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Elias Ekdikos — FLORILÉGIO

  1. Assim como antigamente se ofereciam no templo as primícias da eira e do lagar (Nm 18,12), deve-se agora oferecer a Deus o autodomínio e a verdade como primícias da prática ascética, e o amor e a oração como primícias da virtude da contemplação, repelindo com as primeiras os assaltos do desejo insensato e da ira, e vencendo com as segundas os pensamentos vãos e os laços em que conduzem.
  2. O primeiro estágio da prática ascética é marcado pelo autodomínio e pela veracidade; o estágio intermediário, pela moderação e humildade de espírito; o estágio final, pela liberdade dos pensamentos e pela santificação do corpo.
  3. A prática ascética consiste não apenas em conseguir fazer o que é certo, mas também em fazê-lo retamente, devendo o agente preocupar-se com a oportunidade e a congruidade.
  4. Contemplar é perceber não apenas o estado existente das realidades corporais, mas também o objetivo final de seus princípios interiores.
  5. A prática ascética não pode ser consolidada sem a contemplação, e a contemplação não pode ser genuína sem a prática ascética, pois a prática deve basear-se na inteligência e a contemplação na prática, de modo que o mal fique impotente para perturbar a prática e a contemplação seja prolífica em atos de bondade.
  6. O objetivo da prática ascética é a mortificação das paixões; o do conhecimento espiritual, a contemplação das virtudes.
  7. A prática ascética está para a contemplação como a matéria está para a forma; e a contemplação está para a prática ascética como o olho está para o rosto.
  8. Muitos competem pela virtude prática, mas apenas um recebe o prêmio: aquele que busca atingir seu objetivo por meio da contemplação.
  9. O homem engajado na prática ascética bebe o cálice da compunção durante a oração, mas o contemplativo embriaga-se com o melhor cálice (Sl 23,5); o primeiro medita nas coisas que são conforme a natureza, enquanto o segundo ignora até a si mesmo durante a oração.
  10. O homem engajado na prática ascética não pode persistir por muito tempo na contemplação espiritual, sendo como uma pessoa que recebe hospitalidade, mas deve deixar em breve a casa do anfitrião.
  11. Quando oram, os homens engajados na prática ascética estão como que entrando pela porta dos mandamentos de Deus, mas os contemplativos, quando louvam a Deus, estão como que nos átrios das virtudes; os primeiros dão graças por terem sido libertos de seus grilhões, os segundos porque também cativaram aqueles que guerreavam contra eles.
  12. Deve-se ser governado tanto pela prática ascética quanto pela contemplação, caso contrário se será como um navio que navega sem as velas adequadas: ou corre o risco de ser virado pela violência dos ventos porque suas velas são grandes demais, ou não consegue aproveitar a brisa porque são pequenas demais.
  13. Pelos remadores do navio espiritual entendem-se os pensamentos piedosos; pelos remos, as faculdades vitais da alma: a faculdade irascível e a desejante, e a vontade e o livre-arbítrio; o homem engajado na prática ascética necessita sempre delas, enquanto o contemplativo nem sempre as necessita, pois durante a oração o contemplativo despede-se de tudo, segurando ele mesmo o leme do discernimento e permanecendo vigilante durante a noite da contemplação, oferecendo louvores Àquele que sustenta todas as coisas, cantando talvez alguma canção de amor à sua alma enquanto observa o swell do mar salgado e o tumulto das ondas, maravilhando-se com os retos juízos de Deus.
  14. A pessoa em estágio intermediário entre a prática ascética e a contemplação não faz a viagem inteiramente por meio de remos, nem inteiramente por meio de velas espirituais, mas com o auxílio de ambas, porque, possuindo uma medida de contemplação, suporta de bom grado as dificuldades da prática ascética; e, porque é assistida pela prática ascética, aceita igualmente as razões das deficiências de sua contemplação.
  15. O contemplativo, com sua vontade assistida pela natureza como que por uma corrente, navega sem dificuldade; mas o homem engajado na prática ascética, encontrando sua resolução minada por seu apego às coisas sensíveis, é muito perturbado pelas ondas de seus pensamentos, chegando quase a desesperar por causa de sua violência.
