primal:clemente:stromata:7:11
11
Clemente de Alexandria — Stromata
Capítulo XI — Descrição Da Vida Do Gnóstico
- O gnóstico concebe o universo com verdade e grandeza em virtude de sua recepção do ensinamento divino — e começando com a admiração da Criação, tornando-se um aluno pronto do Senhor, ao ouvir de Deus e da Providência, crê em consequência da admiração que nutre.
- Pelo poder do impulso daí derivado, devota suas energias de todo modo ao aprendizado, fazendo tudo aquilo por cujo meio será capaz de adquirir o conhecimento do que deseja — e o desejo mesclado com a investigação surge à medida que a fé avança.
- O gnóstico não cede seus ouvidos, mas sua alma, às coisas significadas pelo que é falado — e apreendendo as essências e as coisas pelas palavras, traz sua alma ao que é essencial; apreendendo os mandamentos “Não cometerás adultério”, “Não matarás” do modo peculiar em que são falados ao gnóstico, não como são entendidos pelas demais pessoas.
- Treinando-se na especulação científica, procede a exercitar-se em generalizações maiores e proposições mais grandiosas, sabendo muito bem que “Aquele que ensina o homem o conhecimento”, segundo o profeta, é o Senhor.
- O gnóstico nunca prefere o agradável ao útil — e como a esposa do senhor de José não foi capaz de seduzi-lo de sua firmeza, mas ela o reteve pelo manto, ele dele se despiu, tornando-se despido de pecado mas vestido de decoro de caráter.
- Pois se os olhos do senhor egípcio não viam José, os do Todo-Poderoso olhavam — pois ouvimos a voz e vemos as formas corporais, mas Deus esquadrinha a própria coisa da qual procedem o falar e o olhar.
- Embora doença, acidente e, o mais terrível de tudo, a morte, se abatam sobre o gnóstico, ele permanece inflexível em alma — sabendo que todas essas coisas são uma necessidade da criação e que, também pelo poder de Deus, tornam-se medicina de salvação, beneficiando pela disciplina os que são difíceis de reformar.
- Usando as criaturas quando o Verbo prescreve e na medida em que prescreve, no exercício de ação de graças ao Criador, torna-se senhor do gozo delas.
- O gnóstico nunca nutre ressentimento nem guarda rancor contra ninguém, ainda que merecedor de ódio por sua conduta — pois adora o Criador e ama aquele que compartilha a vida, tendo compaixão dele e orando por ele por causa de sua ignorância.
- Partilha das afecções do corpo, ao qual, suscetível de sofrimento por natureza, está ligado; mas na sensação não é o sujeito primário dela.
- Em circunstâncias involuntárias, retirando-se dos problemas para o que realmente lhe pertence, não é arrastado pelo que lhe é estranho — e somente às coisas que lhe são necessárias se acomoda, na medida em que a alma é preservada ilesa.
- Não é na suposição ou na aparência que deseja ser fiel, mas no conhecimento e na verdade — em obra segura e palavra eficaz; e assim não apenas louva o que é nobre, mas esforça-se por ser ele mesmo nobre, transformando-se pelo amor de um bom e fiel servo em amigo.
- O gnóstico, fixando o olho em modelos belos — nos muitos patriarcas que viveram retamente, nos muitos profetas e anjos, e acima de tudo no Senhor —, não ama todos os bens do mundo que estão ao seu alcance, para que não permaneça no chão, mas as coisas esperadas, ou antes já conhecidas.
- Suporta, pois, trabalhos, provações e afecções — não como os filósofos dotados de virilidade, na esperança de que os problemas presentes cessem, mas porque o conhecimento o inspirou com a persuasão mais firme de receber as esperanças do futuro.
- Por isso despreza não apenas as dores deste mundo, mas todos os seus prazeres.
- O abençoado Pedro, ao ver sua esposa conduzida à morte, regozijou-se por causa de seu chamado e de sua viagem para casa, exclamando-lhe encorajadoramente: “Lembra-te do Senhor.” — tal era o casamento dos abençoados e sua disposição perfeita para com os que lhes são mais caros.
