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Corpus dionysiacum

Oeuvres complètes : Du pseudo-Denys l'Aréopagite. Traduction, préface et notes par Maurice de Gandillac

  • A discussão sobre a autoria do Corpus Dionysiacum, embora tenha superado a identificação com o Areopagita, permanece em aberto quanto às hipóteses positivas sobre sua origem, sem que nenhuma se imponha com evidência absoluta.
    • Os argumentos para uma datação no século IV incluem o silêncio simétrico de Basílio e Dionísio sobre a operação do Espírito Santo, a fórmula idêntica sobre distinções unidas e uniões distintas, e a contemporaneidade das alusões aos magos e ao mitraísmo.
    • A referência às alegorias materiais e “crapulosas” da Escritura, que Dionísio aborda, distingue-se da discussão basiliana sobre os nomes negativos de Deus, como imortal e invisível.
  • A influência do Corpus, independentemente de sua origem, é considerada incontestável e vasta, tendo provocado reações que vão da tentativa de depreciar seu efeito sobre a tradição cristã à veneração que leva a fechar os olhos às evidências críticas.
    • Bossuet acusou o Pseudo-Dionísio de ser responsável, por sua linguagem extraordinária, por exageros verbais e desvios dogmáticos em místicos modernos.
    • Historiadores da espiritualidade deploram que, por meio de Dionísio, o plotinismo tenha se tornado o quadro normal da mística cristã.
    • Admiradores como o cardeal de Cusa, apesar de sua crítica à doação de Constantino, são citados como exemplos de quem pode ter fechado os olhos às evidências para não profanar o ídolo.
  • A inserção do Corpus numa Biblioteca Filosófica justifica-se pela sua própria concepção de teosofia, uma sabedoria divina que não opõe razão e fé, mas as integra num sistema onde a filosofia é um dom que procede de Deus.
    • O autor não opõe a razão à fé, nem as justapõe, pois o objeto da iluminação cristã é uma teosofia, uma sabedoria aplicada às realidades divinas.
    • A sabedoria que vem de Deus é chamada de filosofia, e tanto a filosofia de Jó sob a Lei Antiga quanto a perfeita filosofia dos monges sob a Nova Aliança procedem de Deus.
    • A Carta IX distingue duas teologias: uma que busca a clareza por demonstração no visível, e outra que procede por símbolos no domínio do indicível, supondo uma iniciação divina.
  • A teologia é essencialmente mística e iniciática, baseada na Escritura como um conjunto de oráculos que revelam a Deus, e sua interpretação simbólica é necessária para evitar que os profanos a entendam em sentido carnal.
    • A teologia não se apresenta como discussão sistemática, mas como iniciação e revelação, sendo os teólogos como Isaías, Ezequiel, Paulo e João, mais reveladores que doutrinários.
    • A teologia, na consagração episcopal, é imposta sobre a cabeça do iniciado como símbolo da teofania, da palavra consagratória e da operação divina (teurgia).
    • O símbolo teológico deve ser decifrado para conduzir à gnose dos inteligíveis, pois o profano o interpretaria em sentido carnal, sendo essa a razão da regra do segredo.
    • Os judeus, sob a Lei, conheciam apenas a tradição textual, enquanto os anjos, sob a Graça, estão plenamente à vontade no universo alegórico, e a hierarquia eclesiástica constitui um intermediário entre o texto e a alegoria.
  • A mística dionisiana não é subjetivista nem reservada a alguns privilegiados, mas consiste no desvendamento das alegorias por toda a ordem contemplativa, que inclui todo o povo santo, excluindo apenas pecadores e penitentes.
    • A contemplação (theoria) em Dionísio não é o “só a só” da alma com Deus, como em Plotino, mas a interpretação simbólica de cada rito da liturgia cristã.
    • A teologia mística, que concerne sacramental e hierarquicamente aos iluminados, supõe uma simbólica inteligível das alegorias e culmina numa fase silenciosa.
  • A teologia do Corpus articula-se em métodos afirmativo (catáfase) e negativo (apófase), que são transcendidos pela verdadeira Teologia Mística na “Ténèbre”, onde todas as oposições são superadas numa experiência extática.
    • Os Nomes Divinos e os tratados perdidos procedem por via afirmativa, multiplicando fórmulas inadequadas e imagens dessemelhantes para falar das potências de Deus.
    • A via negativa define a essência divina negando nomes, mas a verdadeira Teologia Mística está além das negações, na douta ignorância que será desenvolvida por São Boaventura e Nicolau de Cusa.
    • O ápice da ascensão, que conduz ao superessencial, ultrapassa as iniciações simbólicas, os ritos e o duplo movimento da catáfase e da apófase, na Ténèbre onde se transcendem as oposições do sim e do não.