  16. A terra que não é bem cultivada dificilmente produzirá uma boa colheita de grão limpo; e, a menos que o homem engajado na prática ascética prossiga diligentemente e sem ostentação, não desfrutará de uma colheita abundante de fruto bom e limpo como resultado de sua oração.
  17. A mente engajada na prática incessante da oração é como terra bem pisada: essa terra será lisa e acolhedora para pés tenros, enquanto a mente será então imaculada e receptiva à oração pura.
  18. Em relação às coisas materiais, o intelecto é assistido pelo pensamento; mas em relação às coisas imateriais, o pensamento, a menos que seja repudiado, será como “um espinho na carne” (2Cor 12,7) para o intelecto.
  19. O homem engajado na prática ascética descobre que, durante a oração, o conhecimento das coisas sensíveis cobre seu coração como um véu, que ele não consegue remover por causa de seu apego a essas coisas; apenas o homem contemplativo, devido ao seu desapego, pode ver em certa medida a glória de Deus “com rosto descoberto” (2Cor 3,18).
  20. A oração combinada com a contemplação espiritual constitui a terra prometida na qual flui, como “leite e mel” (Êx 3,8), o conhecimento espiritual dos princípios da providência e do julgamento de Deus; a oração combinada com certa medida de contemplação natural é o Egito, no qual os que oram ainda encontram a memória de seus desejos grosseiros; a oração simples é o maná no deserto (Nm 11,7); sendo invariável, esse maná não revela aos impacientes as bênçãos prometidas que anseiam, mas para aqueles que perseveram com esse alimento restrito, ele transmite nutrição mais excelente e duradoura.
  21. A prática ascética combinada com a contemplação é como o corpo unido ao seu espírito regente; sem a contemplação, é como a carne dominada por um espírito de vontade própria.
  22. A percepção sensorial é o átrio da alma deiforme; a razão é seu templo; e o intelecto, seu sumo sacerdote; o intelecto está no átrio quando é cativo por pensamentos ineptos; no templo, quando circunscrito por pensamentos apropriados; quando está livre de ambos, é privilegiado a entrar no santuário sagrado.
  23. Há um som de dor e lamentação na casa da alma que ainda está no estágio da prática ascética, por causa do sofrimento que ela suporta; mas na casa da alma contemplativa ouve-se “uma voz de exultação e ação de graças” (cf. Sl 42,4), por causa de seu conhecimento espiritual.
  24. Por causa de seus sofrimentos, o homem engajado na prática ascética quer deixar esta vida e estar com Cristo; o contemplativo, ao contrário, contenta-se em permanecer na carne, tanto por causa da alegria que recebe da oração quanto por causa da utilidade que pode ter para seus semelhantes (cf. Fp 1,23-24).
  25. No caso de pessoas de maior inteligência, a contemplação precede a prática ascética, enquanto no caso das mais obtusas, a prática ascética precede a contemplação; ambas conduzem à mesma conclusão auspiciosa, mas esta é alcançada mais rapidamente por aqueles em quem a contemplação precede a prática ascética.
  26. O paraíso é a contemplação das realidades inteligíveis; durante a oração, o homem de compreensão espiritual entra nele como em sua própria casa, mas o homem engajado na prática ascética é como um transeunte: quer olhar para dentro, mas é impedido pelo muro de sua imaturidade espiritual.
  27. As paixões corporais são como animais selvagens, enquanto as paixões da alma são como pássaros; o homem engajado na prática ascética pode manter os animais fora da vinha noética, mas, a menos que entre em estado de contemplação espiritual, não pode manter os pássaros afastados, por mais que se esforce para guardar-se interiormente.
  28. O homem engajado na prática ascética não pode elevar-se acima da propriedade ética, a menos que vá além da lei natural — como Abraão partiu de sua própria terra — e além de seu próprio estado limitado de desenvolvimento — como Abraão deixou seus parentes (Gn 12,1); assim, como sinal da aprovação de Deus, será libertado do domínio abrangente do prazer, pois é esse véu do prazer, envolto em torno de nós desde o nascimento, que nos impede de receber a liberdade completa.
