ORAR
PFM
O título deste livro merece uma reflexão cuidadosa, pois o alcance total de suas implicações pode não ser evidente à primeira vista.
Alguns leitores ficarão surpresos com as palavras que escolhemos, pensando que a verdade da questão é exatamente o oposto. Não é o homem que molda a oração? A oração é um ato, e os seres humanos são os agentes desse ato; quer o que dizem seja prescrito por uma tradição religiosa ou proferido espontaneamente num momento de tristeza ou alegria, são os próprios homens e mulheres que rezam, e as suas orações, mesmo que sejam apenas imprecações, refletem de alguma forma o tipo de pessoas que são, dando forma às suas aspirações e medos e permitindo compreender a qualidade da sua vida interior. A maneira como oramos — seja apenas com relutância e em momentos de crise, seja de acordo com uma disciplina regular, e sejam nossas orações de natureza puramente devocional e discursiva ou incluam também um aspecto contemplativo e metódico — pode ser um testemunho revelador de quem ou o que realmente somos.
Outros podem responder menos com surpresa do que com uma aceitação imediata. É claro que a oração molda o homem, dirão eles. Mais do que um monólogo, como supõem os incrédulos, nossas expressões de súplica e louvor constituem uma comunicação genuína com Deus, e as respostas que recebemos podem trazer mudanças reais em nossa vida. Assim como um escultor molda o barro ou um poeta molda as palavras — assim como o vento ou um riacho dão forma a uma duna ou a um vale —, as orações de um homem, repetidas fiel e persistentemente ao longo de sua vida, acabam por transformar a essência de sua alma, eliminando as falhas de seu caráter, proporcionando-lhe uma força e estabilidade crescentes e levando-o, passo a passo, com a ajuda de Deus, ao cumprimento de sua vocação para a perfeição. Quem duvida dessa verdade, recusando-se por orgulho ou desespero a invocar o Céu, basta consultar a mais deslumbrante das provas, que é a existência dos santos.
Cada uma dessas perspectivas contém um elemento de verdade; a oração molda e é moldada pelo homem, e os escritos aqui reunidos servirão, em parte, para corroborar e ampliar essas importantes percepções. Mas, para compreendermos todo o alcance do que se segue, há um fato mais abrangente e mais elusivo a ser observado. Moldar pode se referir a um processo de dar forma ou formar, pressupondo-se, nesse caso, a existência da coisa moldada; mas a palavra também tem um sentido constitutivo e não meramente formativo e pode ser usada de forma mais profunda, como era frequentemente usada no passado, para significar um ato de criação, o surgimento de algo onde antes não havia nada — como Deus molda o homem à Sua imagem e semelhança.
Como descobriremos, esse significado mais profundo é central para este livro. “O próprio fato de nossa existência é uma oração e nos compele a orar”, escreveu o autor; “Eu sou: portanto, eu oro; sum ergo oro.” Se pudéssemos nos ver como realmente somos, perceberíamos que a natureza humana, feita para servir como pontifex para o resto da criação, é em si mesma um modo de oração, e sendo assim, é impossível para nós não orarmos, seja bem ou mal; ainda mais notável é que só porque, ou na medida em que, oramos é que podemos realmente dizer que existimos, sendo a existência humana derivada, com ou sem a nossa consciência, da realidade prévia da oração. O ser mais íntimo do homem, e não apenas a sua personalidade ou caráter, está de alguma forma misteriosa entrelaçado na própria estrutura da oração e, sem a força geradora das suas orações, ele seria “sem forma e vazio”. Em suma, a oração molda o homem, tornando-o real. O que isso pode significar e como podemos melhor compreender em nossa própria experiência uma afirmação tão impressionante são questões que estão no cerne das meditações a seguir.
