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Sumo Sacerdote

ANTONIO ORBECRISTOLOGIA GNÓSTICA

CAPÍTULO 28: O SUMO SACERDOTE

A gnose heterodoxa desenvolveu uma doutrina complexa sobre o sacerdócio de Cristo, interpretando o templo de Jerusalém e os seus velos como símbolos das divisões entre o Pleroma, a Ogdóada e o mundo sensível, e identificando o Verbo como o grande Sumo Sacerdote que atravessa os céus.

  • Os naasenos derivavam o termo “santuário” (naos) do nome da serpente (naas), afirmando que toda iniciação e todo mistério sob o céu possui um santuário onde se encontra a serpente, que é o bem, e que este símbolo se manifesta não apenas nos santuários mais venerandos diante das estátuas, mas também em todos os caminhos e esquinas como luz posta sobre o candeeiro.
  • Filão de Alexandria escreveu que o verdadeiro templo de Deus é o mundo inteiro, tendo por santuário o céu, por oferendas votivas os astros, por sacerdotes os anjos (servidores das suas potências) e por almas as inteligências incorpóreas inteiramente separadas do irracional e semelhantes à mónada.
  • Valentim concebeu dois limites (horoi) como paradigma das duas cortinas (katapetasmata) do templo de Jerusalém mencionadas em Hebreus 9:3: o primeiro separa o Bythos (Deus sumo) do Pleroma, e o segundo separa o Pleroma da mãe (Achamot) dos espirituais, distribuindo o universo divino em três moradas (o sancta sanctorum, o sancta e o vestíbulo).
  • Teódoto (Excerpta ex Theodoto 38,1-2) afirma que o próprio topos (demiurgo) é de fogo e tem um véu (katapetasma) para que as coisas não sejam destruídas à sua vista, entrando apenas o arcângel (o Messias psíquico) a ele, e que à sua imagem o sumo sacerdote entrava uma vez ao ano no sancta sanctorum.
  • Heracleão, comentando João 2:14, reserva o termo “hieron” para o sancta sanctorum (símbolo do Pleroma) e o “pronaos” para o pátio dos levitas (símbolo do Kenoma), conhecendo os dois velos de Hebreus 9:3 e aplicando o mais interior ao que separa a Ogdóada do Pleroma.
  • A Hipóstase dos Arcontes e o “Untitled Work” (UW) situam um único véu (ou firmamento) no posto clássico do “horos”, como obra de Sofia que separa os habitantes do céu dos homens e identifica-se com o firmamento superior fabricado no Kenoma.

1. A PESSOA DO SUMO SACERDOTE

Os valentinianos de Hipólito denominavam o Verbo (fruto comum do Pleroma e emitido em solidão por todos os eons em honra do Pai) de “o grande Sumo Sacerdote”, cujo nascimento estava vinculado a uma oferenda eucarística ou eulogia de todos os eons ao Pai.

