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Discurso ascético...
Discurso ascético dividido em cem capítulos práticos sobre o conhecimento e o discernimento espiritual.
- Todo o esforço de contemplação espiritual deve ser governado pela fé, esperança e amor, sendo o amor o mais importante, pois une a alma à excelência divina e busca o Invisível por meio da percepção intelectual.
- Somente Deus é bom por natureza, mas o homem, com a ajuda divina e mediante atenção cuidadosa à sua conduta, pode tornar-se bom ao unir sua alma a Deus, transformando-se no que não era, conforme suas energias o desejarem.
- O mal não existe por natureza, e nenhum homem é naturalmente mau, pois Deus criou tudo bom; o mal surge quando alguém concebe e dá forma ao que não tem existência real, sendo necessário desviar a atenção da inclinação ao mal e concentrar-se na lembrança de Deus, pois o bem é mais poderoso.
- Todos os homens são feitos à imagem de Deus, mas a semelhança é concedida apenas àqueles que, por grande amor, sujeitam sua liberdade a Deus, deixando de pertencer a si mesmos e evitando as distrações do brilho enganoso desta vida.
- O livre-arbítrio é o poder da alma divina de se dirigir, por escolha deliberada, ao que decide, devendo-se assegurar que a alma se oriente apenas para o bem, consumindo a lembrança do mal com pensamentos bons.
- A luz do verdadeiro conhecimento é a capacidade de discernir sem erro entre o bem e o mal, guiando o intelecto para a iluminação espiritual e fortalecendo sua busca pelo amor, devendo-se arrancar a justiça das mãos dos que a ultrajam não pelo ódio, mas pela convicção de suas faltas.
- O discurso espiritual satisfaz plenamente a percepção intelectual por vir de Deus pela energia do amor, permitindo que o intelecto se concentre na teologia sem ansiedade, sendo justo esperar, com fé energizada pelo amor, a iluminação para falar, pois nada é mais carente que uma mente filosofando sobre Deus sem Ele.
- Os não iluminados não devem empreender especulações espirituais, nem se deve falar quando a luz do Espírito Santo brilha abundantemente, pois a riqueza do Espírito torna a fala impossível; deve-se buscar o ponto médio entre esses extremos, que confere harmonia às palavras, nutrindo a fé pela riqueza da iluminação.
- A sabedoria e o conhecimento espiritual são dons do mesmo Espírito Santo, cada um com sua energia distinta: o conhecimento une o homem a Deus pela experiência, enquanto a sabedoria expressa externamente as energias interiores, vindo o conhecimento pela oração e recolhimento, e a sabedoria pela meditação humilde nas Escrituras e pela graça divina.
- Quando o poder incitativo da alma se levanta contra as paixões, é tempo de silêncio e batalha; mas, quando a turbulência se acalma, pode-se desejar proclamar os mistérios divinos, contendo o intelecto com a humildade, pois só quem se aniquila pode falar da majestade de Deus.
- O discurso espiritual mantém a alma livre da presunção, enchendo-a de luz e dispensando o louvor humano, e mantém a mente livre da fantasia, imbuindo-a do amor de Deus, enquanto o discurso mundano provoca presunção e desejo de louvor, sendo possível saber o estado próprio para falar de Deus quando, no silêncio, se mantém a lembrança fervorosa de Deus.
- Quem ama a si mesmo não pode amar a Deus, mas quem não ama a si mesmo por causa do amor divino ama verdadeiramente a Deus, buscando a glória do Criador e não a própria, alegrando-se na humildade, pois a glória convém a Deus e a humildade une o homem a Deus.
- Conhece-se um homem que ama intensamente a Deus, mas sofre por não amá-lo tanto quanto deseja, desejando que Deus seja glorificado e ele mesmo aniquilado, sem se preocupar com sua posição ou dignidade, humilhando-se como servo inútil, devendo todos fazer o mesmo, fugindo da honra e glória no amor abundante pelo Senhor.
