Deus Filho
BETTENSON, Henry (ORG.). The early Christian Fathers: a selection from the writings of the Fathers from St Clement of Rome to St Athanasius. Oxford: Oxford University Press, 1996.
(a) Aquele que perscruta os corações
“O espírito do Senhor é uma lâmpada que perscruta as câmaras interiores do coração.” E, assim como um homem, agindo justamente, torna-se mais iluminado, também o espírito luminoso se aproxima mais dele. Assim, “o Senhor se aproxima dos justos, e nada lhe escapa de nossos pensamentos e dos raciocínios que alimentamos”; refiro-me ao Senhor Jesus, que, pela vontade do Onipotente, é “o vigilante de nosso coração”, cujo sangue foi consagrado por nós. Stromateis, IV, xvii (107, 5)
Assim como o sol ilumina não apenas o céu e o mundo inteiro, brilhando sobre a terra e o mar, mas também envia seus raios através de janelas e pequenas frestas até os recantos mais remotos de uma casa, assim a Palavra, derramada por toda parte, contempla as menores ações da vida humana. Ibid. VII, iii (21)
(b) O Logos cósmico
A natureza do Filho é perfeitíssima, santíssima, soberaníssima, poderosíssima, régia e benfazeja, estreitamente unida ao único Onipotente. A ele pertence a maior preeminência, que ordena todas as coisas segundo a vontade do Pai e guia tudo retamente, operando todas as coisas com poder incansável e infalível, contemplando os pensamentos ocultos por meio de suas atividades. Pois o Filho de Deus jamais abandona sua torre de vigia: não é dividido nem separado, nem passa de lugar a lugar; está sempre em toda parte e não é circunscrito em parte alguma. É inteiramente mente, inteiramente luz do Pai, todo olho, vendo todas as coisas, ouvindo todas as coisas, conhecendo todas as coisas, perscrutando os poderes por seu poder. Todo o exército dos anjos e dos deuses lhe está sujeito, à Palavra do Pai que assumiu a santa dispensação por causa daquele que os submeteu. Ibid. VII, ii (5)
(c) Conhecimento do Filho e do Pai
Alguns afirmam que se tem conhecimento do Espírito, isto é, da Divindade, mas fé no Filho. Deve-se crer verdadeiramente no Filho: que ele é o Filho, que veio, como veio e por quê; e acerca de seu sofrimento. Mas deve-se também ter conhecimento da pessoa do Filho. Para começar, porém, não há fé sem conhecimento, nem conhecimento sem fé. Tampouco o Pai existe sem o Filho, pois “Pai” implica imediatamente “Pai de um Filho”; e o Filho é o verdadeiro mestre acerca do Pai. E, para que um homem creia no Filho, deve conhecer o Pai em relação ao qual o Filho existe. De novo, para que se chegue a conhecer o Pai, deve-se crer no Filho, porque o Filho de Deus é nosso mestre; pois o Pai nos conduz da fé ao conhecimento por meio do Filho, e o conhecimento do Filho e do Pai que segue a Regra Gnóstica — a regra do genuíno gnóstico — é uma intuição e apreensão da verdade por meio da Verdade. Ibid. V, i (1)
(d) O Logos, doador da vida, mestre da vida boa
Esta Palavra, o Cristo, causa de nosso ser — pois estava em Deus —, bem como de nosso bem-estar, apareceu agora Ele mesmo ao homem. Só Ele é ao mesmo tempo Deus e homem; é para nós a fonte de todo bem. Dele aprendemos a vida boa e somos conduzidos à vida eterna… Esta é a “nova canção”, a Epifania que agora resplandeceu entre nós, daquela Palavra que estava no princípio e que era antes do princípio. E agora, muito recentemente, manifestou-se aquele que era antes, o Salvador; manifestou-se aquele que estava Naquele que É, porque a Palavra, que estava com Deus, apareceu como nosso mestre, aquele por quem o universo foi criado. A Palavra que no princípio nos deu vida, quando nos formou como Criador, ensinou-nos a vida boa como nosso mestre, para que depois, como Deus, nos conceda a vida eterna. Não é que agora, pela primeira vez, tenha tido piedade de nosso extravio; teve piedade de nós desde outrora, desde o princípio. Mas agora, quando perecíamos, apareceu e nos salvou. Protrepticus, I (7)
(e) “Verdadeiro Deus”
Crê, ó homem, naquele que é homem e Deus; crê naquele que sofreu e é adorado como Deus vivo; servos, crede naquele que esteve morto; todos os homens, crede naquele que é o único Deus de todos os homens; crede e recebei a salvação como recompensa… Ibid. X (106)
Com velocidade insuperável e benevolência sem exemplo, o poder divino, tendo brilhado sobre o mundo, encheu tudo com a semente salvadora. Tal obra, em tão pouco tempo, o Senhor não teria realizado sem a assistência do poder divino. Foi desprezado por sua aparência, mas é adorado por sua obra; é a Palavra purificadora, salvadora, deleitável, a Palavra divina, que é verdadeiramente Deus manifestíssimo, feito igual ao Governante de tudo; porque era o Filho, e “a Palavra estava com Deus”. Ibid. X (110)