  • Irineu (Adversus haereses I 2,6) descreve que o Salvador (fruto da ação de graças e sacrifício de louvor ofertado pelo Unigênito ao Pai) nasceu como “primogênito de toda a criação”, deixando no interior do Pleroma os dois membros e aspectos do mais sublime sacerdócio (a unção e a iluminação) vinculados a Cristo e ao Espírito (superiores).
  • Valentim (segundo Irineu I 11,1) ensinou que o Cristo (primogênito de toda a criação) não foi emitido a partir dos eons do Pleroma, mas foi engendrado (com um apêndice de sombra) pela Mãe (Sofia) desterrada do Pleroma em virtude da recordação dos melhores eons, sendo que ele (masculino) cortou de si a sombra e subiu ao Pleroma.
  • Teódoto (Excerpta ex Theodoto 23,2) imaginou que Cristo, tendo deixado a Mãe Sofia (que o havia emitido) e entrando no Pleroma, pediu auxílio em favor da Mãe Sofia abandonada fora, e que ao Cristo emitido do pensamento de Sofia denominou imagem do Pleroma, o qual (após abandonar a Mãe) subiu ao Pleroma e se misturou aos eons e também ao Paráclito.
  • O ingresso do Cristo (primogênito da criação) no Pleroma imediatamente após o seu nascimento fora do Pai é interpretado como um ato de sumo sacerdote, que penetra uma só vez no sancta sanctorum para interceder em favor da sua mãe e de todos os espirituais (seus irmãos) que dela haviam de nascer.
  • A cláusula “entrar no Pleroma” (eserchesthai eis to Pleroma) revela um tecnicismo sacro baseado em Hebreus 6:19-20 (“que penetra até ao interior do véu, onde como precursor entrou por nós Jesus, feito Sumo Sacerdote para sempre”), aplicado ao ingresso de Cristo recém-engendrado no santuário do Pai em benefício de Sofia e da futura Igreja.
  • Os valentinianos orientais afirmam que o Cristo (primogênito da criação), ao entrar no Pleroma (interior do véu) como “precursor” (prodromos) e cabeça de toda a Igreja chamada à salvação, profetiza o ingresso triunfal e comunitário de todos os filhos de Deus na consumação final, quando entrará com Sofia e todos os seus filhos sem deixar ninguém extramuros de Deus.

2. RUMO AO SACERDÓCIO DE CRISTO HOMEM

A “iluminação” de Achamot (Sofia exterior) pelo Salvador celeste, descrita pelos valentinianos itálicos, representa um ato sacerdotal do Filho (enquanto intelecto e gnose pessoal do Padre) que, ao conceder o conhecimento intuitivo de Deus, atrai a própria Sofia ao seu caráter de Arquiereu.

  • Irineu (Adversus haereses I 4,5) descreve que o Salvador rodeado de anjos foi enviado do céu para ajuda de Achamot, e foi ele (em missão de “iluminar”) quem a fez mãe da futura igreja espiritual terrena mediante o conhecimento que lhe infundiu do Padre.
  • O exercício “iluminador” do Filho é privativo dele e afeta formalmente ao seu sacerdócio, pois só Ele penetra nos céus (no mistério do Pai) e descorre a cortina da transcendência (o véu que esconde o sancta sanctorum ou abismo paterno).
  • As “Doutrinas de Silvano” apresentam Sofia exortando os insipientes a receber um dom (a inteligência boa e excelente) e afirmando: “Eu vos dou um vestido de grande sacerdote, tecido de inteira sabedoria”, o que mostra que Sofia é capaz de proferir germes divinos mas nunca de comunicar a sua própria iluminação (a gnose está vinculada ao Filho).
  • O sacerdócio levítico do Antigo Testamento foi instituído “a imagem das realidades espirituais e excelentes” (segundo a carta de Ptolomeu a Flora 5,8-9), sendo que, uma vez revelada a verdade, foi traspuesto (abolido na sua forma externa e aplicação literal, mas levantado no seu alcance espiritual) – os nomes perseveram iguais, mas as coisas mudam.
  • Ptolomeu afirma que o Salvador (agora no Novo Testamento) nos ordenou oferecer sacrifícios (prosphoras) não mediante animais irracionais e incensos materiais, mas por meio de espirituais alabanças, glorificações, ações de graças e mediante a caridade e beneficência para os próximos.

3. VESTIÇÃO SACERDOTAL

Os valentinianos itálicos descreviam a encarnação do Verbo (a “humanação”) como uma singular “vestição” (estola sacra) do Sumo Sacerdote, na qual a substância psíquica (racional) do criador e as propriedades hilicas dos arcontes foram “tecidas” como uma túnica inconsútil para a missão da cruz.

