Milagres
Antonio Orbe — Cristologia Gnóstica
CAPÍTULO 19: OS MILAGRES DE JESUS
Os milagres de Jesus ocupam muito pouco espaço. Isso por si só não prova demasiado. Mas harmoniza-se com a tendência fortemente doutrinal de seus escritos. Enquanto os evangelhos da infância transbordam de milagres ingênuos, os evangelhos gnósticos se estendem em logia e praticamente ignoram o taumatúrgico.
A priori, assim tinha de ser. Para os corifeus da gnose cristã, o milagre era de signo hebraico, periclitado; linguagem apta para menores ou gente dos sentidos. O «sinal» da mensagem de Jesus é a revelação do Pai, o doutrinal, o conhecimento de uma nova economia, a salvação pela gnose do verdadeiro Deus. Unicamente há lugar no Evangelho para os milagres como símbolos de doutrina, não como sinais de poder.
Daí, nos próprios milagres, o predomínio do doutrinal. Todos encerram um sentido recôndito, acessível apenas à mente iluminada.
Os poucos mencionados entre os hereges o confirmam.
Daí também que Jesus os fizesse somente nos doze meses de vida pública; não antes do batismo — nos trinta anos, símbolo dos séculos de vida transcendente —, nem depois da ressurreição, nos meses reservados a fundar as grandes tradições secretas. Aos iniciados convém a linguagem direta, espiritual, acessível ao homem interior; o idioma da rigorosa gnose.
Apesar de que, durante os meses de vida pública, Jesus fez muitos milagres, os hereges jamais celebraram sua grandeza e número. Também Moisés os havia feito em regime de ignorância por obra do demiurgo.
O sinal de Caná visa, em símbolo, ao tempo final da consumação. Evade-se do tempo. Já desde o primeiro milagre, o Salvador pensava na verdadeira salvação, a saber, conversão da igreja espiritual terrena em igreja angélica, mais que na conversão da água em vinho. Basílides fixou-se na «hora de Jesus». Os valentinianos, na tônica nupcial inerente à salvação; e, sem sair dela, na presença do demiurgo, paraninfo das Bodas eternas entre anjos e homens espirituais e, juntamente, arquitriclino do banquete nupcial. Os naassenos teorizam finamente sobre o vinho de Caná, cálice de Anacreonte. Em sua dimensão gnóstica, esconde a epithymia do indivíduo espiritual, isto é, da Igreja, em sua união com Cristo.
Prestam-se particularmente ao estudo do simbolismo as curas em geral. A circunstância de que não fossem psíquicas, mas corpóreas, e afetassem o barro do homem, dava ensejo a Santo Ireneu para orientá-las para a salvação da carne, meta da economia universal. Aos gnósticos, ao contrário, solicita-os a buscar por outra parte o significado. As dores e enfermidades do corpo simbolizam espontaneamente as paixões e delitos da alma. Ao curá-las, o Salvador se apresentava como médico de almas e de espíritos; atento unicamente a salvar o homem interior.
O fenômeno ocorre no milagre do cego de nascença, símbolo da desproporção física do homem racional para intuir Deus. Segundo os valentinianos, o cego simboliza o próprio Logos, em oposição ao Noûs. Segundo os naassenos, o homem é incapaz de ver Deus enquanto não for, por caminhos esotéricos (dihemon) — não eclesiásticos —, ou por batismo de água celeste, ao verdadeiro Siloé. Nem nossos pais, a partir de Adão, nem nossos mestres ordinários psíquicos, eclesiásticos conhecem o Salvador; nem podem interessá-lo na mediação necessária para seu verdadeiro milagre de «iluminação» ou gnose.
A cura do filho do régulo, concretamente, indica a eficácia salvífica de Jesus sobre a psyche, isto é, sobre a igreja animal humana dispersa no mundo. Tem um simbolismo paralelo ao milagre da hemorroíssa, em que resplandece a eficácia salvífica sobre o pneuma, isto é, sobre a igreja espiritual humana do mundo.
