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Quidditas et Anitas

Vladimir Lossky. Théologie négative et connaissance de Dieu chez Maitre Eckhart. Paris: Vrin, 1960

  • O verbo ser funciona como um adjeto segundo na proposição Eu sou, onde o próprio predicado atribui o ser real ao sujeito.
  • O termo é, quando não atua como cópula, possui um sentido formal e substantivo, não assinalando no sujeito nada além do ser puro e nu.
  • A proposição de adjeto segundo significa que a pura formalidade do ser é o próprio sujeito quando é Deus quem diz Ego sum, o que equivale a dizer que a sua essência é idêntica ao seu ser.
  • A identidade entre a essência e o ser só pode convir a Deus, cuja quididade não é nada além de sua anitas, conforme a lição de Avicena.
    • O mestre Eckhart acrescenta, com o filósofo árabe, que Deus não possui quididade além da sola anitas que o ser assinala.
    • No Comentário sobre o Êxodo, nota—se que quando se diz eu sou, o sou é o predicado da proposição e é um adjeto segundo, o que significa o ser puro e nu no sujeito e do sujeito, sendo o próprio ser o sujeito, isto é, a essência do sujeito, identificando essência e ser, o que convém apenas a Deus.
  • O termo anitas, assimilado ao de ser, designa para o mestre turingiano algo que não está incluído na quididade ou essência de um ser criado, mas que provém de fora, de um outro, para constituir uma essência no ser, sem que se analise no momento se o ser em Deus possui o mesmo sentido de ato de existir que tinha para São Tomás.
  • A proveniência exterior da existência significava a sua acidentalidade em relação à essência para Avicena, funcionando como um apêndice da essência ou quididade que, por si mesma, é apenas a intelecção de algo cuja definição não implica contradição, de modo que a existência se adiciona para tornar real o que era somente possível.
  • A metafísica aviceniana da essência realizada ou do ser causado estabelece duas posições que se condicionam mutuamente, determinando que tudo o que possui uma quididade é causado e que o Primeiro não possui quididade.
  • O Deus de Avicena teria uma possibilidade de ser e não seria o Ser Necessário caso possuísse uma essência.
    • Na Metafísica de Avicena, afirma—se que o ser necessário não pode ter uma quididade à qual se acompanhe a necessidade de ser, e que tudo o que tem quididade é causado, exceto o ser necessário, cujas quididades são por si possíveis de ser, não lhes acontecendo o ser senão de fora. O Primeiro não tem quididade, mas sobre as coisas que têm quididade flui o ser a partir dele, sendo ele o ser despido de privações e de outras propriedades.
    • É manifesto que o Primeiro não possui gênero, nem quididade, nem qualidade.
  • Esse Deus—ser estabelece no ser real, com a mesma necessidade, todas as quididades concebíveis, aptas a receber o ser conferido por uma Causa eficiente necessária, pelo próprio fato de não possuir essência.
    • O mestre Eckhart utiliza a expressão de Avicena sobre o ser necessário aproximando—a do Ego sum qui sum, da mesma forma que Moisés Maimônides havia feito em O Guia dos Perplexos, livro I, capítulo 63.
    • Os conteúdos conceituais não contraditórios são considerados como possíveis submetidos à eficiência todo—poderosa de Deus.
  • A dependência em relação à Causa eficiente, própria de tudo o que não é o ser necessário, encontra—se expressa em uma definição que resume a doutrina aviceniana da essência realizada, a qual o mestre Eckhart reproduz ao declarar que em todo criado uma coisa é o ser e de outro, e outra coisa é a essência e não de outro.
    • Essa fórmula aparece frequentemente nas obras latinas de Eckhart e figura no primeiro ato de acusação do processo de Colônia, bem como na resposta de Eckhart, onde ele se refere a Avicena e a Alberto Magno.
    • A sentença é de inspiração aviceniana e resume o mestre da Metafísica, onde se lê que a essência dele é para si por si, enquanto o próprio ser com outro diferente de si é algo que lhe acontece ou que acompanha a sua natureza.
  • Essa sentença lapidar e de inspiração aviceniana torna—se aceitável para os teólogos cristãos, que reconhecem que a Causa criadora deve ser extrínseca e que o conteúdo conceitual de uma essência finita não implica necessariamente o fato de sua existência real.
  • São Tomás, no início de sua carreira, aproximava—se das expressões de Avicena ao afirmar, na obra Do Ente e da Essência, que tudo o que não pertence ao conceito da essência provém de fora e forma composição com ela.