  • Os Excerpta ex Theodoto (59,4) empregam o verbo “tecer” (hyphainein) para descrever a formação do corpo passível de Jesus no seio da Virgem, unindo a doutrina platônica (sobre a comunhão do imortal com o mortal na psyche) com a exegese de João 19:23 (a túnica inconsútil tecida totalmente de elementos de cima que os soldados não repartiram).
  • O Evangelho de Felipe (§ 76) menciona a túnica inconsútil (que desceu do alto para o Salvador) e a sua relação com o véu rasgado do templo, indicando que aqueles que recebem o batismo (de perfeição) revestem o homem perfeito da luz.
  • Teódoto (Excerpta ex Theodoto 1,1) afirma que o Senhor revestiu (estolisthai) a simiente de espírito (ou igreja das sementes superiores) a modo de “sarkion” (primícias da igreja espiritual) para que, oferecendo estas primícias (como suas vestes), realizasse a salvação de todos os chamados.
  • O Logos (segundo os valentinianos orientais) endosou a estola sacra (a semelle pneumática) para atuar oficialmente como Sumo Sacerdote, ofrendando a Deus (no Calvário, conforme Lucas 23:46) o seu pneuma (como primícias) para saúde da Igreja primicialmente por ele representada.
  • Os valentinianos de Hipólito (Refutatio VI 32,4-5) descrevem que o fruto comum do Pleroma (Jesus, o grande Sumo Sacerdote) foi emitido em solidão por todos os eons a honra do Pai, numa ação que envolvia a ofrenda de frutos convenientes ao Pai para glorificá-lo.

4. MINISTÉRIO SACERDOTAL DE JESUS

O ministério terreno de Jesus, desde a sua apresentação no templo aos quarenta dias até à sua morte na cruz, foi interpretado pelos gnósticos como um exercício contínuo de sumo sacerdócio, no qual a purificação do templo (João 2:13-15) desempenhou um papel simbólico central.

  • Heracleon (comentando João 2:13-15) ensinou que a purificação do santuário sensibiliza a ajuda que o Salvador presta aos espirituais (o sancta sanctorum) profanados pela ignorância de si, a fim de iluminá-los, sendo que o azote (com o cabo de madeira simbolizando a cruz, e as cordas de substância vegetal pura simbolizando o corpo substancialmente puro do Salvador) compunha o instrumento da purificação (redenção) do mundo.
  • O batismo de Jesus no Jordão (no qual recebeu a gnose e foi habilitado para anunciar o Evangelho do Padre) é interpretado como a constituição de Jesus como Sumo Sacerdote da nova Lei, pois ao adentrar-se nele o Cristo superior (ou Espírito vindo do céu), o homem Jesus entra praticamente no Pleroma (reino superior) e, sem deixar de viver no mundo, ingressa no sancta sanctorum de uma vez para sempre para mediar entre o Padre e os homens.
  • Os mistérios da vida pública de Jesus (a conversão da samaritana, a curação do filho do régulo, a iluminação do cego de nascença, o milagre da hemorroísa e da filha de Jairo) revelam o Sacerdote que purifica os homens (espirituais ou animais) para adentrá-los um dia consigo no santuário de Deus.
  • O Evangelho de Felipe (§ 125) descreve o tálamo escondido (o santo no santo) e afirma que o véu dissimulava no princípio o modo como Deus governava a criação; mas quando o véu se rasga e se manifesta o interior, a casa (externa ao Pleroma) fica desértica (e destruída), e a divindade se acolhe sob as asas e braços da cruz (stauros), que é uma arca (kibotos) de salvação quando os retém o dilúvio das águas.
  • Apenas os que pertencem à tribo sacerdotal (os espirituais) poderão entrar no interior do véu com o magno Sacerdote, pois o véu se rasgou de alto a baixo (e não apenas em cima, o que o abriria só aos de cima, nem apenas em baixo, o que o revelaria só aos de baixo) para que os que estão abaixo possam entrar no segredo da verdade.

