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ANCELET-HUSTACHE, JEANNE
Misticismo Renano-Flamengo — ANCELET-HUSTACHE, Jeanne. Maître Eckhart et la mystique rhénane. Paris: Seuil, 1978.
A Mística de Eckhart
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O propósito deste estudo é restrito à dimensão mística do pensamento de Eckhart, sem pretender expor sua teologia de modo abrangente nem demonstrar sua relação ou distinção em relação a são Tomás.
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A teologia de Eckhart realiza uma síntese entre o agostinismo e o tomismo.
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O método escolástico está presente em sua obra, com divisões, citações escriturísticas e silogismos, mas atravessado por um grande sopro místico.
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O pensamento de Eckhart tem reputação de ser difícil, agravada por interpretações que o associam à gnose, ao panteísmo, ao hegelianismo ou à teosofia, ou que o reduzem por subtilezas à estrita doutrina tomista.
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Termos emprestados da Escola ou de linguagens herméticas encobrem frequentemente o acesso direto ao pensamento de Eckhart.
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A única explicação válida e honesta consiste em compreender Mestre Eckhart tal como ele se compreendeu e desejou ser compreendido, como personagem histórico situado em seu meio.
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Eckhart foi homem da Idade Média, consagrado a Deus desde a juventude, religioso dominicano, dignitário de sua Ordem, professor universitário e teólogo.
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Celebrava a missa, recebia e dispensava os sacramentos, o que torna evidente sua adesão ao Cristo, ao Evangelho, à Igreja e ao Credo católico — adesão que certos intérpretes buscaram minimizar ou contestar.
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Para estudar o pensamento de Eckhart é necessário considerar não apenas sua obra em alemão, mas também seus textos latinos, que segundo suas próprias palavras formam o corpo de sua doutrina.
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Eckhart recusou a autenticidade de certos textos extraídos de seus sermões que já circulavam sob seu nome em vida.
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Em uma das questões datadas de sua estada em Paris, Eckhart rompe com a teologia clássica ao sustentar que os termos esse e ens convêm menos a Deus do que o termo intellectus, por ser o conhecer mais elevado do que o ser.
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São Tomás havia enunciado: Intelligere Dei est ejus substantia — o conhecer de Deus é sua própria substância.
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Está escrito: “No princípio era o Verbo”, e não “No princípio era o ser”; o Verbo se refere à inteligência.
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Eckhart abandonou posteriormente essa doutrina, embora traços dela permaneçam em vários sermões; ela revela seu esforço para afirmar a infinita transcendência de Deus em relação à criatura.
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Deus é o ser, o ser em si, a plenitude do ser — afirmação repetida inúmeras vezes por Mestre Eckhart em acordo com toda a escolástica e toda a teologia.
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Deus só é conhecido em si mesmo e por si mesmo: “Eu sou aquele que sou.”
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Para tudo que é alheio à sua natureza, Deus permanece o “Deus oculto” de Isaías.
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Só é possível falar de Deus segundo o modo humano de pensar, a partir das coisas conhecidas, mas ele transcende todo conceito e todo termo que lhe é aplicado.
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Bondade e misericórdia são, para os homens, perfeições; cólera e ódio são imperfeições. Quando se fala da “misericórdia” e da “cólera” de Deus, quer-se dizer que certas de suas obras são análogas às que a misericórdia e a cólera produzem nos homens.
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As distinções entre os atributos divinos — potência, sabedoria, bondade — são apenas categorias do entendimento humano.
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As afirmações menos inadequadas sobre Deus são: Deus é simples, Deus é uno, Deus é.
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Eckhart designa pelo termo “Deus” (got) o Deus trinitário e criador, reservando preferencialmente o termo “deidade” (gotheit) para nomear a essência divina, origem da difusão das três Pessoas.
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Essa distinção decorre do modo humano de compreender, pois não pode haver anterioridade naquilo que não tem começo nem fim.
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As noções teológicas que, na obra latina de Eckhart, podem ser vinculadas a determinadas tradições, adquirem em sua obra alemã uma feição singularmente mais original, tornando imenso o risco de contrassensos caso não sejam inseridas no conjunto de sua doutrina.
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Mesmo quando não foi traído pelas anotações de seus ouvintes, a paixão religiosa, o desejo pastoral de dar a seu pensamento um tom penetrante e sua impetuosidade oratória o conduzem frequentemente aos mais extremos paradoxos.
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Um exemplo simples e incontestável do estilo paradoxal de Eckhart é o sermão em que explica que as faculdades da alma permanecem jovens e independentes do temporal.