- O apóstolo diz que “quem se casa deve ser como se não se casasse” e considerar seu casamento livre de afeto desordenado e inseparável do amor ao Senhor.
- A alma do gnóstico é forte em todas as circunstâncias — prudente nos assuntos humanos, tendo obtido os princípios de Deus de cima, e tendo adquirido, para a semelhança divina, moderação nas dores e prazeres corporais; lutando corajosamente contra os medos, confiando em Deus.
- A alma gnóstica, adornada com virtude perfeita, é a imagem terrena do poder divino — sendo seu desenvolvimento resultado conjunto da natureza, do treinamento e da razão.
- Essa beleza da alma torna-se templo do Espírito Santo, quando adquire uma disposição em toda a vida correspondente ao Evangelho.
- Tal pessoa resiste a todo temor de qualquer coisa terrível — não apenas da morte, mas também da pobreza, da doença e da ignomínia — sendo invencida pelo prazer e senhora sobre os desejos irracionais.
- Suporta inteligentemente o que o Verbo lhe indica ser requisito e necessário, discriminando inteligentemente o que é realmente seguro do que parece ser, e o que deve ser temido do que parece sê-lo.
- É da ignorância do que é e do que não é para ser temido que surge a covardia — e o único homem de coragem é o gnóstico, que conhece tanto os bens presentes quanto os futuros, sabendo também o que na realidade não deve ser temido.
- Nenhuma ação é sabedoria — pois a sabedoria é um hábito, e nenhuma ação é um hábito; a ação que surge da ignorância não é ainda a ignorância, mas um mal por meio da ignorância.
- Nenhum daqueles que é irracionalmente valente é um gnóstico — assim como crianças que, por ignorância do que é para ser temido, se sujeitam ao que é terrível; e as feras que se precipitam contra as pontas de lanças com uma coragem bruta podem ser chamadas valentes.
- O que é verdadeiramente valente aguarda corajosamente o que vem, com o perigo proveniente do mau sentimento da multidão diante de seus olhos — e assim se distingue dos outros chamados de mártires que criam ocasiões para si mesmos e se precipitam para o meio dos perigos; pois de acordo com a razão reta, o verdadeiro mártir se protege, e depois, ao ser realmente chamado por Deus, prontamente se rende e confirma o chamado, sabendo que não houve precipitação.
- Não continuam na confissão de seu chamado por medo de censura nem por amor à glória, nem por medo de castigos mais agudos, nem por causa de prazeres após a morte — mas por amor a Deus obedecem de bom grado ao chamado, sem outro objetivo senão agradar a Deus.
- O amor é a causa de tudo isso — de toda ciência a mais sagrada e soberana; pois pelo serviço do que é melhor e mais exaltado, caracterizado pela unidade, torna o gnóstico ao mesmo tempo amigo e filho, tendo verdadeiramente crescido num “homem perfeito, até à medida da estatura plena.”
- O autodomínio do gnóstico não é por amor à honra, nem por amor ao dinheiro, nem por amor ao corpo para fins de saúde — mas o autodomínio desejável por si mesmo, aperfeiçoado pelo conhecimento, permanecendo sempre, torna o homem senhor e mestre de si mesmo; de modo que o gnóstico é temperante e impassível, incapaz de ser dissolvido por prazeres e dores, como dizem que o diamante é pelo fogo.
- A amizade é consumada na semelhança, e a comunidade reside na unidade — e o gnóstico, em virtude de ser amante do único Deus verdadeiro, é o homem verdadeiramente perfeito e amigo de Deus, e é colocado no nível de filho.
- A alma gnóstica, quando se torna completamente pura e considerada digna de contemplar eternamente a Deus Todo-Poderoso “face a face”, havendo-se tornado totalmente espiritual, permanece no repouso de Deus.
primal/clemente/stromata/7/11.txt · Last modified: by 127.0.0.1