5. RASGA-SE O VÉU DO SANTUÁRIO

O rasgão do véu do templo de Jerusalém (Mateus 27:51; Marcos 15:38) foi interpretado pelos gnósticos não como o fim da aliança antiga, mas como a abertura (momentânea) do “horos” (cruz) que separa o Pleroma do Kenoma, permitindo que os espirituais (os da tribo sacerdotal) entrem no sancta sanctorum.

  • O Evangelho de Felipe (§ 76) afirma que o véu se rasga de alto a baixo e que convém que alguns subam de baixo para cima, indicando que a escisão do véu (horizontal) permite o trânsito vertical dos que estão em baixo para o alto.
  • O Evangelho de Felipe (§ 125) explica que o véu não se rasgou unicamente em alto (o que o teria aberto só aos de cima) nem unicamente em baixo (o que o teria revelado só aos de baixo), mas que se rasgou de alto a baixo para que o alto se abrisse para nós (que estamos abaixo) a fim de entrarmos no segredo da verdade.
  • O Segundo Logos do Grande Set (p.58,26-30) afirma que o Salvador rasgou, mediante as suas mãos, o véu (katapetasma) do seu templo (o universo), e um temblor se apoderou do caos da terra, indicando que com as mãos com que morria na cruz rasgava o velo do santuário (o horos que separava os homens dos eons de cima) e destruía para sempre a dispensação do Antigo Testamento.
  • Após a entrada dos espirituais (em comunhão com Sofia e com o Salvador e seus anjos), o véu ou “horos” do Pleroma voltará a fechar-se (desta vez para sempre), pois a redenção é única e Cristo morreu uma só vez; os da família sacerdotal viverão em diante no sancta sanctorum (feitos eles mesmos sancta sanctorum), enquanto os psíquicos (filhos do criador) viverão para sempre no vestíbulo (a Ogdóada).

6. SACERDOTE DOS ANJOS

Ao contrário da teologia asiática (representada por Tertuliano, Irineu e a Epístola dos Apóstolos), que ignorava o sacerdócio de Jesus em prol dos anjos e a “salus angelorum”, os valentinianos ensinaram que os anjos espirituais (satélites do Salvador) são irmãos natos do Salvador e agem em comunhão com ele como sumos sacerdotes para a salvação dos homens espirituais.

  • Tertuliano (De resurrectione carnis) argumenta que Cristo assumiu o homem (não o anjo) para o restaurar, porque o homem é que havia perecido; nunca foi prometida a restituição aos anjos, e Cristo não recebeu do Pai nenhum mandato acerca da salvação dos anjos.
  • A Epístola dos Apóstolos (cóp. 19-20) afirma que os anjos e as potestades celestes desejaram (e desejam) ver e contemplar a glória do Pai, mas não lhes será outorgado vê-la, enquanto os discípulos (e os que creem por meio deles) serão para Cristo irmãos e companheiros, co-herdeiros no reino dos céus.
  • Os valentinianos distinguem três espécies angélicas (correspondentes às três humanas): os demónios (anjos hílicos, condenados à destruição), os arcontes (espíritos animais, que se salvam na Ogdóada como os homens psíquicos) e os anjos espirituais (satélites do Salvador, dotados da gnose de Deus e irmãos natos do Salvador).
  • Os anjos espirituais (irmãos e companheiros do Salvador) contemplam (junto com ele) os mistérios do Pai (denegados aos demais anjos) e, desde nascidos, vivem como o Filho (sem véu que os separe do sancta sanctorum), sumando-se ao exercício sacerdotal do Logos em favor dos homens como membros natos da única família do Sumo Sacerdote.
  • O “Untitled Work” (UW 170,3-5) denomina os anjos espirituais de “espíritos inocentes” ou “bem-aventurados em pequeno”, afirmando que a gnose está por inteiro no anjo que se manifestou diante deles (o Salvador rodeado pelos anjos), o qual lhes deu a gnose e eles agora vão descobrir o “topos” da incorruptibilidade para condenação dos arcontes e das suas virtudes.