    • Nenhuma essência pode ser concebida sem aquilo que faz parte dela, mas toda essência ou quididade pode ser concebida sem que se conceba nada a respeito de sua existência.
    • É possível conceber o homem ou o fênix e ignorar se eles existem na natureza, tornando claro que a existência é outra coisa que a essência ou quididade.
    • Guilherme de Auvergne também segue de perto o pensamento de Avicena no tratado Da Trindade, afirmando que, sendo o ente potencial e não ente por essência, então ele e o seu ser são duas coisas verdadeiras, e uma acontece à outra, não caindo na razão nem na quididade dele, sendo o ente composto e resolúvel em sua possibilidade ou quididade e no seu ser.
    • O ser é causado por aquele que conduz a sua possibilidade ao efeito de ser e que une o próprio ser com a sua potência.
    • Alberto Magno, na obra Das Causas e do Processo da Universidade, à qual Eckhart se referiu expressamente, afirma que tudo o que provém de outro possui o ser e isto que é de modo diferente, tendo o ser de outro e o ser isto que é de si mesmo.
  • A distinção entre a quididade e a anitas, onde a primeira responde à pergunta sobre o que a coisa é através da definição conceitual e a segunda deve responder à pergunta se a coisa é através da afirmação ou negação do ser real, não predetermina o sentido que o termo ser poderá receber em pensadores diferentes, apesar de tais textos provarem a influência de Avicena no Ocidente.
    • A origem do termo latino anitas provém das traduções medievais das obras de Avicena e de Algazali, constituindo um neologismo para verter o termo árabe anniya, que marca a chegada à existência da essência individual e corresponderia à haecceidade de uma coisa.
    • O neologismo latino anitas encontra—se também no Livro das Definições de Isaac Israeli, traduzido por Gerardo de Cremona, que trata das quatro perguntas sobre os aspectos do ser: a anitas, a quididade, a qualidade e a quaridade.
    • Um paralelo aparece em Ibn Gabirol, na obra A Fonte da Vida, livro V, capítulo 24, embora sem os termos abstratos correspondentes em itas.
    • No texto latino da Metafísica de Avicena, impresso em Veneza em 1508, a palavra anitas foi transformada em unitas em todos os lugares, de modo que se lê que o primeiro não possui quididade exceto a unidade, e que tudo o que possui quididade além da unidade é causado.
  • A distinção entre o que é e o pelo qual é, conhecida desde Boécio, assim como a dupla função do verbo ser nas proposições de adjeto terceiro ou segundo, não esclarece por si só o valor do termo ser em uma doutrina do ser.
  • O mestre Eckhart declara, baseando—se em Avicena, no início de sua exposição sobre o Ego sum qui sum, que Deus não possui quididade ou essência, mas unicamente a anitas ou o ser.
  • O sermão latino sobre o trecho Gratia Dei sum id quod sum, de I Coríntios 15, 10, sustenta que Deus é sempre o pelo qual é, sempre o predicado, e nunca o que é ou o sujeito, fundamentando—se em Boécio, para quem a forma simples não pode ser sujeito.
    • No Sermão latino XXV, afirma—se que o pelo qual é próprio de Deus, enquanto o que é próprio da criatura.
    • O texto de Boécio encontra—se no tratado Da Trindade, capítulo 2.
    • Eckhart também afirma, com São João Damasceno, que o primeiro nome divino é O que é e que, por conseguinte, apenas Deus é propriamente ente.
  • A graça é de Deus só, pela mesma razão que o próprio ser, aplicando—se essa constatação ao sermão mencionado, que trata da graça ou de Deus enquanto graça pela qual o sujeito criado é o que é.
  • A graça pressupõe uma imediação na relação do sujeito criado com Deus, comparável à relação imediata que o ar, enquanto iluminável, deve ter com o sol, assim como ocorre com o ser e todas as perfeições comuns e não determinadas.
    • Todo o ar se comporta de maneira imediata em relação ao sol na razão de iluminável, e da mesma forma toda criatura se comporta imediatamente em relação a Deus quanto ao ser, quanto à graça e quanto a todas as perfeições comuns.
    • São Gregório Palamas utiliza esse mesmo exemplo nos Capítulos físicos, teológicos, morais e práticos.