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“Ontem pronunciei uma palavra que parece verdadeiramente incrível. Dizia: Jerusalém está tão próxima de minha alma quanto o lugar onde estou agora. Sim, em toda verdade: o que está afastado mais de mil léguas além de Jerusalém está tão próximo de minha alma quanto meu próprio corpo. Disso estou tão certo quanto de ser um ser humano, e é fácil para os clérigos instruídos compreendê-lo.” (Sermão: Adolescens, tibi dico: surge!)
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No mesmo estilo, Eckhart afirma: “Deus e a deidade são tão diferentes um do outro quanto o céu e a terra… Deus opera, a deidade não opera, ela não tem nada a operar, não há operação nela, ela jamais teve nenhuma operação em vista. Deus e a deidade diferem pelo agir e pelo não agir.” (Sermão: Nolite timere eos…)
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Permanecendo a essência divina absolutamente inominável por todos os termos que lhe são aplicados, Dionísio diz de Deus que ele é um “nada”, “um puro nada”; Eckhart desenvolve esse tema com uma superabundância de negações inauditas.
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“Deus é sem nome, pois ninguém pode dizer ou compreender coisa alguma sobre ele… Se digo: Deus é bom, não é verdade; eu sou bom, mas Deus não é bom. Se digo ainda: Deus é um ser, não é verdade; ele é um ser acima do ser e uma negação superessencial. Um mestre diz: Se eu tivesse um Deus que pudesse conhecer, não o consideraria Deus… Tu deves amá-lo tal como ele é: nem Deus, nem espírito, nem pessoa, nem imagem; mais ainda: o Uno sem mistura, puro, luminoso…” (Sermão: Renovamini spiritu mentis vestrae.)
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Em outro sermão, Eckhart precisa: “Quando disse que Deus não era um ser e estava acima do ser, não lhe contestei por isso o ser; ao contrário, atribuí-lhe um ser mais elevado.” (Sermão: Quasi stella matutina…)
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Para Eckhart, como para são Tomás e toda a escolástica, as ideias das coisas criadas estão em Deus, ato puro, como em seu exemplar eterno — nem diferentes de Deus, nem diferentes umas das outras.
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“Quando dizemos que todas as coisas estão em Deus, entendemos que, assim como ele está em sua natureza sem nenhuma distinção e, no entanto, absolutamente distinto de todas as coisas, do mesmo modo nele todas as coisas estão na maior distinção e no entanto não distintas, e antes de tudo porque o homem é Deus em Deus: assim como Deus não é distinto do leão e é absolutamente distinto dele, do mesmo modo, em Deus, o homem não é distinto do leão e é absolutamente distinto dele.” (Sermão latino IV, 1.)
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O alemão de Eckhart empresta um caráter bem mais audacioso a essas noções que seu latim havia exprimido em termos escolásticos: “É lá que repousei e adormeci eternamente no conhecimento oculto do Pai eterno, permanecendo nele, inexprimido.” (Ave, gratia plena.)
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“Nesse ser de Deus onde Deus está acima de todo ser e de toda distinção, eu era eu mesmo, queria-me a mim mesmo, conhecia-me a mim mesmo, querendo criar o homem que sou. E é por isso que sou a causa de mim mesmo segundo meu ser que é eterno, mas não segundo meu devir que é temporal.” (Beati pauperes spiritu.)
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A “deidade”, o grunt — o fundo original, princípio supremo de todas as coisas — deu às criaturas seu ser próprio, e é em relação a elas que a “deidade” se torna “Deus”.
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“Deus se torna Deus quando as criaturas dizem: Deus.” (Nolite timere eos.)
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Suso retoma essa mesma definição em termos mais precisos: “Por essa difusão, todas as criaturas encontraram seu Deus, pois quando a criatura compreende que é uma criatura, reconhece seu criador e seu Deus.”
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Segundo certos textos, Eckhart pareceria admitir a eternidade do mundo — ponto retido nos diversos atos de acusação e na bula de condenação.
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“Não se deve imaginar falsamente que Deus estivesse lá aguardando não se sabe qual momento futuro para criar o mundo. No instante mesmo em que Deus foi e gerou seu Filho, Deus coeterno que lhe é igual em tudo, ele criou também o mundo. Deus fala uma vez (Jó, XXXIII). Ele fala ao gerar seu Filho, pois o Filho é o Verbo. Ele fala também ao criar as criaturas.” (In Gen. II, 1, 1.)
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Em sua primeira defesa de Colônia e, mais claramente ainda, em sua resposta à comissão de Avignon, Eckhart explica que, sendo a ação de Deus idêntica à sua substância, Deus criou todas as coisas no começo absoluto de sua eternidade — sem que disso resulte que o mundo seja eterno.