- Quem ama a Deus conscientemente em seu coração é conhecido por Deus e, ao receber esse amor, nunca perde o desejo pela iluminação espiritual até sentir sua força e ser completamente transformado pelo amor divino, transcendendo o amor-próprio e viajando em direção a Deus com o coração ardente.
- Quando o homem percebe a riqueza do amor de Deus, começa a amar o próximo com percepção espiritual, um amor que não se dissolve por ofensas, pois a doçura de Deus consome a amargura das contendas.
- Ninguém pode amar a Deus conscientemente sem primeiro temê-Lo de todo o coração, pois o temor purifica a alma e a desperta para o amor; o temor dos que estão sendo purificados é acompanhado por uma medida moderada de amor, mas o amor perfeito é encontrado naqueles que já foram purificados e em quem não há mais temor.
- Se as feridas do corpo são negligenciadas, não reagem ao medicamento, mas, quando limpas, são curadas; da mesma forma, a alma negligenciada não experimenta o temor de Deus, mas, quando purificada pela atenção, experimenta o temor como medicina, até alcançar o amor perfeito e a completa impassibilidade.
- Quem não está desapegado das preocupações mundanas não pode amar verdadeiramente a Deus nem odiar o demônio como deve, pois tais preocupações são um fardo e um véu que impedem o intelecto de discernir o julgamento, sendo por isso o afastamento do mundo inestimável.
- As qualidades de uma alma pura são inteligência sem inveja, ambição sem malícia e amor incessante pelo Senhor da glória, permitindo ao intelecto avaliar com precisão como será julgado.
- A fé sem obras e as obras sem fé são ambas condenadas, pois quem tem fé deve oferecer ao Senhor a fé que se manifesta em ações, como Abraão, que foi justificado por oferecer o fruto de sua fé.
- Quem ama a Deus crê verdadeiramente e realiza as obras da fé reverentemente, mas quem crê e não ama carece até da fé que pensa ter, pois a parte principal da virtude é a fé energizada pelo amor.
- As águas profundas da fé parecem turbulentas quando perscrutadas com curiosidade, mas são calmas quando contempladas com simplicidade, não se revelando ao raciocínio intrometido; deve-se navegá-las com simplicidade para alcançar o porto da vontade de Deus.
- Ninguém pode amar ou crer verdadeiramente sem primeiro se acusar, pois, enquanto a consciência está perturbada, o intelecto não sente o perfume das bênçãos celestiais; mas, quando purificado pela atenção mais estreita, alcança-se o que se deseja com experiência mais plena de Deus.
- Assim como os sentidos do corpo impulsionam para o que os atrai, a faculdade perceptiva do intelecto, ao provar a bondade divina, conduz para as bênçãos invisíveis, pois a alma, sendo incorpórea, deseja os bens celestiais, e se refina para experimentar a percepção imaterial.
- O conhecimento divino desperta e ensina que a faculdade perceptiva natural da alma é una, mas dividida pela desobediência de Adão; esta unidade é implantada pelo Espírito Santo, mas só é realizada por aqueles que abandonam os deleites corruptíveis e controlam os apetites sensoriais, permitindo que o intelecto perceba a bondade de Deus e comunique a alegria ao corpo.
- Os que seguem o caminho espiritual devem manter a mente livre de agitação para discriminar os pensamentos, guardando os bons e expulsando os maus, pois, assim como os pescadores veem no mar calmo, o intelecto, quando não é perturbado pela ira, percebe as criaturas que se movem nas águas da alma.
- Poucos homens podem reconhecer com precisão todas as suas próprias faltas, apenas aqueles cujo intelecto nunca se afasta da lembrança de Deus, pois, assim como olhos saudáveis veem até os pequenos objetos, a alma atenta considera suas menores faltas como graves e chora com profunda gratidão.
