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EPIFÂNIO
EPIFÂNIO (315?-403)
ÉPIPHANE; WILLIAMS, Francis E. The Panarion of Epiphanius of Salamis. 2nd edition, revised and expanded ed. Leiden: Brill, 2009.
- As fontes principais sobre Epifânio são seus próprios escritos e correspondências, além de referências em obras de Jerônimo, Paládio, Basílio de Cesareia, Teófilo de Alexandria e os historiadores Sócrates e Sozômeno, sendo de valor duvidoso a notícia biográfica prefaciada nas antigas edições do Ancoratus e a vida lendária atribuída aos monges João e Políbio.
- Epifânio nasceu na Palestina, provavelmente entre 310 e 320, em Besanduc, aldeia nos arredores de Eleuterópolis, perto de Gaza, e especula-se que seus pais fossem judeus convertidos ao cristianismo — hipótese sustentada por seu bilinguismo grego-siríaco e seu conhecimento das seitas judeu-cristãs, mas contestada por sua atitude hostil aos judeus e seu parco conhecimento dos costumes judaicos.
- A família de Epifânio, aparentemente abastada, enviou-o ao Egito na juventude; criado na fé dos Pais de Niceia, ele recebeu educação precoce entre monges, sendo Hilarião — a quem se atribui a introdução da vida monástica na Palestina, ele próprio discípulo de Antônio do Egito — o mentor mais influente em sua formação.
- A infância de Epifânio, marcada pela doutrinação no cristianismo niceno e pela influência monástica, com educação cristã e escriturística em vez de clássica, explica por que qualquer abordagem rival da fé lhe parecia uma ameaça a ser repelida a todo custo — o que ele designaria como “serpente venenosa”.
- Em Alexandria, para onde fora estudar retórica, Epifânio teve um perturbador encontro com um grupo de orientação sexual que identifica como gnósticos e descreve no Panarion, seção 26 — episódio que, perigoso à sua castidade e narrado anos depois com evidente emoção, pode ter sido um ponto de inflexão e explica sua detestação de tudo que fosse gnóstico, assim como sua convicção de que todos os gnósticos eram imorais.
- Sem concluir o treinamento retórico, Epifânio ingressou em uma comunidade monástica egípcia — de identidade desconhecida — que devia aliar leitura assídua à práxis, e cujo anti-origenismo rigoroso é praticamente certo, dada a virulência com que ele combateu Orígenes ao longo de toda a vida.
- De volta à Palestina, perto dos trinta anos de idade, Epifânio fundou um mosteiro próximo a Eleuterópolis e o dirigiu como abade, mantendo a amizade com Hilarião e, nesse período, expondo e expulsando um monge gnóstico, além de resistir ao bispo Eutíquio de Eleuterópolis quando este tentou impor o homoiousianismo à sua diocese após assinar o credo evasivo do Concílio de Selêucia em 359.
- Segundo Jerônimo, Epifânio contribuiu para que Eutíquio mudasse de posição, mas é possível que o desconforto da relação entre o abade homoousiano e o bispo homoiousiano tenha motivado sua mudança para Chipre, onde foi eleito bispo de Salamina em 366.
- O clero de Chipre, inquieto sob o patriarcado de Antioquia e inclinado a buscar orientação em Alexandria, recebeu bem esse homoousiano de ampla reputação, amigo de Atanásio e asceta; como bispo, Epifânio continuou sua austeridade pessoal, fomentou o movimento monástico, concedeu certo grau de autonomia aos demais bispos de sua vasta província, e o Ancoratus revela seu espírito missionário voltado para a conversão dos pagãos.
- O prestígio de Epifânio era imenso — Jerônimo o chama de Papa Epifânio —, e até o imperador ariano Valente preferiu não perturbá-lo, presumivelmente para evitar uma comoção; igrejas distantes de Chipre consultavam-no sobre questões doutrinárias, e “mesmo em extrema velhice”, conforme Jerônimo, ele continuava publicando obras breves.
- Sua obra datável mais antiga é um fragmento de Carta a Eusébio, Marcelino, Bibiano e Carpo, escrito entre 367 e 373, que defende a datação antioquena da Páscoa — no domingo após o 14 de Nisã — em vez da observância alexandrina, no domingo após o equinócio de primavera.
- O Ancoratus, de 374, é considerado sua melhor obra: escrito em resposta às inquietações da igreja de Siedra na Panfília sobre a doutrina do Espírito Santo, discute também a Trindade, a encarnação e ressurreição de Cristo, ataca as doutrinas de Orígenes e inclui uma polêmica contra a religião grega, contendo ainda o esboço do que viria a ser o Panarion.
