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Substancialidade

Vladimir Lossky. Théologie négative et connaissance de Dieu chez Maitre Eckhart. Paris: Vrin, 1960

O nível da substancialidade

  • Não se encontra nos textos das Parábolas do Gênesis examinados uma noção de existência que se distinga verdadeiramente da essência.
  • O mestre Eckhart empresta ao termo ser o sentido generalizado de substância ou de o que é quando fala do ser completo ou dividido.
  • O ser primeiro de Eckhart designa as quididades ou razões ideais para lhes conferir a plénitude do real, diferindo de Aristóteles para quem a substância primeira era a individual e as segundas eram o predicável.
  • O ser segundo das substâncias individuais recebe apenas uma sombra do ser mesmo nessa abordagem anti—aristotélica.
  • Essa atitude corresponde à perspectiva na qual Eckhart se coloca para provar a preexistência das criaturas no Intelecto divino.
    • No Livro das Parábolas do Gênesis, explica—se que muitos lutarão contra a tese de que a luz e os outros produtos não eram sem nenhum ser antes de serem produzidos na natureza, demonstrando—se isso pela razão, pelo cânone sagrado e pelos ditos dos santos.
    • Entre os santos e sábios citados figuram Agostinho, Boécio, João Crisóstomo, Dionísio, Platão e Avicena.
  • O ser criado considerado em si esvai—se até se tornar um puro nada nesse resumo.
  • A perspectiva de Eckhart altera—se quando ele se coloca no nível do ser formal das criaturas para tratar de seu ser formel, recusando o ser às razões ideais que são substituídas pelo viver e pelo inteligir.
  • O ser é considerado como a primeira das coisas criadas com o Livro das Causas, e a realidade concreta das substâncias individuais é tratada em termos aristotélicos com base na autoridade do Filósofo.
  • O mestre Eckhart não foi o primeiro a conciliar Platão e Aristóteles atribuindo—lhes dois níveis diferentes da realidade.
    • Endre von Ivánka analisa a síntese neoplatônica nessa estrutura de conciliação.
  • Essa maneira de ver provém de Proclus e de outras fontes da tradição plotiniana, sem que Eckhart precisasse propor para si mesmo o problema da conciliação entre duas filosofias discordantes.
    • Syrianus influenciou Proclus por meio da síntese neoplatônica em seu Comentário sobre a Metafísica de Aristóteles.
    • A Teologia de Aristóteles constitui uma fonte plotiniana que influenciou indiretamente o Ocidente por meio dos filósofos árabes.
    • No Comentário sobre o Êxodo, Eckhart observa que os significados dos nomes de Deus não devem ser tomados segundo o plano do sermão, mas junto ao segredo oculto. Os alquimistas entendem o ouro pelo sol, e Aristóteles reprova frequentemente o plano dos sermões de Platão mais do que o seu sentido.
    • O sentido místico de Platão teria escapado a Aristóteles, cujas críticas atingiam apenas a letra do platonismo.
  • A distinção entre a essência e a existência em Eckhart deve ser buscada no terreno desse aristotelismo admitido no nível inferior do ser segundo para permitir a comparação com São Tomás.
  • O mestre Eckhart trata esse texto da Sabedoria que diz que Deus criou para que todas as coisas fossem em oito exposições segundo a acepção mais comum de que Deus fez as coisas para que existissem exteriormente.
    • Essa análise encontra—se no Comentário sobre a Sabedoria.
  • As coisas possuem o ser no exterior em sua natureza submetidas às suas formas próprias, embora estivessem eternamente em Deus como razões enquanto viver e inteligir.
  • As coisas eternas não foram feitas, mas as coisas feitas e criadas por Deus possuem o ser formal fora na natureza sob as formas próprias pelas quais são, não estando nele ainda como são o leão, o homem e o sol.
    • No Comentário sobre la Sabedoria, explica—se que as coisas estão em Deus não sob a razão de ser de tais coisas, mas sob a razão de viver e de inteligir.
  • O mestre Eckhart considera o ser como uma razão de criabilidade das coisas que em Deus ainda não são enquanto são, visando permanecer no nível do ser criado.
  • As coisas criadas são por suas formas próprias.
  • O ser de tais coisas depende de suas formas individuais que as situam na ordem da substancialidade e da criação, já que criar significa conferir o ser às naturezas particulares.
    • No Comentário sobre a Sabedoria, afirma—se que o criar é substancial e geração, e o ser dá—se pela forma.
  • Encontra—se um mundo aristotélico onde as formas substanciais, a matéria, o ato e a potência concorrem para dar lugar a seres individuais.
  • O mestre Eckhart trata a questão dos dois princípios do universo — o ativo e o passivo — limitando—na à relação entre a forma e a matéria nas substâncias dentro do mesmo Livro das Parábolas do Gênesis.
    • Trata—se da terceira exposição do trecho No princípio criou Deus o céu e a terra.
    • A Tábula do livro apresenta as seis propriedades da forma e da matéria: a primeira é que não são dois entes, mas dois princípios dos entes; a segunda é que a matéria existe por causa da forma; a terceira é que a forma não pode ser sem a matéria; a quarta é que a matéria é a potência passiva e a forma é o ato por essência; a quinta é que se unem sem meio; e a sexta é que são um no ser e na operação.
  • A forma e a matéria não constituem dois entes, mas dois princípios dos entes criados com base em Aristóteles e São Tomás.
    • No Livro das Parábolas do Gênesis, explica—se que a matéria e a forma são designadas pelo céu e pela terra, constituindo dois princípios das coisas.
  • A forma não pode existir sem a matéria nas substâncias materiais, assim como a matéria não existe sem a forma.
    • Eckhart refere—se à Metafísica de Avicena e à autoridade das Escrituras em I Coríntios 11, 11 que menciona a relação entre o homem e a mulher.
  • A matéria e a forma são dois princípios das coisas de tal maneira que são um no ser, sendo um o seu ser e a sua operação.
    • Eckhart cita a esse propósito o Gênesis 2, 24 que afirma que serão dois em uma só carne.
  • A forma confere o ser ao composto, mas não existe por si mesma fora da substância da qual é o princípio.
  • O ser pertence em próprio à substância e significa ser uma substância ou possuir o ato da forma pelo qual a substância é esse ser individual.
  • Essa doutrina aristotélica da substancialidade em Eckhart permanece fora da questão da existência propriamente dita, tratando—se unicamente do que existe.
    • O mesmo ocorre em Boécio, apesar de fórmulas como o diverso é o ser e o que é ou em todo composto uma coisa é o ser e outra ele mesmo, as quais se referem ao princípio do ser substancial ou à forma pela qual a substância é o que é.
  • O mundo eterno de Aristóteles que desconhece a criação a partir do nada deve ser transcendido para responder às exigências da teologia cristã, contexto no qual a questão da existência se colocou para São Tomás.
  • Abordar o problema da existência exige ultrapassar a ontologia de Aristóteles onde a forma é o complemento último que constitui a substância em sua atualidade.
  • O pelo qual é que a forma representa no composto surgirá como secundário em relação ao ato de existir que é a atualidade de todas as coisas e das próprias formas.
    • São Tomás formula essa primazia na Suma Teológica, analisada também por Étienne Gilson.
  • É necessário indagar se o pelo qual é colocado além das essências indigentes constitui o ato de existir finito que São Tomás distinguia da essência em cada existente criado.
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