- Só o Espírito Santo pode purificar o intelecto, devendo-se fazer da alma uma morada para Ele através da paz, para que a lâmpada do conhecimento espiritual brilhe constantemente, percebendo e enfraquecendo os ataques dos demônios, pois não se deve entristecer o Espírito com más ações ou pensamentos.
- O Espírito Santo ensina que a faculdade perceptiva da alma é una, mas dividida pela desobediência de Adão, com uma parte da alma levada pelas paixões e outra que se deleita na atividade intelectual; pela persistência no desapego, pode-se unir o apetite terreno ao espiritual, pela comunhão do Espírito Santo.
- A faculdade perceptiva do intelecto consiste no poder de discriminar com precisão os sabores das realidades, tal como o paladar físico distingue os alimentos; quando o intelecto age com vigor e completo desapego, percebe a riqueza da graça de Deus, escolhendo o que é melhor, como ensina São Paulo.
- Quando o intelecto começa a perceber a graça do Espírito Santo, Satanás importuna a alma com doçura enganosa no sono; se o intelecto se apega fervorosamente ao nome do Senhor Jesus, ele desiste e ataca diretamente, discernindo-se claramente o engano.
- A experiência da verdadeira graça ocorre quando o corpo está acordado ou prestes a adormecer, na lembrança fervorosa de Deus, enquanto a ilusão da graça vem no sono leve e com lembrança indiferente; a verdadeira graça alegra conscientemente e impulsiona ao amor, enquanto a ilusão agita com ventos de engano.
- A alma, livre de toda fantasia e imagem, move-se em direção a Deus com amor inefável, arrastando o corpo, e quando experimenta isso, é a energia do Espírito Santo; mas se surgem dúvidas ou pensamentos impuros, mesmo invocando o nome santo, a doçura é ilusão, distinguindo-se assim o Espírito da verdade do espírito de erro.
- O amor natural da alma difere do amor que vem do Espírito Santo; o primeiro depende do assentimento da vontade e é pervertido pelos demônios, enquanto o segundo inflama a alma e a torna fértil, transbordando de amor e alegria.
- Assim como o mar se acalma com óleo, a alma se acalma com a graça do Espírito Santo, permanecendo livre da ira e cheia de alegria, mesmo provocada pelos demônios, quando se doçura continuamente com o temor de Deus.
- Ao falar da faculdade perceptiva do intelecto, não se quer dizer que a glória de Deus aparece visivelmente; a alma pura percebe a graça de Deus de forma inefável, mas não deve aceitar visões de luz ou fogo, pois são enganos do inimigo, já que, enquanto no corpo corruptível, estamos ausentes do Senhor.
- Os sonhos que vêm do amor de Deus são critérios infalíveis de saúde, não mudam de forma, enchem a alma de alegria espiritual, enquanto as fantasias demoníacas são inconstantes, ameaçadoras e enganosas, sendo o intelecto puro capaz de reconhecê-las.
- A distinção entre sonhos bons e maus foi aprendida com os experientes, mas a regra mais segura na busca pela pureza é nunca confiar em sonhos, pois são imagens de pensamentos errantes ou zombarias de demônios, e Deus não se irá se recusarmos uma visão por precaução contra os enganos.
- Ilustra-se a precaução com o servo que não abre a porta ao mestre à noite, com medo de engano, e é elogiado por sua fidelidade, não se irando o mestre ao amanhecer.
- O intelecto, quando fortemente energizado pela luz divina, torna-se translúcido e vê sua própria luz, mas tudo que aparece ao intelecto com forma é artifício do inimigo; o objetivo deve ser perceber o amor de Deus plenamente no coração.
- A obediência é a principal das virtudes iniciadoras, deslocando a presunção e gerando humildade, tornando-se porta para o amor de Deus; pela humildade, o Senhor obedeceu até a morte e libertou a humanidade, sendo a humildade a primeira preocupação na luta contra a presunção.
