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Clemente de Alexandria — Stromata
Capítulo XV — Respondida A Objeção De Não Se Unir À Igreja Por Causa Da Diversidade Das Heresias
- A objeção feita por gregos e judeus de que não se deve crer por causa da discórdia das seitas — pois a verdade é distorcida quando uns ensinam um conjunto de dogmas e outros outro — é respondida pelo fato de que entre os próprios judeus e entre os filósofos mais famosos dos gregos muitíssimas seitas brotaram, e nem por isso se diz que se deva hesitar em filosofar ou judaizar.
- O Senhor profetizou que heresias seriam semeadas entre a verdade como joio entre o trigo — e o que foi predito não poderia deixar de acontecer; e a causa disso é que tudo o que é belo é seguido por uma mancha feia.
- Se alguém viola seus compromissos e se afasta da confissão que faz diante de nós, não devemos abandonar a verdade porque ele mentiu sobre sua profissão — assim como o homem bom não deve falhar em ratificar o que prometeu, ainda que outros violem seus compromissos.
- Os médicos que sustentam opiniões opostas segundo suas escolas tratam igualmente, de fato, os pacientes — e quem está doente no corpo não deixa de recorrer a um médico por causa das diferentes escolas da medicina; assim também quem está doente na alma não pode alegar as heresias como pretexto para a conversão a Deus.
- As heresias existem “por causa dos que são aprovados” — e o apóstolo chama de aprovados ou aqueles que, ao alcançar a fé, se aplicam ao ensinamento do Senhor com algum discernimento, ou aqueles que já se tornaram aprovados tanto em vida quanto em conhecimento.
- É por essa razão que se requer maior atenção e consideração para investigar como precisamente devemos viver, e qual é a verdadeira piedade.
- As heresias surgem de questões nascidas de quem não aprendeu ou apreendeu verdadeiramente, mas apenas captou uma mera presunção de conhecimento, impregnadas de amor-próprio e vaidade.
- Com maior cuidado, portanto, deve-se examinar a verdade real, que tem por único objeto o verdadeiro Deus — e o trabalho é seguido pela doce descoberta e reminiscência.
- Quando frutas são colocadas diante de nós — algumas reais e maduras, outras de cera e parecidas com as reais — não se deve abster de ambas por causa da semelhança, mas pelo exercício da apreensão da contemplação e pelo raciocínio do caráter mais decisivo, distinguir o verdadeiro do aparente.
- Assim como há uma estrada real e muitas outras, algumas levando a um precipício, outras a um rio torrencial ou a um mar profundo, ninguém deixa de viajar por causa da diversidade, mas usa o caminho seguro, real e frequentado.
- Como entre as hortaliças cultivadas brotam também ervas daninhas, os agricultores não devem por isso desistir do jardim.
- São justamente condenados os que não assentem ao que devem obedecer, e não distinguem o que é hostil, indecoroso, antinatural e falso do que é verdadeiro, consistente, decoroso e conforme à natureza.
- Entre os gregos essa objeção é fútil, pois quem está disposto pode encontrar a verdade — mas no caso dos que aduzem desculpas irracionais, sua condenação é incontestável.
- Havendo demonstração, é necessário condescender às questões, e averiguar por meio de demonstração pelas próprias Escrituras como as heresias falharam, e como somente na verdade e na Igreja antiga está tanto o conhecimento mais exato quanto o melhor conjunto de princípios — airesis.
- Dos que divergem da verdade, alguns tentam enganar somente a si mesmos, e alguns também aos seus vizinhos.
- Os chamados doxosofoi — sábios em suas próprias opiniões —, que pensam ter encontrado a verdade mas não têm verdadeira demonstração, enganam-se ao pensarem que alcançaram um lugar de repouso; e não pequeno é o número dos que evitam investigações por medo de refutações, e fogem das instruções por medo da condenação.
- Os que enganam os que buscam acesso a eles são muito astutos — sabendo que nada conhecem, mas obscurecem a verdade com argumentos plausíveis.
- A natureza dos argumentos plausíveis é de um caráter, e a dos verdadeiros é de outro — e os sofistas, extraindo certas coisas para a destruição dos homens e enterrando-as em artes humanas inventadas por eles mesmos, gloriam-se mais em estar à frente de uma Escola do que em presidir a Igreja.
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