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A criação passiva, considerada em relação à criatura, começou no tempo; a dialética de Eckhart estabelece nitidamente a distinção entre a criação ativa de Deus imutável e a criação subordinada ao tempo.
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“Cumpre notar que Deus criou ao mesmo tempo o céu e a terra e tudo que eles contêm… mas que todas as coisas não se manifestaram ao mesmo tempo.” (II In Gen., I, 1.)
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“Quando o Pai gerou todas as criaturas, ele me gerou e eu saí dele com todas as criaturas e permaneci contudo no interior do Pai. Do mesmo modo a palavra que pronuncio agora brota em mim, depois me detenho em minha ideia, em terceiro lugar a expresso e todos a recebem; ela permanece no entanto verdadeiramente em mim. Do mesmo modo permaneci no Pai.” (Ave, gratia plena.)
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Transcendente ao mundo, Deus lhe é também imanente; o ato criador divino não deve ser comparado ao do artista ou do arquiteto, que encontra seus materiais no exterior.
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Deus tirou verdadeiramente as criaturas do nada para que recebessem e tivessem o ser nele.
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“O próprio Ser não tem necessidade de nada porque nada lhe falta. Mas todas as coisas têm necessidade dele porque nada está fora dele.” (In Exod., 3, 14a.)
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“Tudo que não está no ser, mas ao lado ou fora do ser, não é.” (Sermão IV, 1.)
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Eckhart sabe, como são Tomás, que se Deus é o ser em si — ens a se — em quem essência e existência coincidem, o ser da criatura não é senão um ser participado — ens ab alio.
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“Todos os brancos são brancos a partir da brancura.”
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Nada é tão dessemelhante quanto o Criador e a criatura; nada é tão semelhante também — e, portanto, nada é ao mesmo tempo tão semelhante e tão dessemelhante quanto Deus e a criatura.
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Os comentários ao Êxodo e ao Livro da Sabedoria acumulam provas lógicas e escriturísticas para sustentá-lo.
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Embora a doutrina da analogia em Eckhart seja mais complexa que a de são Tomás, trata-se de uma questão capital para ele, não de um jogo dialético, e a intenção mística deve sempre ser lida em filigrana de seus textos.
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“Toda criatura é algo de finito, de limitado, de distinto e de particular, e assim ela não é mais amor. Mas Deus é o amor que abraça todas as coisas.” (Sermo VI, 1.)
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Porque Deus está no interior da criatura e a penetra, ela se nutre dele; ao mesmo tempo, aspira a ele porque ele lhe é exterior — a alma deseja Deus, dele provém e a ele deve retornar, que é seu fim como é seu começo.
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“Pela criação, Deus diz, faz saber, aconselha e ordena a todas as criaturas, pelo próprio fato de criá-las, que o sigam, que o tomem como fim, que retornem apressadamente a ele, causa primeira de todo o seu ser, conforme estas palavras: Os rios retornam ao lugar de onde vieram (Ecl., I).”
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A natureza da criatura quer que ela ame a Deus mais do que a si mesma: “A origem e o fim, o bem e o fim são idênticos.” (In Johannem, I, 43.)
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Para que a alma encontre Deus e que ele se dê a ela, é necessário que ela lhe prepare seu lugar; nenhum mestre de vida espiritual é mais rigoroso do que Eckhart, que persegue o gosto pelas coisas terrestres e a vontade própria até seus retiros mais ocultos.
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“O homem que vem a Deus está presente ao mundo por seu corpo, é verdade, mas está fora do mundo por seu espírito e seu desejo. Eles não pertencem a este mundo, diz o Cristo, como eu mesmo não lhe pertenço.” (In Johannem, III, 1.)
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“Toda a perfeição do homem é estar separado e despojado da criatura, comportar-se do mesmo modo em tudo e em relação a tudo… E embora isso pareça árduo e difícil, é no entanto fácil e necessário; fácil primeiramente porque, para quem provou o espírito, toda carne parece insípida. A doçura infinita em que se prova Deus aniquila toda outra coisa. Em segundo lugar porque, para quem ama verdadeiramente, todas as coisas exteriores e estranhas a Deus, isto é, exteriores ao ser, são puro nada.” (Sermo VI, 4.)
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A pobreza de espírito — a mesma que o Evangelho recomenda — é pregada a principiantes e avançados como caminho de purificação, de iluminação e de união, pois se está sempre em marcha pela via da gelassenheit, do perfeito abandono.
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Gelassenheit — termo alemão que designa o estado de abandono ou desprendimento total de si.
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“Jamais ainda alguém se renunciou suficientemente nesta vida que não possa encontrar ainda mais a se renunciar.” (Instruções espirituais, 4.)
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À alma assim renunciada, Deus concede a graça, pois o homem é incapaz de alcançar por seus próprios méritos essa vida divinizada, mas Deus não se deixa vencer em generosidade.
