User Tools

Site Tools


primal:dionisio:luz

RICHARD TEMPLE

TEMPLE, Richard. Icons: a sacred art. London: Element Books, 1989.

Segundo Richard Temple, uma ideia, dentre as muitas verdades espirituais que encontramos em Dionísio o Areopagita, e que passaram para o cristianismo do misticismo helenista, foi o princípio da luz como um símbolo da influência divina radiando para fora e para baixo através de sucessivas regiões celestes do universo. Dionísio e outros escritores cristãos seguem Plotino em fazer a distinção entre a luz espiritual, invisível e seu símbolo, a luz física.

A Philokalia, como vimos, nos conta que aparte do sol físico que existe no universo visível há um sol espiritual no universo invisível. Em outras palavras a ação e energias da luz no mundo externo são imagens de energias interiores cujas ações têm lugar no mundo espiritual e dentro da psique o homem espiritual. Assim como Plotino, baseando-se em Platão, afirma que a luz do sol “é uma substância corpórea mas dela irradia esta outra luz que, embora tenha o mesmo nome, pronunciamos incorpórea”. ;E justamente esta luz interior, imperceptível aos sentidos, que os primitivos filósofos cristãos e buscadores da verdade davam a entender através de técnicas de dispôr a luz em seus ícones (v. Iconografia). A analogia é exata porque as leis dos cosmos superiores reproduzem-se nos inferiores tão perfeitamente que a manipulação da luz e da cor na obra de um mestre pintor de ícones se torna uma demonstração da verdade espiritual no plano material.

Alusões ao sentido simbólico da iluminação, através de sugestões a imagística da luz, são tão comuns que raramente damos a elas a consideração devida. Esquecemos que mesmo a luz física, sem a nutrição da qual a vida orgânica não poderia existir, tem propriedades extraordinárias.

Na filosofia tradicional a luz era considerada como sendo incorpórea e portanto divina, ou seja, pertencente àqueles níveis do cosmos que são acima da matéria. Não precisamos descartar tal pensamento levianamente mesmo embora a física moderna, pela Medida das vibrações da luz solar, estabeleça sua materialidade. Mesmo assim esta materialidade é de um grau mais fino do que qualquer substância terrestre e tem propriedades extra-terrestres. Sua fonte é o sol e transcende as limitações terrestres de espaço e tempo. A luz, portanto, pode ser dita existir em um universo que tem mais dimensões que a percepção dos sentidos pode compreender e em uma escala de tempo que, para nós, a eternidade.

Encontramos Dionísio, citando o que chama de “escritores sagrados”, pelos quais se refere a Plotino ou a seu mestre Proclo, definido a qualidade da Divindade Supra Divina:

Pois, assim como o sol material, sem que o compreenda ou o queira, mas pelo simples fato de sua existência, ilumina todas as coisas que, por sua natureza, são suscetíveis à sua luz, da mesma forma o bem — que supera tão eminentemente o sol, assim como um original, pelo simples fato de existir, supera a pálida cópia que se obtém dele — derrama sobre todos os seres, na medida em que são capazes de recebê-la, a suave influência de seus raios.

(…)