Segundo os valentinianos, tanto vale — no simbólico — o milagre da hemorroíssa como a conversão da samaritana. Uma e outra mulher significavam o mesmo: a igreja espiritual terrena. Mas, enquanto o milagre sensibiliza — a olhos psíquicos — a salvação iniciada da Igreja, a conversão representa — a olhos pneumáticos — a salvação consumada da mesma. O milagre fala em parábola; a conversão, desnudamente.
Os hereges sentiam-se livres para enaltecer ainda mais o simbolismo de alguns milagres. Tal ocorre com a cura do cego de nascença, que dá ensejo a um contraste fortíssimo entre a exegese de Ireneu e a dos valentinianos. O cego de nascimento sensibiliza a ignorância do Deus ignoto, extensiva a todos, exceto ao unigênito Noûs. O Logos, enquanto tal, é também cego; não olha para Deus, mas para o universo racional. Só mediante a gnose, característica do intelecto pessoal de Deus, é possível chegar à luz, ou salvação verdadeira.
Em meio a muitas ousadias, os gnósticos interpretam os milagres de Jesus em uma linha muito mais próxima à de Clemente e Orígenes que à de Ireneu. O método em si se salva. Não tanto sua aplicação.
Inútil acrescentar outro aspecto prático dos milagres de Jesus. Como sinais de poder, impressionavam os judeus. Na economia do Evangelho, contavam apenas ad tempus. Terminados os doze meses de vida pública, Jesus declinou a linguagem dos milagres e apareceu destituído, aos olhos de seus adversários, de semelhante poder. Se antes estes haviam reagido mal diante das maravilhas do Nazareno, recrudesceram sua perseguição ao julgá-lo desprovido de poder taumatúrgico. Assim, espontaneamente, sobreveio o drama da paixão.
Resumo
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A análise dos milagres de Jesus entre os gnósticos revela que estes não os rejeitavam, mas os subordinavam a uma interpretação simbólica e os consideravam próprios do espírito profético (animal), sendo instrumentos para despertar a fé nos psíquicos e preparar indiretamente os pneumáticos para a gnosis.
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Os valentinianos distinguiam entre o espírito profético (animal), responsável pelas curas e profecias no Antigo Testamento, e o Paráclito (espiritual), próprio do Novo Testamento, afirmando que “os signos do espírito – curas e profecias (iaseis kai prophetia) – têm cumprimento mediante a igreja (animal)”.
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O estupor (ekplexis) provocado pelos milagres era considerado o primeiro escalão para o conhecimento, adequado aos psíquicos, mas impróprio para o homem já iluminado.
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O milagre de Caná (João 2:1-11) recebeu exegeses detalhadas dos naasenos e valentinianos, que o interpretaram como símbolo da transformação do homem terreno (água) em espiritual (vino), prefigurando o banquete nupcial escatológico na Ogdoada.
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Os naasenos afirmam que este é “o magno e verdadeiro princípio dos milagres” que Jesus fez, manifestando o reino dos céus (ten basileian ton ouranon), onde o cáliz de Anacreonte fala em silêncio inefável sobre a conversão em espiritual.
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Para os valentinianos, as bodas de Caná simbolizam o banquete nupcial escatológico onde o demiurgo atua como arquitriclino e paraninfo, ignorando a origem do vino novo (a gnosis), enquanto os psíquicos bebem o vinho pela fé e os pneumáticos pela visão direta.
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A curação do cego de nascença (João 9,1ss) é interpretada pelos valentinianos como símbolo da ignorância natural do Logos (Verbo) em relação ao Pai, uma cegueira incurável pelos meios humanos que só pode ser curada pelo batismo de espírito (Siloé).
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Irineu atesta que os valentinianos afirmavam que “o Salvador (é) símbolo deste mistério naquele que era cego de nascença”, pois assim como o Logos foi emitido cego (ignorando o Pai) pelo Unigênito (Noûs), assim o cego do evangelho nasceu sem culpa dos pais.
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O Logos, por sua índole discursiva (voltada para fora), é fisicamente incapaz de intuir Deus, diferentemente do Unigênito (Noûs), que o contempla; por isso necessita ser curado e iluminado pelo Espírito Santo.
