Sacramentos
BETTENSON, Henry (ORG.). The early Christian Fathers: a selection from the writings of the Fathers from St Clement of Rome to St Athanasius. Oxford: Oxford University Press, 1996.
VIII. Sacramentos
(a) Batismo
Sendo batizados, somos iluminados; sendo iluminados, somos adotados como filhos; sendo adotados, somos aperfeiçoados; sendo completados, somos tornados imortais. A Escritura diz: “Eu disse: sois deuses, e todos filhos do Altíssimo”. Esta obra tem muitos nomes: dom da graça, iluminação, perfeição, lavagem. Lavagem, pela qual somos purificados da sujeira de nossos pecados; dom da graça, pelo qual são canceladas as penas de nossos pecados; iluminação, pela qual se percebe aquela santa luz que nos salva, isto é, pela qual nossos olhos são aguçados para ver o divino; perfeição significa ausência de toda falta, pois o que ainda falta àquele que tem o conhecimento de Deus? Paedagogus, I, vi (26)
(b) A Eucaristia
Fé e esperança — corpo e sangue — o alimento da Igreja
Pode-se entender “leite” como significando a pregação que se espalhou amplamente, e “alimento sólido” como a fé que, em consequência da instrução, foi compactada para formar um fundamento. A fé, sendo mais sólida que a audição, é comparada ao “alimento sólido”, visto que fornece nutrição análoga na alma. Em outro lugar, o Senhor também exprimiu isso por um simbolismo diverso, quando, no evangelho de João, diz: “Comei minha carne e bebei meu sangue”. A metáfora do beber, aplicada à fé e à promessa, significa claramente que a Igreja, consistindo, como um ser humano, de muitos membros, é refeita e cresce, é compactada e soldada por ambas, sendo a fé o corpo, e a esperança, a alma; assim como o Senhor foi feito de carne e sangue. Ibid. I, vi (38)
Alimento espiritual
Há uma só mãe, que é virgem; esta é minha descrição predileta da Igreja. Só esta mãe não tinha leite, sendo ao mesmo tempo mãe e virgem, pura como virgem, amada como mãe. Aqueles que são chamados seus filhos são nutridos com leite santo, a palavra adequada aos pequeninos. Ela não tinha leite porque o leite correto e próprio para nutrir essa criança era o corpo de Cristo, amamentando com a palavra a jovem prole que o próprio Senhor gerou com as dores de sua carne, que o próprio Senhor envolveu em faixas com precioso sangue. Ó nascimento santo! Ó santos panos! A Palavra é tudo para o infante: pai, mãe, tutor e ama. “Comei minha carne”, diz Ele, “e bebei meu sangue”. Esse alimento próprio o Senhor nos fornece; oferece sua carne e derrama seu sangue, e às crianças nada falta de necessário para seu crescimento.
Estranho mistério! Ordena-se que se despoje a antiga corrupção carnal, assim como se deixa o antigo alimento, e que se participe de uma nova dieta, a de Cristo; que se guarde nele, tanto quanto possível, a nós mesmos, e que se receba o Salvador no coração, para que se ponham em ordem as afecções da carne. Não se pode compreender? Talvez se possa, se isso for expresso de modo mais geral. Diga-se assim: “Minha carne” é uma alegoria para o Espírito Santo, pois a carne é sua obra. “Sangue”, por analogia, representa a Palavra, pois a Palavra é como sangue rico derramado em nossa vida. A mistura de carne e sangue é o Senhor, o alimento de seus infantes; o Senhor é Espírito e Palavra. O alimento — isto é, o Senhor Jesus, isto é, a Palavra de Deus, Espírito feito carne — é a carne celeste santificada. Esse alimento é o leite do Pai, pelo qual nós, infantes, somos amamentados. Ibid. I, vi (42-43)
O sangue do Senhor é duplo. De um lado, é físico, o sangue pelo qual fomos redimidos da corrupção; de outro, é espiritual, aquele pelo qual fomos ungidos. Beber o sangue de Jesus é participar da imortalidade do Senhor; e o Espírito é a força da Palavra, assim como o sangue é a força da carne.
Assim como o vinho é misturado com água, também, por analogia, o Espírito se mistura com o homem. A mistura nutre o homem para a fé; o Espírito guia à imortalidade. A mescla de ambos — a bebida e a Palavra — é chamada Eucaristia, graça de louvor e beleza. Aqueles que dela participam na fé são santificados no corpo e na alma, uma vez que a vontade do Pai compôs misticamente a mistura divina, o homem, por Espírito e Palavra. Pois o Espírito, em verdade, é adaptado à alma que por ele é movida, e a carne, adaptada à Palavra, a carne por cuja causa a Palavra se fez carne. Ibid. II, ii (19-20)
“Leite” é instrução, considerada como o primeiro alimento da alma; “alimento sólido” é contemplação mística. A carne e o sangue da Palavra são a apreensão do poder e da essência divinos. “Provai e vede que o Senhor é Cristo”, diz a Escritura: pois assim Ele se comunica àqueles que participam desse alimento de modo mais espiritual; pois então, como diz Platão, amante da verdade, “a alma se nutre a si mesma”. Pois comer e beber a Palavra divina é o conhecimento da essência divina. Stromateis, V, x (67)
“O pão é minha carne” etc. Aqui se deve compreender o sentido místico do pão. Ele chama sua carne de “pão”, sua carne que ressuscitou através do fogo, assim como o trigo se ergue da corrupção que se segue à semeadura, e o trigo é reunido por meio do fogo, como pão cozido, para a alegria da Igreja. Paedagogus, I, vi (46)