  29. Quando chega a primavera, um potro não suporta ficar confinado no estábulo e alimentar-se do cocho; da mesma forma, o intelecto recém-iniciado não pode suportar por muito tempo ficar confinado à oração: como o potro, ele sairia de bom grado para os campos da contemplação natural, para ali se dedicar à salmodia e à leitura espiritual.
  30. A prática ascética cinge as faculdades vitais da alma com jejum e vigília, enquanto a virtude contemplativa mantém as faculdades espirituais acesas como lâmpadas por meio do silêncio e da oração; as faculdades vitais têm a razão como tutor, as faculdades espirituais têm o Logos interior como acompanhante nupcial.
  31. O intelecto não iniciado não tem permissão para entrar na vinha madura da oração; só lhe é dado acesso — e com dificuldade — à repetição literal dos salmos, como a um pobre é permitido colher as pequenas uvas deixadas nas videiras.
  32. Assim como nem todos os que têm audiência com um rei podem também jantar com ele, nem todos os que alcançaram certa familiaridade com a oração elevar-se-ão à contemplação durante ela.
  33. O silêncio oportuno refreia a ira; a moderação no alimento refreia o desejo insensato; e a Oração Monológica de Jesus refreia o pensamento desordenado.
  34. O homem que mergulha no mar em busca de pérolas fracassará em seu esforço a menos que primeiro se despoje de suas roupas; da mesma forma, o homem que mergulha no mar do conhecimento espiritual em busca da pérola da sabedoria não a encontrará a menos que se despoje de seu apego ao mundo dos sentidos.
  35. O intelecto que se encerra dentro da mente durante a oração é como um noivo conversando com a noiva dentro da câmara nupcial; mas o intelecto que não tem permissão para entrar fica de fora abatido, clamando: ““Quem me levará à cidade fortificada?” (Sl 60,9); quem me guiará até que eu não veja mais vaidades e ilusões durante a oração?”
  36. Assim como o alimento sem sal é para o paladar, assim é a oração sem compunção para o intelecto.
  37. A alma ainda em busca da oração é como uma mulher com dores de parto; mas a alma que alcançou a oração é como uma mulher que deu à luz e está cheia de alegria por causa de seu filho.
  38. Antigamente, os amorreus desciam da montanha e atacavam os que tentavam forçar a passagem (Dt 1,44); em nossos dias, o esquecimento maligno repele aqueles que, antes de alcançar a pureza, tentam elevar-se à oração superior livre de formas.
  39. Os demônios são extremamente hostis à oração pura; além disso, não é a multidão de salmos que pode aterrorizá-los, como um exército aterrorizaria um inimigo externo, mas a aliança do intelecto com a razão e da razão com a percepção sensorial.
  40. A oração livre de paixão é como o pão que sustenta para os que oram; a oração combinada com certo grau de contemplação é como o óleo nutritivo; e a oração livre de formas é como o vinho de aroma doce; aqueles que bebem profundamente desse vinho são arrebatados para fora de si mesmos.
  41. Diz-se do asno selvagem que despreza as multidões na cidade, e do unicórnio que não pode ser amarrado por ninguém (Jó 39,7-9); da mesma forma, o intelecto, tendo dominado os pensamentos tanto naturais quanto contrários à natureza, zomba de sua vaidade e, durante a oração, não pode ser dominado por nenhum dos objetos da percepção sensorial.
  42. Agitar um bastão contra cães provoca sua fúria; forçar-se a orar em pureza provoca a fúria dos demônios.
  43. O aspirante espiritual deve refrear seus sentidos pela frugalidade e seu intelecto pela Oração Monológica de Jesus; tendo assim se desapegado das paixões, encontrar-se-á arrebatado ao Senhor durante a oração.
  44. Aqueles que se entregam às paixões, sendo mentalmente materiais, distraem-se durante a oração com seus pensamentos como com rãs; aqueles que refreiam as paixões alegram-se durante a oração com as formas cambiantes da contemplação, que são como rouxinóis movendo-se de um galho para outro; mas nos desapaixonados há silêncio e grande quietude tanto do pensamento quanto da intelecção durante a oração.