- O autocontrole é comum a todas as virtudes, devendo ser praticado em tudo, pois descuidar de uma virtude prejudica a harmonia; é necessário cultivar virtudes corporais e interiores, evitando a vaidade e a impaciência, para merecer a coroa no julgamento.
- Os que seguem o caminho espiritual devem odiar os desejos descontrolados até que isso se torne hábito; no autocontrole alimentar, nunca se deve sentir aversão por nenhum tipo de alimento, mas refrear-se do excesso e dar aos pobres o que sobra, como sinal de amor sincero.
- Não é contrário ao conhecimento verdadeiro comer e beber de tudo com ação de graças, mas abster-se de prazeres excessivos mostra maior discernimento; não se pode, no entanto, desapegar-se dos prazeres sem provar plenamente a doçura de Deus.
- O excesso de comida torna o intelecto lento, e a abstinência excessiva o abate; deve-se regular a alimentação conforme a condição do corpo, para que esteja disciplinado e forte para as labutas.
- Quando atacado por pensamentos de presunção, é bom relaxar um pouco a disciplina alimentar para frustrar o demônio e cumprir a regra do amor, mantendo oculto o mistério do autocontrole.
- O jejum, embora valioso, não é motivo de orgulho diante de Deus, sendo uma ferramenta para treinar os que desejam o autocontrole, devendo o asceta pensar apenas em alcançar o objetivo, como um artista que espera a obra provar sua habilidade.
- A terra regada na medida certa produz boa colheita, mas encharcada produz espinhos; da mesma forma, beber vinho com medida produz bons pensamentos, mas o excesso produz pensamentos espinhosos.
- O intelecto, em ondas de bebedeira excessiva, forma imagens apaixonadas e trata suas fantasias como mulheres amadas; deve-se manter a medida para evitar o dano do excesso, permanecendo livre de fantasia e fraqueza.
- Quem deseja disciplinar os órgãos sexuais deve evitar aperitivos artificiais, prejudiciais ao corpo e ofensivos à consciência, pois adulteram o vinho.
- Jesus Cristo, Senhor e Mestre, ofereceu vinagre na Paixão, deixando exemplo de combate espiritual; os que lutam contra o pecado devem suportar a amargura da guerra, com hissopo na esponja da ignomínia, para a purificação.
- Tomar banhos não é estranho ou pecaminoso, mas abster-se deles é sinal de grande controle; para os que renunciaram à vida caída, a pureza do corpo ajuda a adquirir a beleza do autocontrole.
- Nada impede chamar um médico na doença, mas não se deve colocar a esperança de cura neles, e sim em Jesus Cristo; para os que vivem em mosteiros ou cidades, o cuidado é necessário, evitando a jactância de não precisar de médicos, enquanto os eremitas devem confiar no Senhor e na solidão.
- Quando se fica angustiado com a doença, reconhece-se que a alma ainda é escrava dos desejos corporais; mas, se a aceita com gratidão, está perto da impassibilidade e espera a morte como entrada na vida verdadeira.
- A alma não desejará separar-se do corpo sem se tornar indiferente ao ar que respira; o asceta não deve se preocupar excessivamente com belezas visíveis, estando contente com o necessário e considerando esta vida como estrada para a eternidade.
- Eva ensina que a visão, o paladar e os outros sentidos, usados sem moderação, distraem o coração da lembrança de Deus; deve-se olhar sempre para o fundo do coração com a lembrança contínua de Deus, passando por esta vida enganosa como cegos.
- Quem habita continuamente em seu coração está desapegado das atrações do mundo, vivendo no Espírito e dentro da fortaleza das virtudes, imune aos assaltos dos demônios.
- Quando a alma perde o apetite pelas belezas terrenas, o desânimo pode entrar, impedindo o prazer no estudo e no ensino; para evitar isso, deve-se confinar a mente na lembrança de Deus para recuperar o fervor original.
