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PEDAGOGO

Clemente de Alexandria — O PEDAGOGO

Introdução de Ângel Castiñera Fernández à tradução de Joan Sariol Díaz, “EL PEDAGOGO”

«A pedagogia é, conforme se depreende de seu próprio nome, a educação das crianças», afirma Clemente. E, pouco adiante: «Considera-se que a pedagogia é a boa condução das crianças rumo à virtude». De modo análogo à educação moral pagã, Clemente propõe uma formação moral cristã:

A palavra «pedagogia» engloba diversos significados: pode referir-se àquele que é guiado e aprende; àquele que dirige e ensina; em terceiro lugar, à própria educação; finalmente, às coisas ensinadas; por exemplo, os preceitos. A Pedagogia de Deus é aquela que indica o caminho reto da verdade, tendo em vista a contemplação de Deus; é também o modelo da conduta santa própria da cidade eterna.

Como formador moral do batizado, a figura do Logos-Pedagogo, chamado sucessivamente educador, perito, guia de uma vida virtuosa, médico e fortalecedor da alma (curador das paixões), modelo sem defeito, guia infalível e seguro, persuasivo e não temível etc., identifica-se com Jesus:

«Nosso Pedagogo chama-se Jesus». «Nosso Pedagogo… é o Santo Deus, Jesus, o Logos que guia toda a humanidade; o próprio Deus, que ama os homens, é nosso Pedagogo». «Jesus, nosso Pedagogo, traçou-nos o modelo da verdadeira vida e educou o homem em Cristo».

Essa proposta de um novo «formador moral» ou «pedagogo» dirige-se, no caso de Clemente, tanto contra a antiga Lei educadora dos judeus (a Lei mosaica) quanto contra a educação moral pagã helenística.

No judaísmo da diáspora e, mais concretamente, no judaísmo alexandrino, a vida religiosa era eminentemente uma vida prática, encarnada no conhecimento e na aplicação da Lei revelada: a Torá. Esta era transmitida tanto pela própria educação familiar quanto, e especialmente, por um sistema de ensino coletivo baseado nas escolas rabínicas organizadas em três graus: a leitura da Bíblia, o estudo dos comentários jurídico-exegéticos da Mishná e, por último, o Talmude. Utilizando o texto de São Paulo na Epístola aos Gálatas (3, 23-25):

Antes de chegar a fé, estávamos sujeitos à custódia da Lei (mosaica), à espera da fé que havia de revelar-se. De modo que a lei foi nosso Pedagogo para nos elevar a Cristo, a fim de que fôssemos justificados pela fé. Mas, chegada esta, já não estávamos sob o (antigo) Pedagogo.

Clemente conclui:

Não se percebe que já não estamos sob essa lei, sob o jugo do temor, mas sob o Logos de liberdade, o (novo) Pedagogo?

Em primeiro lugar, houve uma antiga aliança para o povo antigo; a lei educava o povo pelo temor, e o Logos era seu Anjo. Mas o povo novo e jovem recebeu uma nova e recente aliança… O mesmo Pedagogo que outrora disse: «Temerás o Senhor teu Deus», exorta-nos agora: «Amarás o Senhor teu Deus».

Há, portanto, uma ação continuadora do Logos que começa em Moisés e nos profetas e se desenvolve em toda a história do povo eleito. A noção de uma nova «Pedagogia divina» aplicada à humanidade, encontrada na obra de Santo Irineu, é, pois, agora adaptada por Clemente frente à antiga pedagogia judaica.

Entretanto, a nova Paideia proposta por Clemente pretendia ser, sobretudo, uma alternativa a 1) as escolas helenísticas e 2) à própria paideia grega.

Como constata Marrou, é certo que os primeiros cristãos não criaram uma escola de inspiração religiosa, distinta e rival da escola pagã de tipo clássico. Mas acaso não é igualmente certo que alguns, como Justino, Clemente, Orígenes ou Hipólito de Roma, não cessaram de tentar a criação de uma escola superior de teologia cristã capaz de fazer sombra à alta cultura filosófica pagã ou ao próprio movimento gnóstico herético?

Graças à Oratio panegírica (Discurso de despedida) do capadócio Gregório, o Taumaturgo, conhece-se o sistema de ensino teológico que Orígenes seguia em Cesareia. Depois de uma exortação à filosofia, prosseguia com um curso preliminar que adestrava os estudantes para a educação científica mediante um exercício mental constante; por último, o curso científico compreendia a lógica e a dialética, as ciências naturais, a geometria e a astronomia e, por fim, a ética e a teologia. Segundo J. Quasten, «o curso de ética não se reduzia a uma discussão racional dos problemas morais, mas oferecia toda uma filosofia da vida». Graças a Eusébio, sabe-se que Orígenes adaptou engenhosamente a essa escola os métodos característicos do ensino superior de tipo helenístico.

Não cabe, pois, dúvida de que, tanto no autor de O Pedagogo como em Orígenes e outros, havia claramente a intenção de propor uma pedagogia alternativa à da época, embora esse objetivo não se tenha realizado, por diferentes razões, até o aparecimento da escola monástica do Oriente com os Padres do Deserto no Egito.