  45. Antigamente, quando Míriam, irmã de Moisés, viu a queda do inimigo, tomou um tamboril e liderou as mulheres que cantavam os cânticos de vitória (Êx 15,20-21); em nossos dias, quando a alma vence as paixões, o amor — a mais alta das virtudes — levanta-se para louvá-la; como se tomasse a lira, embarca na contemplação que há muito lhe foi designada como uma adição duramente conquistada à sua beleza, e glorifica incessantemente a Deus, regozijando-se com suas virtudes-irmãs.
  46. Quando, pela oração contínua, as palavras dos salmos são trazidas para o coração, então o coração, como boa terra, começa a produzir por si mesmo várias flores: rosas, a visão das realidades incorpóreas; lírios, a luminosidade das realidades corporais; e violetas, os muitos juízos de Deus, difíceis de entender.
  47. Uma chama dá luz enquanto está unida à matéria; mas a alma torna-se santuário de Deus somente quando está livre da matéria; a chama eleva-se enquanto tem algo em que queimar; a alma é elevada para cima até ser consumada no amor divino.
  48. Uma alma que se negou completamente a si mesma e foi elevada acima da criação inteiramente para o domínio da oração não desce quando quer: desce quando Aquele que pesa e mede todos os nossos assuntos julga que é certo.
  49. Quando a letargia é expulsa da alma e a malícia da mente, então o intelecto, nu em simplicidade, inocente e totalmente despojado do véu da vergonha, canta um novo cântico a Deus, celebrando com alegre gratidão a pré-festa e a inauguração da vida futura.
  50. Quando a alma que ora começa a responder às realidades divinas superiores, então, como a noiva no Cântico dos Cânticos, canta a suas companheiras: “O meu Amado estendeu a mão pela abertura, e minhas entranhas tremeram por causa dele” (Ct 5,4).
  51. Assim como um soldado que regressa da guerra se desonera de suas armas, o homem engajado na prática ascética se desonera dos pensamentos quando alcança a contemplação; pois, assim como o primeiro não precisa de armas senão em tempo de guerra, o segundo não precisa de pensamentos a menos que retorne às coisas apreendidas pelos sentidos.
  52. O homem engajado na prática ascética vê as realidades corporais em termos de suas relações; o contemplativo vê-as em termos de sua natureza; apenas o iluminado espiritualmente apreende os princípios interiores do que os outros dois percebem.
  53. As realidades incorpóreas podem ser apreendidas nos logoi ou princípios interiores das realidades corporais; mas nas realidades incorpóreas pode ser apreendido o Logos supraessencial, ao qual toda alma diligente se esforça urgentemente para retornar.
  54. Os princípios interiores das realidades corporais estão ocultos como ossos dentro dos objetos apreendidos pelos sentidos: ninguém que não tenha transcendido o apego às coisas sensíveis pode vê-los.
  55. Um soldado lança fora suas armas quando cessou de lutar; o contemplativo lança fora os pensamentos quando retorna ao Senhor.
  56. Um general fica desanimado quando não captura nenhum despojo na guerra; assim também o homem engajado na prática ascética quando não alcança a contemplação espiritual na oração.
  57. Quando mordido por algum animal selvagem, um cervo corre rapidamente para as fontes terrestres de água; uma alma ferida pela flecha mais terna da oração apressa-se em direção à luz das realidades incorpóreas.
  58. Assim como o olho não pode ver um grão de trigo a menos que as pálpebras estejam abertas, o intelecto prático não pode ver sua própria natureza a menos que esteja despojado do apego às coisas sensíveis que obscurece sua visão.
  59. As estrelas se ocultam quando o sol nasce, e os pensamentos desaparecem quando o intelecto retorna ao seu próprio domínio.
  60. Quando o estágio da prática ascética foi cumprido, visões espirituais inundam o intelecto como os raios do sol vindo sobre o horizonte; mesmo que lhe sejam nativas e o abracem por causa de sua pureza, parecem vir de fora.