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“Quando Deus te encontra pronto, é-lhe preciso agir e se expandir em ti, do mesmo modo que, em um ar claro e puro, é preciso que o sol se difunda e não pode dispensar-se disso. Certamente, seria uma grande falha da parte de Deus se ele não realizasse grandes obras em ti e não te cumulasse de grandes bens quando te encontra assim vazio e despojado… Quando a natureza chega a seu grau supremo, Deus concede sua graça.” (Et cum factus esset Jesus annorum duodecim…)
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A alma avançada na via espiritual “sente” e “prova” a união com Deus pela graça, além de toda categoria intelectual, contemplando sem intermediário alguns dos atributos imparticipaveis de Deus, ou mesmo tendo a certeza de apreendê-lo em sua essência sem nenhuma noção intelectual e sem imagem.
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Essa conhecimento intuitivo enche a alma de uma inefável alegria e a faz desfalecer de amor.
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Todos os místicos falaram dessa experiência da alma arrebatada em Deus — estado violento e breve dado no êxtase; santa Teresa d'Ávila chamou-o de “arrebatamento da alma”, “rápido enlevo do espírito”.
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A alma se sente una com Deus, embora saiba com o mesmo inefável conhecimento que a diferença subsiste entre ela e ele.
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Desde são Bernardo, as imagens do Cântico dos Cânticos foram as mais empregadas na mística ocidental para evocar essa união: “Núpcias espirituais”, disse Ruysbroeck; santa Teresa falou de esponsais e casamento; são João da Cruz traduziu em termos ardentes os sentimentos da esposa em busca do Esposo.
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O vocabulário de Eckhart ignora essa mística dita “nupcial” e não deixa espaço ao sentimento nem às visões; sua espiritualidade aparece absolutamente despojada.
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Eckhart jamais permite que as “potências inferiores da alma” — a sensibilidade, os movimentos afetivos — se exprimam em termos ardentes, e não aceita as alternativas de alegria e tristeza que outros místicos vivem na ausência de Deus.
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“Nosso coração experimenta às vezes a ausência de Deus e pensa muitas vezes que Deus foi embora. Que deves fazer então? Exatamente o que farias se estivesses na maior consolação… O homem que tivesse saído de si mesmo jamais poderia perder Deus e não sentiria sua ausência em nenhum de seus atos.” (Instr. spir., II.)
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Em razão dessa discrição extrema e dessa ausência de efusões, alguns se perguntaram se Eckhart conheceu pessoalmente a experiência mística do contato direto com Deus, ou se falava apenas com base nos relatos de suas filhas espirituais e na prática do confessionário.
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Muito raramente seus textos assumem o aspecto de confidências; ele não se narrou, nem sequer na terceira pessoa.
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“Aquele que ama a Deus não o ama por causa de sua sabedoria ou de sua eternidade… mas as ama porque são Deus; não ama nada mais nelas porque tem tudo em Deus, porque Deus é para ele todas as coisas.” (Sermo VIII.)
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Ao citar as Confissões de santo Agostinho — “Tu me fazes penetrar no interior de mim mesmo em uma doçura desconhecida” — e o texto de Hugo de São Vítor — “Qual é essa doçura que sabe às vezes me tocar, me apossar com tanta violência e suavidade que me torno como absolutamente estranho a mim mesmo e não sei onde sou levado?” — tem-se o sentimento de que, ao fazê-las suas, Eckhart penetrou pessoalmente seu sentido.
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“Quando a alma recebe um beijo da deidade, ela adquire sua maior perfeição e sua maior beatitude.” (Sermão: In diebus suis placuit deo.)
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“Se pudésseis reconhecê-lo com meu coração, compreenderíeis bem o que digo, pois é verdade e a própria verdade o diz.” (Intravit Jesus in quoddam castellum.)
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Os estados violentos e excepcionais da experiência mística não são, para Eckhart, o essencial; mais do que da união atual das potências dada no êxtase — que não é contínua nesta vida —, Eckhart fala frequentemente de um estado de tranquila e permanente possessão de Deus.
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Os místicos medievais não classificaram os estados místicos com tanto senso psicológico e método quanto viriam a fazer santa Teresa d'Ávila e são João da Cruz.
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Santa Teresa d'Ávila comparou a união da alma com Deus à de duas velas que confundem sua chama, ou à água do céu que cai numa fonte e não mais se distingue dela.