Contudo, o plano mais ambicioso da teologia clementina e do próprio Orígenes não residia na mera possibilidade de propor uma alta escola alternativa (neste caso, de teologia), mas — nas palavras de Jaeger — em «enfrentar a ideia cultural dos gregos como um todo». Não se trataria tanto de sublinhar o papel do Pedagogo quanto o da nova Paideia ou programa pedagógico que ele traz consigo. O Logos-Pedagogo cristão encarnaria, assim, um novo ideal de existência humana:

Mas, quando Cristo é visto como o educador da humanidade, é, por isso, contrastado com toda a ideia grega de cultura, pois tal é o significado exato que a palavra paideia havia alcançado no curso de sua história. O uso da palavra «pedagogo», nesse sentido elevado, indica que já não significa o escravo que, nos séculos clássicos da Grécia, tinha a função de levar e trazer a criança à escola, mas está mais próximo do significado filosófico que Platão deu à palavra paidagogein nas Leis, onde define dessa forma a relação de Deus com o mundo: «Deus é o pedagogo de todo o mundo» (Leis X 879b). Essa transformação do significado e da categoria da palavra foi a consequência necessária da dignidade filosófica que Platão havia conferido ao conceito de paideia. E foi essa dignidade teológica platônica que tornou possível a Clemente apresentar Cristo como pedagogo de todos os homens.

O cristianismo podia, nesse caso, cumprir uma nova missão paidêutica: ser iniciador da civilização cristã. Sob essa nova perspectiva, a filosofia grega é degradada (também em Orígenes) à condição de propaideia da teologia cristã, verdadeira e nova paideia cuja fonte é o Logos Divino. Frente à antiga afirmação de Isócrates, proclamando a paideia grega:

Nossa cidade deixou o restante da humanidade tão para trás, no que diz respeito à inteligência e ao discurso, que seus discípulos se tornaram mestres de todos; o nome «grego» já não designa um homem em particular, mas esse tipo de inteligência; aqueles que participam de nossa paideusis são chamados «gregos» de preferência àqueles que têm em comum conosco apenas a natureza física, pode-se encontrar agora a resposta de Clemente:

Assim como há um estilo de vida próprio dos filósofos, outro dos rétores, outro dos lutadores, também haja uma nobre disposição da alma, que corresponde à vontade amante do bem e que é consequência da pedagogia de Cristo. Tal educação confere ao nosso comportamento uma radiante nobreza.

Resposta que a razão dos filósofos não hesitará em fazer sua:

A filosofia define-se como o estudo da reta razão… O comportamento próprio do cristão é uma atividade da alma racional inspirada no bom juízo e no desejo da verdade… A vida dos cristãos, que agora ensinamos, é um conjunto de ações racionais, a prática perseverante daquilo que o Logos nos ensina, que chamamos fé.

Do mesmo modo o fará, posteriormente, Orígenes:

Roga-se que tomes da filosofia grega aquelas coisas que possam ser conhecimentos comuns ou educação preparatória para o cristianismo, e da geometria e da astronomia aquilo que possa ser útil para a exposição da Sagrada Escritura, a fim de que aquilo que os discípulos dos filósofos dizem da geometria, da música, da gramática, da retórica e da astronomia, a saber, que são servas da filosofia, possamos dizê-lo nós da própria filosofia em relação ao cristianismo.


Livro I: A Teoria da Educação do Logos (Focado na identidade do Pedagogo — que é o próprio Cristo — e no método pedagógico divino)

1-3: Quem é o Pedagogo, quem são as crianças (os cristãos) e a filantropia do Logos.

4-5: Igualdade de gêneros diante de Deus; o significado bíblico de ser “criança”.

6-13: A pedagogia do Logos através do Antigo e Novo Testamento; a justiça, a repreensão e o uso do medo medicinal para curar a alma.

Livro II: O Guia de Estilo de Vida Cristão (Parte 1) (Regras práticas para as necessidades básicas e interações sociais)

1: Sobre a Alimentação 2: Sobre a Bebida/Vinho 3: Sobre Utensílios Luxuosos 4: Sobre o Comportamento em Banquetes 5: Sobre o Riso 6: Sobre a Linguagem Obscena/Falar Palavrões 7: Etiqueta Social e Regras de Conversação 8: Sobre Perfumes e Coroas de Flores 9: Sobre o Sono 10: Sobre a Procriação e o Casamento 11-12: Sobre Roupas e Calçados

Livro III: O Guia de Estilo de Vida Cristão (Parte 2) (Focado em estética corporal, moderação e a conclusão da obra)

1: Sobre a Verdadeira Beleza 2-3: Contra o Luxo, Tinturas de Cabelo e Cosméticos 4: Sobre as Companhias e a Extravagância 5-10: Regras sobre banhos públicos, exercícios físicos, moderação e riqueza. 11: Sumário Geral da Vida e o “Traje” Cristão 12: Os Mandamentos como regras de vida e o famoso Hino a Cristo Salvador (um dos hinos cristãos mais antigos que restaram).

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