- Quando se bloqueiam as saídas do intelecto pela lembrança de Deus, ele exige uma tarefa; deve-se dar-lhe apenas a oração “Senhor Jesus”, concentrando-se intensamente, pois aqueles que meditam neste nome podem ver a luz do próprio intelecto, que queima a impureza e desperta o amor a Deus.
- A alegria iniciadora difere da alegria da perfeição, vindo entre elas a tristeza segundo Deus e as lágrimas; a alma é chamada à luta pela alegria iniciadora e depois provada pela verdade do Espírito, experimentando a alegria livre de fantasia pela lembrança fervorosa.
- Quando a alma é perturbada pela ira, confusão ou depressão, o intelecto não pode reter a lembrança de Deus; mas, quando livre dessas paixões, a graça compartilha a meditação e ensina a repetir “Senhor Jesus”, como uma mãe ensina seu filho a chamar pelo pai.
- O poder incitativo frequentemente perturba a alma, mas, quando dirigido com calma contra os pecadores para corrigi-los, torna a alma mais mansa e harmoniosa com a justiça de Deus, sendo uma arma implantada por Deus, e seu uso controlado é julgado mais favoravelmente do que a inércia.
- Quem participa do conhecimento divino não deve se defender na justiça humana, pois ela é inferior à justiça divina; Cristo, quando insultado, não retaliou, e os homens mundanos sempre recorrem aos tribunais, tornando a justiça ocasião de injustiça.
- Alguns piedosos afirmam que se deve processar quem rouba, especialmente cristãos, para não encorajar o crime, mas isso é um pretexto para preferir os bens à salvação; é melhor suportar a injustiça e orar para que os culpados se arrependam, pois a justiça divina quer receber o ladrão arrependido, não os objetos roubados.
- Uma vez que o caminho espiritual se torna realidade, é adequado vender todos os bens imediatamente, seguindo o mandamento, para assegurar o desapego e a humildade, que aquece e acolhe como uma mãe que abraça seu filho nu.
- O Senhor exigirá contas da ajuda aos necessitados conforme o que se tem; se alguém distribui tudo rapidamente, não pode ser acusado, e Deus não faltará à criação; aquele que argumenta sobre os necessitados não deve insultar a Deus; após a distribuição, a alma se humilha e busca pela oração e paciência o que não pode mais dar.
- Todos os dons de Deus são perfeitos, mas a teologia é o dom que mais inflama o coração para o amor; ela leva a desprezar a vida presente, abraça o intelecto com fogo transformador e une a alma a Deus em comunhão inquebrantável, harmonizando os louvores.
- O intelecto muitas vezes acha difícil orar, mas se alegra na teologia; para evitar excesso de palavras ou exaltação, deve-se dedicar mais tempo à oração, salmos e leitura das Escrituras, mantendo o intelecto livre de fantasia e buscando a humildade e o discernimento.
- No início do caminho, a alma experimenta a iluminação consciente pela graça, mas, ao avançar, a graça age ocultamente para manter o conhecimento livre de arrogância, equilibrando a tristeza e a alegria para evitar o desespero e a presunção.
- Assim como o calor escapa pelas portas abertas do banho, a alma dissipa a lembrança de Deus pela verbosidade, mesmo falando coisas boas; o silêncio oportuno é precioso, pois é a mãe dos pensamentos mais sábios.
- O conhecimento espiritual ensina que, no início da busca pela teologia, a alma é perturbada por paixões, principalmente ira e ódio, pois, ao se elevar, não suporta ver a justiça pisoteada; é melhor lamentar a insensibilidade dos injustos do que odiá-los, pois o ódio paralisa o conhecimento espiritual.
- O teólogo, cuja alma se alegra nos oráculos divinos, chega à impassibilidade, enquanto o gnóstico, enraizado na experiência, está acima das paixões; ambos se maravilham mutuamente, aumentando a humildade, pois a teologia e a gnose nunca ocorrem em plenitude na mesma pessoa.