  61. Se, ao descer do domínio da visão para atender às questões práticas, o intelecto contemplativo falasse do que experimentou, diria coisas como: “O que é mais maravilhoso que a beleza divina, ou mais amável que o senso da magnificência de Deus? Que anseio é tão agudo e insuportável quanto o engendrado por Deus em uma alma purificada de todo vício e verdadeiramente capaz de dizer: 'Estou ferida de amor'?” (Ct 2,5).
  62. “O coração se aqueceu dentro de mim e um fogo se acendeu durante minha meditação” (Sl 39,3) — assim pode falar o homem que não tem dificuldade em seguir a Deus pela oração e que não tem desejo pela vida temporal.
  63. Quando tiver rejeitado o mal, a alma ainda engajada na luta ascética deve repetir as palavras do Cântico aos demônios maliciosos e aos pensamentos que tentam forçosamente voltar sua atenção para vaidades e ilusões: “Despi minha túnica; como poderei vesti-la novamente? Lavei meus pés; como poderei sujá-los?” (Ct 5,3).
  64. A alma que goza do amor de Deus tem a ousadia de dizer-Lhe: “Dize-me, Bom Pastor, onde apascentas tuas ovelhas e onde fazes descansar teus cordeiros ao meio-dia, para que, seguindo-os, eu evite tornar-me como uma que vagueia junto aos rebanhos de teus companheiros” (cf. Ct 1,7).
  65. A alma ainda engajada na luta ascética, tentando manter-se firme nas palavras da oração e não conseguindo fazê-lo, clama como a alma no Cântico: “Em meu leito, durante a noite, busquei Aquele a quem amo; busquei-O e não O encontrei; chamei-O, e Ele não me ouviu. Levantar-me-ei agora por meio de oração mais intensa e percorrerei a cidade, pelas ruas largas e praças, e procurarei meu Amado; talvez O encontre, Aquele que está presente em todas as coisas e acima de todas as coisas; e banquetear-me-ei com a visão de Sua glória” (cf. Ct 3,1-2).
  66. Quando a alma começa a ser toda lágrimas pela alegria que acompanha a oração, ela se torna ousada e, como uma noiva para seu noivo, clama: “Desça o meu Amado ao seu jardim, e alimente-se da consolação duramente conquistada de minhas lágrimas como de fruto escolhido” (cf. Ct 5,1).
  67. Quando a alma ainda engajada na luta ascética começa a maravilhar-se com o Criador por causa da magnificência e beleza das coisas criadas, e a saborear o deleite que delas provém, ela também clama com admiração: “Como és belo, meu Noivo, paraíso de teu Pai: és uma flor do campo e um cedro seu, como os cedros do Líbano; anseiei por sua sombra e sentei-me, e seu fruto foi doce em minha boca” (cf. Ct 2,1-3).
  68. Se alguém que recebe um rei em sua casa se torna assim ilustre, admirado por todos e cheio de alegria, quanto mais a alma que, quando purificada, recebe o Rei dos reis, segundo sua promessa infalível? Mas deve guardar-se com grande cuidado, expulsando tudo o que parece não Lhe agradar e introduzindo tudo o que Lhe agrada.
  69. Se uma pessoa espera ser convocada amanhã pelo rei, terá ela alguma preocupação senão considerar o que dirá para agradar ao rei? Uma alma que presta atenção cuidadosa a isso não será encontrada despreparada quando se apresentar diante do futuro tribunal do juízo.
  70. Bem-aventurada a alma que, porque espera seu Senhor diariamente, não pensa no trabalho do dia nem no da noite, pois Ele vai aparecer pela manhã.
  71. Deus vê todos os homens, mas só vêem a Deus aqueles que nada percebem durante a oração; Deus ouve aqueles que O vêem, enquanto aqueles a quem Ele não ouve não O vêem; bem-aventurado o homem que crê que é visto por Deus, pois seu pé não escorregará (Sl 73,2), a menos que essa seja a vontade de Deus.