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“Essa verdadeira possessão de Deus situa-se no espírito, na intenção interior e espiritual dirigida para Deus, não num pensamento contínuo e sempre semelhante… O homem não deve contentar-se com um Deus que ele pensa, pois quando o pensamento se esvai, Deus também se esvai. Antes, deve-se possuir um Deus em sua essência, longe acima dos pensamentos do homem e de toda criatura. Esse Deus não se esvai, a menos que o homem se afaste voluntariamente dele.”
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“Quem possui assim Deus em sua essência apreende Deus segundo o modo de Deus, e para ele Deus resplandece em todas as coisas, pois todas as coisas têm para ele o gosto de Deus e ele vê sua imagem em todas as coisas… Da mesma maneira que aquele que sente violentamente uma grande sede pode bem fazer outra coisa que beber e ter também outros pensamentos, mas faça o que fizer ou esteja com quem estiver, ou seja qual for sua intenção, a imagem da bebida não o abandona durante todo o tempo que dura sua sede… Ou ainda: aquele que ama uma coisa ardentemente e com todas as suas forças, de modo que não tem gosto nem coração para coisa alguma outra, pensa apenas nesse objeto e absolutamente em nada mais; e certamente, em qualquer lugar, com qualquer pessoa, o que quer que empreenda ou faça, jamais seu amor se apaga nele; em todas as coisas, encontra a imagem do que ama e ela lhe é tanto mais presente quanto mais forte se torna seu amor. Esse homem não procura o repouso, pois nenhuma inquietação o perturba.” (Instr. spir., 6.)
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Todo o esforço de Eckhart — e toda a sua dificuldade — consiste em explicar em termos lógicos o que ultrapassa o pensamento discursivo, demonstrando por argumentos, a partir da fé e da Escritura Santa e apoiando-se em autores diversos, em que consiste a união da alma com Deus e como ela se realiza.
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Os autores privilegiados por Eckhart são especialmente santo Agostinho e “Frei Tomás” — são Tomás de Aquino.
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Para esse intelectual, tal pesquisa apaixonada é o exutório de seu amor, como os balbucios dos cânticos nupciais são para outros místicos.
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O que há na misteriosa alma humana que é assim “capaz” de Deus constitui um dos pontos mais controversos da doutrina de Eckhart, acusado diversas vezes de ter ensinado que há na alma “algo de incriado e incriável”.
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Em sua primeira defesa, Eckhart declarou: “É falso, é um erro. De fato… as mais altas potências da alma foram criadas na alma e com a alma. Além disso, não disse isso, mas, glorificando a bondade de Deus e seu amor pelo homem, disse que com terra Deus criou o homem à sua imagem e o revestiu de força segundo ele mesmo (Eclo., XVII), para que ele seja inteligência como o próprio Deus é inteligência, que é absolutamente inteligência pura, incriada, não tendo nada em comum com coisa alguma. Sem dúvida, seu Filho único, que ele engendra, que é sua imagem, o revestiu de si mesmo para que seja incriado, infinito, igual ao Pai; mas o homem, enquanto criado, fê-lo à sua imagem e não sua imagem, e o revestiu não de si mesmo, mas segundo si mesmo.”
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Em sua declaração na cátedra de Colônia, em 13 de fevereiro de 1327: “Que haja na alma algo de tal que, se ela fosse toda assim, seria incriada, ouvi e entendo segundo a verdade como os doutores meus colegas, isto é, se ela fosse uma inteligência por essência. Mas jamais disse que há na alma algo da alma que seja incriado e incriável, porque então a alma seria composta de criado e de incriado; ensinei e escrevi o contrário.”
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Respondendo ao segundo ato de acusação: “É falso que uma parte da alma seja incriável. Mas é verdade que a alma é espiritual, à imagem de Deus e da raça de Deus, pois se fosse inteligência pura, o que é Deus somente, seria incriada, e não uma alma.”
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Em sua defesa de Avignon, Eckhart limitou-se a negar ainda essa proposição como “insensata” (stultum); a bula a condenou em apêndice, sem afirmar todavia que ela devesse ser atribuída a ele.
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O que Eckhart chama de “algo” na alma se encontra em todos os místicos e se compreende melhor pelo cotejo com eles; na carência do vocabulário racional, buscaram termos que evocam um elemento muito elevado ou muito profundo.
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Hugo de São Vítor falou de acumen mentis; Ricardo de São Vítor, de summum mentis; os mesmos Hugo e Ricardo usaram também intimum mentis e intimum mentis sinus.
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Santa Teresa d'Ávila fala de “o espírito da alma”, “o centro da alma”.
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Eckhart emprega duas séries de imagens: “o mais elevado da alma”, “o espírito da alma” (in dem haehsten der sêle, das oberste der sêle, der sêle geist), “o mais interior da alma” (daz innigest). “E quando digo o mais interior, quero dizer o mais elevado, e quando digo o mais elevado, quero dizer o mais interior.” (Predica verbum.)