- Em estado de bem-estar natural, a pessoa canta salmos em voz alta, mas, quando energizada pelo Espírito, canta e ora apenas no coração; o silêncio mantém o fervor da lembrança de Deus, e, na despondência, deve-se cantar em voz alta para dissolver a névoa.
- Quando a alma alcança o autoconhecimento, produz um calor para Deus, mas é facilmente roubado pelo mundo ou pelo esgotamento natural; o calor do Espírito Santo é pacífico e duradouro, despertando o desejo por Deus, e, embora o amor natural seja saudável, falta-lhe o poder do amor espiritual.
- Assim como o vento norte purifica o ar e o vento sul traz neblina, a alma, quando energizada pelo Espírito Santo, é liberta da névoa demoníaca; deve-se sempre enfrentar o vento vivificante do Espírito para contemplar o divino em ar luminoso.
- Alguns imaginam que graça e pecado habitam juntos no intelecto, mas, antes do batismo, a graça encoraja de fora e Satanás está dentro; após o batismo, o demônio está fora e a graça dentro, embora ele ainda aja através dos humores do corpo, permitido por Deus para provação.
- Desde o batismo, a graça está oculta no intelecto e se revela quando se ama a Deus; ao se despojar dos bens temporais, descobre-se o tesouro escondido, e a graça se revela mais à medida que a alma avança, mas Deus permite ataques demoníacos para ensinar o discernimento e a humildade.
- Participa-se da imagem de Deus pela atividade intelectual, mas, com a queda, o corpo tornou-se corruptível; o Logos encarnou e, pelo batismo, somos renovados, e, se nos comprometemos totalmente com Deus, somos purificados, sendo impossível que duas forças contrárias habitem a alma simultaneamente.
- Satanás é expulso pelo batismo, mas é permitido agir no corpo; a graça habita nas profundezas da alma, e, quando lembramos fervorosamente de Deus, sentimos o desejo divino, enquanto os demônios atacam pelos sentidos do corpo, especialmente nos imaturos.
- O conhecimento espiritual ensina que há espíritos malignos sutis e materiais: uns atacam a alma, outros o corpo; quando a graça não habita, eles se escondem no coração, mas, quando a graça está no intelecto, eles se movem como nuvens, e os pensamentos sobre a morte e o julgamento ajudam a combatê-los.
- Nos Evangelhos, o Senhor ensina que Satanás, ao voltar e encontrar a casa vazia, traz outros espíritos; isso indica que, enquanto o Espírito Santo está em nós, Satanás não pode habitar no fundo da alma, mas luta contra o intelecto através do corpo, como distingue São Paulo.
- O coração produz pensamentos bons e maus, não por natureza, mas por hábito do mal e ataques demoníacos; o intelecto se apropria dos pensamentos sugeridos pela carne, e o Senhor censura o consentimento a eles, não a coabitação da graça com o demônio.
- O Senhor diz que um homem forte não pode ser expulso de casa sem outro mais forte; como pode o intruso, expulso, voltar a habitar com o verdadeiro mestre? Um rei não permite que um rebelde derrotado compartilhe seu palácio.
- A presença de pensamentos bons e maus juntos não se deve à coabitação do Espírito e do demônio no intelecto, mas à graça que se oculta até ver a inclinação da alma; quando o homem se volta para o Senhor, a graça se revela e permite ataques para a purificação, até que a alma se fortaleça.
- O Senhor declara que Satanás caiu do céu como relâmpago, não podendo habitar no intelecto com Deus; há dois tipos de retirada de Deus: a educativa, que não priva da luz e visa o progresso, e a total, que entrega a alma aos demônios; a primeira traz tristeza e humildade, a segunda desespero e incredulidade.
