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Últimas coisas

BETTENSON, Henry (ORG.). The early Christian Fathers: a selection from the writings of the Fathers from St Clement of Rome to St Athanasius. Oxford: Oxford University Press, 1996.

(a) Purificação pelo fogo

Diz-se que o fogo santifica… as almas dos pecadores, entendendo não o fogo consumidor de uma fornalha, mas o fogo racional que penetra a alma que passa pelo fogo. Stromateis, VII, vi (34)

Eliminando as “obras da carne”, revestimos nossa carne putrefeita de incorrupção e alcançamos a igualdade com os anjos. Ibid. II, x (100)

(b) Punição medicinal

Tudo o que é virtuoso muda para moradas melhores, sendo a razão dessa mudança a escolha do conhecimento… Mas castigos rigorosos, pela bondade do grande juiz, o vigilante, compelirão os maus, por meio de sofrimento crescente, ao arrependimento. As punições são infligidas por meio dos anjos assistentes, por diversos juízos prévios e pelo juízo geral. Ibid. VII, ii (12)

Se, como “áspides surdas”, não quiserem escutar o cântico… sejam disciplinados pela mão de Deus, suportando a correção paterna antes do juízo, até que se envergonhem e se arrependam, e não incorram na condenação final por incredulidade obstinada. Pois há disciplinas parciais, chamadas castigos, nas quais caiu a maioria dos que pecaram, embora pertençam ao povo do Senhor. Mas nossa correção pela Providência foi a de crianças por um mestre ou por um pai. Deus não se vinga, o que seria retribuição do mal pelo mal, mas castiga em benefício daquele que é castigado. Ibid. VII, xvi (102)

(c) Céu. Graus de realização

Há várias moradas, variando segundo o valor dos fiéis. Salomão diz: “Ser-lhe-á dada a graça escolhida da fé e uma porção mais deleitável no templo do Senhor”. Aqui, o comparativo “mais deleitável” indica as porções inferiores do Templo de Deus, que é a Igreja inteira, mas não chega a incluir a divisão superior onde está o Senhor. Que essas três moradas sejam habitações escolhidas é o sentido oculto dos números no evangelho: “trinta, sessenta e cem”. A herança perfeita pertence àqueles que chegam “à perfeição do homem”, segundo a imagem do Senhor. Essa semelhança não é, como alguns supõem, quanto à forma humana; tal noção é ímpia; nem quanto à virtude… pois também esta é uma interpretação irreverente, os homens suporem que a virtude do homem seja a mesma que a do Deus Onipotente. “Basta ao aprendiz ser como seu mestre”, diz nosso Mestre. Assim, aquele que é designado para a adoção e a amizade com Deus, segundo a semelhança de Deus, participa da herança dos senhores e deuses, se foi aperfeiçoado de acordo com o evangelho, como o próprio Senhor ensinou. Ibid. VI, xiv (114)

Estes “repousarão sobre o santo monte de Deus”, como diz David, sendo o “santo monte” a Igreja no céu, na qual são reunidos os filósofos de Deus. Estes são os “verdadeiros israelitas”, os “puros de coração”, “nos quais não há dolo”. Eles não aguardam durante os sete dias de repouso, mas, em virtude de seu crescimento na semelhança divina, ascendem à herança do serviço do oitavo céu, entregando-se à visão sem distração da contemplação jamais saciada. Mas “há outras ovelhas, que não são deste aprisco”, diz o Senhor, julgadas dignas de outro “aprisco”, isto é, “morada”, em proporção à sua fé. “Minhas ovelhas ouvem minha voz”, compreendendo os mandamentos de modo gnóstico, isto é, entendendo-os nobre e dignamente e respondendo com as ações que deles resultam. De modo que, quando se ouvem as palavras “tua fé te salvou”, não se deve entender que Ele simplesmente queira dizer que aqueles que creem de qualquer modo serão salvos, sem quaisquer ações resultantes. Essa sentença foi dirigida a judeus que viviam vidas irrepreensíveis em obediência à Lei e aos quais apenas faltava a fé no Senhor. Ibid. VI, xiv (108)

(d) Progresso na semelhança com Deus em sua atividade eterna

Sobre a face de Moisés pousou uma espécie de florescimento de glória, por causa de seus atos justos e de sua contínua conversação com Deus, que lhe falava. Assim, sobre a alma justa se insinua uma espécie de poder divino de bondade, por meio da visitação divina, da revelação e da atividade diretiva. Esse poder, como se fosse uma irradiação intelectual, semelhante ao cálido raio do sol, imprime na alma uma espécie de selo visível de justiça, luz unida à alma por amor infalível, que porta Deus e é portada por Deus. Daí surge no gnóstico a crescente semelhança com Deus Pai, na medida em que a natureza humana o admite, visto que ele se torna “perfeito, como o Pai no céu”… Deus não permanece na bondade de sua natureza, “sem perturbação para si mesmo e sem causar perturbação aos outros”. Ele realiza suas próprias obras boas, sendo e continuando a ser, em realidade, o Deus bom e Pai, continuamente ocupado em fazer o bem, sem se desviar em sua bondade imutável. Pois que valor teria um ser bom que não fosse ativamente bom? Stromateis, VI, xii (104, 1)

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