- Por volta de 376, Epifânio tentou resolver o escandaloso cisma de Antioquia, dividida em quatro facções — o ariano Euzóio e os homooussianos Melécio, Vitálio e Paulino —, e, com base na confissão de fé escrita de Paulino, reconheceu-o como bispo legítimo de Antioquia, embora sem conseguir o apoio de Basílio de Cesareia, ao passo que Apolinar rejeitou tanto Epifânio quanto Paulino e consagrou novos bispos.
- Em 382, Epifânio viajou a Roma com Paulino e Jerônimo para um sínodo convocado por Dâmaso; hospedado na casa da rica viúva Paula, foi decisivo em persuadi-la a abandonar a vida luxuosa da aristocracia romana pelo claustro, e ela partiu para o Oriente com Jerônimo como capelão, fundando um convento em Belém.
- Em 392, Epifânio publicou o De Mensuris et Ponderibus, manual para estudantes da Escritura; em 393, durante visita à Palestina, arrancou de uma igreja em Belém uma cortina pintada com a imagem de Cristo ou de um santo, prometendo substituí-la, e ordenou canonicamente de modo problemático o irmão de Jerônimo, Pauliniano — atos que integram uma carta endereçada ao bispo origenista João de Jerusalém, que circulou amplamente como tratado anti-origenista.
- A guerra de Epifânio contra o origenismo e os origenistas domina o que se conhece de seus últimos anos: ele objetava à visão supostamente subordinacionista da Trindade em Orígenes, à doutrina da preexistência, queda e restauração de todas as almas — incluindo a de Cristo e a de Satanás —, e à negação — assim ele entendia — da ressurreição do corpo.
- De 393 a 397, Epifânio combateu o origenismo em Jerusalém e na Palestina, tendo como adversários João de Jerusalém e Rufino, e como aliado principal Jerônimo; um monge chamado Atárbio, presumivelmente a seu mando, percorreu os mosteiros de Jerusalém exigindo que os monges suspeitos de favorecer Orígenes assinassem uma denúncia formal de seus ensinamentos.
- Na crise origenista do Egito, Teófilo de Alexandria, sob pressão dos monges anti-origenistas, abandonou sua tolerância anterior, convocou um sínodo em 400 que condenou a leitura das obras de Orígenes e decretou o exílio dos monges origenistas de Nítria, com destruição de suas celas e queima de seus livros; instado por Teófilo, Epifânio convocou um sínodo semelhante em Chipre e anunciou jubiloso o resultado em carta a Jerônimo.
- Os exilados de Nítria apelaram ao patriarca João Crisóstomo em Constantinopla; Epifânio, em sua última viagem, chegou à cidade na primavera de 402 ou 403, recusou a hospitalidade e a comunhão de Crisóstomo, realizou seu próprio ofício fora da cidade e ordenou um diácono de modo não canônico, mas partiu sem tomar nenhuma ação pública — Sozômeno diz que um encontro com Amônio o convenceu de sua injustiça, enquanto Sócrates afirma que o arquidiácono Serapião o advertiu do perigo de um tumulto.
- Epifânio morreu no mar durante a viagem de volta a Chipre, e sua recusa em comungar com Crisóstomo foi utilizada como argumento pelos adversários deste no Sínodo do Carvalho em 404; o juízo de Nautin de que é lamentável que sua última intervenção na história da Igreja tenha sido essa reconhece a dificuldade de justificar seu assédio implacável a qualquer um que parecesse aprovar Orígenes, embora sua posição de palestino que vivera anos no Egito e sua reverência pela sé de Alexandria expliquem em parte seus atos.
- Os escritos de Epifânio contra imagens datam provavelmente da mesma década da Carta a João e incluem um Tratado contra os que fazem imagens de Cristo, da Mãe de Deus e dos mártires, uma Carta a Teodósio e um Testamento aos cidadãos de Salamina, reconstruíveis parcialmente a partir de atas conciliares e outras fontes.
- O De Gemmis, preservado apenas em epítome latino e escrito para Diodoro de Tarso, discute o simbolismo das pedras no peitoral do sumo sacerdote e testemunha que, mesmo no último período de sua vida, Epifânio se dedicava a outras investigações além da oposição obsessiva a Orígenes, sendo provável que muitas de suas obras não tenham sobrevivido.
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