7. SACERDÓCIO DO CRISTO ANIMAL

Os valentinianos distinguiram entre o sacerdócio espiritual do Filho (mediação entre o Padre e a igreja dos espirituais) e o sacerdócio animal do Messias (Cristo psíquico), que atua como sumo sacerdote junto do demiurgo para beneficiar os psíquicos e também para assegurar aos espirituais o livre trânsito para o Pleroma.

  • Teódoto (Excerpta ex Theodoto 38,2-3) afirma que o Lugar (o demiurgo) tem diante de si um véu para que os seres não sejam destruídos à sua vista, e que apenas o arcângel (Cristo animal, Messias) entra a ele; a sua imagem, o sumo sacerdote entrava uma vez ao ano no sancta sanctorum (Hebreus 9:7), e também Jesus (chamado em ajuda) tomou assento junto ao lugar para que os seres o aguardem, ele abrande o Lugar e assegure à semente (os espirituais) o trânsito ao Pleroma.
  • O Evangelho de Felipe (§ 106) afirma que o homem perfeito não somente não poderá ser retido, mas nem sequer poderá ser visto (pois se o veem, agarram-no), e que ninguém pode obter para si mesmo esta graça enquanto não se revestir da luz perfeita (e uma vez que a revista, irá à luz).
  • A mediação sacerdotal póstuma do Messias (que, unido pessoalmente ao Logos, padeceu e morreu na cruz) é o prémio pelos seus sofrimentos e morte, e ocorre à destra de Iahweh ao longo do Novo Testamento como sequela da mediação sacerdotal do Filho junto do Padre.

8. A MEDIAÇÃO DO DEMIURGO

A mediação do demiurgo (e dos seus anjos) é uma mediação de natureza (física e topológica) e não propriamente sacerdotal, pois o criador animal e os seus anjos atuam como instrumentos cegos (inconscientes) ao serviço da Sabedoria do Filho para diseminar os germes espirituais de Sofia no mundo.

  • Heracleon (comentando João 4:38) afirma que “os fatigados” são os anjos da economia (do demiurgo), por cujo meio (como mediadores, “hos mesitais”) se semearam e nutriram as sementes (espirituais), aludindo a Gálatas 3:19-20 e convertendo o singular paulino (“mesites”) em plural.
  • Os Excerpta ex Theodoto (43,2-3) afirmam que Adão teve, semeada a escondidas por Sofia no interior da sua alma, a semente espiritual, e que (conforme Gálatas 3:19-20) esta foi disposta “mediante anjos” em virtude do mediador (sendo que o mediador não é de um, mas Deus é um só), sendo que os anjos psíquicos serviram os germes que Sofia emitiu para o seu nascimento no mundo.
  • A mediação física (não sacerdotal) do demiurgo é aplicável à diseminação dos germes espirituais no mundo, sublinhando a sua índole cega e necessária (nem o criador animal nem os seus anjos são conscientes de atuar como “mediadores” entre a sabedoria do Filho e o mundo na diáspora da igreja divina).

9. MEDIAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO EM BASÍLIDES

Basílides desenvolveu uma doutrina na qual o Espírito Santo (pneuma methórion, “espírito fronteiriço”) atua como “diácono” do Filho (Sumo Sacerdote), cumprindo funções de mediação física (secessão, distribuição, apocatástase) que preparam o terreno para o exercício sacerdotal da gnose.

