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Nascido de Maria
ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 13: NASCIDO DE MARIA
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A discussão entre os grandes gnósticos não afetava a virgindade de Maria, mas sim a sua projeção sobre o corpo de Jesus, dividindo-se entre os que ensinavam a origem “ex Maria” (da substância de Maria) e os que afirmavam a vinda “per Mariam” (através de Maria como um veículo).
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O pagão Celso, embora corroborasse a verdade da origem humana de Jesus ao mencionar o nascimento de uma virgem, preferiu dar crédito às calúnias judias de que a Virgem teria sido violada por um soldado chamado Pantera.
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O filósofo Porfírio considerava a origem “ex femina” como escandalosa e incompatível com a dignidade de Filho de Deus, tão vergonhosa quanto o opróbrio da cruz.
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Marcion, por sua vez, fingiu escândalo com o nascimento para romper a unidade dos dois Testamentos, embora aceitasse a humilhação do nascimento como crível dentro do regime de condescendência e amor do Novo Testamento.
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HERMÓGENES: “EX VIRGINE ET SPIRITU” — Hermógenes, que não era gnóstico e não distinguia entre o Deus sumo e o criador, professava que Cristo nasceu de virgem e de espírito, conforme os evangelhos, adotando uma fórmula (“ek parthenou kai pneumatos”) que dava precedência à Virgem.
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Hipólito, ao refutar os judeus, afirmava que estes negavam o nascimento “de virgem e de espírito santo” (oúk ek parthenou kai agiou pneumatos), acreditando apenas no nascimento de mulher e varão, como é definido para todos.
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A fórmula “ek parthenou kai pneumatos” respondia às controvérsias com judeus e docetas, caracterizando a exegese de Isaías 7:14 e cortando saídas ebionitas e docetas.
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O Símbolo de São Cirilo de Jerusalém compendia essa história ao afirmar que o Filho unigênito de Deus “nasceu de uma santa virgem e de santo espírito” (gennetheis ex hagias parthenou kai agiou pneumatos), enfatizando que a encarnação não foi em aparição, mas verdadeiramente “da” Virgem (sarkotheis ex autes alethos).
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NAASENOS, PERATAS E SETIANOS — Estes grupos fizeram confluir em Jesus as primícias das três partes do universo (intelectual, psíquica e material), afirmando que Jesus nasceu “de Maria” (ek tes Marias), tomando dela a substância visível que corresponde ao homem de barro.
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Os naassenos comparavam o Salvador a Gerião, o de três corpos, sendo que a vertente característica pela qual procede da terra viria “ex Maria”.
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Os peratas ensinavam que Cristo, dotado de três naturezas e corpos, desceu “nos tempos de Herodes”, e de Maria lhe vieram as primícias da ínfima e terceira parte do cosmos.
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JUSTINO GNÓSTICO — O Livro de Baruc indica que Jesus, filho de José e Maria, assumiu um soma hílico (o corpo de Éden) de Maria, sem obra de varão, o que o tornou livre da concupiscência a que sucumbiram todos os profetas e justos anteriores.
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Na cruz, Jesus diz a Maria (ou a Éden): “Mulher, recebes teu filho” (apégeis sou ton huion, cf. João 19:26), referindo-se ao homem animal e terreno (ton choikon).
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DOCETAS DE HIPÓLITO — Estes docetas ensinavam que o Unigênito, vindo dos trinta eons, revestiu as trevas exteriores (a carne), e um anjo evangelizou Maria, do qual nasceu o que é “dela” (tò ex autes), e o Unigênito, vindo do alto, revestiu esse corpo engendrado da Virgem.
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O corpo engendrado da Virgem (tò gegenemenon… apo tes parthenou), chamado de “trevas exteriores” ou forma de servo, é a carne hílica ou corpo passível, destinado a ficar no madeiro da cruz.