    • A perfeição é um estado limite, e o monge, que unifica sua alma ao máximo, aproxima-se menos dificilmente da cimeira, mas ninguém a atinge plenamente, pois é Deus quem se diz invisível.
  • Embora o neo-platonismo de Jâmblico e Proclo seja uma influência clara, a concepção dionisiana da Trindade é estritamente ortodoxa, evitando qualquer degradação das hipóstases e afirmando a criação voluntária.
    • Dionísio evita equívocos ao falar da Tríade e da Procissão, mantendo a perfeita igualdade das três Hipóstases, com a geração do Filho e a espiração do Paracleto.
    • A criação voluntária é afirmada, embora o autor não pareça ter plena consciência da oposição radical entre emanação natural e criação contingente.
    • Dionísio se separa da tradição platônica sobre a preexistência e migração das almas, afirmando a união perpétua da alma com o corpo material.
    • A doutrina do mal como privação é desenvolvida longamente, ecoando o tratado de Proclo sobre a subsistência dos males, e a primazia do Belo e do Bem sobre o Ser é de inspiração platônica.
  • O conceito de amor (Erós) é central e universal, implicando uma ekstasis que faz sair de si mesmos tanto os amantes quanto o próprio Deus, sendo a união deificante seu caso extremo.
    • O Pseudo-Dionísio prefere o termo Erós a Agapé, especialmente para Deus, para que ninguém tome as alegorias das “pornografias” bíblicas ao pé da letra.
    • O Erós divino é a fonte da efusão infinita e impulsiona Deus a produzir o universo, os superiores a guiar os inferiores e os inferiores a se elevarem.
    • A distinção dos três movimentos (direito, circular, helicoidal) provém provavelmente do comentário de Hermias sobre o Fedro.
  • A rígida estrutura hierárquica, que à primeira vista parece autoritária e teocrática, é neutralizada pela imagem dos raios do círculo que tocam igualmente o centro, e pela noção de que a posição de cada ser na hierarquia é determinada por sua capacidade de participar da Luz divina.
    • A analogia, para Dionísio, significa “à medida das forças ou dos méritos de cada um”, e a hierarquia resulta da diferença de esforço dos seres para se aproximarem do Bem.
    • O selo não é culpado pelas diferenças nas impressões, mas a alteridade do participante é que torna as reproduções dessemelhantes.
    • O proselitismo é essencial, pois a cada grau, os seres também auxiliam seus inferiores a se elevarem, sendo a finalidade da hierarquia o amor contínuo a Deus e a deificação.
    • A salvação é oferecida a todos, e a hierarquia não é um decreto arbitrário, mas a expressão da liberdade dos seres e de sua luta para alcançar o Bem.
  • A redenção e a encarnação, embora não sejam tratadas com a ênfase ocidental na Paixão, são afirmadas como manifestações da providência geral, oferecendo o sacrifício redentor a todos, mas a obstinação dos pecadores limita o alcance da vontade salvífica universal.
    • A encarnação é apresentada como uma manifestação salvífica da providência, mas sua relação com o pecado contingente não é explorada, evitando o autor penetrar no segredo da decisão divina.
    • O sacrifício redentor vale para todos, judeus, gregos ou bárbaros, e as instituições e símbolos eclesiásticos foram dados para a salvação e a deificação.
    • A vontade divina de salvação universal é limitada pela obstinação irredutível de certos pecadores, conforme o próprio autor afirma.
  • A ordem adotada na presente edição dos tratados, que coloca os Nomes Divinos antes das Hierarquias, visa facilitar a compreensão do leitor, seguindo as indicações do próprio texto sobre a sequência das obras.
    • Os Nomes Divinos remetem continuamente a Esboços Teológicos que os teriam precedido e anunciam uma Teologia Simbólica que conduz à Teologia Mística.
    • Após a ascensão ao inefável, a posição das duas Hierarquias, celeste e eclesiástica, se impõe naturalmente.
    • O leitor penetrará mais facilmente na difícil doutrina do autor pelos Nomes Divinos do que através das alegorias da angelologia.
  • A edição apresentada não segue a ordem tradicional dos tratados, optando por colocar os Nomes Divinos antes das Hierarquias, a fim de facilitar a compreensão do leitor.
    • A decisão baseou-se nas indicações do próprio texto, que refere os Nomes Divinos a Esboços Teológicos anteriores e os anuncia como precursores de uma Teologia Simbólica que leva à Teologia Mística.
    • Após a ascensão ao inefável, a posição das Hierarquias, celeste e eclesiástica, impõe-se naturalmente, sem necessidade de situar os outros tratados fictícios.
    • As cartas foram mantidas no final do volume, conforme o uso constante, por ser difícil distribuí-las ao longo dos tratados que complementam.
    • Acredita-se que o leitor penetrará mais facilmente na difícil doutrina do autor pelos Nomes Divinos do que através das alegorias da angelologia, que podem surpreender o espírito moderno.
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