ESTAÇÕES PEDÁGIOS
Do terceiro ao nono dia: a travessia dos pedágios aéreos
3. A travessia dos pedágios aéreos ou “telonias”.
Os textos patrísticos citados anteriormente não dão uma apresentação simplificada do devir da alma, levada pelos anjos ou os demônios, segundo, por seu estado espiritual, ela esteja próxima de uns ou de outros.
Outras fontes patrísticas nos apresentam um processo detalhado e mais complexo, pondo em operação uma discussão e um combate entre os anjos e os demônios que se disputam a alma do defunto. Isso se compreende na Medida que, aparte os raros casos dos santos, a maioria dos homens se situam em um estado intermediário, e podem apresentar um balanço de sua vida onde o bem e o mal se misturam em proporções variáveis. Os anjos e os demônios se disputam então para reivindicar, uns e outros, a parte que lhes cabe, os demônios buscando reter a alma, e impedir os anjos de elevá-la aos céus.
Um apoftegma relata: Aba Teófilo dizia: «Que medo, que tremor, que angústia, conheceremos quando a alma se separar do corpo! Pois virão então sobre nós os exércitos e as Forças dos Poderes adversos, os Príncipes das trevas, a força da malícia, os principados, os Poderes e os espíritos do mal. Em uma espécie de processo, perseguem a alma, exibindo todos os pecados que cometeu, cientemente ou por ignorância, desde sua juventude até o momento que foi tomada. Se alinham portanto para acusá-la de tudo o que ela fez. Então, que tremor pensas que alma terá nesta hora até que a sentença seja pronunciada e que sua liberação venha? É essa a hora de sua angústia até que ela veja o que deve resultar para ela. E por outro lado os Poderes divinos (os anjos) se alinham face aos adversário e discorrem todas suas boas obras. Pense então em que temor e frisson a alma se mantém no meio, até que seu julgamento receba a sentença do justo Juiz.
Numerosos outros textos evocam o encontro dos demônios pela alma no curso de sua ascensão, como em Aba Isaías e em João Clímaco. A ideia mais precisa de um investigação e de uma colocação em evidência pelos demônios das más ações e das más paixões do homem é também evocada por Macário do Egito, assim como Hesíquio de Batos, e Gregório Magno.
Alguns textos patrísticos não evocam a defesa do defunto pelos anjos mas apresentam o episódio como a alma é levada a responder ela mesma diante de seus maus juízes e obrigada a garantir ela mesma sua defesa face a acusadores de má-fé, podem até acusá-la de faltas não cometidas. Assim o faz João Clímaco relatando uma visão de um certo monge lhe apresentando por antecipação o que viveria depois de sua morte (Escada VII).
Este face a face com os caluniadores espertos faz crescer evidentemente as dificuldades e os riscos da provação, e faz aparecer ainda mais indispensável uma assistência angélica e divina. João Carpatios evoca um contexto semelhante ao precedente, mas faz notar no entanto que a alma justa, sustentada por sua fé em Deus e encorajada pelos anjos que a acompanham, é finalmente mais forte que seus acusadores.
Uma tradição ortodoxa desde o século IV e que se manteve até nossos dias, fala de «telonia», palavra grega que designa os posto ou escritórios de publicanos, perceptores de impostos. Tratam-se de «alfândegas celestiais» ou «pedágios aéreos», e evoca etapas que a alma deve atravessa sucessivamente em sua ascensão. Este percurso da alma é situado por certos textos entre o terceiro e nono dia em seguida a seu falecimento. Cada posto de controle corresponde a uma paixão particular, a um tipo de má ação ou um gênero de pecado de que um certo tipo de demônio é o inspirador e que representa. Esta concepção se associa a uma identificação, muito acentuada na obra de Evágrio e retomada em seguida por toda a tradição ascética da Igreja ortodoxa, entre as paixões hierarquicamente ordenadas e demônios correspondentes. Quanto aos «escritórios de alfandegários» ou aos «pedágios», estão perfeitamente representados, na Iconografia, sob a forma de uma escada com seu degraus ultrapassados sucessivamente por personagens cercados de anjos e de demônios, os primeiros puxando para cima, e os últimos para baixo.