  72. As bênçãos do reino dentro de nós — que o olho amante do mundo não viu, e o ouvido presunçoso não ouviu, e que não entraram em um coração vazio do Espírito Santo (1Cor 2,9) — são um penhor e pregustação das bênçãos que serão dadas por Deus aos justos no reino vindouro; se não saborearmos as primeiras, que são os frutos do Espírito (Gl 5,22), não poderemos desfrutar das segundas.
  73. Os pensamentos dos engajados na prática ascética são como cervos; os cervos às vezes sobem às montanhas porque estão assustados com os caçadores, e às vezes descem aos vales porque querem o que podem encontrar ali; da mesma forma, os engajados na prática ascética não podem estar constantemente em estado de contemplação espiritual, pois ainda são imaturos, nem constantemente em estado de contemplação natural, pois nem sempre buscam relaxamento; os pensamentos dos contemplativos, no entanto, desprezam as formas inferiores de contemplação.
  74. As gotas de chuva umedecem os sulcos, e os suspiros carregados de lágrimas que sobem do coração amolecem o estado da alma durante a oração.
  75. Ninguém pode contemplar a Divindade Trina a menos que sua visão transcenda a díade material bem como a mônada material; e não transcenderá esta última a menos que tenha integrado as intelecções de seu intelecto.
  76. É menos difícil conter o fluxo descendente de um rio do que para quem ora conter a turbulência do intelecto quando deseja, impedindo-o de fragmentar-se entre as coisas visíveis e concentrando-o nas realidades superiores aparentadas a ele; isso apesar de conter o fluxo de um rio ser contrário à natureza, enquanto conter a turbulência do intelecto está de acordo com a natureza.
  77. Aqueles que purificam interiormente o intelecto ignorando o que é visível são preenchidos com tal admiração e tal alegria que não conseguiriam encontrar lugar para nada terreno, mesmo que fossem inundados com todas as coisas pelas quais as pessoas lutam.
  78. Simplesmente falar das leis da natureza é suficiente para despertar profunda admiração; mas quando são plenamente compreendidas, são como campos cheios de flores, cujas flores abundantes exalam uma doçura espiritual como néctar do céu.
  79. As abelhas cercam sua rainha entre as flores frescas do prado; e a alma que está incessantemente em estado de compunção é cercada e assistida pelas potências angélicas, pois é aparentada a elas.
  80. Dentro do mundo visível, o homem é como que um segundo mundo; e o mesmo acontece com o pensamento dentro do mundo inteligível; pois o homem é o arauto do céu e da terra, e de tudo o que neles há; enquanto o pensamento interpreta o intelecto e a percepção sensorial, e tudo o que lhes pertence; sem o homem e o pensamento, tanto o mundo sensível quanto o inteligível seriam inarticulados.
  81. Uma pessoa libertada de longa prisão não fica tão cheia de alegria quanto o intelecto liberto de seu apego às coisas sensíveis e voando em direção à região celestial que é sua pátria nativa.
  82. Uma pessoa que ora não com atenção, mas distraidamente, considerará os salmos como grosseiros; e do ponto de vista dos salmos, ela parecerá igualmente grosseira; ambos serão considerados loucos pelos demônios.
  83. Aqueles para quem o mundo está crucificado não são os mesmos que aqueles que estão crucificados para o mundo (Gl 6,14); para os primeiros, os cravos são o jejum e as vigílias; para os segundos, são o despojamento de toda posse e o ser tratado com desprezo; sem os segundos, os sofrimentos envolvidos nos primeiros são inúteis.
  84. Ninguém pode orar puramente se é constrangido pelas paixões da ostentação e da ambição, pois os apegos e pensamentos frívolos em que essas paixões o envolvem enroscar-se-ão ao redor dele como cordas e, durante a oração, arrastarão seu intelecto para baixo como um pássaro acorrentado que tenta voar.
  85. O intelecto não pode estar pacífico durante a oração a menos que tenha adquirido autodomínio e amor; com a ajuda de Deus, o primeiro esforça-se para pôr fim à hostilidade do corpo contra a alma, o segundo à hostilidade contra os semelhantes; sobre o homem que assim estabeleceu a paz dentro de si desce então “a paz que excede todo o entendimento” (Fp 4,7) e, segundo a promessa de Deus, nEle habita.