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Eckhart nomeia esse “algo” também de “o fundo” (der grunt), “o castelo forte” (bürgelîn), e sobretudo “a centelha da alma” (scintilla animae, das fünkelin der sêle) — expressão vinda de Pedro Lombardo, que a tomou emprestada a são Jerônimo, mas tão frequentemente citada a propósito de Eckhart que se tornou como seu bem próprio.
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No que concerne às potências da alma, o pensamento de Eckhart apresenta certa flutuação: seus sermões trazem respostas contraditórias sobre a primazia da inteligência ou da vontade, e “a centelha da alma” é às vezes identificada ao intelecto, ora nomeada uma potência, ora situada bem além de todas as potências.
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Assim como a deidade é “anterior” às três Pessoas segundo o modo humano de compreender, o “fundo” da alma é o que é “anterior” às faculdades da alma.
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Esse “algo” — “centelha”, “castelo forte” ou “fundo” — é o ponto de apoio de todas as graças, tanto de conhecimento quanto de amor; recebe a graça santificante e os dons do Espírito Santo; está à imagem de Deus.
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“O Deus sem nome é inexprimível e a alma em seu fundo é tão inexprimível quanto ele.” (Qui odit animam suam…)
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“Esse castelo forte é tão uno e simples, esse uno único é tão elevado acima de todo modo e de todas as potências que jamais potência nem modo nem o próprio Deus pôde nele olhar. Em toda verdade e tão verdadeiramente quanto Deus vive, o próprio Deus jamais o penetrará um instante, jamais o penetrou com seu olhar segundo o que possui de modos e as propriedades de suas Pessoas… Para que Deus o penetre com seu olhar, é preciso que esteja despojado de todos os seus nomes divinos e das propriedades das Pessoas… É preciso que ele seja Um em sua simplicidade, sem nenhum modo nem propriedade, onde não é em tal sentido nem Pai nem Filho nem Espírito Santo e onde é no entanto um Algo que não é isto nem aquilo.” (Intravit Jesus in quoddam castellum.)
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Tauler, discípulo de Eckhart, escreve: “Dessa nobreza interior que está oculta no fundo da alma, muitos mestres falaram, antigos e modernos: o bispo Alberto, Mestre Dietrich, Mestre Eckhart. Um a chama de centelha da alma, outro de fundo ou de cume, outro de princípio primeiro. O bispo Alberto a nomeia uma imagem em que é representada e se encontra a Santíssima Trindade. E essa centelha voa à altura onde é seu lugar, de modo que o intelecto não pode segui-la, pois ela não repousa antes de ter retornado ao Fundo de onde saiu, onde se encontrava quando não era criada.” (LXIV.)
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O que a graça santificante opera nessa “centelha” da alma é o nascimento do Verbo; a doutrina do nascimento do Verbo na alma que se renunciou está no próprio coração da mística de Eckhart e é o foco que a ilumina inteiramente.
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O Logos, Filho único de Deus, tomou um corpo de carne, tornou-se o Cristo, para que os homens, justificados pela graça, retornem a Deus nele e por ele.
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A doutrina de Eckhart é essencialmente a da identificação ao Cristo mediador, chefe do corpo do qual os cristãos são os membros — o que a teologia moderna chamou de doutrina do Corpo Místico.
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As afirmações mais paradoxais e audaciosas de Eckhart se explicam e perdem sua aparência “monstruosa” — segundo sua própria expressão — quando repostas nessa perspectiva.
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A graça, vida da alma, faz com que o homem seja uno com Deus, viva e aja nele, tornando-se filho de Deus e irmão do Cristo — e o primeiro fruto da Encarnação é que o homem seja pela graça da adoção o que o Cristo é por natureza.
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O Salmo LXXXI canta: “Vós sois deuses e filhos do Altíssimo.” O Cristo diz: “O reino de Deus está no interior de vós.” (Lc 17, 21.) “…para que sejamos chamados e sejamos filhos de Deus… agora somos filhos de Deus…” (1Jo 3,1-2.) “…participantes da natureza de Deus…” (2Pd 1,4.)
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São Paulo: “Se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus, coeirdeiros do Cristo.” (Rm 8,17.) “Porque os que conheceu de antemão, os predestinou a serem conformados à imagem de seu Filho, para que este fosse o primogênito entre muitos irmãos.” (Rm 8,29.) “Vós sois o corpo do Cristo e seus membros.” (1Cor 12,27.)
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Gálatas: “Todos vós sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus, pois todos vós que fostes batizados em Cristo, revestistes Cristo.” (Gl 3,26-27.) “Assim, não és mais escravo, és filho e, sendo filho, és herdeiro de por Deus.” (Gl 4,7.) “Já não sou eu, é o Cristo que vive em mim.” (Gl 2,20.)