- Na retirada educativa, a graça apoia a alma ocultamente, e a vitória parece ser da alma; quando Deus se retira totalmente, a alma deve se confessar e chorar incessantemente; a luta direta com Satanás ocorre na retirada educativa, com apoio oculto da graça.
- Assim como o corpo fica aquecido na frente e frio atrás quando exposto ao sol, o coração é parcialmente aquecido pela graça, produzindo pensamentos espirituais e carnais simultaneamente; isso não significa que dois seres lutam no intelecto, mas que a faculdade de pensar está dividida pela queda.
- A graça confere dois dons no batismo: a renovação da imagem de Deus e a semelhança, que requer cooperação; quando o intelecto percebe o Espírito, a graça pinta a semelhança divina sobre a imagem, sendo a virtude que confere a impassibilidade é o amor, que renova o homem interior.
- Se desejamos ardentemente a santidade, o Espírito dá um gosto pleno da doçura de Deus, mas depois oculta o dom para que não nos consideremos perfeitos; o demônio do ódio atormenta a alma, e é necessário esforço para alcançar o amor perfeito, que transforma e sacia.
- Um homem que amava o Senhor com constância disse ter experimentado o amor divino tão fortemente que sua alma desejava partir para o Senhor; quem experimenta esse amor não se ira contra quem o insulta, mas apenas contra os que injuriam os pobres ou falam iniquidade, transcendendo a própria fé.
- O conhecimento espiritual, quando ativo, produz remorso se insultamos alguém, e não descansa até restaurar a paz, pois o conhecimento, consistindo de amor, não permite a contemplação sem recuperar o amor pelo que se irou.
- Para os que começam a desejar a santidade, o caminho parece árduo, mas, após percorrer metade, torna-se suave; é necessário esforço inicial, mas o Senhor concede prontidão e alegria, como está escrito.
- Assim como a cera precisa ser amolecida para receber o selo, o homem deve ser testado por labutas e fraquezas; Paulo se gloriava em suas fraquezas, e hoje, na paz da Igreja, as doenças e maus pensamentos são um segundo martírio, purificando a alma.
- A humildade é difícil de adquirir, vindo de duas maneiras: pela fraqueza corporal ou oposição, ou pela plena iluminação, que torna a humildade natural; a primeira é marcada por remorso, a segunda por alegria, sendo a segunda alcançada apenas após passar pela primeira.
- Os que amam os prazeres passam dos maus pensamentos aos pecados, enquanto os ascetas lutam contra os pecados e depois contra os pensamentos; os demônios atacam através da presunção e verbosidade, devendo o intelecto dedicar-se às boas obras e à lembrança do Senhor.
- Quando o coração sente as setas dos demônios com dor ardente, a alma começa a se purificar e a odiar as paixões; para limpar o coração, deve-se manter a lembrança do Senhor Jesus incessantemente, queimando as impurezas, como um ourives que não deixa o fogo apagar.
- A impassibilidade não é a liberdade dos ataques dos demônios, mas permanecer invicto sob ataque, protegido pela armadura da luz divina, pois a pureza não é apenas cessar o mal, mas destruí-lo ativamente com o bem.
- Quando o homem de Deus vence quase todas as paixões, restam dois demônios: um desvia para um zelo mal direcionado, e o outro inflama a luxúria; combate-se o primeiro com humildade e amor, e o segundo com autocontrole e meditação na morte.
- Os que participam do conhecimento de Deus deverão prestar contas até das imaginações involuntárias; é necessário confessar estritamente até as falhas involuntárias, pois o julgamento de Deus é mais severo que a consciência, e o temor na hora da morte pode ser um advogado contra a alma.
- A alma que se alegra no amor de Deus, na hora da partida, é elevada pelos anjos sobre os principados das trevas, pois o amor é o cumprimento da lei; os que sentem medo na hora da morte serão provados pelo fogo do julgamento, recebendo o que merecem segundo suas obras.
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