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O nascimento virginal “ex Maria” diz respeito à carne, que se corrompe, enquanto o nascimento “ex Deo” diz respeito ao Espírito, que é incorruptível, e o Salvador precisava de um corpo material para morrer na cruz e vencer os principados.
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OFITAS DE IRINEU E PISTIS SOPHIA — Os ofitas de Irineu afirmam que Prunicos, operando através do ignorante Jaldabaot, realizou a “emissão” (emissiones) de dois homens: um da estéril Isabel e outro “ex Maria Virgine”.
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BASILIDIANOS — Os basilidianos de Hipólito descrevem a descida do Evangelho (Salvador celeste) sobre “Jesus, o filho de Maria” (epì ton Iesoun ton huion tes Marias), insinuando a origem virginal de Jesus.
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Ao chamá-lo “o filho de Maria” e acolher o que está escrito nos evangelhos, acredita-se que Basílides não negava a dependência real e hílica de Jesus em relação à sua mãe.
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PARTIDÁRIOS DE “PER MARIAM” (VALENTINIANOS) — Ao contrário da maioria dos gnósticos, os valentinianos itálicos e grupos como os fibionitas e bardesanitas sustentavam que o Salvador passou por Maria como a água por um tubo (dia solenos), sem tomar nada dela, sendo Maria uma via (viam), não uma mãe.
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Tertuliano denuncia o tecnicismo dos valentinianos quanto às preposições: “per virginem, non ex virgine editum”, afirmando que Cristo procedeu “através dela” (per ipsam) e não “dela” (ex ipsa).
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Tolomeo, o valentiniano, formulou a doutrina afirmando que o Salvador (composto de todo o Pleroma) passou através de Maria (tòn dia Marias diodeusanta) como a água por um tubo.
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O Evangelho segundo Felipe, embora apresente uma variante insólita (Jesus nascido de José e Maria), também fala de uma “virgem incontaminada” celeste, esposa do Pai, da qual procede o Filho de Deus limpidamente (ex Maria virgine caelesti).
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A argumentação valentiniana se baseava em que o corpo psíquico de Jesus, da mesma substância do demiurgo, não era material como o da Virgem, e que assumir a carne material seria aceitar as obras da carne condenadas por Paulo.
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AS DUAS PREPOSIÇÕES (EK E DIA) NA CRISTOLOGIA GNÓSTICA — A análise das preposições revela que a maioria dos gnósticos (naassenos, peratas, setianos, ofitas, Pistis Sophia) ensinava o nascimento rigoroso “ex Maria”, enquanto a minoria (valentinianos) ensinava a vinda “per Mariam”.
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A diferença, portanto, residia na doutrina: para os heterodoxos do “per Mariam”, Jesus não nasceu da substância de Maria, mas da substância do demiurgo ou do espírito criador.
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Os valentinianos admitiam a leitura “ek sou” (de ti) em Lucas 1:35, mas a interpretavam à luz de sua tradição de escola, mantendo que Jesus vem “dia Marias”, pois o Demiurgo consumou a plasis do corpo, enquanto o Espírito Santo (Sabedoria) proveu a substância (ten ousian).
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O NASCIMENTO DIVINO EX VIRGINE CAELESTI — Para os gnósticos, especialmente os valentinianos, o verdadeiro e importante nascimento de Jesus como Filho de Deus era o divino, “ex Virgine caelesti” (a Prima Femina, Barbelo ou Espírito virginal do Padre), que é a “verdade” (aletheia) da qual a virgem nazarena é apenas a “imagem” (eikon) sensível.
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A virgem celeste é o Espírito virginal e fecundo do Padre, essencialmente incorruptível e masculino, pelo qual e do qual o Padre concebe o Unigênito mediante uma geração perfeita e imarcescível.
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A maternidade física de Maria, para os gnósticos que defendiam o “ex Maria”, não interessa primariamente pela substância corruptível que comunica, mas porque sua pureza, a salvo da concupiscência, dispõe a carne de Jesus a receber a vestição da virgindade essencial do espírito no Jordão.
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