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“O primeiro fruto da Encarnação do Cristo, Filho de Deus, é que o homem seja pela graça da adoção o que o Cristo é por natureza, conforme esta palavra: Ele lhes deu o poder de se tornarem filhos de Deus, e esta (2Cor 3): Nós todos, com o rosto descoberto, refletimos como em um espelho a glória do Senhor e nos vemos transformados nessa mesma imagem de clareza em clareza.” (In Johannem, I, 12-13.)
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A doutrina do Corpo Místico é fixada por Eckhart em fórmulas estritas nos comentários latinos diante dos estudantes; mas quando aborda o mistério do Cristo em nós diante de suas audiências de monjas, fala mais da abundância do coração.
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“O profeta diz: 'Derramei minha alma em mim.' Mas santo Agostinho pronuncia uma palavra preferível: Derramei minha alma acima de mim. É necessário que ela se supere a si mesma se deve tornar-se uma no Filho, e quanto mais sai de si mesma, mais se torna uma com o Filho. São Paulo diz: 'Somos transformados acima de nós mesmos na imagem que ele mesmo é.'” (Beati qui esuriunt et sitiunt justitiam…)
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“O Pai engendra seu Filho na eternidade, semelhante a si mesmo. 'O Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus': era idêntico a ele na mesma natureza. Digo mais: Ele o engendrou em minha alma. Não somente ela está perto dele e do mesmo modo ele está perto dela, mas ele está nela, e o Pai engendra seu Filho na alma do mesmo modo que o engendra na eternidade, e não de outro modo. É-lhe preciso fazê-lo, quer tenha alegria ou pena. O Pai engendra sem cessar seu Filho e digo mais ainda: ele me engendra enquanto seu Filho e o mesmo Filho. Digo mais: ele me engendra não somente enquanto seu filho, ele me engendra enquanto ele mesmo, e ele enquanto eu, e eu enquanto seu ser e sua natureza. Na fonte mais profunda, broto no Espírito Santo; é lá uma vida, um ser, uma operação. Tudo o que Deus opera é uno; é por isso que ele me engendra enquanto seu Filho, sem nenhuma diferença.” (Justi vivent in aeternum.)
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A bula de condenação reteve as mais audaciosas dessas proposições: “O Pai me engendra enquanto seu Filho e o mesmo Filho. Ele me engendra sem nenhuma diferença.”
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Augustin diz, citado por Eckhart: “O Cristo faz de nós uma só pessoa, cabeça e corpo. Oramos por ele, oramo-lo, oramos nele. Falamos com ele e ele nos fala; quando falamos nele, ele fala em nós. Que ninguém diga: Não é o Cristo que diz isso, ou: Não sou eu que digo isso; se sabe que pertence ao corpo do Cristo, que diga um e outro: 'O Cristo o diz' bem como: 'Eu o digo.' Não digas nada sem ele e ele não dirá nada sem ti.” (In Johannem, III, 13.)
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As respostas de Eckhart a seus juízes provam que é à doutrina paulina da identificação ao Cristo que seu espírito vincula tais textos; os primeiros comentadores modernos, por desconhecerem a ciência escolástica e não terem podido ler nem as obras latinas nem as peças do processo, falaram de panteísmo.
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Uma leitura mais atenta dos textos alemães já os teria posto de sobreaviso: “Tomo uma bacia com água, ponho nela um espelho e o coloco sob o disco do sol; o sol envia seus raios luminosos fora de seu disco e das profundezas do sol sem, contudo, desaparecer. O reflexo do espelho no sol é sol no sol, e no entanto o espelho é o que é. O mesmo se dá com Deus. Deus está na alma com sua natureza, com seu ser e sua deidade, e no entanto não é a alma. Esse reflexo da alma é Deus em Deus, e no entanto ela é o que é.” (Nolite timere eos…)
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A alma plenamente cumpriu sua tarefa terrestre quando, despojada de si mesma, deixou a graça agir para que o Verbo possa nascer nela, transformando-a na essência divina.
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São João da Cruz dirá: “Identificada com aquele que ama, a alma se torna Deus por antecipação… ela faz em Deus e por Deus o que Deus faz por si mesmo nela.”
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Falar em antecipação é ainda situar-se na duração; no Deus eterno não pode haver passado, futuro, divisão nem mudança.
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“Quando o homem é elevado acima do tempo na eternidade, o homem opera uma mesma obra com Deus… Na eternidade não há nem antes nem depois. É por isso que o que aconteceu há mil anos, o que acontecerá daqui a mil anos e o que acontece agora não é senão um na eternidade… O homem que é elevado acima do tempo na eternidade opera com Deus o que este operou antes e operará depois de milhares de anos.”