    • A problemática que levou os teólogos bizantinos do século XIV a distinguir entre essência e energia não é alheia ao pensamento de Eckhart, embora os dois aspectos sob os quais ele considera Deus não tenham dado lugar a uma distinção elaborada entre o Ente divino em Si e o ser de todos como ação divina.
  • Deus não é considerado em Si mesmo, enquanto Essência ou O que é, todas as vezes que se fala da relação imediata das criaturas com Deus, dos efeitos com a Causa primeira, de todas as coisas com o Uno, e dos entes com o Ser.
  • O sol é apenas luz na relação com o diáfano, uma pura atividade iluminadora que se concebe sem a intervenção da ideia do disco solar, visto que ele nunca é participado pelo meio iluminado.
  • O Deus de Eckhart aproxima—se do Primeiro de Avicena no sentido em que é o ser de todos e princípio dos entes criados, não podendo ser encarado como um o que é ou quididade.
  • A perspectiva altera—se diante da revelação do Êxodo, quando o próprio Deus assume o nome de ser para exprimir a sua identidade absoluta.
  • A atividade pura desse Ser, a sua impermissão na ação exterior, aparece como uma conversão reflexiva, que é também uma residência ou uma fixação em si mesmo, quando o Deus—Ser é considerado em Si mesmo, fora de qualquer relação com a criatura.
    • O termo fixio provém do Livro das Causas, que menciona as coisas entes que possuem fixação, ou a coisa fixa e permanente por sua essência.
  • O ebulimento interior, a vida e o retorno da Mônada sobre si mesma manifestam dinamicamente, na ação interior do Uno, a identidade essencial de um Ser que se basta a Si mesmo, com todo o sentido trinitário que essas expressões comportam em Eckhart.
  • Outros conceitos diferentes do ser podem servir para exprimir o Id ipsum de Santo Agostinho, desde que sejam reduzidos a um estado puro e livres de qualquer determinação concreta.
    • Nas Confissões, no relato do êxtase de Óstia, Santo Agostinho utiliza a expressão Id ipsum.
  • Santo Agostinho sugere que o Bem em si seria uma percepção de Deus caso pudesse ser percebido ao término de uma via de abstração a partir de todo bem determinado, como quando afirma que Deus não é uma mente boa, ou um anjo bom, ou um céu bom, mas o bem bem.
    • O bem bem significa o Bem sem mistura, o Bem supremo fixado em si mesmo, não dependendo de mais nada e retornando sobre si mesmo em um retorno completo.
    • O sum qui sum designa o desprendimento do Ser e a sua plenitude.
    • No manuscrito C, o retorno sobre si mesmo das perfeições divinas fundamenta—se na identidade do Ser, enquanto nos manuscritos E e T o bem bem é simplesmente aproximado de sum qui sum.
    • Konrad Weiss menciona duas redações do Comentário sobre o Êxodo, indicando que a primeira é menos elaborada teologicamente do que a segunda, onde Eckhart utilizou amplamente Moisés Maimônides, que insiste na substancialidade de Deus.
    • A passagem sobre o bem bem de Santo Agostinho encontra—se no tratado Da Trindade, livro VIII.
  • As afirmações puras, que exprimem a identidade de uma essência refletida sobre si mesma, assinalam uma realidade quididativa que se manifesta e se define como não diferente de sua anitas.
  • O pronome interrogativo quem possui antes de tudo a mesma função que o quê, buscando conhecer a quididade ou a essência da coisa significada pelo nome e declarada na definição, embora às vezes se reporte às circunstâncias acidentais.
  • A diferença entre o ser atual de uma coisa e a sua essência determinará duas perguntas distintas: se é, que indaga sobre a anitas ou ser de uma coisa, e o que é, que busca conhecer a sua quididade ou essência, visto que em tudo o que é criado o ser é adventício e a essência não o é.
  • Responder a quem pergunta o que é um homem ou um anjo por meio de uma proposição existencial de adjeto segundo, dizendo apenas que o homem ou o anjo é, seria uma resposta inepta, pois nada informaria sobre a quididade humana ou angélica.
  • A resposta existencial é pertinente quando se indaga quem ou o que é Deus.
  • Responder que Deus é faz saber que a anitas ou o ser de Deus é a sua própria quididade ou essência.
    • No Comentário sobre João, Eckhart expressa que é próprio de Deus e das coisas que se convertem com a verdade responder a quem pergunta o que são que elas são o que são.
    • Diante da pergunta de Moisés no Êxodo 3, Deus respondeu Eu sou quem sou, ao passo que para as coisas criadas tal resposta seria tola.
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