  • Clemente de Alexandria (Excerpta ex Theodoto 16) atesta que o Espírito Santo (chamado “diácono”) desceu sobre Jesus em figura de pomba no Jordão, ao mesmo tempo que o Cristo superior (Sumo Sacerdote) se comunicava a Jesus para a sua eficácia iluminante.
  • O “pneuma methórion” basilidiano atua como sabedoria do mundo (“diaconisa” do Logos) na missão demiúrgica (prévia ao sacerdócio), ajudando o Filho (primeiríssimo Criador do universo) a definir, distinguir e individuar as espécies criadas.
  • Ao longo do Antigo Testamento, o Espírito Santo (como Espírito profético) anuncia (com figuras e em palavras) a parusia salvífica do Filho de Deus, atuando como diácono do futuro Sumo Sacerdote (ou como precursor incompreendido do conhecimento pessoal de Deus), sendo incopaz de conferir a gnose de Deus (pois é Espírito profético, não santificante).
  • Desde a sua inserção em Jesus sob a figura de pomba, o Espírito “methórion” (Espírito fronteiriço) discerne fronteiras dentro dos indivíduos chamados à salvação (de forma que o hílico não invada o psíquico, nem o psíquico o divino), dispondo o interessado para o exercício gnóstico (sacerdotal) do Filho.
  • No Calvário, Jesus inaugura (com ajuda do Espírito) a secessão das suas próprias essências, distribuindo-as “kata physin” (a hílica à terra, a alma à região arcôntica), e na consumação final o Espírito encarrega-se de distribuir os componentes físicos do universo conforme a sua índole (a “phylokrinesis”), enquanto o Filho já cumpriu a sua missão sacerdotal (gnose do Padre) sobre os indivíduos capazes dela.
  • Para Basílides (como para o estoicismo), não há morte absoluta nem aniquilamento, mas apenas dissolução de elementos; ao Espírito Santo (sabedoria que reparte, dissocia, consome e instaura) toca “salvar” fisicamente os elementos não consubstanciais com Deus com a única “soteria” de que são capazes.

10. CONCLUSÃO

A doutrina gnóstica do sacerdócio sumo de Cristo, embora dispersa e com vocabulário equívoco, revela-se coerente e central na economia salvífica: o Verbo é gerado como Sumo Sacerdote, veste a estola sacra da humanação, exerce o seu ministério iluminador sobre Sofia e sobre a Igreja e, crucificado como “horos-stauros”, rasga o véu do templo celeste para introduzir os espirituais no sancta sanctorum.

  • O sacerdócio levítico (do Antigo Testamento), de índole animal, participa imperfeitamente do verdadeiro sacerdócio do Filho e é instituído pelo demiurgo cegamente a impulsos de uma sabedoria mais alta, tendo carácter transitório e figurativo que cessa com o advento de Jesus.
  • O sacerdócio da Nova Lei afeta a Jesus (Verbo humanado), que responde histórica e perfeitamente ao transcendental e primeiríssimo sacerdócio do Filho, sendo ungido de pleno com o Espírito (masculino do Padre) no Jordão e atuando como Sacerdote único entre Deus e os homens.
  • O mistério da cruz (como “horos-stauros”) corresponde ao “véu” rasgado do templo de Deus: assim como o rasgão do véu no templo de Jerusalém responde ao mistério da “revelação” do Pleroma (ou do Padre) aos espirituais (membros da família sacerdotal), para que mediante a gnose entrem com Jesus no sancta sanctorum.
  • Graças à morte de Jesus na cruz, levanta-se de uma vez para sempre (em benefício da igreja espiritual terrena) o “horos” (ou véu) que oculta o seio de Deus (único e definitivo santuário), e os membros de linhagem sacerdotal (possuindo com a iluminação outorgada por Jesus o mistério do ignoto) levantam o véu da transcendência.
  • Basílides (embora desenvolva uma doutrina menos evangélica) coordena o exercício sacerdotal do Salvador (mediador único entre Deus e os homens) com o exercício “diaconal” do Espírito (Sabedoria do mundo), reservando ao Cristo o conhecimento de Deus (para os membros da filiedade terceira) e atribuindo ao Espírito (posto ao serviço do Salvador) as funções naturais de secessão, consumação e apocatástase das essências e estratos do universo.
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