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“Para os que sabem, é questão de saber; para os que têm o espírito rude, é questão de fé.” (Justus in perpetuum vivet.)
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Suso, fiel ao pensamento de Eckhart, retoma esse tema no Livro da Verdade em um jogo de perguntas e respostas de sutil sabedoria — lembrando que, como na terminologia de Dionísio, o “Nada” designa o Uno divino.
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“Uma palavra ainda me impressiona no que foi dito: que o homem possa chegar neste mundo a compreender que é uno com aquele que sempre foi. Como é isso possível? — Um mestre diz que a eternidade é uma vida que está além do tempo e que inclui todo o tempo, sem antes e sem depois. E aquele que é absorvido no Nada eterno possui tudo em tudo e não tem mais lá nem antes nem depois. — Essa absorção não pode produzir-se para o homem senão após sua morte, segundo a Escritura. — É verdade se se trata da possessão permanente e perfeita, mas não se se trata de um avant-goût. — Mas o que é da cooperação do homem com Deus? — O que se diz disso não deve ser entendido segundo uma simples explicação do significado das palavras como se as compreende ordinariamente; é preciso entender por isso o aniquilamento segundo o qual o homem não permaneceu em si mesmo e se aniquilou no Uno para tornar-se uno.”
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Suso acrescenta: “Os teólogos cristãos… e em geral os mestres e as pessoas santas consideram as coisas segundo o que saíram de Deus e, após sua morte natural, reconduzem o homem a Deus se viveu aqui na sua vontade. Mas essas pessoas absorvidas em Deus, em razão dessa união inefável e imanente que têm com ele, consideram-se, elas e todas as coisas, como imanentes e eternas.”
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A alma em que vive o Cristo fez assim sua “percée” — ruptura ou irrupção — retornou a Deus pelo Filho único e corresponde doravante a seu exemplar eterno em Deus, unindo-se ao Uno em sua essência e participando de sua imutável eternidade.
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Percée (Durchbruch, em alemão) — termo técnico de Eckhart que designa o movimento pelo qual a alma ultrapassa tanto as relações das Pessoas divinas quanto a si mesma, penetrando até o “deserto silencioso”, o “abismo insondável”, a “fonte” e a “origem” que produz as difusões.
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“Na percée, onde estou liberto de minha própria vontade, da vontade de Deus, de todas as suas obras e do próprio Deus, estou acima de todas as criaturas e não sou nem Deus nem criatura, sou antes o que eu era e o que permanecerei agora e para sempre. Recebo um impulso que deve me elevar acima de todos os anjos. Nesse impulso, recebo uma riqueza tão grande que Deus não me pode bastar, segundo tudo que faz que ele seja Deus com todas as suas operações divinas, pois o que me é dado nessa percée é que Deus e eu somos um. Lá, sou o que eu era sem decrescer ou crescer, pois sou lá uma causa imóvel que move toda coisa. Aqui, Deus não encontra mais lugar no homem, pois por essa pobreza o homem adquire o que foi eternamente e permanecerá sempre. Aqui, Deus é uno com o espírito, e é a pobreza mais íntima que se pode encontrar.” (Beati pauperes spiritu.)
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Esse mistério não é reservado apenas ao iniciado; qualquer alma, por mais simples que seja, pode a ele chegar, desde que una sua vontade à vontade de Deus.
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A propósito da Samaritana que recebeu a palavra do Salvador, Eckhart afirma: “Ninguém aqui é tão rude e limitado que não possa a isso chegar; desde que, pela graça de Deus, una pura e totalmente sua vontade com a vontade de Deus, não tem senão que dizer em seu desejo: 'Senhor, mostrai-me a vossa mais cara vontade e dai-me a força de cumpri-la.' E Deus o fará, tão seguramente quanto vive, e Deus lhe dará perfeitamente e de toda maneira essa total plenitude, tanto quanto pôde dá-la a essa mulher.” (Euge, serve bone…)
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Basta, portanto, abrir-se à graça na boa vontade, embora o homem ainda revestido de carne, que nunca pôde se renunciar completamente, seja infinitamente superado por esse mistério.
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“Que aquele que não compreende esse discurso não tenha o coração aflito. Todo o tempo que o homem não alcançou essa verdade, não a compreenderá, pois é uma verdade que ultrapassa o conceito e que saiu diretamente do coração de Deus.” (Beati pauperes spiritu.)
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Tal é, contudo, o sentido metafísico do homem, independentemente do sentimento e da noção intelectual que pode ter dele; é pela fé no Cristo que a ele adere em total confiança e plena certeza.
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