  86. A pessoa que luta para entrar no reino de Deus deve sobressair-se em obras de justiça: na esmola, fornecendo de sua própria carência; e no sofrimento por causa da paz, respondendo às provações com paciência perseverante no Senhor.
  87. Nem aquele que deixa de alcançar a virtude por negligência nem aquele que por presunção a ultrapassa chegará ao porto do desapego; de fato, ninguém desfrutará das bênçãos da justiça se tentar alcançá-las por meio da deficiência ou do excesso.
  88. A terra não pode enriquecer um agricultor meramente produzindo o equivalente ao grão que ele semeou, ou mesmo acrescentando ligeiramente a ele; só pode fazê-lo multiplicando-o; da mesma forma, as realizações de um engajado na prática ascética não podem torná-lo justo a menos que sua diligência para com Deus exceda sua propensão natural.
  89. Nem todo aquele que não ama seu próximo o odeia realmente, e nem todo aquele que não odeia seu próximo é capaz de amá-lo; uma coisa é invejar o progresso do próximo, e outra é abster-se de dificultá-lo; o cúmulo da malícia consiste não apenas em ficar magoado com a superioridade do próximo, mas também em deturpar suas boas qualidades, dizendo que não são boas.
  90. As paixões corporais são uma coisa, as paixões da alma são outra; as paixões conforme a natureza são outras das que são contrárias à natureza; a pessoa que repele as primeiras, mas não leva em conta as últimas, é como um homem que ergue uma alta cerca grossa para manter os animais selvagens afastados, mas deseja alegria aos pássaros que comem as melhores uvas em sua vinha espiritual.
  91. Primeiro a alma imagina o mal, depois o deseja, depois sente prazer ou dor com respeito a ele, depois torna-se plenamente consciente dele e, finalmente, une-se a ele exterior ou interiormente; os pensamentos acompanham todas essas fases, exceto a do estímulo inicial; se este for repudiado, nenhum dos males que se seguem será efetivado.
  92. Aqueles que se aproximam do desapego serão perturbados apenas por fantasias; aqueles que refreiam as paixões, por desejos; aqueles que se entregam às paixões, por enredamentos; aqueles que usam mal o que têm para satisfazer suas necessidades, mas sentem remorso por isso, têm consciência do mal que fazem; aqueles que não sentem remorso unem-se ao mal.
  93. O prazer tem assento em cada parte do corpo, mas não perturba a todos da mesma maneira; em algumas pessoas, perturba mais o aspecto desejante da alma; em outras, o aspecto irascível; e em outras, a inteligência; faz isso por meio da gula, do mau humor e da malícia, fonte de todas as paixões ímpias.
  94. Como as portas de uma cidade, é necessário abrir os órgãos da percepção sensorial para satisfazer as necessidades essenciais; mas, ao fazê-lo, deve-se tomar cuidado para não dar acesso ao mesmo tempo a tribos guerreiras que procuram atacar.
  95. O prazer é a mãe do desejo; o mau humor, da ira; a malícia, da inveja; quem não luta contra os líderes não será deixado em paz por seus subordinados; nem se pode refrear as paixões se se praticam os mandamentos apenas porque se é forçado a fazê-lo.
  96. Aqueles que repelem as provocações impedem que os pensamentos entrem na vinha espiritual como animais depredadores e a arruínem; aqueles que se associam às provocações, mas não sentem prazer nelas, simplesmente permitem que os animais entrem, embora não toquem em nada dentro; aqueles que comungam prazerosamente com as paixões por meio dos pensamentos, mas não chegam a dar assentimento a elas, são como homens que, depois de permitir que um javali entrasse pela cerca na vinha, impediram-no de saciar-se com as uvas, mas depois o encontraram mais do que podem controlar; tais pessoas frequentemente acabam dando assentimento às paixões.