Mas o que se diria do sol se quiséssemos considerar separadamente esse astro radiante? Pois a luz provém do bem e é uma figura da bondade, e o bem poderia ser chamado de luz, podendo o arquétipo ser designado por sua imagem. Pois, como a bondade de Deus infinito penetra todos os seres, desde os mais elevados e os primeiros até os últimos e os mais humildes, e os ultrapassa a todos, sem que os mais sublimes possam alcançar sua excelência, nem os mais vis escapar de suas opressões, ao derramar sua luz sobre tudo o que é apto, e ao criar, vivificar, manter e aperfeiçoar: como é a medida, a duração, o número, a harmonia, o vínculo, o princípio e o fim de tudo: tal imagem visível e eco distante da bondade divina, o sol, farol imenso: inextinguível, resplandece em todos os corpos que a luz pode invadir, faz brilhar seu clarão e envolve o mundo visível, a terra e o céu com a glória de seus raios puros. E se alguns objetos não são penetrados, não é porque ela não possa alcançá-los ou porque os alcance de forma muito fraca, mas porque os próprios objetos não apresentam senão elementos grosseiros, pouco propícios a receber a luz: assim, ela parece passar adiante e distribuir sua riqueza nos corpos mais bem dispostos, mas nada do que se vê escapa à ação universal desse imenso lar. Além disso, o sol participa da formação dos seres organizados: dá-lhes vida, alimenta-os, proporciona-lhes crescimento e perfeição, purifica-os e renova-os. A luz nos permite medir e contar as estações, os dias e o resto dos tempos; e é essa mesma luz, mesmo que ainda não tivesse então sua forma definitiva, que distinguiu os três primeiros dias do nosso universo, segundo o relato de Moisés. Portanto: da mesma forma que a bondade os atrai e, como fonte divina e causa fecunda da bondade, atrai para o seu seio a multidão de seres que estão dispersos, por assim dizer, e que todas as coisas aspiram a ela como a seu princípio, a sua salvaguarda e a seu fim; da mesma forma que, segundo a expressão das Escrituras, tudo o que subsiste provém da bondade, foi criado por sua potência perfeita e se mantém preservado e protegido nela como em um fundamento incorruptível; da mesma forma que tudo se reduz a ela, como a seu próprio termo, e a anseia: os espíritos puros e as almas dotadas de inteligência, os animais por meio da sensibilidade, as plantas pelo movimento vegetativo, que é como um desejo de viver; as coisas inanimadas e dotadas de mera existência, por sua própria aptidão de participar do ser: assim, e na medida em que ela representa a bondade, a luz, centro potente, atrai para si tudo o que existe, tudo o que vê, tudo o que se move, tudo o que é capaz de brilhar e de aquecer; em geral, tudo o que ela envolve em seus raios: é por isso que os gregos chamam o sol (Helios), da palavra (aolles), porque ele acolhe e mantém na unidade os seres espalhados pelo universo, e todas as coisas sensíveis aspiram a ele, seja para desfrutar da visão, seja para receber dele o movimento, a luz e o calor, para serem preservadas por seu brilho vivificante. O que digo, no entanto, não é de acordo com a opinião dos antigos, que viam o sol como o deus, o criador e a providência soberana do mundo físico, mas porque, desde a origem do mundo, as criaturas tornaram visível e inteligível o que há de invisível em Deus, inclusive sua potência eterna e sua divindade.

V. Mas isso já foi tratado na Teologia simbólica. É preciso agora interpretar o nome de “luz” aplicado ao bem supremo. Ora, a bondade é chamada de luz espiritual, porque enche de seu esplendor inteligível todo espírito celestial: porque afasta a ignorância e o erro das almas onde elas se refugiam, dispensa a todas a luz sagrada, purifica seu entendimento das trevas cuja ignorância o ofuscava, desperta e abre sua visão interior, antes determinada e limitada pela escuridão. Primeiro, ela lhes envia um lampejo moderado; depois, quando já o saborearam, por assim dizer, e se encantaram com ele, a derrama com mais abundância e, por fim, a derrama em torrentes, quando já a amaram profundamente. Assim, ela os atrai incessantemente, cada vez mais, em função, no entanto, de seu zelo em aspirar à luz.

VI. Portanto, o Bem, superior a toda luz, é chamado de inteligível, pois é uma fonte fecunda e um amplo transbordamento de clareza, que enche com sua plenitude todos os espíritos, tanto aqueles que estão além dos mundos, quanto aqueles que governam os mundos e aqueles que os mundos contêm; que renova incessantemente sua força intelectual, os abraça envolvendo-os com sua imensidão, e os supera por sua elevação inacessível; que, enfim, princípio deslumbrante de todo esplendor, resume em si, possui eminentemente e com anterioridade toda potência de iluminação, e agrupa e mantém estreitamente unidas as inteligências puras e as almas sensatas. Pois, assim como a ignorância e o erro criam divisão, assim também a luz espiritual, ao surgir, relembra e reúne em um todo compacto as coisas que alcança, as aperfeiçoa, as orienta para o ser real, corrige suas opiniões vãs, reduz suas múltiplas visões — ou melhor, suas imaginações caprichosas — a um conhecimento único, verdadeiro, puro e simples, e as preenche com uma luz que é unidade e que produz a unidade.

Search
primal/dionisio/luz.txt · Last modified: by 127.0.0.1