente o demônio da soberba, o qual, cintilando ininterruptamente relâmpagos e dragões alados na cela, termina por ocasionar a loucura.

Mas nós, para conjurar a desgraça que tais pensamentos possam produzir, queremos viver dando graças em nossa pobreza! De fato, nada trouxemos a este mundo nem nada, por certo, poderemos levar conosco. Sempre que tenhamos com que comer e com que cobrirmo-nos, conformemo-nos com isso. E recordemos a Paulo, que declara: O amor pelo dinheiro é a raiz de todos os males.

Todos os pensamentos impuros, quando por causa de nossas paixões se entretêm em nós, conduzem o intelecto à ruína e à perdição. Com efeito, assim como a ideia do pão ronda constantemente o faminto por causa de sua fome, e o pensamento da água o sedento por causa de sua sede, do mesmo modo, também os pensamentos a propósito das riquezas, e as reflexões sobre os turvos pensamentos produzidos em nós pelos alimentos, detêm-se dentro de nós devido às paixões. Isto se manifesta também com os pensamentos de vanglória e com todos os outros. E não será possível ao intelecto, sufocado por tais ideias, apresentar-se diante de Deus, nem cingir em sua cabeça a coroa da justiça. Justamente por ter sido arrastado por tais pensamentos, aquele intelecto três vezes infeliz do qual nos falam os Evangelhos, rejeitou a incrível beleza do conhecimento de Deus. Inclusive aquele que, atado de pés e mãos, foi lançado às trevas exteriores, tinha o traje tecido por estes pensamentos e, devido a isso, o que o havia convidado o declarou indigno de tais núpcias. O traje de bodas é, pois, a impassibilidade da alma razoável que renegou das concupiscências mundanas. A causa pela qual os conceitos dos objetos sensíveis, quando se detêm em nós, corrompem o conhecimento, foi já mencionada nos “Capítulos a propósito da oração”.

Três são os chefes dos demônios que se opõem à prática. Estes são seguidos por todo o acampamento de filisteus. Eles são os primeiros que avançam nas batalhas e induzem a alma a ser malvada por meio de pensamentos impuros. Uns difundem os desejos da gula, outros nos insinuam o amor pelo dinheiro, e outros nos excitam para que busquemos a glória que vem dos homens. Se desejas, pois, a oração pura, rejeita a cólera; se amas a temperança, domina teu ventre e não lhe brindes pão até a saciedade, e quanto à água, mantém-na curta.

Sê vigilante na oração e afasta de ti o rancor. Não menosprezes as palavras do Espírito Santo e golpeia com as mãos da virtude as portas das Escrituras. Assim surgirá em ti a impassibilidade do coração e, na oração, verás o teu intelecto resplandecer como um astro.

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