  97. Se ainda é preciso dar atenção ao exercício do autodomínio, ainda não se alcançou a simplicidade; somente um engajado na luta ascética, segundo se diz, precisa exercer autodomínio (1Cor 9,25), não um espiritualmente perfeito; uma pessoa engajada na luta ascética é como um homem que tem uma vinha ou terra de trigo não entre outras vinhas ou outras fazendas, mas em algum lugar isolado, e que por isso precisa de muita guarda e vigilância; ninguém, porém, toca na vinha da pessoa que alcançou a simplicidade: ela é como a de um rei ou de algum outro potentado temível, cujo próprio nome é suficiente para fazer os ladrões e transeuntes estremecerem ao pensar em tentar entrar.
  98. Muitos sobem a cruz da mortificação, mas poucos consentem em ser nela pregados; pois muitos submetem-se a dificuldades e aflições de sua própria escolha, mas somente aqueles que morreram completamente para este mundo e para o descanso que ele oferece se submetem prontamente aos sofrimentos que vêm contra sua vontade.
  99. Muitos removeram todas as suas “túnicas de pele” (Gn 3,21), exceto a última, a da autoestima; esta só é lançada fora por aqueles que estão enojados com o que a produz: a própria autossatisfação.
  100. A pessoa a quem é oferecido conforto corporal e louvor dos homens, mas que recusa aceitá-los, foi despojada da túnica final, a da autoestima; a ela é concedida a graça de ser revestida, mesmo nesta vida presente, com o esplendor da morada celestial, ansiada com tantos suspiros.
  101. A energia ou capacidade para uma ação é uma coisa, e a ação ou coisa energizada é outra; um pecado efetivamente cometido é um exemplo da segunda, enquanto alguma forma de autoindulgência que é ativada apenas interiormente, não exteriormente, é um exemplo da primeira; alguém dominado por tal autoindulgência é como uma pessoa que, embora não seja despejada de sua própria propriedade, tem que pagar tributo a outros que controlam o que ela tem como querido.
  102. Quando o paladar é o principal fornecedor de prazer, os outros sentidos são obrigados a segui-lo; isso é assim mesmo que os órgãos reprodutores daqueles que são menos ardentes, como os idosos, pareçam imóveis e livres de excitação porque secaram; no entanto, a mulher estéril que comete adultério não será julgada casta pelo fato de não produzir filhos; dir-se-ia que somente a pessoa livre da paixão interiormente, e não seduzida pelo que vê, é inteiramente casta.
  103. O estado do aspecto desejante da alma é revelado através do alimento, dos gestos e da fala; através do que apraz e do que não apraz; através do paladar, da visão e da audição, tanto pelo uso que faz deles quanto pela maneira como os usa mal, e mesmo pela atitude neutra que adota em relação a eles.
  104. Onde o temor não conduz, os pensamentos estarão em estado de confusão, como ovelhas sem pastor; onde o temor conduz ou vai com elas, estarão sob controle e em boa ordem dentro do aprisco.
  105. O temor é filho da fé e pastor dos mandamentos; quem não tem fé não será considerado digno de ser ovelha do pasto do Senhor.
  106. Alguns possuem apenas os rudimentos das qualidades espirituais, alguns as possuem parcialmente, enquanto outros as possuem de forma completa; os primeiros são como um soldado raso, os segundos como um oficial sem dinheiro: o soldado mal pode defender sua casa dos que tentam danificá-la, enquanto o oficial não é tratado com o devido respeito quando encontra outros.
  107. Aqueles que nos exortam, imperfeitos como somos, a entregar-nos aos prazeres do paladar agem como pessoas que nos encorajam a reabrir feridas curadas, ou a coçar uma coceira por causa do prazer que proporciona, ou a comer alimentos que aumentam a febre, ou a cercar nossa vinha espiritual, mas a permitir que os impulsos da carne entrem como um javali e devorem nossos bons pensamentos como uvas; não se deve ceder a eles, nem à importuna adulação dos homens e das paixões; antes, deve-se fortalecer a cerca por meio do autodomínio, até que os animais selvagens — as paixões carnais — parem de uivar, e os pensamentos vãos não desçam mais como pássaros e despojem a vinha de nossa alma, rica que é da visão contemplativa que lhe foi concedida por nosso Senhor Jesus Cristo, a quem seja glória pelos séculos. Amém.
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