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Os naasenos acrescentam que o cego só recupera a vista “por meio de nós” (os espirituais) e contemplando a água viva superior (o batismo perfeito), não por intermédio dos judeus ou dos eclesiásticos psíquicos.
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A curação da hemorroísa (Marcos 5:25-34) é interpretada pelos valentinianos como símbolo da purificação das paixões de Sofia (a Sabedoria) dentro do Pleroma, uma primeira fase da salvação que antecede a iluminação plena.
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Orígenes testemunha que os valentinianos chamavam Prunicos a uma certa Sofia, “cujo símbolo seria a hemorroísa de doze anos”, cujo fluxo de sangue representa as paixões (pathos) que emanam do eon inferior.
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Tolomeu aplicava o simbolismo da hemorroísa à primeira curação de Sofia dentro do Pleroma, enquanto a ressurreição da filha de Jairo simbolizava a configuração substancial de Sofia Achamot, trazida à sensibilidade (eis aisthesin) pelo Cristo estendido na cruz.
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A curação ataja o fluxo e elimina as paixões, mas não outorga ainda a iluminação; esta vem num segundo momento, pela virtude salvífica do Cristo e do Espírito Santo.
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A curação do filho do régulo (João 4:46-53) é exaustivamente comentada por Heracleón, que vê no “régulo” (basilikos) o demiurgo, cujo filho enfermo representa a igreja psíquica (animal) dispersa no mundo e necessitada da fé para ser curada da ignorância e da morte.
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Heracleón afirma que o régulo é “uma espécie de rei pequeno colocado pelo Rei universal sobre um reino pequeno”, e seu filho (o homem psíquico) está enfermo “em condição não segundo natureza (ou kata physin echon)”, imerso em ignorância e pecados.
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O demiurgo é “propenso a crer” (eupistos), mas sua Lei não dá vida; ao contrário, “mata mediante os pecados”, e ele só pode suplicar ao verdadeiro Salvador que socorra o filho antes que morra completamente.
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A cura acontece à hora sétima, indicando que a saúde e a natureza se correspondem: a família psíquica deve curar-se segundo sua índole psíquica, em seu lugar e hora próprios.
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Os “apêndices” (prosartemata) de Basílides são concebidos como espíritos parasitas aderidos à alma racional desde a massa seminal, representando paixões animais, vegetais e até minerais, que os milagres de Jesus ajudam a eliminar por meio da diacrisis (discernimento) das substâncias.
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Clemente de Alexandria informa que os basilidianos chamam “apêndices às paixões, espécie de espíritos que substancialmente estão aderidos (prosartemena) à alma racional a raiz de um certo tumulto e confusão primigenia”.
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A estas aderências acrescentam-se outras espécies bastardas, como as de lobo, macaco, leão e bode, cujas propriedades rodeiam a alma pela fantasia, fazendo com que o homem imite as obras dos animais irracionais e até a dureza do diamante.
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A eficácia salvífica de Jesus sobre os apêndices é dupla: uma física, operando a secessão das essências pela lex naturae, e outra simbólica, expressando antecipadamente o regime final de purificação universal.
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A conclusão sobre os milagres de Jesus entre os gnósticos destaca sua função predominantemente simbólica e pedagógica para os psíquicos, sendo substituídos pelo ensino direto da gnosis após a ressurreição, uma vez que o milagre pertencia ao regime hebreu periclitado.
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Os gnósticos não celebravam a grandeza ou o número dos milagres, pois também Moisés os havia feito em regime de ignorância; o milagre falava em parábola, enquanto a conversão falava nuamente.
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Jesus fez milagres apenas nos doze meses de vida pública, não antes do batismo (trinta anos, símbolo da vida transcendente) nem depois da ressurreição (meses reservados às tradições secretas), quando se dirige aos iniciados com a linguagem direta da gnosis.
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Os milagres, como signos de poder, impressionavam os judeus e serviam para preparar o drama da paixão, mas na economia perfeita da saúde predominam a simplicidade, a fé à só palavra e a saúde eterna, fora do tempo e sem necessidade de prodígios sensíveis.
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